Ventosaterapia no esporte: Mitos e verdades sobre a recuperação

Ventosaterapia no esporte: Mitos e verdades sobre a recuperação

Você provavelmente já viu aquelas marcas circulares roxas nas costas de nadadores olímpicos ou jogadores de futebol e se perguntou o que estava acontecendo ali. Parece doloroso, parece estranho, mas todo mundo no mundo do esporte parece estar fazendo. Se você chegou até aqui, é porque quer saber se isso realmente funciona para a sua dor nas costas depois do treino ou se é apenas mais uma moda passageira. Vamos sentar e conversar francamente sobre o que a ventosaterapia pode e não pode fazer pelo seu corpo.

A ventosaterapia não é mágica, embora a sensação de alívio possa parecer coisa de outro mundo às vezes. Como fisioterapeuta, vejo muitos pacientes chegando ao consultório pedindo “aquela técnica dos copos” porque viram no Instagram. O problema é que existe muita desinformação circulando. Alguns acham que ela cura tudo, outros acham que é puramente estético. A verdade mora no meio do caminho e entender a fisiologia por trás do copo vai mudar a forma como você encara sua recuperação.

Neste artigo, vamos deixar de lado os termos médicos complicados que só servem para confundir e vamos focar no que importa para você que treina. Quero que você saia daqui entendendo exatamente o que acontece com seus músculos quando aplicamos o vácuo e como separar os mitos das verdades. Prepare-se para olhar para essas marcas roxas com outros olhos a partir de agora.

O que realmente acontece debaixo do copo?

O efeito do vácuo na circulação sanguínea

Quando coloco o copo na sua pele e uso a bomba de sucção, a primeira coisa que acontece é uma mudança drástica na pressão local. Imagine que a pressão atmosférica está empurrando tudo para baixo, e dentro do copo criamos um ambiente de pressão negativa que puxa tudo para cima. Isso força uma dilatação imediata dos vasos sanguíneos naquela área específica. O sangue, que muitas vezes estava circulando de forma lenta devido à tensão muscular, é forçado a correr para a superfície.

Esse afluxo repentino de sangue traz consigo oxigênio fresco e nutrientes vitais para o tecido. Pense nisso como abrir uma represa em um rio que estava quase seco. O sangue novo inunda a região, “lavando” o tecido e preparando o terreno para a recuperação. É por isso que a pele fica quente e vermelha quase instantaneamente. Não é apenas superficial; o efeito hemodinâmico atinge as camadas mais profundas do músculo, dependendo da intensidade da sucção aplicada.

Muitos pacientes relatam uma sensação de calor e relaxamento logo nos primeiros minutos. Isso ocorre porque o aumento do fluxo sanguíneo também ajuda a normalizar a temperatura local. Músculos tensos e contraturados tendem a ter uma circulação pobre, o que os torna isquêmicos (com pouco sangue) e doloridos. A ventosa age quebrando esse ciclo de isquemia, forçando a natureza a irrigar aquela zona árida do seu corpo.

A “lesão” controlada e a resposta inflamatória

Pode parecer contraditório, mas para curar, às vezes precisamos “machucar” um pouquinho. A sucção forte da ventosa cria o que chamamos de microtraumas nos vasos capilares superficiais. Não se assuste com a palavra trauma. Na fisioterapia, usamos isso de forma estratégica. Ao causar essas minúsculas rupturas controladas, estamos enviando um sinal de alerta para o seu sistema imunológico.

O seu corpo percebe essa ação e pensa: “Ei, algo aconteceu ali nas costas, precisamos consertar agora!”. Imediatamente, ele envia células de reparação, substâncias anti-inflamatórias naturais e aumenta a produção de colágeno na região. Estamos basicamente acordando o processo de autocura do seu corpo que estava adormecido ou lento. É como reiniciar um computador travado; a ventosa dá o comando de “reset” no sistema inflamatório local.

Essa resposta inflamatória controlada é fundamental para tratar lesões crônicas. Sabe aquela dorzinha no ombro que está lá há meses e não passa? Muitas vezes, o corpo já “desistiu” de tentar curar aquilo e a inflamação se tornou crônica e estagnada. A ventosa transforma essa condição crônica em uma situação aguda novamente, dando ao corpo uma nova chance de cicatrizar o tecido da maneira correta, com fibras alinhadas e saudáveis.

Liberação miofascial mecânica: Desgrudando os tecidos

Você já tentou tirar a pele de uma laranja e percebeu aquela parte branca que fica grudada entre a casca e a polpa? Nosso corpo tem algo parecido chamado fáscia. É uma rede de tecido conectivo que envolve todos os nossos músculos. Quando treinamos muito ou temos má postura, essa fáscia pode “colar” no músculo, limitando o movimento e causando dor. A ventosa age como uma mão gigante puxando essa pele para cima, criando espaço.

A pressão negativa levanta a pele e a fáscia, separando-as do músculo subjacente. Esse efeito mecânico de distração (afastamento) é incrivelmente aliviador. Ele permite que as camadas de tecido deslizem umas sobre as outras novamente sem atrito. É uma forma de liberação miofascial que, ao invés de usar a pressão das mãos para empurrar (como na massagem), usa o vácuo para puxar.

Ao criar esse espaço, descomprimimos também as terminações nervosas que estavam sendo esmagadas pela tensão muscular. Isso explica por que o alívio da dor costuma ser imediato. Você sente como se tivesse tirado um peso das costas, literalmente. O tecido ganha liberdade, a hidratação volta a fluir entre as camadas musculares e a rigidez que você sentia ao tentar amarrar o tênis começa a desaparecer.

As famosas marcas roxas: Medalhas ou Machucados?

A diferença entre hematoma de pancada e equimose terapêutica

Aqui é onde a maior confusão acontece. Você vê a marca roxa e pensa “ai, isso deve ter doído como uma pancada”. Mas, fisiologicamente, são coisas diferentes. Um hematoma traumático acontece quando você bate a perna na quina da mesa: há esmagamento de tecido, dor aguda ao toque e inchaço devido ao rompimento descontrolado de vasos. Na ventosaterapia, o que temos é uma equimose terapêutica ou petéquia.

Essas marcas não são causadas por impacto, mas por sucção. Não há dano às fibras musculares profundas como em uma contusão. O que ocorre é o extravasamento de sangue dos capilares para o espaço subcutâneo, mas sem a agressão traumática. Por isso, embora a aparência seja assustadora para quem vê de fora, a sensação ao tocar a marca geralmente não é de dor de machucado, mas sim de uma dorzinha muscular pós-treino ou até mesmo de alívio.

É crucial que você entenda essa diferença para não ter medo do tratamento. O roxo da ventosa é um sinal de que houve estase sanguínea (sangue parado) sendo movida, e não que seu fisioterapeuta tem a mão pesada demais. É uma resposta fisiológica esperada e, em muitos casos, desejada para garantir que o estímulo foi suficiente para ativar a circulação local.

O que a cor da marca diz sobre seu músculo

Nós, fisioterapeutas, usamos as cores das marcas como uma ferramenta de diagnóstico. A pele fala conosco através dessas cores. Se aplicamos a ventosa e a pele fica apenas rosada ou levemente vermelha e a marca some em poucos minutos, isso é um ótimo sinal. Significa que sua circulação está boa, não há muita estagnação de energia ou sangue naquela região e seu músculo está saudável.

Agora, se a marca fica um vermelho escuro, roxo vivo ou até mesmo quase preto, isso indica uma forte estagnação. Na Medicina Tradicional Chinesa, chamamos isso de sangue estagnado ou “Xue” bloqueado. Em termos ocidentais, significa que aquela área estava com acúmulo de resíduos metabólicos, pH ácido e pouca oxigenação. Quanto mais escura a marca, mais “suja” e tensa estava a região muscular.

Às vezes, a marca pode apresentar uma textura diferente, como poros muito abertos ou uma superfície elevada, o que pode indicar edema (inchaço) ou excesso de umidade na região. Observar essas nuances nos ajuda a decidir se na próxima sessão precisamos focar mais em drenagem ou se podemos aplicar técnicas mais vigorosas. A marca é como um mapa do tesouro que nos mostra onde o problema está escondido.

Quanto tempo as marcas demoram para sair?

A vaidade entra em jogo aqui, e é uma pergunta justa. Ninguém quer ir para a praia parecendo que lutou com um polvo gigante. O tempo de desaparecimento das marcas varia muito de pessoa para pessoa, dependendo do metabolismo, da hidratação e da cor original da marca. Em geral, marcas leves somem em 2 a 3 dias.

Marcas mais escuras e profundas, aquelas roxas intensas que indicam muita tensão acumulada, podem levar de 7 a 14 dias para desaparecer completamente. O corpo precisa reabsorver aquele sangue que extravasou, metabolizar os pigmentos da hemoglobina e limpar a área. É um processo natural de fagocitose, onde suas células de limpeza vão lá e removem os resíduos.

Você não deve tomar sol diretamente sobre as marcas enquanto elas estiverem visíveis, pois isso pode manchar a pele permanentemente, assim como acontece com qualquer hematoma exposto ao sol. Se você tem um evento importante ou vai usar uma roupa decotada, avise seu fisioterapeuta. Podemos usar pressões mais leves ou técnicas de ventosa deslizante que deixam menos marcas, ou simplesmente evitar as áreas visíveis naquele dia.

Mitos comuns que você precisa esquecer

“Quanto mais roxo e dolorido, melhor o resultado”

Esse é o mito mais perigoso de todos. Existe uma cultura no esporte de “no pain, no gain” (sem dor, sem ganho) que é extremamente prejudicial quando aplicada à terapia. Deixar a pele preta ou causar dor insuportável durante a aplicação não significa que o tratamento foi mais eficiente. Pelo contrário, pode causar uma lesão desnecessária na pele ou irritar o sistema nervoso, gerando mais tensão como mecanismo de defesa.

O objetivo da ventosaterapia é o alívio e a homeostase (equilíbrio), não a tortura. A marca deve ser uma consequência da condição do seu tecido, e não uma meta a ser atingida pelo terapeuta. Se o profissional forçar a sucção ao máximo em um paciente com a pele sensível ou sistema imunológico debilitado, o resultado pode ser bolhas (flictenas) e queimaduras por atrito, o que é uma intercorrência negativa e não um sinal de sucesso.

A eficácia do tratamento se mede pela melhora da função, redução da dor e aumento da mobilidade após a sessão, e não pela tonalidade da sua pele. Você pode ter um resultado excelente com marcas leves se a técnica for bem aplicada no local certo. Esqueça a ideia de que precisa sofrer na maca para melhorar no treino.

“Ventosaterapia remove toxinas do sangue”[9]

Vamos ser cientificamente precisos aqui. A ventosa não puxa “toxinas” para fora do corpo através da pele como se fosse um filtro mágico. O conceito de “detox” é muito mal utilizado. O que a ventosa faz é mobilizar resíduos metabólicos locais. Quando você treina pesado, seu músculo produz lactato, íons de hidrogênio e outros subprodutos que acidificam o meio.

Se a circulação está ruim, esses subprodutos ficam parados ali, irritando as terminações nervosas. A ventosa melhora a perfusão sanguínea, o que ajuda o sistema linfático e venoso a recolher esses resíduos e levá-los para os órgãos que realmente fazem a desintoxicação: o fígado e os rins. Então, a ventosa ajuda a limpar o músculo localmente, mas quem limpa o sangue é o seu fígado.

Não acredite em promessas milagrosas de desintoxicação sistêmica completa apenas colocando copos nas costas. A ventosa é uma facilitadora do transporte. Ela tira o “lixo” debaixo do tapete (músculo) e coloca no corredor (corrente sanguínea) para que o lixeiro (fígado/rins) possa passar e recolher. É um trabalho em equipe fisiológico.

“É apenas um efeito placebo psicológico”

Há quem diga que ventosaterapia é pura sugestão. Embora o efeito placebo seja poderoso em qualquer tratamento médico, a ventosa tem efeitos mecânicos e fisiológicos mensuráveis que vão além da crença. Estudos mostram alterações reais no fluxo sanguíneo, na temperatura da pele e na viscoelasticidade do tecido após a aplicação. Você não pode “imaginar” que sua fáscia desgrudou; ela fisicamente se moveu.

Além disso, a marca roxa é uma prova biológica de que houve extravasamento e resposta vascular. O efeito de relaxamento muscular também é mediado pelo sistema nervoso autônomo, reduzindo a atividade simpática (estresse/luta) e aumentando a parassimpática (relaxamento). Isso é biologia, não apenas psicologia.

Claro, acreditar no tratamento ajuda. A expectativa positiva libera endorfinas que ajudam na dor. Mas dizer que é apenas placebo ignora séculos de prática clínica e as evidências modernas sobre mecanotransdução (como as células respondem a estímulos mecânicos). Atletas de elite não arriscariam suas carreiras e tempo de recuperação em algo que não trouxesse nenhum benefício palpável para sua performance.

Verdades sobre a recuperação no esporte

Acelera a remoção de resíduos metabólicos[4]

Para o atleta, tempo é tudo. Quanto mais rápido você se recupera do treino de hoje, melhor você treina amanhã. A ventosaterapia brilha exatamente aqui. Ao aumentar a circulação local de forma agressiva (no bom sentido), ela acelera a troca gasosa e a limpeza do ambiente celular. Aquele músculo “empedrado” cheio de metabólitos ácidos é lavado por sangue novo muito mais rápido do que se você ficasse apenas em repouso passivo.

Isso significa menos dias sentindo aquela dor tardia pós-treino (DMPT). Em vez de ficar andando como um robô por três dias depois do treino de perna, a aplicação de ventosas pode reduzir esse tempo significativamente. Você devolve ao músculo a capacidade de contração e relaxamento mais cedo.

É uma ferramenta de otimização. Não substitui o descanso, mas torna o descanso mais eficiente. Pense na ventosa como um “fast-forward” no processo natural de limpeza do corpo. Para quem tem volumes de treino altos, essa aceleração na curva de recuperação é a diferença entre uma boa semana de treinos e uma lesão por overtraining.

Melhora a amplitude de movimento (mobilidade)[4][8]

Muitas vezes, você não consegue agachar profundo ou levantar o braço acima da cabeça não por falta de força, mas por restrição tecidual. A fáscia está tão tensa que age como uma roupa apertada, impedindo o movimento livre. A ventosaterapia é excelente para ganhar mobilidade instantânea. Ao soltar essas aderências, o “freio de mão” do músculo é solto.

Fisioterapeutas usam muito a técnica de “ventosa dinâmica”, onde colocamos o copo e pedimos para você realizar o movimento que estava difícil. Isso reensina o cérebro e o tecido que é seguro se mover naquela amplitude. O resultado é um movimento mais fluido, econômico e eficiente. Para um nadador, isso significa uma braçada mais longa; para um corredor, uma passada mais ampla.

Manter a amplitude de movimento completa é a melhor forma de prevenir lesões. Um músculo encurtado e preso é um músculo propenso a rasgar quando forçado. Ao usar ventosas regularmente, você faz a manutenção preventiva da sua liberdade de movimento, garantindo que suas articulações trabalhem sem restrições desnecessárias.

Redução significativa da percepção de dor

A ventosaterapia atua na dor através de um mecanismo chamado “Teoria das Comportas”. Basicamente, o estímulo tátil e de sucção na pele viaja para o cérebro mais rápido do que o estímulo da dor profunda. Isso “fecha o portão” para a dor, enganando o sistema nervoso e proporcionando alívio imediato. Além disso, a sucção libera endorfinas e encefalinas, que são os analgésicos naturais do corpo.

Não estamos apenas mascarando a dor; estamos modulando a resposta do sistema nervoso. Para um atleta com dores crônicas ou tensão acumulada, esse alívio permite que ele durma melhor, se mova melhor e saia do ciclo dor-tensão-dor. Quando a dor diminui, o músculo relaxa, e quando o músculo relaxa, a circulação melhora, resolvendo a causa raiz do problema.

É importante notar que esse alívio pode ser temporário se a causa mecânica do problema (como uma pisada errada ou técnica ruim) não for corrigida. Mas como ferramenta de manejo de dor aguda e crônica, as ventosas são imbatíveis em oferecer conforto rápido sem a necessidade de medicamentos químicos que sobrecarregam o estômago.

A Ventosa não joga sozinha: Potencializando resultados

A importância crítica da hidratação pós-sessão

Você acabou de fazer uma sessão, suas costas estão marcadas e seu fluxo sanguíneo está a mil. O que você faz agora? Bebe água. Muita água. Lembra que falamos sobre mover os resíduos metabólicos para a corrente sanguínea? Se você estiver desidratado, seu sangue fica mais viscoso (grosso) e o sistema renal tem dificuldade em filtrar e excretar esses resíduos.

A água é o veículo de transporte. Sem ela, todo aquele trabalho de mobilização que fizemos com os copos pode ser desperdiçado, ou pior, você pode sentir dor de cabeça e náuseas pós-sessão, o que chamamos de “ressaca metabólica”. Seu corpo está tentando limpar a casa, mas você precisa dar a água para passar o pano.

Torne isso um hábito: saiu da maca do fisioterapeuta, garrafa de água na mão. Isso vai ajudar a diminuir o tempo que as marcas ficam na pele e vai garantir que você se sinta energizado no dia seguinte, em vez de letárgico. A hidratação é o finalizador invisível de qualquer terapia manual.

Combinando com movimento ativo (Active Recovery)

Antigamente, achava-se que depois da terapia você tinha que ficar imóvel. Hoje sabemos que o movimento cura. Após a aplicação das ventosas, fazer uma atividade leve, como uma caminhada, uma bicicleta ergométrica suave ou alongamentos dinâmicos, ajuda a bombear o sangue que a ventosa trouxe para a superfície.

Isso se chama recuperação ativa. O movimento muscular age como uma bomba secundária, ajudando a drenagem linfática e distribuindo os nutrientes que chegaram à área tratada. Ficar parado no sofá pode fazer com que a região volte a ficar rígida. O segredo é a intensidade: deve ser leve, apenas para movimentar o corpo, sem gerar nova fadiga.

Converse com seu fisioterapeuta sobre quais movimentos são seguros logo após a sessão. Geralmente, pedimos para evitar cargas pesadas ou treinos de alta intensidade nas 24 horas seguintes, mas incentivamos o movimento livre e leve para “assentar” o tratamento e integrar o ganho de mobilidade ao seu padrão motor.

O papel do sono na regeneração tecidual

A ventosa dá o estímulo, a nutrição dá os tijolos, mas é o sono que constrói o muro. A regeneração real dos tecidos acontece durante o sono profundo, quando há liberação de hormônio do crescimento (GH). Se você faz ventosaterapia mas dorme 4 horas por noite, está jogando dinheiro fora. O corpo não terá tempo hábil para realizar os reparos que a terapia sinalizou serem necessários.

O relaxamento profundo que a ventosaterapia proporciona muitas vezes ajuda a induzir um sono melhor na noite pós-sessão. Aproveite isso. Crie um ambiente propício, desligue as telas e permita que seu corpo entre em modo de reparo total. O efeito parassimpático da ventosa prepara o terreno para uma noite restauradora.

Atletas de alto nível priorizam o sono tanto quanto o treino. A ventosaterapia é apenas uma peça do quebra-cabeça. Sem o descanso adequado, o corpo permanece em estado catabólico (degradação) e inflamatório, e nenhuma quantidade de copos nas costas vai resolver uma privação crônica de sono.

O Protocolo ideal: Quando e como aplicar

Pré-treino versus Pós-treino: O timing importa

A aplicação muda completamente dependendo do momento. No pré-treino ou pré-competição, o objetivo é preparar o músculo, aumentar a circulação e acordar os reflexos. Aqui, usamos ventosas rápidas, deslizantes e com pressão moderada. Não queremos relaxar o músculo demais a ponto de ele perder o tônus necessário para a explosão e força. É uma aplicação estimulante, que deixa a pele vermelha e pronta para a ação.

Já no pós-treino, o foco é relaxamento e recuperação.[12] Aqui podemos usar ventosas fixas, com tempo de permanência maior (5 a 10 minutos) e pressão ajustada para drenagem e descompressão. É aqui que as marcas roxas geralmente aparecem, pois estamos tratando a fadiga acumulada. O objetivo é “desligar” o sistema e iniciar a limpeza.

Errar o timing pode prejudicar a performance. Fazer uma sessão de relaxamento profundo com ventosas fixas 30 minutos antes de uma prova de 100m rasos pode deixar o atleta “mole” e lento. Por isso, a comunicação com seu terapeuta sobre sua agenda de treinos é fundamental.

Ventosa fixa ou deslizante: Qual escolher?

A ventosa fixa é aquela onde colocamos os copos em pontos específicos (pontos gatilho ou pontos de acupuntura) e deixamos lá parados. Ela é excelente para tratar aquele nódulo específico, aquela dor pontual que você sente ao apertar um local exato. É um tratamento de profundidade e foco.

A ventosa deslizante envolve passar óleo na pele e mover o copo com sucção ao longo das fibras musculares. Essa técnica é fantástica para grandes áreas, como as costas inteiras ou a banda iliotibial na coxa. Ela funciona como uma massagem profunda, alongando a fáscia e cobrindo uma área muito maior. É menos provável que deixe marcas roxas circulares, mas deixa uma vermelhidão difusa.

Geralmente, em uma sessão completa, usamos uma combinação das duas. Começamos deslizando para preparar e aquecer o tecido, identificar onde estão as tensões (onde o copo trava ou a pele fica mais vermelha), e depois aplicamos as fixas nesses pontos críticos. É um combo perfeito de rastreamento e tratamento.

Frequência: Por que você não deve fazer todo dia

Mais não é melhor. A ventosaterapia gera uma inflamação controlada, lembra? O corpo precisa de tempo para resolver essa inflamação e cicatrizar. Se você aplicar ventosas no mesmo local todos os dias, você estará re-lesionando um tecido que ainda não se recuperou. Isso pode levar a hematomas reais, dor crônica na pele e fadiga do sistema imunológico.

O intervalo ideal varia, mas geralmente recomendamos esperar as marcas desaparecerem ou pelo menos clarearem significativamente antes de aplicar no mesmo local novamente. Isso costuma levar de 3 a 7 dias. Enquanto isso, você pode aplicar em outras áreas do corpo.[6] Se fez nas costas na segunda-feira, pode fazer nas pernas na quarta-feira.

Respeitar a fisiologia é essencial.[5] A recuperação acontece no intervalo, não durante a sessão. Dar ao seu corpo esses dias de respiro garante que cada sessão tenha o impacto máximo, em vez de se tornar apenas uma agressão repetitiva sem propósito.

Terapias complementares indicadas

Para finalizar, é importante lembrar que a ventosaterapia brilha ainda mais quando integrada a outras técnicas.[3] No universo da fisioterapia esportiva, raramente usamos uma ferramenta isolada. Uma combinação poderosa é a Liberação Miofascial Manual, onde o terapeuta usa as mãos ou instrumentos (lâminas) para refinar o trabalho que a ventosa começou, soltando detalhes que o vácuo não alcançou.

Outra excelente aliada é a Eletroterapia (TENS ou “choquinho”). Podemos, inclusive, colocar os eletrodos junto com as ventosas em alguns casos, combinando analgesia elétrica com o aumento de fluxo sanguíneo. Isso é fantástico para dores lombares agudas. Além disso, o Dry Needling (Agulhamento a Seco) é o “primo” mais invasivo, que vai direto no ponto gatilho profundo, enquanto a ventosa trata a superfície e a fáscia.

E, claro, não podemos esquecer da Crioterapia (Gelo) e da Termoterapia (Calor). Dependendo da fase da lesão, alternar essas temperaturas com as sessões de ventosa (em dias diferentes ou momentos específicos) ajuda a controlar a inflamação e relaxar a musculatura. O importante é ter um raciocínio clínico por trás de cada escolha. Cuide do seu corpo, ele é seu único equipamento que não tem troca.

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