Escoliose e Esporte: Quais modalidades ajudam e quais requerem atenção

Escoliose e Esporte: Quais modalidades ajudam e quais requerem atenção

Muitos dos meus pacientes chegam ao consultório com um olhar preocupado logo após receberem o diagnóstico de escoliose. A primeira reação de quem descobre um desvio na coluna é, quase sempre, o medo de se mexer. Existe uma crença antiga de que a coluna precisa ser poupada a todo custo, como se fosse uma estrutura de vidro prestes a quebrar. Hoje, quero conversar com você exatamente como faço nas minhas consultas: de forma franca, direta e sem aquele “mediquês” que mais confunde do que explica. A verdade é que o seu corpo foi feito para o movimento, e a escoliose não é uma sentença de inatividade. Pelo contrário, o sedentarismo é muitas vezes um inimigo muito mais cruel para a sua coluna do que a prática esportiva bem orientada.

Quando falamos sobre esporte e escoliose, precisamos abandonar a ideia de “proibido” e “permitido” e começar a pensar em “recomendado” e “adaptado”.[1] Você precisa entender que a sua coluna tem uma curvatura tridimensional, e isso altera a forma como as cargas são distribuídas durante um salto, uma corrida ou um levantamento de peso. O segredo não é parar de fazer o que você ama, mas sim aprender a preparar o seu corpo para suportar essa demanda. Um corpo forte e estável protege a coluna, enquanto um corpo fraco deixa as estruturas ósseas e ligamentares sobrecarregadas.

Vamos explorar juntos o que realmente acontece lá dentro quando você se exercita. Quero que você saia desta leitura com a segurança necessária para calçar seus tênis e buscar uma vida ativa. Vamos analisar biomecânica, desmistificar esportes clássicos e entender onde mora o perigo real. A sua jornada com a escoliose não precisa ser limitante; ela apenas exige que você seja mais inteligente e consciente sobre como usa sua máquina corporal.

Entendendo a Escoliose e o Movimento

O mito do repouso absoluto

Durante décadas, a medicina conservadora recomendava que crianças e adolescentes com escoliose evitassem qualquer esforço físico. Imaginava-se que o impacto ou a força muscular poderiam “entortar” ainda mais a coluna.[2][3][4] Essa visão caiu por terra. Hoje, sabemos que manter você em repouso absoluto gera atrofia muscular, e músculos fracos são incapazes de sustentar a coluna contra a gravidade. Quando você para de se mexer, a rigidez aumenta, e a dor, que muitas vezes nem existia, passa a ser uma companheira constante. O repouso não cura a escoliose; ele apenas tira de você a ferramenta mais poderosa de combate à progressão da curva: a sua própria musculatura.

Você precisa visualizar a sua coluna como um mastro de um navio, sustentado por vários cabos de aço, que são os seus músculos. Se esses cabos estão frouxos, o mastro fica instável e balança com qualquer vento. O exercício físico serve para tensionar esses cabos na medida certa, garantindo que o mastro permaneça o mais estável possível, mesmo que não seja perfeitamente reto. O movimento bombeia fluidos para os discos intervertebrais, nutre as cartilagens e envia sinais ao cérebro de que aquela estrutura está viva e funcional. Portanto, tirar o esporte da sua vida é tirar a nutrição e a sustentação da sua coluna.

Além disso, o aspecto psicológico do repouso forçado é devastador, especialmente na adolescência. Dizer a um jovem que ele não pode jogar bola ou dançar com os amigos cria uma sensação de invalidez que não condiz com a realidade clínica da maioria das escolioses. O isolamento social e a percepção de fragilidade afetam a postura tanto quanto a curva óssea em si. Uma postura depressiva, com ombros caídos e cabeça baixa, agrava o quadro estético e funcional. Por isso, incentive o movimento. O repouso deve ser reservado apenas para fases agudas de dor incapacitante ou pós-operatórios imediatos, e nunca como estilo de vida.

A importância da estabilidade muscular

A palavra-chave para quem tem escoliose não é apenas força, mas estabilidade. Imagine que você tem uma musculatura abdominal muito forte, mas ela não sabe a hora certa de contrair para proteger sua lombar. De nada adianta ter “tanquinho” se os músculos profundos, aqueles que estão coladinhos nas vértebras, estão adormecidos. Na fisioterapia, focamos muito no que chamamos de estabilizadores locais, como o multífido e o transverso do abdômen. Eles funcionam como um espartilho natural, abraçando sua coluna antes mesmo de você levantar um braço ou dar um passo.

Quando você pratica um esporte, essa estabilidade é testada o tempo todo. Se você corre, a cada impacto do pé no chão, sua coluna precisa de estabilidade para não sofrer um “chchicote”. Se você não tem essa competência muscular, a carga vai direto para as articulações e para os discos, acelerando processos degenerativos. A escoliose cria, por natureza, uma instabilidade mecânica. As vértebras na curva tendem a rodar e se inclinar. O papel do músculo é criar uma barreira de proteção que impeça essa rotação de aumentar desenfreadamente durante o esforço.

É por isso que insisto tanto que, antes de querer levantar grandes cargas na academia ou correr uma maratona, você precisa construir uma base sólida. Você precisa aprender a ativar seu centro de força. Isso não significa ficar rígido como uma tábua, mas ter o controle dinâmico do movimento. Um corpo inteligente reage às demandas do esporte protegendo as áreas vulneráveis. Sem essa estabilidade, qualquer esporte, até os considerados seguros, pode se tornar lesivo. A construção dessa cinta natural é o passaporte para você praticar a modalidade que quiser com segurança.

Como o esporte atua na percepção corporal

Um dos maiores desafios da escoliose é a alteração da imagem corporal. Muitas vezes, você acha que está reto, mas na verdade está inclinado para a direita. O seu cérebro se acostuma com a posição da curva e passa a considerar aquilo como o “novo normal”. A prática esportiva, especialmente aquelas que exigem técnica e precisão, obriga o seu cérebro a recalibrar essa percepção. Quando você precisa alinhar o corpo para um saque no vôlei ou para uma postura de yoga, você está treinando sua propriocepção, que é a capacidade de saber onde cada parte do seu corpo está no espaço.

Esportes que envolvem espelhos, como a dança ou a musculação bem orientada, oferecem um feedback visual imediato. Você olha e vê que seu ombro está mais alto, e tenta corrigir. Esse processo contínuo de autoanálise e autocorreção é valiosíssimo. Com o tempo, essa consciência sai da quadra ou da academia e vai para o seu dia a dia. Você começa a perceber como senta na cadeira do escritório ou como carrega a mochila. O esporte acorda os sensores do seu corpo que estavam desligados ou viciados na postura errada.

Além disso, a liberação de endorfinas e a sensação de competência física melhoram a sua relação com o próprio corpo. Em vez de ver suas costas apenas como uma fonte de problema ou vergonha estética, você passa a vê-las como uma estrutura capaz de realizar feitos incríveis. Essa mudança de chave mental é fundamental para o tratamento. Um paciente que se sente capaz e forte adere muito melhor às terapias e aos exercícios corretivos do que aquele que tem medo de tudo. O esporte é uma ferramenta poderosa de reconexão entre você e sua própria anatomia.

Modalidades que são Grandes Aliadas

Natação: A verdade sobre a água

Provavelmente a primeira coisa que você ouviu quando recebeu o diagnóstico foi: “faça natação”. Vamos colocar os pingos nos is. A natação é um esporte excelente, mas ela não cura escoliose e nem sempre é a solução mágica que pintam. A água elimina a ação da gravidade, o que é ótimo para aliviar dores e descomprimir os discos. Trabalha a capacidade respiratória, que é vital para quem tem deformidades torácicas, e movimenta o corpo todo de forma simétrica (nos nados crawl e costas). É um cardio fantástico e seguro para a maioria das pessoas.

No entanto, a natação por si só não ensina o seu corpo a lutar contra a gravidade, que é onde a escoliose se manifesta na vida real. Nós vivemos fora da água, sentados e em pé. Além disso, em níveis competitivos, a natação envolve muita rotação de tronco repetitiva, o que em alguns casos específicos de curvas muito acentuadas, precisa ser monitorado. O nado borboleta, por exemplo, exige uma extensão forçada da coluna que pode ser desconfortável para quem tem hiperlordose associada.

Então, use a natação como uma grande aliada para o condicionamento físico geral, para o relaxamento muscular e para a saúde pulmonar. Ela é uma modalidade “verde” na nossa lista, mas não deve ser vista como o único tratamento. Ela complementa, mas não substitui os exercícios de fortalecimento em solo, onde a gravidade atua. Nade porque você gosta e porque te faz bem, não com a falsa esperança de que a água vai “desentortar” a coluna magicamente. O benefício está na saúde global e no alívio da tensão.

Pilates e Yoga: Controle e flexibilidade[2][5]

Se eu tivesse que escolher modalidades que conversam perfeitamente com as necessidades da escoliose, o Pilates e o Yoga estariam no topo. O Pilates é fantástico porque foi criado justamente com o foco no “Power House”, o centro de força do corpo. Os exercícios ensinam você a dissociar o movimento dos membros da estabilidade do tronco. Isso significa aprender a mexer a perna sem deixar a coluna lombar sambar junto. Para quem tem escoliose, esse controle é ouro. Os aparelhos de Pilates com molas oferecem uma assistência ou resistência que pode ser ajustada para o seu padrão de curva, ajudando a alongar o lado encurtado e fortalecer o lado fraco.

O Yoga traz o componente da flexibilidade e da respiração consciente. Muitas posturas de Yoga trabalham a extensão axial, que é a ação de crescer a coluna, criando espaço entre as vértebras. Isso combate o achatamento que a gravidade impõe ao longo do dia. As posturas de equilíbrio do Yoga também desafiam os músculos profundos da coluna a manterem o alinhamento. A consciência respiratória do Yoga, o pranayama, ajuda a expandir as costelas que podem estar comprimidas do lado côncavo da escoliose, melhorando a capacidade pulmonar e a mobilidade da caixa torácica.

Contudo, um alerta importante: nem toda postura é para todo mundo. Algumas posições de torção extrema ou hiperextensão podem não ser indicadas para o seu tipo específico de curva. É aqui que entra a importância de um instrutor que saiba o que é escoliose. Você deve evitar forçar a coluna em posições que geram dor ou desconforto agudo.[1] O objetivo é ganhar espaço e controle, não se dobrar como um contorcionista a qualquer custo. Com boa orientação, essas práticas são ferramentas poderosas de manutenção da saúde da sua coluna.[1][5][6]

Musculação consciente

A musculação sofre de um preconceito injusto. Muitos acham que levantar peso vai travar o crescimento ou piorar a curva. A realidade é que músculos fortes são a melhor armadura para a sua coluna. A musculação, quando feita com técnica correta e cargas progressivas, é uma das melhores formas de aumentar a densidade óssea e a força dos paravertebrais. O segredo está na palavra “consciente”. Não é sobre quanto peso você levanta, mas como você levanta.

Exercícios de remada, puxadas e desenvolvimentos, quando bem executados, fortalecem toda a cintura escapular e ajudam a corrigir a postura dos ombros caídos ou rodados. O fortalecimento de glúteos e pernas tira a sobrecarga da lombar nas atividades do dia a dia. Se você tem pernas fortes, você usa as pernas para agachar e pegar algo no chão, poupando sua coluna. A musculação permite isolar grupos musculares e trabalhar desequilíbrios de força que são comuns na escoliose.

O cuidado deve ser com a carga axial excessiva, ou seja, peso que comprime a coluna de cima para baixo, como uma barra pesada apoiada nos ombros. Mas isso não significa que você nunca pode fazer um agachamento. Você pode fazer variações com halteres nas mãos, usar o leg press ou adaptar a amplitude. O importante é manter a coluna neutra durante a execução.[5][7] Um educador físico que entenda sua condição pode montar um treino que te deixe forte sem colocar sua coluna em risco.[1][4][8] A musculação te dá autonomia e funcionalidade para a vida.

Modalidades que Requerem Atenção (e não necessariamente proibição)[1][2][3][4][5][6][8][9][10]

Esportes de alto impacto

Quando falamos de esportes de alto impacto, como corrida de longa distância, basquete, vôlei ou ginástica olímpica, a palavra é moderação e preparo. Nesses esportes, a coluna sofre aterrissagens repetitivas. A cada salto, a força da gravidade é multiplicada. Se a sua escoliose já tem um componente de desgaste nos discos ou se a curva é muito acentuada, esse impacto contínuo pode acelerar a degeneração e causar dor. Isso não significa que você está proibido de correr ou jogar vôlei, mas requer uma estratégia mais cuidadosa.

Para praticar essas modalidades, o seu sistema de amortecimento precisa estar impecável. Isso envolve ter um bom tênis, mas principalmente ter músculos das pernas e do core muito eficientes para absorver o choque antes que ele chegue à coluna. Se você quer correr, comece intercalando caminhada e corrida, prefira superfícies mais macias como grama ou esteira de boa qualidade, em vez de asfalto duro. Observe como seu corpo reage no dia seguinte. Se a dor nas costas aumentar significativamente, é um sinal de que o volume ou a intensidade estão acima da sua capacidade de absorção atual.

Na ginástica olímpica e artística, a atenção deve ser redobrada devido aos movimentos extremos de hiperextensão da coluna (as famosas pontes e saltos). Esses movimentos colocam uma pressão focal muito grande nas vértebras lombares. Para jovens com escoliose em fase de crescimento rápido, isso pode aumentar o risco de escorregamento vertebral (espondilolistese). Nesses casos, o monitoramento médico deve ser constante, e talvez seja necessário reduzir a frequência dos treinos ou adaptar certos movimentos para preservar a saúde da coluna a longo prazo.[2]

Esportes unilaterais

Tênis, golfe, hóquei e beisebol são exemplos clássicos de esportes assimétricos ou unilaterais. Você usa predominantemente um lado do corpo para bater na bola. A preocupação aqui é lógica: se a escoliose já é um desequilíbrio, será que forçar apenas um lado não vai piorar tudo? A resposta depende do volume de treino. Para o praticante recreativo, que joga tênis duas vezes por semana, o impacto na curva é insignificante comparado aos benefícios da atividade física. O corpo consegue lidar bem com essa assimetria esporádica.

O problema surge no nível competitivo ou de alta frequência, onde o atleta faz centenas de repetições do mesmo movimento de rotação todos os dias. Isso pode gerar um desenvolvimento muscular muito desigual, onde um lado das costas fica hipertrofiado e encurtado, enquanto o outro fica mais fraco. Isso pode criar uma força de torção que não favorece a coluna escoliótica. Se você ama tênis e tem escoliose, a solução é o treino compensatório.

Você deve dedicar um tempo fora da quadra para fortalecer o lado oposto e trabalhar a simetria. Se você é destro, faça exercícios que estimulem o lado esquerdo. Trabalhe o core de forma global para garantir que a rotação não esteja acontecendo apenas em um segmento da coluna. O alongamento também é crucial para evitar que o lado dominante fique cronicamente tenso e puxe a coluna ainda mais. Com compensação adequada, é perfeitamente possível desfrutar desses esportes sem culpa.

Cargas axiais excessivas

Este é o ponto onde costumo ser mais conservador. Carga axial é aquela força que vem de cima para baixo, comprimindo a coluna como um acordeão. Exercícios como agachamento com barra nas costas, desenvolvimento militar em pé com muita carga e levantamento de peso olímpico impõem uma pressão direta sobre os discos intervertebrais e os pratos vertebrais. Em uma coluna reta, a carga é distribuída uniformemente. Em uma coluna com escoliose, a carga se concentra nas bordas das vértebras, exatamente onde a curva é mais acentuada.

Essa pressão assimétrica pode, teoricamente, estimular a progressão da curva em adolescentes em fase de crescimento (devido à lei de Hueter-Volkmann, que diz que o osso cresce menos onde é comprimido) e acelerar a degeneração discal em adultos. Por isso, no Crossfit ou no Powerlifting, adaptações são necessárias. Você pode substituir o agachamento com barra nas costas pelo agachamento frontal ou globet squat (segurando o peso no peito), que muda o vetor de força e exige mais do abdômen, protegendo a lombar.

Não se trata de nunca pegar peso, mas de evitar cargas máximas que comprimam a coluna verticalmente. Em vez de tentar bater recordes de peso no levantamento terra, foque na técnica perfeita e em repetições mais controladas com cargas moderadas. Se sentir qualquer desconforto na coluna durante ou após esses exercícios, pare e reavalie a execução. Existem infinitas maneiras de fortalecer as pernas e as costas sem precisar colocar uma barra de 100kg apoiada na sua cervical. Seja esperto na escolha dos exercícios.

A Biomecânica da Curva Durante a Atividade

Compressão e Carga Axial: O que acontece com os discos

Vamos aprofundar um pouco mais na engenharia da sua coluna. Imagine que os discos intervertebrais são pequenos amortecedores de gel entre os ossos. Numa coluna alinhada, quando você pula ou carrega peso, esse gel é espremido por igual e absorve o impacto. Na escoliose, as vértebras estão inclinadas.[5][11] Isso faz com que o disco seja espremido com muita força de um lado e fique “aberto” do outro. É como apertar um balão cheio de água só de um lado; a tendência é o balão querer estourar para o lado oposto.

Durante a atividade física intensa, essa compressão assimétrica é amplificada. Se você corre uma maratona, são milhares de passos repetindo essa compressão desigual. Com o tempo, o lado comprimido do disco pode começar a desidratar e perder altura mais rápido que o outro lado. Isso pode levar a um ciclo vicioso: o disco diminui de um lado, a vértebra inclina mais, e a curva aumenta ou se torna mais rígida. É por isso que insistimos tanto no fortalecimento que cria espaço e descompressão.

Entender isso muda a forma como você treina.[1][8] Você passa a valorizar exercícios de tração, como se pendurar numa barra fixa por alguns segundos ao final do treino, o que ajuda a reidratar os discos e aliviar essa pressão. Você entende por que é importante manter o peso corporal controlado, pois cada quilo extra é carga constante sobre esses amortecedores que já trabalham em desvantagem mecânica. A biomecânica não perdoa, mas pode ser gerenciada com inteligência.

O Papel das Rotações e Torques

A escoliose não é apenas um “S” visto de frente; ela é uma espiral. As vértebras giram sobre o próprio eixo. Quando você realiza esportes que envolvem muita rotação, como golfe ou rebatidas no beisebol, você está gerando um torque imenso na coluna. Se a rotação do esporte for na mesma direção da rotação da sua escoliose, você pode estar alimentando o padrão da curva. Se for na direção oposta, pode até ser terapeuticamente interessante, mas é difícil controlar isso na velocidade do jogo.

O perigo biomecânico mora na combinação de flexão, rotação e carga. Imagine pegar uma caixa pesada no chão, girando o corpo para o lado. Esse é o mecanismo clássico de lesão de disco para qualquer pessoa, mas para quem tem escoliose, a margem de erro é menor. As facetas articulares, que são as “dobradiças” de trás da vértebra, podem sofrer impacto e inflamar se forem forçadas numa rotação excessiva.

Por isso, o treino de “anti-rotação” é tão importante. Exercícios como a prancha lateral ou o “Pallof Press” na academia ensinam sua coluna a resistir às forças que tentam girá-la. Você treina para ser forte o suficiente para frear o movimento de rotação antes que ele chegue numa amplitude perigosa. O objetivo é que seus quadris e ombros girem para gerar potência no esporte, enquanto sua coluna lombar permanece estável e protegida, transmitindo a força sem se torcer excessivamente.

Equilíbrio entre Mobilidade e Estabilidade

Aqui está o grande paradoxo da escoliose no esporte: algumas partes da sua coluna são rígidas demais, e outras são móveis demais (instáveis). Geralmente, a parte mais curva da escoliose tende a ser rígida. O corpo cria pontes ósseas e retração ligamentar para tentar segurar aquela deformidade. Já as áreas acima e abaixo da curva principal tendem a ser hipermóveis para compensar a rigidez, e é aí que a dor costuma aparecer, por excesso de movimento.

Quando você faz um esporte que exige muita flexibilidade global, como a ginástica rítmica, você pode estar pedindo movimento justamente para os segmentos que já estão instáveis, ignorando os segmentos rígidos. O resultado é que a parte instável fica ainda mais frouxa e a rígida continua travada. O trabalho biomecânico correto deve ser cirúrgico: ganhar mobilidade onde está preso e ganhar estabilidade onde está solto.

Isso significa que o alongamento genérico nem sempre é bom. Tentar encostar a mão no pé a qualquer custo pode estar apenas forçando sua lombar hipermóvel. Você precisa de exercícios seletivos.[2][3] No esporte, isso se traduz em saber seus limites.[2] Talvez você não consiga a mesma amplitude de movimento que seu colega de time numa extensão de coluna, e tudo bem. Respeitar essa barreira biomecânica é o que vai manter você no jogo por anos sem lesão. O equilíbrio fino entre soltar e segurar é a arte de treinar com escoliose.

Cadeias Cinéticas e a Escoliose

A influência da pisada e dos membros inferiores

Você já parou para pensar que a sua escoliose pode estar sendo influenciada pelo jeito que você pisa? Nosso corpo funciona em cadeias cinéticas, ou seja, tudo está conectado. Uma pisada pronada (pé desabando para dentro) pode rodar internamente a tíbia, que roda o fêmur, que altera a posição da bacia. Como a coluna está apoiada na bacia, qualquer desalinhamento lá embaixo reverbera lá em cima. Se você tem uma perna anatomicamente mais curta que a outra, isso causa uma inclinação na base da coluna que o corpo tenta compensar criando uma curva.

No esporte, isso é crítico. Correr com uma pisada desequilibrada é martelar a assimetria na coluna a cada passo. Avaliar se você precisa de palmilhas ou de um trabalho específico de fortalecimento para o arco plantar é essencial. Às vezes, corrigir a mecânica do pé e fortalecer o glúteo médio (o músculo lateral do quadril) melhora significativamente a dor nas costas durante o esporte, sem que tenhamos tocado na coluna.

Os membros inferiores são a fundação do prédio. Se a fundação está torta, não adianta só tentar arrumar o telhado. Fortalecer as pernas de forma unilateral (exercícios como afundo ou subida no banco) ajuda a equalizar as forças que chegam à bacia. Isso dá uma base nivelada para a coluna trabalhar. Antes de culpar a escoliose pela dor na corrida, olhe para os seus pés e para a força dos seus quadris.

O Core como centro de força e proteção

O termo “core” ficou banalizado, mas para você ele é vital. O core não é só o abdômen; é uma caixa formada pelo diafragma em cima, o assoalho pélvico embaixo, os abdominais na frente e os multífidos atrás. Essa caixa pressurizada é o que sustenta a coluna lombar. Na escoliose, essa caixa costuma ter vazamentos de energia. O alinhamento alterado das costelas e da bacia faz com que os músculos não trabalhem na sua posição ideal de vantagem mecânica.

Quando você saca uma bola no tênis ou chuta no futebol, a força vem das pernas, passa pelo core e chega aos braços. Se o core é fraco (“mole”), a energia se dissipa na coluna, gerando cisalhamento e estresse. Um core forte transfere a força de forma limpa. Para o atleta com escoliose, o treino de core deve ir além do abdominal tradicional (que inclusive pode ser ruim se feito com muita flexão).

Focamos em “brace”, que é a capacidade de endurecer a parede abdominal para receber impacto, e em exercícios anti-movimento (anti-extensão, anti-rotação). O objetivo é criar um cilindro de estabilidade ao redor da coluna. Quando você sente que seu core está ativado durante o esporte, você sente a coluna mais leve. É como se você tivesse tirado o peso das vértebras e colocado nos músculos. Essa é a meta.

Respiração e expansão torácica durante o esforço

A respiração é a peça frequentemente esquecida. A escoliose torácica deforma a caixa torácica, rodando as costelas. Isso faz com que um pulmão tenha menos espaço para expandir do que o outro. Durante o esporte, quando você precisa de muito oxigênio, essa restrição mecânica pode causar fadiga precoce ou sensação de falta de ar. Além disso, muitos pacientes tendem a prender a respiração (apneia) quando fazem esforço, o que aumenta a pressão interna de forma perigosa.

Aprender a respirar corretamente durante o exercício é terapêutico. A respiração tridimensional, onde você manda o ar para as costas e para as laterais das costelas (e não só para a barriga ou peito), ajuda a mobilizar as costelas rígidas de dentro para fora. É como uma massagem interna. No esporte, coordenar a respiração com o movimento ajuda a manter o ritmo e a estabilidade.

Incentivo você a perceber: onde o ar está indo quando estou cansado? Tente expandir o lado “afundado” das suas costas. O uso consciente da respiração ajuda a derrotar o padrão de rotação da escoliose. Esportes aeróbicos que exigem ritmo respiratório, como a natação e a corrida, são ótimos laboratórios para treinar essa expansão pulmonar. Uma caixa torácica flexível é uma coluna torácica mais feliz.

Terapias aplicadas e indicadas

Agora que você entendeu como o esporte interage com sua escoliose, preciso falar sobre o que fazemos “nos bastidores”, na clínica, para dar suporte a tudo isso. O esporte é ótimo, mas ele não é tratamento corretivo específico. Para tratar a escoliose de verdade, usamos abordagens baseadas em evidências científicas. As mais consagradas mundialmente são os Exercícios Fisioterapêuticos Específicos para Escoliose (PSSE).

O método Schroth é provavelmente o mais famoso. Ele trabalha com correções tridimensionais, usando respiração rotacional e isometria para “abrir” as concavidades da curva e derrotar a torção. É um trabalho intenso, cognitivo, que ensina você a ser o dono da sua postura. Outra abordagem fantástica é o SEAS (Abordagem Científica de Exercícios para Escoliose), que foca na autocorreção ativa. Nós treinamos você a encontrar sua melhor postura possível e a mantê-la enquanto faz movimentos desafiadores, o que é perfeito para transferir para o esporte.

Temos também a RPG (Reeducação Postural Global), muito popular no Brasil, que trabalha as cadeias musculares e o alongamento global, sendo excelente para ganhar flexibilidade e consciência corporal. E a Osteopatia, que não é exercício, mas terapia manual, ajuda muito a soltar as restrições articulares, alinhar a bacia e melhorar a mobilidade visceral, preparando o terreno para que o exercício funcione melhor. O ideal é combinar essas terapias específicas com sua prática esportiva. A terapia alinha e ensina o controle; o esporte dá a força, a resistência e a alegria de viver em movimento. Não escolha um ou outro, escolha ambos e veja seu corpo prosperar.

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