Skip to content

Por que Atletas de Elite Usam Ventosaterapia

Se você acompanhou os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, provavelmente viu as manchas circulares avermelhadas nas costas e nos ombros de Michael Phelps e se perguntou o que era aquilo. O maior vencedor de medalhas olímpicas de todos os tempos entrou na piscina marcado por círculos que pareciam hematomas — e o mundo todo quis saber o motivo. A resposta introduziu milhões de pessoas a uma técnica milenar que hoje é presença constante nos bastidores do esporte de alto rendimento: a ventosaterapia.

A prevenção de lesões e a recuperação muscular no esporte de elite passaram por uma transformação nos últimos anos. Métodos que antes eram vistos com ceticismo entraram definitivamente na rotina de atletas olímpicos, jogadores de futebol, tenistas e atletas de crossfit. A ventosaterapia é um deles — e entender por que tantos atletas de alto nível escolhem essa técnica é o objetivo deste artigo.


O que é a ventosaterapia e de onde ela vem

A ventosaterapia é uma técnica terapêutica que utiliza ventosas — copos de vidro, silicone ou acrílico — para criar pressão negativa sobre a pele, gerando um efeito de sucção nos tecidos superficiais e profundos. Esse vácuo provoca uma tração que atua sobre a fáscia, os músculos, os vasos sanguíneos e os vasos linfáticos da região tratada. O resultado visível são as famosas marcas circulares avermelhadas ou arroxeadas que permanecem na pele por alguns dias após a aplicação — não são hematomas no sentido clássico, mas um extravasamento controlado de líquido nos tecidos superficiais.

Para entender por que essa técnica atrai atletas de nível olímpico, é preciso compreender de onde ela vem e como evoluiu ao longo dos séculos, até chegar às mesas de fisioterapia esportiva de todo o mundo.

Origem milenar e como chegou ao esporte moderno

A ventosaterapia tem raízes na medicina tradicional chinesa, com registros de uso que datam de mais de 3.500 anos. Os primeiros praticantes usavam chifres de animais e bambus ocos para criar a sucção. Mais tarde, os copos de vidro aquecidos com chama tornaram-se o método padrão — o calor dentro do copo cria um vácuo ao esfriar, gerando a pressão negativa que puxa a pele para dentro. Essa técnica sobreviveu milênios porque, na prática clínica, os resultados observados em dor e rigidez muscular eram suficientemente consistentes para justificar seu uso.

A chegada da ventosaterapia ao esporte moderno de alto rendimento não foi gradual — foi um salto. Quando Michael Phelps apareceu nas Olimpíadas de 2016 com as marcas visíveis nas costas, a técnica saiu dos consultórios de medicina chinesa e entrou no radar das equipes médicas esportivas do mundo inteiro. Jornalistas, médicos e atletas começaram a questionar: se o melhor nadador de todos os tempos confia nessa técnica como parte da sua preparação, o que ela tem de especial?

A explicação não estava no misticismo — estava na fisiologia. O que começou como um método baseado em conceitos de “energia” e “qi” foi sendo estudado sob a ótica da medicina ocidental, e parte dos seus mecanismos de ação encontrou respaldo nas ciências do movimento e na fisioterapia. Hoje, a ventosaterapia ocupa um espaço legítimo dentro da fisioterapia esportiva quando aplicada com indicação correta, técnica adequada e dentro de um protocolo integrado de recuperação.

Como a ventosa age na pele e nos tecidos

O mecanismo de ação da ventosaterapia começa na pele, mas vai muito além dela. Quando a ventosa é aplicada e o vácuo é criado, a pele e os tecidos imediatamente abaixo dela são puxados para dentro do copo. Essa tração age sobre quatro camadas de tecido: a pele, o tecido subcutâneo, a fáscia e a camada superficial do músculo.

A fáscia — aquela membrana de tecido conjuntivo que envolve cada músculo, cada osso e cada órgão do corpo — é um dos alvos mais importantes da ventosaterapia. Depois de treinos intensos, impactos ou posições mantidas por longos períodos, a fáscia pode ficar aderida a estruturas vizinhas, criando pontos de restrição que limitam o movimento, causam dor local e reduzem a eficiência muscular. A tração da ventosa ajuda a mobilizar essas aderências fasciais de forma muito diferente de qualquer pressão manual — em vez de comprimir o tecido como uma massagem convencional, a ventosa o traciona, criando um estiramento das camadas que normalmente não conseguimos alcançar por outras técnicas.

Nos vasos sanguíneos e capilares da região, a pressão negativa causa uma hiperemia local — um aumento do fluxo sanguíneo que pode ser visível pela vermelhidão imediata da pele. Esse efeito vascular é um dos mecanismos pelos quais a ventosaterapia atua na recuperação muscular: mais sangue na região significa mais oxigênio, mais nutrientes e mais remoção de metabólitos como o ácido lático e produtos inflamatórios acumulados após o esforço.

Tipos de ventosaterapia: estática, deslizante e úmida

Michael Phelps 

Na prática clínica, existem três modalidades principais de ventosaterapia, cada uma com indicações e mecanismos de ação específicos. Entender a diferença entre elas é importante para compreender o que o terapeuta está buscando em cada situação.

A ventosaterapia estática é a modalidade mais clássica e a que produz as marcas mais intensas. As ventosas são posicionadas em pontos específicos do corpo e permanecem fixas por 5 a 15 minutos. Ela é indicada principalmente para dor muscular localizada, pontos de tensão específicos e regiões com restrição de fáscia. É a técnica que Michael Phelps usava nas costas — as marcas circulares bem definidas são características da ventosa estática.

A ventosaterapia deslizante é uma evolução da técnica estática. Após a aplicação de óleo na pele, a ventosa é movimentada de forma suave e progressiva ao longo de uma região muscular, como se fosse uma massagem com efeito invertido — em vez de pressão, tração. Essa modalidade é especialmente eficaz para liberar a fáscia em grandes grupos musculares como o trapézio, os paravertebrais e os isquiotibiais. Um estudo publicado na Revista Contemporânea mostrou que a técnica de deslizamento foi eficaz na redução da dor lombar e no ganho de flexibilidade em atletas de crossfit avaliados.

A ventosaterapia úmida — também chamada de hijama — combina a aplicação da ventosa com pequenas incisões na pele, permitindo que uma pequena quantidade de sangue seja extraída. É uma modalidade mais invasiva, com contraindicações específicas para pessoas com coagulopatias ou uso de anticoagulantes, e seu uso na fisioterapia esportiva moderna é bem menos comum do que as modalidades secas.


Por que atletas de elite escolhem a ventosaterapia

A adoção da ventosaterapia pelo esporte de alto rendimento não é modismo. Ela reflete uma busca constante dos atletas de elite por qualquer método que acelere a recuperação, reduza a dor e permita que eles treinem mais e melhor. No universo do esporte profissional, onde a margem entre o primeiro e o segundo lugar é medida em décimos de segundo, qualquer vantagem na recuperação tem valor real.

Atletas de elite treinam em volume e intensidade que a maioria das pessoas não consegue imaginar. Um nadador olímpico pode nadar 60 a 80 quilômetros por semana. Um jogador de futebol de alto nível joga dois jogos por semana durante 10 meses por ano. Um ginasta passa décadas submetendo o corpo a cargas articulares extremas. Para essas pessoas, recuperar rápido não é conforto — é condição para continuar competindo.

O momento que colocou a técnica no mapa mundial

As Olimpíadas do Rio de 2016 foram um ponto de virada para a ventosaterapia no mundo ocidental. As marcas nos ombros e nas costas de Michael Phelps durante os Jogos geraram cobertura jornalística global. Em questão de dias, a técnica saiu do nicho da medicina oriental e entrou nas páginas de publicações esportivas, médicas e de cultura popular em todos os continentes.

O que muitos não sabem é que Phelps não estava usando ventosaterapia pela primeira vez naqueles jogos. Ele já incorporara a técnica à sua rotina de recuperação há pelo menos um ano antes. Em entrevista ao USA Today, o ginasta olímpico americano Alexander Naddour, que também apareceu com as marcas circulares nos Jogos, afirmou que a ventosaterapia era “melhor do que qualquer dinheiro que eu gastei em qualquer outra coisa” e que a técnica o mantinha saudável ao longo de toda a temporada competitiva.

Esse depoimento capturou algo importante sobre a ventosaterapia no esporte de elite: atletas que a adotam frequentemente relatam não apenas alívio pontual de dor, mas uma sensação de manutenção da saúde muscular ao longo do tempo. Eles não usam a técnica apenas quando estão machucados — usam como parte da rotina de prevenção e recuperação entre competições.

Quais atletas e esportes mais usam

A ventosaterapia se disseminou por praticamente todas as modalidades esportivas de alto rendimento. Além da natação, ela é muito comum entre atletas de ginástica artística, levantamento de peso, atletismo, futebol e crossfit. Cada um desses esportes tem demandas específicas que tornam a técnica particularmente atraente.

Nas modalidades de ginástica e levantamento de peso, onde as cargas sobre a coluna, ombros e quadris são extremas, a ventosaterapia é usada principalmente para liberar a tensão dos paravertebrais e do trapézio — músculos que ficam cronicamente sobrecarregados nesses atletas. No atletismo e no futebol, o foco recai sobre os isquiotibiais, o quadríceps e a panturrilha — os grupos musculares que mais acumulam fadiga e que mais se lesionam durante a temporada.

No crossfit, a ventosaterapia ganhou espaço especialmente pela sua capacidade de liberar a fáscia toracolombar — aquela grande faixa de tecido conjuntivo nas costas que fica restrita após treinos pesados de levantamento e movimentos de rotação. Um estudo específico com atletas de crossfit mostrou que a técnica de deslizamento foi eficaz na redução da dor lombar aguda e no ganho de flexibilidade do tronco, o que tem implicação direta no desempenho em movimentos como o deadlift e o clean.

O que os próprios atletas relatam sobre os efeitos

Cupping therapy session 

Os relatos dos atletas sobre os efeitos da ventosaterapia são consistentes em alguns pontos centrais: alívio da rigidez muscular, melhora da mobilidade e sensação de “leveza” nos músculos tratados nas horas seguintes à sessão. Phelps descreveu a técnica como o seu “segredo” para manter o corpo funcionando ao longo de anos de competição em nível olímpico.

O que chama atenção nos relatos dos atletas é que a maioria não descreve a ventosaterapia como uma cura ou como um tratamento mágico, mas como um componente dentro de uma rotina de recuperação mais ampla que inclui fisioterapia convencional, trabalho de mobilidade, nutrição e sono. Esse contexto é importante: a ventosaterapia funciona melhor como parte de um sistema, não como recurso isolado.

A sensação de pressão durante a aplicação é descrita por muitos atletas como “intensa mas tolerável” — diferente da dor de uma massagem profunda, mas com efeito semelhante ao longo do dia. Nas horas após a sessão, muitos relatam uma melhora percebida na amplitude de movimento das regiões tratadas, o que permite que o próximo treino comece com uma qualidade mecânica melhor.


O que acontece no corpo durante a sessão

Para além dos relatos dos atletas, a ciência tem buscado explicar os mecanismos pelos quais a ventosaterapia produz seus efeitos. Embora a literatura ainda esteja em desenvolvimento, já existe um corpo de evidências que ajuda a compreender o que acontece nos tecidos durante e após a aplicação das ventosas.

O processo começa na aplicação do vácuo e se desdobra em cascata por diferentes sistemas do corpo — do vascular ao nervoso, passando pelo imunológico e pelo fascial. Cada um desses efeitos tem relevância para o atleta que busca recuperar-se rápido e treinar bem.

O mecanismo da pressão negativa nos tecidos

Quando a ventosa é aplicada e o vácuo é estabelecido, os tecidos são puxados para dentro do copo. Essa tração cria uma deformação mecânica nas estruturas fasciais — as membranas de colágeno que envolvem músculos e estruturas adjacentes. A fáscia, quando submetida a essa tração, ativa mecanorreceptores nela presentes, gerando sinais que o sistema nervoso interpreta como estímulo de mobilização.

O efeito biomecânico imediato é um alongamento local da fáscia que não seria possível com pressão convencional. Enquanto a massagem comprime os tecidos para liberar tensão, a ventosa os traciona — e essa distinção é fundamental. Tecidos aderidos por fibrose ou por processos inflamatórios crônicos respondem de forma diferente a cada um desses estímulos. A tração é especialmente eficaz para liberar aderências entre a fáscia e o músculo subjacente, restituindo o deslizamento entre as camadas que é essencial para o movimento eficiente.

Nos nervos periféricos presentes na região tratada, a pressão negativa e o estímulo mecânico activam fibras A-beta — responsáveis pela percepção de toque e pressão — que competem com os sinais de dor nas vias espinais pelo mecanismo de gate control. Em termos simples: o estímulo da ventosa pode “fechar o portão” para a dor, reduzindo temporariamente a intensidade do desconforto local. Esse é um dos mecanismos pelos quais a ventosaterapia alivia a dor de forma imediata.

Os efeitos na circulação sanguínea e linfática

O aumento do fluxo sanguíneo na região tratada é um dos efeitos mais documentados da ventosaterapia. A pressão negativa dilata os capilares superficiais e aumenta a perfusão tecidual, o que pode ser observado pela hiperemia visível na pele imediatamente após a remoção das ventosas. Para o atleta, esse aumento de circulação tem implicação direta: mais sangue oxigenado chegando ao músculo fatigado, e mais remoção de metabólitos inflamatórios acumulados pelo esforço.

O sistema linfático também é estimulado pela ventosaterapia. A linfa — o líquido que transporta células imunes, proteínas e resíduos celulares — circula pelos vasos linfáticos por meio de mecanismos de pressão diferencial e contração muscular. A tração das ventosas sobre os tecidos superficiais estimula mecanicamente os vasos linfáticos da região, favorecendo a drenagem de líquido intersticial e a remoção de subprodutos inflamatórios como citocinas pró-inflamatórias e debris celulares.

Esse efeito drenante tem relevância especial para atletas em fase de recuperação após competições intensas, onde o edema muscular leve e a inflamação residual podem limitar a qualidade do treino seguinte. Ao acelerar a drenagem linfática, a ventosaterapia pode contribuir para encurtar o tempo entre dois estímulos de treino de alta qualidade — que é exatamente o que todo atleta de alto rendimento busca.

A resposta inflamatória e o processo de recuperação

Um aspecto da ventosaterapia que pode parecer paradoxal ao primeiro olhar é que ela provoca uma resposta inflamatória local — ao mesmo tempo em que é usada para tratar dor e inflamação. Essa aparente contradição tem uma explicação fisiológica que é central para entender como a técnica funciona.

As marcas avermelhadas e arroxeadas que a ventosa deixa na pele resultam do extravasamento de eritrócitos — glóbulos vermelhos — nos capilares que se rompem sob a pressão negativa. Esse microtrauma controlado ativa uma cascata inflamatória local que inclui a liberação de fatores de crescimento, citocinas regenerativas e células imunes como os macrófagos. Em essência, a ventosaterapia cria uma “inflamação reparadora” — um processo controlado e localizado que o corpo usa como sinal para renovar os tecidos da região.

Esse mecanismo é semelhante ao que acontece, em menor escala, durante o exercício físico: a microlesão das fibras musculares ativa processos regenerativos que resultam em adaptação. A diferença é que no caso da ventosaterapia, esse estímulo pode ser aplicado de forma dirigida em regiões que precisam de renovação tecidual — músculos com tensão crônica, pontos gatilho miofasciais, cicatrizes e aderências.


O que a ciência diz sobre a ventosaterapia

Este é o ponto em que a honestidade científica precisa entrar na conversa. A ventosaterapia tem mecanismos de ação biologicamente plausíveis, tem relatos clínicos extensos e tem a adesão de atletas de altíssimo nível. Mas o que a ciência formal diz sobre ela? A resposta é: depende do que você está perguntando.

O cenário científico atual da ventosaterapia é de evidências em construção — não de ausência de evidências, mas também não de conclusões definitivas. Entender esse cenário com precisão é o que permite usar a técnica de forma inteligente e ética na prática clínica.

Evidências reais: o que os estudos mostram

Os resultados mais sólidos da ventosaterapia na literatura científica estão na redução da dor muscular e da rigidez em condições de dor crônica e subaguda. Estudos com pacientes com dor lombar crônica, cervicalgia e fibromialgia mostram reduções significativas na intensidade da dor e ganhos de flexibilidade após protocolos de ventosaterapia seca — especialmente a técnica de deslizamento.

Na área esportiva, um estudo com atletas de crossfit com dor lombar aguda mostrou que a técnica de deslizamento foi eficaz na redução imediata da dor e no ganho de flexibilidade do tronco. A ventosaterapia também demonstra resultados positivos no tratamento de pontos gatilho miofasciais — aqueles nódulos de tensão nos músculos que causam dor local e referida. A pressão negativa sobre o ponto gatilho parece ter efeito semelhante à agulhamento seco, mas com menor invasividade.

No que diz respeito à amplitude de movimento, há evidências consistentes de que a ventosaterapia deslizante melhora a mobilidade das regiões tratadas de forma imediata e com persistência de algumas horas a alguns dias, o que é suficiente para ter impacto real na qualidade do treino ou da competição seguinte. Essa janela de mobilidade melhorada é um dos motivos pelos quais muitos atletas fazem ventosaterapia na véspera de competições importantes.

Onde as evidências ainda são limitadas

A honestidade clínica exige reconhecer onde a evidência ainda não chegou. Uma das pesquisas mais rigorosas sobre o tema — um ensaio clínico randomizado realizado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com 81 corredores recreacionais — avaliou a ventosaterapia estática sobre o quadríceps após corrida e não encontrou diferença significativa entre o grupo que recebeu a técnica e o grupo controle nos desfechos de dor muscular, fadiga, sensação de recuperação e desempenho no salto vertical nas 72 horas seguintes.

Esse resultado é importante e não deve ser ignorado. Ele sugere que a ventosaterapia estática aplicada de forma isolada sobre um único músculo após o esforço pode não ser suficiente para produzir efeitos mensuráveis na recuperação objetiva. O que funciona na prática clínica pode ser a combinação de modalidades — deslizante mais estática, em múltiplas regiões, dentro de um protocolo de recuperação mais amplo — e não a técnica usada de forma isolada e padronizada.

Outro limite importante é a dificuldade de cegar os estudos de ventosaterapia — tanto o terapeuta quanto o paciente sabem quando a técnica está sendo aplicada, o que pode introduzir viés de expectativa nos resultados autorreportados. Parte do efeito percebido pelos atletas pode ser mediada por mecanismos psicológicos como a expectativa de melhora e o efeito placebo, que são reais do ponto de vista funcional mas complicam a interpretação dos resultados. Um terapeuta honesto reconhece isso sem descartar a técnica — porque na prática clínica, um resultado positivo tem valor independentemente de qual parcela vem de efeito direto ou de expectativa.

A ventosaterapia como parte de um protocolo integrado

Swimmer with cupping marks 

O consenso clínico atual é de que a ventosaterapia não é uma terapia autossuficiente — ela funciona melhor como componente dentro de um protocolo integrado de recuperação e tratamento. Usada isoladamente, seus efeitos são limitados. Combinada com exercício terapêutico, mobilização articular, técnicas de liberação miofascial e educação do paciente, ela potencializa os resultados do conjunto.

No contexto esportivo, o fisioterapeuta que integra a ventosaterapia ao seu protocolo geralmente a usa em dois momentos: na fase de recuperação pós-treino ou pós-competição, como recurso de drenagem e relaxamento muscular; e na fase de tratamento de lesões subagudas ou crônicas, especialmente quando há aderências fasciais, pontos gatilho ou limitação de mobilidade que não respondem adequadamente a outras técnicas.

Esse modelo integrado é exatamente o que os grandes atletas usam. A ventosaterapia de Michael Phelps não existia no vácuo — ela fazia parte de uma rotina elaborada que incluía fisioterapia diária, treino de mobilidade, acupuntura, trabalho com rolo de espuma e outras estratégias de recuperação. A técnica contribuiu para o resultado, mas foi o conjunto que fez a diferença ao longo de anos de competição no mais alto nível.


Como a fisioterapia usa a ventosaterapia na prática

Na clínica de fisioterapia esportiva, a ventosaterapia tem um espaço bem definido e protocolos cada vez mais estruturados. Quem pratica atividade física — do atleta olímpico ao corredor de fim de semana — pode se beneficiar da técnica quando ela é aplicada com indicação correta e dentro de um plano de tratamento coerente.

O que diferencia a ventosaterapia clínica do que você vê nas redes sociais é justamente essa estrutura. Uma sessão bem conduzida começa com avaliação, inclui escolha adequada da modalidade e da região, e se integra ao contexto geral do tratamento do paciente. Não é sobre colocar ventosas em qualquer lugar e esperar o melhor.

Indicações e contraindicações na clínica

As principais indicações da ventosaterapia na fisioterapia esportiva incluem: dor muscular de início tardio após treinos intensos, pontos gatilho miofasciais ativos, rigidez da fáscia toracolombar e cervical, limitação de amplitude de movimento por restrição fascial, tensiões musculares crônicas por sobrecarga repetitiva, e cicatrizes com aderências que comprometem o deslizamento tecidual.

As contraindicações precisam ser respeitadas com rigor. A ventosaterapia não deve ser aplicada sobre pele lesionada, feridas abertas, hematomas agudos, varizes, áreas com comprometimento vascular ou em pacientes com coagulopatias — condições que comprometem a coagulação do sangue. Gestantes e pessoas em uso de anticoagulantes também precisam de avaliação cuidadosa antes de qualquer aplicação. Crianças pequenas, pessoas com pele muito sensível e pacientes oncológicos em tratamento são outros grupos que requerem precaução.

A ventosaterapia úmida — com sangria — tem contraindicações ainda mais restritivas e requer formação específica para sua aplicação. Na fisioterapia esportiva, a grande maioria das aplicações utiliza as modalidades secas, que são seguras, não invasivas e já apresentam evidências suficientes para justificar seu uso no contexto clínico.

Como é uma sessão de ventosaterapia fisioterapêutica

Uma sessão de ventosaterapia no contexto fisioterapêutico dura em média 20 a 40 minutos, incluindo a avaliação inicial e o posicionamento do paciente. O terapeuta começa identificando as regiões de tensão muscular, pontos gatilho ou restrição fascial que serão tratados — seja por palpação, seja por queixa do paciente, seja pelos resultados dos testes funcionais realizados na avaliação.

A escolha entre a técnica estática e a deslizante depende do objetivo. Para pontos gatilho específicos e dor localizada, a ventosa estática permanece no local por 5 a 10 minutos. Para liberar grandes extensões musculares como os paravertebrais ou os isquiotibiais, a técnica deslizante com óleo oferece melhor cobertura e resultado mais uniforme. É comum combinar as duas técnicas na mesma sessão — começar com deslizamento para aquecer e mobilizar o tecido, e finalizar com ventosas estáticas nos pontos de maior tensão.

Após a remoção das ventosas, o fisioterapeuta pode complementar com mobilização articular, alongamento ou exercícios terapêuticos para consolidar os ganhos de mobilidade obtidos durante a sessão. A sequência técnica entre a ventosaterapia e o trabalho ativo seguinte é importante: o tecido que acaba de ser trabalhado está mais permeável ao estímulo, e esse momento é aproveitado para promover movimentos que “ensinam” ao sistema nervoso os novos padrões de mobilidade.

Quanto tempo duram as marcas e o que elas indicam

As marcas deixadas pela ventosaterapia são uma das primeiras perguntas que os pacientes fazem antes da primeira sessão. Em termos práticos, elas ficam visíveis de 2 a 14 dias, dependendo da intensidade da aplicação e das características individuais de cada pele. Pessoas com pele mais clara ou com maior sensibilidade vascular tendem a ter marcas mais intensas e duradouras.

A cor das marcas tem, para muitos terapeutas, um significado clínico — embora esse sistema de interpretação ainda não tenha validação científica formal. Marcas muito escuras e arroxeadas são interpretadas como sinal de maior estagnação circulatória ou maior tensão fascial na região. Marcas rosadas mais suaves indicam tecido mais bem vascularizado e menos sobrecarregado. Com sessões repetidas na mesma região, muitos terapeutas e pacientes observam que as marcas vão ficando progressivamente mais claras — o que é interpretado como melhora da circulação local e da qualidade do tecido.

O desaparecimento das marcas ocorre quando o corpo reabsorve os eritrócitos extravasados nos capilares superficiais — o mesmo processo que faz um hematoma comum desaparecer. Não há cicatriz, não há dano permanente e não há restrição de atividade por conta das marcas. Atletas podem treinar normalmente no dia seguinte à sessão, e muitos relatam precisamente que o treino posterior à ventosaterapia é um dos mais confortáveis da semana.


Exercícios de Fixação do Conteúdo

Você leu sobre a história, a fisiologia, as evidências e a aplicação clínica da ventosaterapia. Agora são dois exercícios para consolidar o que aprendeu.


Exercício 1

Situação: Fernanda é fisioterapeuta esportiva e atende um corredor de maratona de 38 anos que relata dor e rigidez nos isquiotibiais há três semanas, sem melhora com alongamentos e gelo. Na avaliação, ela identifica dois pontos gatilho ativos na porção proximal do bíceps femoral direito, restrição de flexibilidade de 15 graus em relação ao lado contralateral e referência de dor irradiada para a região posterior do joelho ao pressionar os pontos. O paciente pergunta se a ventosaterapia pode ajudá-lo e se há riscos.

Pergunta: A ventosaterapia está indicada para o caso desse corredor? Qual modalidade de ventosaterapia seria mais adequada e por quê? Quais resultados imediatos o paciente pode esperar? E quais informações Fernanda deve dar sobre as marcas que vão aparecer?

Resposta:

Sim, a ventosaterapia está indicada para esse corredor. A presença de pontos gatilho ativos com dor referida e restrição de flexibilidade sem melhora com medidas conservatórias simples é uma das indicações mais consolidadas da ventosaterapia na fisioterapia esportiva. Não há contraindicações evidentes no caso relatado — pele íntegra, sem coagulopatia mencionada, sem lesão aguda.

A modalidade mais adequada seria uma combinação das duas técnicas secas. Fernanda deveria iniciar com ventosaterapia deslizante ao longo de todo o bíceps femoral, com óleo, por 3 a 5 minutos, para aquecer e mobilizar o tecido fascial do músculo como um todo. Em seguida, aplicar ventosas estáticas diretamente sobre os dois pontos gatilho identificados, mantendo por 7 a 10 minutos. Essa sequência aproveita o tecido mobilizado pelo deslizamento para a atuação mais profunda das ventosas estáticas sobre os nódulos de tensão.

Os resultados imediatos que o paciente pode esperar são: redução da sensibilidade local nos pontos gatilho, melhora da amplitude de flexibilidade da cadeia posterior direita — possivelmente de 5 a 15 graus nas horas seguintes — e sensação de leveza e menor rigidez no músculo tratado. Esses ganhos são reais e podem ser aproveitados para trabalho de mobilidade ativo logo após a sessão.

Sobre as marcas, Fernanda deve informar ao corredor que elas são esperadas, especialmente sobre os pontos gatilho tratados, que provavelmente ficarão com marcas mais escuras pela maior tensão local. Elas demorarão de 5 a 10 dias para desaparecer completamente. Não há restrição para treinar no dia seguinte, e o corredor pode nadar, pedalar ou correr normalmente. Conforme as sessões forem progredindo, ele provavelmente notará que as marcas vão ficando mais claras — um sinal de melhora da perfusão e qualidade do tecido.


Exercício 2

Situação: Carlos é personal trainer e quer usar ventosaterapia nos seus alunos de academia para acelerar a recuperação muscular pós-treino. Ele assistiu a um curso de 8 horas online e comprou um kit de ventosas de silicone. Planeja aplicar ventosas estáticas por 15 minutos sobre o quadríceps e os isquiotibiais de todos os alunos ao final de cada treino de pernas, independentemente das queixas individuais. Um dos alunos tem varizes visíveis nas coxas. Outro usa anticoagulante por ter tido trombose venosa há dois anos.

Pergunta: A abordagem de Carlos tem problemas? Quais são os riscos específicos para cada um dos dois alunos citados? E como ele deveria reformular a sua abordagem de forma ética e segura?

Resposta:

A abordagem de Carlos tem problemas sérios em vários níveis. O primeiro é a aplicação padronizada e indiscriminada sem avaliação individual — a ventosaterapia, como qualquer técnica terapêutica, precisa de indicação baseada na avaliação de cada pessoa, não de aplicação de rotina para todos. Nem todo aluno que treina pernas precisa de ventosaterapia, e alguns podem ter contraindicações que Carlos não está verificando.

Para o aluno com varizes visíveis nas coxas, a ventosaterapia sobre essas regiões está contraindicada. As varizes são veias superficiais com paredes fragilizadas e válvulas comprometidas. A pressão negativa da ventosa sobre essa região pode romper essas veias, causar sangramento subcutâneo significativo, formação de trombos e agravamento do quadro venoso. Carlos jamais deve aplicar ventosas diretamente sobre ou próximo a varizes.

Para o aluno em uso de anticoagulante por histórico de trombose venosa, a aplicação também é contraindicada sem avaliação médica prévia. Anticoagulantes reduzem a capacidade de coagulação do sangue, o que transforma o extravasamento capilar controlado da ventosaterapia em um risco real de formação de hematomas extensos e difíceis de resolver. Além disso, um histórico recente de trombose venosa exige avaliação médica antes de qualquer intervenção nos membros inferiores que envolva manipulação vascular.

Carlos deveria reformular sua abordagem em três frentes: primeiro, buscar formação adequada em ventosaterapia com carga horária e supervisão clínica compatíveis com a prática segura da técnica — 8 horas de curso online não qualificam para aplicação clínica. Segundo, realizar anamnese e triagem individual de todos os alunos antes de qualquer aplicação, com questionário específico sobre condições de saúde, medicamentos e histórico de lesões. Terceiro, encaminhar os alunos com condições de saúde mais complexas para fisioterapeutas habilitados, e limitar sua atuação aos casos em que tenha competência e segurança para intervir.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *