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CrossFit causa muitas lesões: mitos e verdades

CrossFit causa muitas lesões é uma frase que circula com força em academia, consultório, roda de amigos e rede social. Só que, quando eu junto o que vejo na prática clínica com o que a literatura já mostrou, a resposta fica menos dramática e muito mais honesta. Revisões sistemáticas apontam que a taxa de lesão do CrossFit não aparece como um ponto fora da curva quando comparada a modalidades de alta exigência, embora a qualidade dos estudos ainda peça cautela.

O que costuma confundir muita gente é que o CrossFit expõe o corpo. Ele coloca você para agachar, puxar, empurrar, saltar, sustentar o tronco, acelerar a respiração e repetir gesto sob fadiga. Quando um corpo mal preparado entra nesse cenário com pressa, sono ruim, técnica irregular e histórico antigo de dor, a lesão ganha espaço. Aí a culpa vai toda para a modalidade, quando muitas vezes o problema estava na dose, na progressão e na leitura ruim do limite.

Como fisioterapeuta, eu prefiro tratar esse tema sem terror e sem romantização. Nem o CrossFit é um monstro que destrói articulações, nem todo incômodo é “normal do processo” e deve ser ignorado. O caminho mais útil para você é entender onde está o mito, onde está a verdade e o que muda no treino a partir disso.

1. O que a ciência realmente mostra sobre lesões no CrossFit

Quando a gente sai do achismo e vai para os estudos, a primeira coisa que aparece é uma grande variação nos números. Uma revisão sistemática de 2022 com mais de 12 mil praticantes encontrou prevalência média de lesões de 35,3 por cento e incidência variando de 0,2 a 18,9 por 1.000 horas de treino. Essa amplitude já mostra que não dá para repetir um número solto e tratar como verdade absoluta.

Outra peça importante é que as próprias revisões concluem que o CrossFit tem incidência de lesão semelhante à observada em levantamento de peso e powerlifting. Uma revisão anterior também o classificou como comparável a outros programas de exercício quanto a lesões e desfechos de saúde. Isso derruba a narrativa de que a modalidade seria, por definição, uma fábrica de trauma.

Ao mesmo tempo, não faz sentido vender uma falsa segurança. Os próprios autores destacam que a qualidade metodológica dos estudos ainda limita conclusões muito rígidas sobre fatores de risco. Traduzindo para a vida real, você não deve demonizar o CrossFit, mas também não deve tratar o treino como se fosse isento de consequência.

1.1 Taxa de lesão por hora de treino

Quando você lê “x lesões por 1.000 horas”, está vendo uma forma de medir exposição. Isso é melhor do que olhar apenas o número bruto de pessoas lesionadas, porque considera quanto tempo cada grupo realmente treinou. Em um estudo brasileiro bastante citado, a taxa foi de 3,24 lesões por 1.000 horas de treino, com prevalência de cerca de 36 por cento.

Já em um estudo prospectivo de 12 semanas, feito também com praticantes de CrossFit no Brasil, a incidência foi mais alta porque a definição de lesão musculoesquelética foi mais ampla e captou dor ou problema que interrompeu o treino por pelo menos um dia. Nesse desenho, 32,8 por cento dos participantes relataram pelo menos uma ocorrência no período, e a incidência densidade foi de 18,9 por 1.000 horas.

É aqui que muita leitura rasa tropeça. Dois estudos podem parecer contraditórios quando, na verdade, estão medindo coisas diferentes, com desenhos diferentes e critérios diferentes. Como terapeuta, eu não uso um número sozinho para assustar você. Eu uso o conjunto da evidência para entender contexto, perfil do atleta e tipo de exposição.

1.2 Comparação com musculação, corrida e esportes de contato

O CrossFit costuma ser comparado à musculação porque os dois convivem no mesmo imaginário do treino de força. Só que a comparação correta precisa levar em conta que o CrossFit mistura componentes de levantamento, ginástica, condicionamento e esforço metabólico. Por isso, ele se parece mais com modalidades híbridas e esportes de maior exigência técnica do que com um treino tradicional de aparelhos.

As revisões científicas colocam o CrossFit em faixa de incidência semelhante à do levantamento de peso e do powerlifting. Um estudo brasileiro ainda observou taxa menor do que a média descrita para corredores recreacionais de rua. Isso não significa que correr é pior nem que o CrossFit é mais seguro para todo mundo. Significa apenas que o rótulo de “mais lesivo de todos” não se sustenta quando você compara exposição com método.

Na prática, a comparação mais honesta é esta: toda modalidade que mistura carga, velocidade, repetição e fadiga cobra organização. Quando você respeita progressão, técnica e recuperação, o risco cai. Quando você entra na vibe de provar alguma coisa toda aula, a chance de interrupção sobe, seja no box, na corrida, no futebol ou na sala de musculação.

1.3 Onde a leitura dos dados costuma falhar

O primeiro erro é confundir dor muscular tardia com lesão. Você terminar um treino sentindo pernas pesadas, glúteo queimando ou ombro cansado não significa que houve dano relevante. Lesão é outra conversa. Ela costuma envolver piora funcional, alteração de padrão de movimento, dor localizada persistente, limitação de carga ou necessidade de interromper treino.

O segundo erro é transformar história individual em regra universal. Uma pessoa se machucou num snatch e pronto, o snatch vira o vilão da década. Outra treina há quatro anos sem parar e conclui que o CrossFit é blindado. Nem uma vivência isolada prova tudo, nem a outra invalida o cuidado. A literatura já mostrou grande heterogeneidade nos achados, e isso pede mais nuance, não menos.

O terceiro erro está na pressa de achar culpado. Em vez de olhar para sono, técnica, histórico prévio, mobilidade, força de base, volume semanal e supervisão, muita gente prefere culpar o nome da modalidade. Esse atalho até parece confortável, mas ele não resolve o seu treino. E o que você precisa é justamente de solução prática.

Imagem 1 para ilustrar esta parte: abrir ilustração mito x verdade

2. Quais regiões do corpo sofrem mais

Se eu tiver que resumir o mapa de queixas mais recorrente no CrossFit, eu fico com três áreas no topo da lista: ombro, coluna lombar e joelho. A revisão sistemática de 2022 encontrou ombro em 26 por cento dos casos, coluna em 24 por cento e joelho em 18 por cento. No estudo prospectivo brasileiro, ombros, lombar e joelhos também lideraram.

Isso não acontece porque o CrossFit “destrói” essas articulações. Acontece porque essas regiões são muito exigidas quando você soma movimentos acima da cabeça, padrões de agachamento, puxadas, recepção de carga, estabilidade de tronco e repetição sob fadiga. O corpo inteiro precisa conversar bem. Quando uma peça falha, outra compensa.

No consultório, eu quase nunca olho só para o tecido dolorido. Eu olho para o sistema. Ombro dolorido pode nascer de escápula que não estabiliza, caixa torácica rígida, pressa de subir carga e pouca coordenação de tronco. Lombar irritada pode esconder quadril travado, bracing ruim e fadiga acumulada. Joelho sobrecarregado pode denunciar tornozelo duro, glúteo atrasado e aterrissagem pobre.

2.1 Ombro e movimentos acima da cabeça

O ombro é uma articulação brilhante para mobilidade e, justamente por isso, cobra estabilidade fina. No CrossFit, ele aparece muito em movimentos como press, push press, jerk, snatch, wall walk, handstand push-up e variações ginásticas. Quando escápula, tronco e ritmo do movimento não trabalham em conjunto, o ombro começa a reclamar.

A literatura aponta o ombro como a região mais afetada em vários levantamentos, tanto em revisão quanto em estudo prospectivo. Isso combina com o que vejo na prática. A queixa não surge só por “movimento acima da cabeça”. Ela surge por movimento acima da cabeça mal preparado, repetido demais ou executado já com forma degradada pela fadiga.

Para você que treina, a leitura é simples. Ombro pinçando, perdendo força, estalando com dor ou mudando seu padrão técnico não é mensagem para insistir. É sinal para reduzir amplitude, baixar carga, revisar controle escapular e, em alguns casos, trocar o estímulo naquele dia. Continuar igual porque “o WOD precisa sair” costuma custar caro.

2.2 Coluna lombar e perda de controle do tronco

A lombar quase sempre entra na conta quando o tronco deixa de transferir força com eficiência. Deadlift, kettlebell swing, toes to bar, remada, agachamentos e até corrida podem sobrecarregar a região quando você perde alinhamento, empilha sessão em cima de sessão e deixa o abdômen desligado na hora errada.

Nos estudos, a lombar aparece entre as áreas mais comuns de lesão ou dor relacionada ao CrossFit. No estudo prospectivo brasileiro, ela veio logo atrás do ombro, com 15 por cento das ocorrências. Isso reforça uma percepção clínica importante: a lombar não costuma ser a vilã, e sim a vítima da má gestão do movimento.

Tem um detalhe que muda muita coisa aqui. Sensação de esforço na lombar não é automaticamente lesão. Ela participa do movimento e pode ficar cansada. O problema aparece quando a dor localiza, irradia, trava, piora no dia seguinte, altera seu padrão de agachar ou levantar e faz você começar a “fugir” do gesto. Aí já não estamos falando de cansaço comum.

2.3 Joelho, punho e outras áreas que entram no radar

O joelho é muito lembrado porque ele paga a conta de vários erros vindos de baixo e de cima. Tornozelo duro, quadril sem controle, aterrissagem mal feita, valgo repetido, volume exagerado de agachamento e salto, tudo isso pode jogar carga demais na articulação patelofemoral ou em estruturas ao redor.

No texto clínico do Diego Astur, a condropatia patelar aparece como uma das queixas frequentemente observadas, especialmente quando pessoas com musculatura ainda pouco preparada entram cedo demais numa demanda alta de flexão de joelho e repetição. Isso conversa com a vida real do box, onde agachar fundo, saltar e receber carga pedem uma base que nem todo iniciante já tem.

Punhos, mãos e cotovelos também merecem respeito. Front rack duro, apoio prolongado, flexão extrema de punho em movimentos de solo e pegadas repetidas podem irritar tecidos que muita gente ignora até o dia em que o grip falha. Quando o corpo manda esse recado, adaptar não é fraqueza. É maturidade de treino.

Imagem 2 para ilustrar esta parte: abrir ilustração áreas mais exigidas

3. Por que as lesões acontecem de verdade

Quando eu explico lesão no CrossFit para um paciente, eu quase sempre tiro o foco do exercício isolado e levo para a equação completa. Lesão costuma nascer da soma entre demanda alta e capacidade insuficiente de absorver essa demanda. Em português claro, seu corpo recebeu mais do que conseguia sustentar com qualidade naquele momento.

Os estudos sobre fatores de risco ajudam bastante nessa leitura. A revisão sistemática de 2023 encontrou evidência limitada de que alternar entre cargas prescritas e cargas escaladas aumenta o risco, enquanto maior experiência de prática parece funcionar como fator protetor. Em outra coorte prospectiva, lesão prévia e alternância entre Rx e scaled também se associaram a maior chance de problema.

Isso combina muito com a clínica. Quem já conhece o ritmo do box, entende seu pacing, escala sem culpa e domina a mecânica básica costuma durar mais. Quem vive mudando a própria estratégia no meio da aula, sobe carga no embalo do grupo ou tenta “comprar” evolução em velocidade, entra em zona de risco.

3.1 Técnica ruim sob fadiga

Técnica boa em corpo descansado é só metade do trabalho. O treino de verdade cobra técnica sob cansaço, aceleração de respiração, queima muscular e perda progressiva de concentração. É aí que muita forma bonita desmancha e a articulação começa a receber força onde não queria receber.

No CrossFit isso importa ainda mais porque o relógio, a cultura da superação e o ambiente coletivo podem empurrar você para além da execução que conseguiria sustentar. A técnica não some de uma vez. Ela vai se desorganizando aos poucos. O joelho cai, o tronco arredonda, o ombro sobe, o punho colapsa. E o corpo vai avisando antes de lesionar.

Como terapeuta, eu gosto de dizer que a sua repetição mais importante não é a primeira. É a última repetição boa que você consegue fazer sem negociar padrão. A partir do momento em que o movimento piora visivelmente, o treino precisa ser ajustado. Às vezes é menos carga. Às vezes é menos volume. Às vezes é trocar o exercício do dia.

3.2 Volume, carga e pressa para evoluir

Nem sempre o problema está numa aula específica. Muitas vezes ele está na semana inteira. Você faz WOD pesado na segunda, perna pesada na terça, corre na quarta, insiste em ginástico na quinta e entra no sábado tentando bater marca pessoal. O tecido não lê motivação. Ele lê dose acumulada.

O Ativo chama atenção para fatores como alto nível de competição, prática conjunta com outros esportes, lesões prévias e atividades sem supervisão. Essa é uma observação útil porque o risco raramente nasce só do box. Ele cresce quando você soma estímulos sem recuperação proporcional e quando ninguém organiza essa conta.

A pressa também pesa. Muita gente quer dominar pull-up, toes to bar, snatch e handstand ao mesmo tempo, em poucas semanas. Só que o corpo precisa de alfabetização motora, não só de coragem. Evolução real não é a mais rápida. É a que você consegue sustentar sem parar a cada dois meses por dor.

3.3 Histórico prévio, ego e treino sem escala

Lesão prévia merece respeito. Se você já teve problema no ombro, na lombar, no joelho ou no tornozelo, seu plano de treino precisa saber disso. No estudo prospectivo brasileiro, lesão prévia elevou em 3,2 vezes a chance de nova ocorrência relacionada ao treino. Isso não serve para proibir você de treinar. Serve para organizar a volta de forma inteligente.

O ego entra quando você sabe que precisa escalar e, ainda assim, escolhe acompanhar alguém que está em outra fase. Esse é um ponto delicado no CrossFit porque o ambiente é estimulante, e isso tem um lado ótimo. Só que a mesma energia que te puxa para crescer pode te empurrar para uma dose que não fecha com a sua capacidade atual.

Treino sem escala é treino mal prescrito para aquele corpo, naquele dia. Escalar não é fazer menos. É fazer certo para o seu estágio. Às vezes o seu melhor treino é reduzir carga e manter mecânica. Em outro momento, o melhor é manter carga e cortar volume. Em outro, o melhor é trocar impacto por controle. Isso é maturidade esportiva.

4. Quem precisa de mais cuidado para treinar bem

O CrossFit não é exclusivo para atleta de alto rendimento. O próprio conteúdo mais introdutório sobre a modalidade insiste que ela é adaptável a diferentes perfis, e essa é uma parte verdadeira da história. O erro não está em entrar no CrossFit sem ser atleta. O erro está em entrar e ser tratado como se todos ali tivessem a mesma base.

Na prática clínica, eu costumo dividir o cuidado em três grupos que merecem olhar mais próximo. O primeiro é o iniciante, que ainda está aprendendo a linguagem do corpo em esforço. O segundo é o avançado ou competidor, que já tolera muita carga e, por isso mesmo, se expõe mais. O terceiro é quem volta de lesão ou já chega com dor antiga.

Essa divisão ajuda porque prevenção boa não é genérica. Ela é personalizada. Duas pessoas podem treinar no mesmo box, fazer o mesmo WOD no quadro e precisar de estratégias completamente diferentes para continuar evoluindo. Quem entende isso cedo tende a treinar por mais tempo e com menos sustos.

4.1 Iniciantes

O iniciante não precisa esperar um ano para começar. Ele precisa começar com a dose certa. Isso muda tudo. Nas primeiras semanas, eu gosto de ver foco em padrão motor, controle de tronco, mobilidade útil, consciência de ritmo e entendimento do que é esforço bom e do que já é compensação.

O problema é que o iniciante costuma estar emocionalmente contaminado pelo ambiente. Isso não é uma crítica. É natural. O box é vivo, o grupo puxa, o treino envolve. Só que o corpo ainda não aprendeu a separar entusiasmo de capacidade. Por isso, supervisão próxima vale ouro no início.

Na prática, se você está começando, sua meta não deve ser parecer avançado. Sua meta deve ser aprender a repetir bem. Quando o gesto fica consistente, a carga sobe com menos custo. Quando a base é apressada, a conta aparece depois em forma de ombro irritado, lombar travada ou joelho te lembrando que adaptação tem tempo biológico.

4.2 Avançados e competidores

Muita gente imagina que o risco cai apenas porque o atleta é mais forte. Nem sempre. Em um estudo brasileiro, a probabilidade de lesão foi mais alta em praticantes com mais tempo de modalidade e chegou a ser cinco vezes maior em atletas de nível competitivo do que em iniciantes. Isso faz sentido quando pensamos em carga, volume, complexidade e exposição.

O atleta avançado já consegue produzir muito. E exatamente por isso ele consegue se colocar em situações mais exigentes. Mais carga, mais repetições, mais sessões, mais pressão por desempenho. Quando a recuperação não acompanha, o corpo continua entregando por um tempo. Depois ele começa a cobrar com queda de rendimento, dor persistente e perda de consistência.

Para esse grupo, prevenção não é só alongar ou aquecer melhor. Prevenção é gestão de temporada. É saber quando apertar, quando manter e quando aliviar. É olhar volume de ombro, quantidade de recepção de carga, frequência de estímulos de joelho e densidade da semana inteira. Atleta avançado sem controle de carga treina muito, mas nem sempre treina bem.

4.3 Quem já chega com dor antiga ou voltou agora de lesão

Esse é um grupo que eu acompanho de perto porque costuma ter duas tendências ruins. A primeira é o medo de se mover. A segunda é o oposto, que é a pressa de provar que já voltou ao normal. Nenhuma das duas ajuda. O corpo precisa retomar confiança e capacidade ao mesmo tempo.

Na literatura, lesão prévia aparece repetidamente como fator importante de risco. Na coorte prospectiva brasileira, ela aumentou em 3,2 vezes a chance de nova ocorrência. Isso quer dizer que o seu histórico precisa entrar no planejamento do treino e não pode ser tratado como detalhe antigo.

Se você está voltando, a pergunta principal não é se dá para fazer. Em geral, dá. A pergunta certa é como fazer, com qual dose, com qual amplitude, com qual frequência e qual marcador você vai usar para saber se o corpo absorveu bem. É assim que o retorno deixa de ser um teste emocional e vira progressão de verdade.

5. Como treinar CrossFit com mais segurança e menos interrupções

Eu não gosto de vender segurança como ausência total de dor, porque isso não existe em esporte. O que existe é treino mais inteligente, com menos interrupção evitável. O objetivo não é transformar você em alguém medroso. É transformar você em alguém que entende o próprio corpo e consegue sustentar evolução.

A boa notícia é que prevenção no CrossFit não depende de segredo. Ela depende de consistência em coisas básicas que muita gente sabe, mas nem sempre aplica. Escalar sem culpa, respeitar histórico, manter supervisão, controlar semana, diferenciar esforço de sinal de alerta e ajustar antes de piorar fazem mais diferença do que qualquer acessório da moda.

A literatura reforça essa direção. A revisão sobre fatores de risco sugere que atletas novatos e aqueles que aumentam carga precisam de supervisão mais próxima. Em paralelo, estudos observacionais mostram associação entre lesão prévia, alternância inadequada de carga e maior risco de problema. O recado é claro. Prevenção é método.

5.1 Escala, progressão e semana bem montada

Escala é a primeira camada de proteção. Ela serve para ajustar o treino ao seu momento e não ao quadro do dia. Isso inclui reduzir carga, encurtar amplitude, trocar movimento, cortar volume ou mudar o formato para preservar qualidade. Um treino escalado com critério costuma ser mais útil do que um treino original mal sobrevivido.

Progressão é a segunda camada. Seu corpo gosta de desafio, mas também gosta de previsibilidade mínima. Quando você sobe tudo de uma vez, carga, volume, velocidade e complexidade, a adaptação não acompanha. Eu costumo orientar progressão em blocos. Primeiro consolida padrão. Depois amplia tolerância. Depois busca performance.

A semana bem montada é a terceira camada. Ombro pesado em dias seguidos, muito salto acumulado, hinge sob fadiga repetida e treino intenso demais sem janela de recuperação são combinações clássicas de problema. Quando o box organiza bem isso, o aluno dura mais. Quando não organiza, a fisioterapia enche mais cedo.

5.2 Sinais de alerta que você não deve empurrar

Dor que muda o seu padrão de movimento merece atenção. Se você agacha torto, perde estabilidade, compensa com outra articulação ou reduz força por proteção do corpo, não está mais só em desconforto comum de treino. Seu sistema já mudou a estratégia para se defender.

Dor articular pontual que piora conforme as repetições avançam também pede freio. O mesmo vale para pinçamento recorrente no ombro, travamento lombar, joelho que incha, punho que não tolera apoio simples e incômodo que volta toda vez no mesmo gesto. O corpo é insistente quando quer que você escute.

Isso não significa abandonar a modalidade ao primeiro sinal. Significa ajustar cedo. Quanto antes você modifica dose, revisa técnica e entende o gatilho, menor a chance de transformar um aviso em pausa longa. A maioria das interrupções mais chatas que eu vejo poderia ter sido menor se a pessoa tivesse respeitado o primeiro recado.

5.3 O papel do coach e da fisioterapia esportiva

Coach bom não é só quem motiva. É quem enxerga movimento, sabe quando escalar, percebe fadiga mudando padrão e entende que cada atleta da turma está em uma fase. A supervisão aparece nas revisões como peça importante justamente porque ela organiza o caos natural do treino intenso.

Já a fisioterapia esportiva entra para traduzir o que o corpo está mostrando. Eu não estou ali para mandar você parar por medo. Eu estou ali para descobrir por que aquela estrutura começou a sobrecarregar, quais variáveis precisam ser mexidas e como você pode continuar treinando com ajuste, quando isso é possível.

Quando coach e fisioterapeuta conversam, o atleta evolui melhor. O box passa a conhecer seu histórico, a sua dor deixa de ser um segredo improvisado e a progressão fica menos emocional. Isso faz diferença enorme em ombro, lombar e joelho, que são justamente as regiões que mais costumam cobrar técnica, controle e dose.

Imagem 3 para ilustrar esta parte: abrir checklist de treino seguro

No fim das contas, CrossFit não merece nem o pedestal nem o tribunal. Ele é uma modalidade exigente, adaptável e potente. Quando bem conduzido, pode conviver com segurança razoável e boa evolução. Quando mal dosado, vira terreno fértil para sobrecarga, como acontece com várias outras práticas intensas.

Se você quer uma resposta limpa, ela é esta. O CrossFit não causa muitas lesões por definição. O que causa muita lesão é treino mal encaixado no corpo que você tem hoje. E essa diferença, para mim, é a mais importante de todo esse debate.

Exercícios práticos de fixação

Exercício 1

Um aluno de 32 anos começou CrossFit há três semanas. Ele já treinava musculação, mas nunca tinha feito movimentos ginásticos nem levantamento olímpico. No terceiro treino com push press e burpee, sentiu dor na parte da frente do ombro e decidiu continuar porque achou que era só “ardência normal”.

Explique quais foram os dois principais erros de leitura desse caso e diga qual seria a conduta mais segura nas próximas sessões.

Resposta do exercício 1

O primeiro erro foi assumir que toda dor durante treino intenso é adaptação comum. Dor muscular difusa pode até ser esperada, mas dor localizada na frente do ombro durante movimento acima da cabeça merece atenção porque o ombro é uma das regiões mais exigidas no CrossFit e frequentemente aparece nos estudos como local comum de queixa.

O segundo erro foi insistir sem escala, mesmo sendo iniciante. Nesse momento, a conduta mais segura seria reduzir carga, revisar técnica do push press, observar mobilidade torácica e escapular, limitar volume acima da cabeça por alguns treinos e monitorar se a dor altera padrão, força ou amplitude. Se o incômodo persistir, vale avaliação com fisioterapia esportiva.

Exercício 2

Uma atleta experiente, que compete em eventos locais, teve dor patelofemoral há seis meses. Ela voltou a treinar bem e agora quer retomar treinos com muito agachamento, box jump e corrida na mesma semana, além de buscar cargas máximas em dias alternados.

Mostre por que esse cenário exige cuidado e descreva uma estratégia simples de retorno com menos risco.

Resposta do exercício 2

Esse cenário exige cuidado porque a atleta reúne dois fatores importantes. Ela já teve lesão prévia, o que aumenta a chance de nova ocorrência, e está em perfil competitivo, grupo que em alguns estudos apresentou probabilidade de lesão maior do que praticantes iniciantes. Além disso, o plano mistura alta carga, impacto e grande volume semanal para o joelho.

A estratégia mais inteligente seria separar melhor os estímulos, evitando concentrar muito volume de joelho em poucos dias. Em vez de voltar com agachamento pesado, salto e corrida intensa ao mesmo tempo, o ideal é priorizar progressão em blocos, monitorar dor nas 24 a 48 horas seguintes, manter técnica limpa e ajustar amplitude, carga e número de contatos com o solo. O objetivo não é frear a atleta. É devolver desempenho sem reacender a dor.

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