Você já parou para pensar na engenharia complexa que acontece a cada passo que você dá? Correr ou caminhar parece algo automático, mas existe uma mecânica fascinante acontecendo dentro dos seus tênis agora mesmo. Como fisioterapeuta, vejo diariamente pacientes chegando ao consultório com dores no joelho, no quadril ou na coluna que começaram lá embaixo, na base de tudo. A escolha do tênis errado pode transformar seu exercício favorito em um pesadelo ortopédico, mas a boa notícia é que entender o seu pé é mais simples do que parece. Hoje vamos mergulhar nesse universo das pisadas neutra, pronada e supinada para que você possa tomar decisões inteligentes e correr sem dor.
A indústria de calçados evoluiu muito nos últimos anos.[2][3] Antigamente, a gente escolhia o tênis pela cor ou pelo preço, mas hoje temos tecnologias que funcionam quase como uma prescrição médica para os pés. O grande segredo não é comprar o tênis mais caro da prateleira, mas sim aquele que “conversa” com a biologia do seu corpo. Quando você entende como seu pé aterrissa no solo, você ganha a chave para prevenir lesões crônicas que poderiam te afastar das pistas por meses.
Quero que você encare este guia como uma consulta descontraída. Vamos deixar de lado os termos médicos complicados que só servem para confundir e focar no que você sente na prática. Se você já sentiu aquela fisgada na canela ou aquele desconforto na lateral do pé após um treino longo, este texto é para você. Vamos desmistificar o marketing das grandes marcas e focar na fisiologia real do seu movimento. Prepare-se para olhar para seus pés com outros olhos a partir de hoje.
Desvendando a Biomecânica: O Que Realmente Acontece Quando Você Corre?
O Ciclo da Pisada: Do Calcanhar aos Dedos
A corrida é basicamente uma série de pequenos saltos onde você precisa absorver, equilibrar e impulsionar o peso do seu corpo repetidamente. Tudo começa no que chamamos de fase de contato inicial. Na maioria dos corredores amadores, o calcanhar toca o solo primeiro. Nesse milissegundo, seu corpo recebe um impacto que pode ser de duas a três vezes o seu peso corporal. É uma força bruta que precisa ser dissipada instantaneamente para não estilhaçar suas articulações.
Logo após o toque, entramos na fase de apoio médio. É aqui que a mágica ou o problema acontece. Seu pé precisa desabar levemente para dentro para absorver o choque.[4] Pense no arco do seu pé como uma mola natural do carro. Se essa mola for muito dura, o carro trepida. Se for muito mole, ele bate no chão. O pé faz exatamente isso ao relaxar as estruturas para se adaptar ao terreno. É um movimento necessário e vital para a sua sobrevivência na corrida.
Por fim, temos a fase de propulsão ou desprendimento. Seus dedos, especialmente o dedão, fazem uma força alavanca contra o chão para te jogar para frente. Nesse momento, o pé que estava relaxado precisa se tornar uma alavanca rígida novamente. Se ele continuar mole, você perde energia e cansa mais rápido. Essa transição de “pé mole” para amortecer e “pé duro” para impulsionar é o ciclo da marcha que analisamos para definir se sua pisada é eficiente ou patológica.
Por Que “Pisar Torto” Nem Sempre é Ruim?
Muitos pacientes chegam apavorados dizendo que viram em um vídeo que pisam torto. Eu sempre digo para ter calma nessa hora. O corpo humano não foi feito para se mover em linhas retas e perfeitas como um robô. Uma certa quantidade de rotação é absolutamente normal e saudável. A pronação, que é esse rolamento para dentro, é o mecanismo natural de defesa do corpo contra o impacto. Sem ela, seus joelhos e quadris sofreriam muito mais.
O problema surge quando esse movimento excede os limites fisiológicos. Imagine um elástico que você estica. Até certo ponto, ele vai e volta. Se você esticar demais, ele começa a perder a capacidade de retorno ou rompe. Quando falamos de “pisar torto” de forma prejudicial, estamos falando de um movimento que acontece rápido demais ou com uma amplitude exagerada, impedindo que os músculos e ligamentos controlem a articulação a tempo.
Além disso, a assimetria é comum. Você pode ter um pé que prona mais que o outro por causa de uma lesão antiga no tornozelo ou uma diferença no comprimento das pernas. O nosso corpo é mestre em compensar falhas. Às vezes, o jeito “torto” de pisar é a forma que seu cérebro encontrou para fugir de uma dor. Por isso, antes de tentar corrigir tudo com uma palmilha ou tênis corretivo, precisamos entender se essa “tortice” é funcional ou lesiva.
A Importância da Carga: Impacto nas Articulações
Você precisa visualizar seu corpo como uma cadeia de elos conectados. O pé é a base. Se a base inclina, a torre inteira inclina junto. Quando a pisada é inadequada, a carga que deveria subir alinhada pela perna começa a fazer curvas perigosas. Uma pisada que desaba muito para dentro roda a tíbia internamente. Essa rotação chega no joelho e pode fazer a patela sair do trilho, gerando aquela dor clássica na frente do joelho que chamamos de condromalácia.
Subindo ainda mais, essa rotação interna do fêmur altera a posição do quadril e pode aumentar a curvatura da lombar. É muito comum eu tratar a dor nas costas de um corredor corrigindo a forma como ele pisa. A carga mal distribuída é silenciosa no início. Ela vai desgastando a cartilagem e estressando os tendões milímetro por milímetro, treino após treino.
Por outro lado, uma pisada muito rígida, que não amortece nada, envia ondas de choque direto para a coluna e para o colo do fêmur. Isso pode levar a fraturas por estresse, que são microfissuras no osso causadas por impacto repetitivo. O tênis entra aqui como um filtro. Ele não resolve todos os problemas biomecânicos, mas ajuda a modular essa carga, reduzindo a vibração que sobe pelos ossos e dando uma folga para seus músculos trabalharem melhor.
Os Três Mosqueteiros da Pisada: Neutra, Pronada e Supinada[1][2][3][4][5][6][7]
Pisada Neutra: O Padrão Ouro Biomecânico?
A pisada neutra é frequentemente vendida como a perfeição, mas vamos colocar os pés no chão. Ela significa que o corredor toca o solo com a parte externa do calcanhar e rotaciona o pé ligeiramente para dentro.[1][4][6] Essa rotação para dentro fica na casa dos 15 graus. É o suficiente para distribuir o impacto uniformemente por toda a planta do pé antes de fazer a impulsão com os dedos centrais.
Corredores com esse tipo de pisada são felizardos porque têm um cardápio vasto de tênis à disposição. Eles não precisam de reforços pesados de controle de movimento e nem de amortecimento excessivo compensatório. O risco de lesão para quem tem pisada neutra geralmente vem mais de erros de treinamento, como aumentar a distância muito rápido, do que da biomecânica em si. Mas atenção: ter pisada neutra não te torna imune a dores.
O interessante da pisada neutra é a eficiência energética. Como o alinhamento das pernas se mantém preservado durante a corrida, o músculo gasta menos energia para estabilizar as articulações. Isso se traduz em performance.[8] Você consegue correr mais longe cansando menos. No entanto, é comum que um corredor neutro comece a pronar (cair para dentro) quando está muito cansado, no final de uma maratona, por exemplo, pois a musculatura fadiga e perde o suporte.
Pisada Pronada: Quando o Tornozelo Desaba para Dentro[1][3][4][5][6]
A pronação excessiva é o tipo mais comum que vejo no consultório e o que mais gera dúvidas. Aqui, o pé toca o chão e roda para dentro muito mais do que os 15 graus saudáveis. O arco plantar praticamente encosta no chão. Visualmente, parece que o tornozelo está “caindo” para o lado de dentro do corpo. Isso cria uma torção contínua na tíbia e sobrecarrega muito a parte interna do pé e do joelho.
Pessoas com pé chato ou plano têm uma tendência natural à pronação excessiva, mas nem todo pé chato é problemático. O problema da pronação é a instabilidade. O pé fica “bobo”, muito solto, e não consegue ficar rígido na hora de empurrar o chão. Isso força o dedão a trabalhar dobrado, o que pode causar joanetes e tendinites no tendão tibial posterior.
Os tênis para essa categoria geralmente possuem uma densidade de espuma mais dura na parte interna, chamada de “post” ou controle de pronação.[2] A ideia é criar uma barreira física que impeça o pé de desabar. Mas cuidado com o exagero. Um tênis que corrige demais pode jogar você para o outro extremo e causar dores novas.[4] A correção deve ser sutil, apenas para dar um suporte quando a musculatura cansa.
Pisada Supinada: O Desafio dos Arcos Rígidos[2][4][6][7]
A supinação é o oposto da pronação e é bem mais rara. Ocorre em cerca de 5 a 10 por cento da população apenas. Nesse caso, o pé toca o solo com a parte externa do calcanhar e continua apoiado na borda de fora durante todo o movimento.[1][4][6] O pé não roda para dentro o suficiente. Geralmente está associado a quem tem o pé cavo, aquele arco bem alto e desenhado.
O grande vilão da supinação é a falta de amortecimento natural. Como o pé é muito rígido e não destrava as articulações, o impacto sobe seco pela perna. Corredores supinadores são os reis das entorses de tornozelo, pois qualquer desnível no asfalto faz o pé virar para fora com facilidade. Também sofrem muito com canelites e fraturas por estresse nos metatarsos (os ossos do peito do pé).
Para este grupo, a regra é conforto e flexibilidade.[9] Esqueça tênis com placas de estabilidade ou suportes duros no arco.[2] O supinador precisa de “nuvens” nos pés. Tênis com muito amortecimento, entressola macia e ranhuras no solado que permitam a flexão são os ideais. O objetivo é encorajar o pé a se mover e absorver o choque que a estrutura óssea rígida não consegue dissipar sozinha.
Como Identificar Seu Tipo de Pisada Sem Sair de Casa
O Teste do Jornal Molhado
Este é um clássico que funciona muito bem para uma triagem inicial. Você vai precisar de uma folha de papel pardo ou jornal e uma bacia com água. Molhe a sola do seu pé descalço, tire o excesso e pise naturalmente sobre o papel. Fique em pé por alguns segundos com o peso distribuído e depois saia. O desenho que ficar no papel revela a geometria do seu arco.
Se o desenho mostrar quase o pé inteiro preenchido, parecendo uma panqueca larga, você tem um arco baixo e provavelmente uma pisada pronada. Se o desenho mostrar apenas o calcanhar e a ponta dos dedos, conectados por uma linha fina na lateral, você tem um arco alto e tendência à supinação. Se o desenho mostrar uma conexão moderada, com uma curva suave na parte interna, sua pisada tende a ser neutra.
Lembre-se que este teste é estático. Ele mostra como seu pé é parado. Correndo, com a carga e a velocidade, a mecânica pode mudar. Alguém com arco normal pode desabar o pé correndo se tiver glúteos fracos. Mas o teste do jornal é um excelente ponto de partida para você começar a se conhecer e filtrar as opções na loja de calçados.
A “Autópsia” do Tênis Velho
Pegue aquele seu tênis de corrida surrado que está no fundo do armário. Vire-o de cabeça para baixo e analise o desgaste da borracha do solado. O padrão de destruição da sola é um mapa histórico de como você correu nos últimos meses. É uma prova física que não mente sobre seus movimentos repetitivos.
Na pisada neutra, o desgaste começa na parte externa do calcanhar e segue uniformemente para o centro da ponta do pé.[1] Na pisada pronada, você verá um desgaste agressivo na parte interna do calcanhar e, principalmente, na parte interna do antepé, perto do dedão. Às vezes o tênis até deforma, inclinando para dentro quando você o coloca sobre uma mesa plana.
Já na pisada supinada, o desgaste se concentra exclusivamente na borda externa, do calcanhar até o dedinho.[6] A parte interna da sola costuma ficar nova, quase intocada. Se você notar que gasta muito a ponta do tênis, bem na frente, pode indicar que você corre muito na ponta dos pés, o que é uma técnica diferente e exige cuidados específicos com a panturrilha.
O Teste do Agachamento
Este teste avalia a mobilidade do seu tornozelo, que dita muito da sua pisada. Fique descalço de frente para uma parede, com os pés alinhados para frente. Tente fazer um agachamento profundo sem tirar os calcanhares do chão. Observe o que seus pés fazem e o que seus joelhos fazem enquanto você desce. Peça para alguém filmar ou faça na frente de um espelho.
Se, ao agachar, seus joelhos colapsam para dentro e os arcos dos pés somem, achatando no chão, você tem uma mecânica de pronação severa e provavelmente falta de mobilidade no tornozelo ou fraqueza nos rotadores do quadril. Seus pés estão tentando desesperadamente encontrar estabilidade “agarrando” o chão internamente.
Se você tem dificuldade de descer sem cair para trás ou se seus pés giram para fora (posição de pinguim) para conseguir descer, você pode ter rigidez de cadeia posterior típica de supinadores. Esse teste é funcional e mostra como seu corpo lida com a carga em movimento. Se você não consegue manter o alinhamento no agachamento lento, certamente não conseguirá mantê-lo a 10km/h correndo.
O Tênis Perfeito: Navegando pelas Tecnologias de 2025/2026
Amortecimento vs. Estabilidade: O Que Você Precisa?
A guerra das marcas de tênis hoje se divide basicamente nesses dois pilares. Tênis de amortecimento máximo (os “max cushion”) estão na moda. Eles têm entressolas gigantescas, parecem plataformas. São ótimos para supinadores e para quem está acima do peso ou voltando de lesão, pois diminuem o estresse ósseo. Porém, eles tiram um pouco da sensibilidade do chão.
Já os tênis de estabilidade mudaram.[2] Antigamente eles eram duros e desconfortáveis, pareciam tijolos ortopédicos. Hoje, a estabilidade é “guiada”. As marcas usam geometrias de solado mais largas na base, clipes no calcanhar e espumas de densidades diferentes que te empurram sutilmente para o alinhamento correto. São vitais para o pronador severo que sente dor no fim do treino.
Você precisa equilibrar a equação. Se você tem pisada neutra, um tênis com leve estabilidade não faz mal, mas um tênis de estabilidade rígida pode te machucar. Se você é pronador, um tênis de amortecimento excessivo e muito mole pode aumentar sua instabilidade, fazendo seu pé virar ainda mais. O segredo é: conforto imediato. Se você calçou e sentiu algo incomodando, não compre esperando amaciar. O tênis certo abraça seu pé na hora.
O Mito da Correção Total: O Tênis Cura?
Eu preciso ser muito honesta com você: nenhum tênis conserta problema biomecânico estrutural. O tênis é uma ferramenta de gerenciamento de carga, não um tratamento médico. Se você tem os glúteos fracos, o melhor tênis do mundo não vai impedir seu joelho de entrar em valgo (cair para dentro). Ele pode mitigar os danos, mas não resolve a causa raiz.
Muitas pessoas gastam fortunas em tênis de mil reais esperando que a dor no joelho suma magicamente. Isso é um erro. O tênis para pronador não “ensina” seu pé a parar de pronar, ele apenas limita mecanicamente o movimento enquanto você o usa. Assim que você tira o tênis e anda descalço em casa, o padrão volta.
Use a tecnologia a seu favor, mas não terceirize a responsabilidade. O tênis deve ser o complemento do seu fortalecimento muscular, e não o substituto. Encare o tênis de controle de pronação ou de amortecimento supinado como uma “muleta” funcional que te permite treinar enquanto você fortalece seu corpo para depender cada vez menos dela.
Drop e Flexibilidade: Detalhes que Mudam o Jogo
O “drop” é a diferença de altura entre o calcanhar e a ponta do pé.[10] Tênis tradicionais têm drops altos (10mm ou 12mm), o que favorece quem aterrissa com o calcanhar, aliviando a panturrilha mas carregando mais o joelho. Tênis com drop baixo (4mm ou zero) estimulam uma pisada mais natural com o médio pé, mas exigem muito mais flexibilidade e força da panturrilha e do tendão de Aquiles.
Para quem tem pisada supinada e arco rígido, um tênis muito flexível na parte da frente é essencial para permitir que o pé dobre e faça a impulsão. Se o solado for muito duro, o supinador vai bater o pé como uma tábua no chão. Já o pronador se beneficia de um tênis um pouco mais rígido na torção, para evitar que o calçado torça junto com o pé.
Não mude o drop do seu tênis drasticamente de uma hora para outra. Se você sempre correu com drop 10mm, passar para um drop zero vai te causar uma tendinite no Aquiles em duas semanas. A adaptação precisa ser gradual. O corpo odeia mudanças bruscas de mecânica. Respeite o histórico dos seus tendões.
Lesões Comuns e Sinais de Alerta no Seu Corpo
Fascite Plantar e Esporão: Os Vilões da Manhã
A fascite plantar é aquela dor aguda na sola do pé, perto do calcanhar, logo nos primeiros passos da manhã. Ela é muito comum em pronadores porque o desabamento do arco estica excessivamente a fáscia (o tecido que recobre a sola do pé). É como ficar puxando uma corda até ela começar a desfiar. Supinadores também têm, mas por causa da rigidez excessiva da fáscia que não amortece nada.
O esporão é a consequência, não a causa. Ele é uma calcificação óssea que se forma porque a fáscia ficou puxando o osso por meses ou anos. Trocar o tênis ajuda muito aqui. Pronadores precisam de suporte no arco para parar de esticar a fáscia.[5] Supinadores precisam de maciez para diminuir o impacto no calcanhar.
Se você sente essa dor, não insista na corrida. O tecido precisa cicatrizar. Gelo, massagem com bolinha de tênis na sola do pé e alongamento da panturrilha são medidas imediatas. Ignorar a fascite pode torná-la crônica, levando meses de tratamento chato e doloroso.
Canelite e Dores no Joelho: O Grito da Sobrecarga[2]
A famosa canelite, dor na frente ou na parte de dentro da canela, é clássica de quem usa tênis errado ou velho. No pronador, o músculo tibial posterior fica exausto tentando segurar o arco do pé e inflama a inserção no osso. É uma dor que queima e piora com o impacto. No supinador, a falta de absorção de choque faz o osso da tíbia vibrar e inflamar.
No joelho, a síndrome da banda iliotibial (dor na lateral externa do joelho) é frequente. Ela ocorre tanto por pronação excessiva, que roda a perna internamente, quanto por supinação, que joga a carga toda para a lateral.[5] É um sinal claro de que a mecânica está desalinhada.
Essas dores são avisos amarelos. Seu corpo está dizendo: “A carga está maior do que eu aguento reparar”. Se você continuar correndo com canelite tomando anti-inflamatório, o próximo passo é uma fratura por estresse. Ajustar o tipo de pisada com o calçado correto alivia instantaneamente a tensão nessas estruturas, permitindo que elas se recuperem enquanto você treina mais leve.
Entorses de Repetição: A Instabilidade Oculta
Quem pisa supinado (para fora) vive com medo de torcer o pé. E com razão. Como o peso já está na borda externa, qualquer pedrinha vira uma alavanca para virar o pé de vez. Isso estira os ligamentos laterais do tornozelo. Com o tempo, esses ligamentos ficam frouxos e você começa a torcer o pé até andando na calçada plana.
A instabilidade crônica de tornozelo altera toda a sua propriocepção (a capacidade do cérebro saber onde o pé está). Você passa a correr tenso, com medo, travando a musculatura. Isso gasta uma energia absurda e muda sua técnica de corrida para pior.
Para esses casos, tênis com a base do solado mais larga (flared sole) são ótimos, pois aumentam a área de contato com o chão e dificultam a virada do pé. Fuja de tênis muito altos e estreitos se você tem histórico de entorses. Você precisa sentir o chão para ter segurança.[5]
Treinamento e Fortalecimento: Muito Além do Tênis[3][4][5]
O Pé é um Músculo: Exercícios para o Arco Plantar
Você treina quadríceps, treina panturrilha, mas já treinou os músculos intrínsecos do seu pé? Eles são a base de tudo. Exercícios simples como tentar pegar uma toalha no chão usando apenas os dedos dos pés ou tentar levantar apenas o dedão mantendo os outros dedos no chão (e vice-versa) são poderosos.
Para pronadores, fortalecer o músculo tibial posterior é lei. Ele é o principal sustentador do arco. Fazer elevação de calcanhar com uma bolinha de tênis apertada entre os tornozelos ajuda a ativar esse músculo. Se você fortalece o pé, você depende menos do tênis para te segurar.
Para supinadores, o foco é mobilidade. Soltar a fáscia plantar, massagear a sola do pé e mobilizar os ossos do mediopé para que eles ganhem movimento. Um pé forte e funcional é capaz de corrigir, sozinho, boa parte dos desvios de pisada.
Propriocepção: Ensinando seu Corpo a Pisar[3]
Propriocepção é o treino de equilíbrio. Quando você fica em um pé só em cima de uma superfície instável (como uma almofada ou bosu), você obriga seu cérebro a recalibrar a posição do tornozelo mil vezes por segundo. Isso é vital para corredores.
Melhorar sua propriocepção faz com que seus reflexos sejam mais rápidos. Se você pisar num buraco, seu músculo reage antes que o ligamento rompa. Isso também ajuda a controlar a pronação excessiva de forma dinâmica, muscular, e não apenas passiva pelo tênis.
Inclua 5 minutos de exercícios de equilíbrio antes de correr. Ficar em pé numa perna só enquanto escova os dentes também conta. Parece bobo, mas constrói uma estabilidade de aço para seus tornozelos e joelhos.
A Regra dos 10%: Evitando o “Too Much, Too Soon”
A maior causa de lesões não é a pisada pronada ou supinada, é o erro de dosagem. O entusiasmo faz a gente querer dobrar a distância de uma semana para a outra. O sistema cardiovascular evolui rápido, mas tendões e ligamentos são lentos, têm pouca irrigação sanguínea.
Respeite a regra de não aumentar mais de 10 por cento do volume semanal de treino. Se você correu 20km nesta semana, na próxima corra no máximo 22km. Isso dá tempo para seu corpo adaptar a estrutura óssea e o tecido conectivo à carga.
Mesmo com o tênis perfeito para sua pisada, se você violar essa regra biológica, você vai se machucar. O tênis é um aliado, não um milagreiro. A paciência e a consistência são as melhores amigas do corredor de longa data.
Para finalizar, é importante falar sobre as abordagens terapêuticas que utilizamos no consultório para lidar com as questões de pisada. Como fisioterapeuta, minha primeira ferramenta é a Baropodometria Computadorizada. É um exame onde você caminha sobre uma plataforma cheia de sensores que me mostra exatamente onde você descarrega mais peso e como é o seu centro de gravidade. Isso tira o “achismo” da jogada e nos dá dados precisos.
Em termos de tratamento manual, utilizamos muito a Liberação Miofascial. Para pronadores, soltamos a tensão na panturrilha e nos tibiais que ficam sobrecarregados. Para supinadores, focamos em soltar a fáscia plantar e a lateral da perna (fíbula) para dar mais mobilidade. A Osteopatia e a Terapia Manual também são fantásticas para manipular as articulações do pé e do tornozelo que estão bloqueadas, devolvendo o movimento natural que o tênis sozinho não consegue restaurar.
Por último, quando o tênis e o fortalecimento não são suficientes, entramos com as Palmilhas Posturais Sob Medida. Diferente das palmilhas prontas de farmácia, estas são moldadas no seu pé para corrigir a biomecânica específica do seu caso. Elas redistribuem a pressão e alinham o eixo da perna. Mas lembre-se: a palmilha, assim como o tênis, funciona melhor quando acompanhada de um bom programa de exercícios. Seu corpo é uma máquina adaptável e, com o cuidado certo, você pode correr por toda a vida.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”