Tênis de Corrida: O drop do calçado realmente influencia na sua biomecânica?

Tênis de Corrida: O drop do calçado realmente influencia na sua biomecânica?

Se você já entrou em uma loja de artigos esportivos recentemente ou navegou por sites de corrida, provavelmente se sentiu bombardeado por termos técnicos. Amortecimento responsivo, placa de carbono, cabedal em malha engenheirada e, claro, o famoso “drop”. É muito comum ver corredores, desde os iniciantes até os maratonistas experientes, coçando a cabeça diante dessa especificação técnica. Afinal, será que esses milímetros de diferença na sola do tênis realmente mudam a forma como seu corpo se move? Como fisioterapeuta, vejo essa dúvida quase diariamente no consultório, geralmente acompanhada de uma lesão que “apareceu do nada” depois da troca de um calçado.

A verdade é que o marketing das grandes marcas adora criar narrativas. Ora o vilão é o tênis minimalista, ora é o tênis maximalista com saltos gigantescos. No meio dessa guerra de informações, você fica sem saber se deve correr quase descalço para “fortalecer o pé” ou se deve usar um “colchão” nos pés para proteger os joelhos. A biomecânica, no entanto, é uma ciência que não se curva a modismos. Ela nos mostra que o equipamento altera sim as forças que atuam no seu corpo, mas talvez não da maneira mágica ou catastrófica que as propagandas sugerem.

Neste artigo, vamos mergulhar fundo na anatomia da sua corrida. Vamos deixar de lado os “achismos” e focar no que acontece com seus músculos, tendões e articulações quando você altera a inclinação do seu pé. Quero que você termine esta leitura não apenas sabendo o que é drop, mas entendendo como usar essa informação a favor da sua longevidade no esporte. Prepare-se para olhar para seus tênis velhos de guerra com outros olhos.

O Que é Esse Tal de “Drop”?

O conceito de drop é surpreendentemente simples, embora cause muita confusão. Tecnicamente, ele é a diferença de altura entre a base do calcanhar e a base do antepé (a parte da frente onde ficam os dedos).[1][2] Imagine que o calcanhar do seu tênis tem 30 milímetros de espessura de sola e a ponta tem 20 milímetros. A conta é básica: 30 menos 20 resulta em um drop de 10 milímetros. É a inclinação da rampa onde seu pé está apoiado lá dentro.[1] Se essa diferença fosse zero, seu pé estaria plano em relação ao chão, como se você estivesse descalço no piso da sala.

Muita gente confunde drop com a altura total do amortecimento, o que chamamos de “stack height”. Você pode ter um tênis muito alto, com uma sola grossa e macia (maximalista), e ainda assim ter um drop zero, se a altura for igual na frente e atrás. Por outro lado, um tênis pode ser baixinho, rente ao chão, mas ter um salto elevado atrás, configurando um drop alto.[3][4] Entender essa distinção é vital porque o amortecimento absorve o impacto vertical, mas o drop dita o ângulo de trabalho do seu tornozelo. É esse ângulo que vai determinar quais músculos vão trabalhar hora extra e quais vão tirar folga durante a sua corrida.

Por que os fabricantes mexem tanto nisso? Historicamente, os tênis de corrida foram desenvolvidos com drops altos (10mm a 12mm) para “proteger” o tendão de Aquiles e a panturrilha, transferindo a carga para cima. Com o movimento do “natural running” anos atrás, a indústria foi para o oposto, vendendo a ideia de que drops baixos eram a salvação. Hoje, vivemos um meio-termo interessante. A variedade existe para atender a diferentes mecânicas corporais, não porque um número é superior ao outro. O segredo está em saber como essa inclinação conversa com a sua anatomia única.

A Definição Técnica Além dos Milímetros

Quando falamos da definição técnica, precisamos ir além da régua. O drop não é apenas uma medida estática; ele tem um comportamento dinâmico. Quando você corre, a espuma do tênis se comprime com o peso do seu corpo. Se você pisa com muita força no calcanhar, um drop que era de 10mm pode virar momentaneamente 6mm dependendo da densidade da espuma traseira. Isso significa que o drop “real” durante a corrida pode variar de acordo com o material da entressola e o seu peso corporal. Um corredor mais pesado vai comprimir mais a espuma, alterando a angulação de trabalho do tornozelo a cada passo.

Além disso, a geometria do tênis influencia como esse drop é percebido. Alguns calçados possuem o que chamamos de “rocker”, aquela curvatura na ponta e no calcanhar que faz o tênis parecer uma cadeira de balanço. Mesmo com um drop baixo, um rocker agressivo pode facilitar a transição da passada, simulando o efeito de propulsão que normalmente associamos a drops mais altos ou a uma panturrilha forte. Portanto, olhar apenas para o número “8mm” ou “4mm” na caixa é uma visão simplista. Você precisa entender como a estrutura do calçado interage com essa inclinação.[1]

Por fim, é crucial entender que o drop altera o comprimento funcional da sua unidade músculo-tendínea da panturrilha. Pense na panturrilha e no tendão de Aquiles como um elástico. Quando você eleva o calcanhar (drop alto), você aproxima as pontas desse elástico, deixando-o mais frouxo inicialmente. Quando você abaixa o calcanhar (drop baixo), você estica esse elástico. Biomecanicamente, isso muda a pré-tensão muscular antes mesmo de você dar o primeiro passo. É essa pré-tensão que define a capacidade do seu tendão de armazenar e liberar energia elástica, funcionando como uma mola natural.

Diferença entre Drop e Amortecimento[1][2][3][4][5][6][7][8][9]

Essa é a confusão campeã no meu consultório. O paciente chega com dor na canela e diz: “Mas eu comprei o tênis com o maior amortecimento da loja!”. Amortecimento é sobre absorção de choque, é a capacidade do material de deformar e dissipar a energia do impacto contra o solo. Drop é sobre geometria e postura. Você pode ter um tênis duro como uma pedra com drop alto, e um tênis macio como uma nuvem com drop zero. Eles vão gerar adaptações biomecânicas completamente diferentes no seu corpo.

O amortecimento tenta proteger suas estruturas ósseas e articulares da força bruta do impacto vertical. Ele é ótimo para quem corre em superfícies muito duras ou tem um volume de treino muito alto, pois reduz a vibração que sobe pela tíbia. Já o drop atua como um gerenciador de distribuição de carga.[2][4] Ele decide para onde essa força vai. Um tênis muito amortecido pode mascarar uma técnica de corrida ruim, permitindo que você bata o calcanhar com força no chão sem sentir dor imediata no pé, mas enviando uma onda de choque para o joelho e quadril.

Portanto, ao escolher um tênis, você tem que pensar nessas duas variáveis de forma separada, mas integrada. Se você tem histórico de fratura por estresse, talvez o amortecimento seja sua prioridade. Se o seu problema é tendinite de Aquiles recorrente, o drop passa a ser o protagonista da sua escolha.[3] Não adianta ter o melhor amortecimento do mundo se o drop está colocando seu tendão lesionado em uma posição de estiramento máximo a cada passada. É como colocar um travesseiro macio em uma cama quebrada: ajuda, mas não resolve o problema estrutural.

Por Que os Fabricantes Mudam Tanto Isso?

A indústria de tênis de corrida é movida por inovação, mas também por tendências de mercado. Nas décadas de 80 e 90, a crença era de que precisávamos de muito suporte no calcanhar para evitar lesões, o que padronizou o drop em torno de 12mm. A lógica era: “o corredor recreativo não tem técnica, então vamos colocar um bloco de espuma no calcanhar para ele aterrissar lá com segurança”. Isso criou gerações de corredores que atacam o solo com o calcanhar muito à frente do corpo, uma mecânica facilitada pelo calçado.

Depois veio o livro “Nascido para Correr” e a febre do minimalismo. De repente, os fabricantes começaram a cortar os drops para 4mm ou 0mm, prometendo uma corrida “natural”. O problema é que pegaram pessoas adaptadas a 30 anos de drop alto e as colocaram em sapatos planos. O resultado? Uma epidemia de lesões na panturrilha e no pé.[6] Agora, vemos o pêndulo voltando ao centro. A maioria dos tênis diários hoje fica entre 8mm e 10mm, e os tênis de performance variam entre 5mm e 8mm. As marcas perceberam que extremos funcionam para nichos, mas a maioria da população precisa de um meio-termo.

Além disso, a tecnologia das espumas mudou o jogo. As novas super espumas (PEBAX, etc.) são tão leves e responsivas que permitem aos fabricantes criar solas gigantescas sem adicionar peso excessivo. Isso permitiu brincar mais com o drop. Eles podem fazer um tênis de 40mm de altura no calcanhar e 32mm na frente (drop 8mm) que pesa menos que um tênis baixo de dez anos atrás. Essa liberdade de engenharia significa que o drop agora é apenas uma ferramenta no arsenal de design, usada para ajustar a “personalidade” do tênis: mais agressivo para a frente ou mais estável para trás.

Drop Alto vs. Drop Baixo: A Batalha Biomecânica

Vamos ao que interessa: como isso muda sua corrida na prática. A principal lei da biomecânica que você precisa gravar é: “A energia não desaparece, ela se transfere”. Quando você muda o drop, você não está eliminando a carga da corrida, você está apenas mudando o CEP de onde ela vai chegar. Se você tira a carga do joelho, ela tem que ir para algum lugar, geralmente para o tornozelo. Se você alivia o tornozelo, o joelho e o quadril pagam a conta. Não existe almoço grátis na física da corrida.

Um drop mais alto facilita a aterrissagem com o retropé (calcanhar).[2][9] O calcanhar do tênis chega ao chão antes do seu calcanhar real, o que convida o corpo a aceitar o peso ali atrás. Isso aumenta a dorsiflexão (dedos apontados para cima) no momento do contato. Já o drop baixo exige que você aterrissar com o pé mais plano ou com a parte da frente, pois não há aquele “salto” para encontrar o chão primeiro. Essa mudança sutil de ângulo altera toda a cadeia cinética, desde a ativação dos músculos intrínsecos do pé até a inclinação do seu tronco.

Entender essa batalha é fundamental para quem quer fugir das lesões cíclicas. Sabe aquele corredor que cura o joelho e machuca a panturrilha, cura a panturrilha e machuca o quadril? Muitas vezes ele está trocando de tênis aleatoriamente sem entender essa balança de cargas. Ao manipular conscientemente o drop, podemos usar o calçado como uma ferramenta terapêutica, aliviando tecidos sobrecarregados enquanto fortalecemos outras áreas. É estratégia pura, não sorte.

Drop Alto (>8mm): Proteção ou Muleta?

Tênis com drop acima de 8mm ou 10mm são considerados tradicionais.[3][10] Eles colocam o tornozelo em uma leve flexão plantar (ponta do pé para baixo) em repouso. Isso retira tensão mecânica do tendão de Aquiles e dos músculos da panturrilha (gastrocnêmio e sóleo). Para corredores que sofrem com tendinites no Aquiles, fascite plantar ou estiramentos frequentes na panturrilha, esse drop é um verdadeiro alívio. Ele atua reduzindo a amplitude de movimento necessária nessas estruturas durante a passada.

No entanto, essa “ajuda” tem um custo. Ao favorecer a aterrissagem com o calcanhar, o drop alto tende a transferir o impacto para as estruturas ósseas superiores.[2] Estudos mostram que corredores que aterrissam agressivamente com o calcanhar sofrem maior torque no joelho e no quadril. A tíbia anterior (o músculo na frente da canela) também trabalha mais para controlar a descida do pé após o toque do calcanhar, o que pode levar à famosa canelite. Se você tem joelhos frágeis ou condromalácia, um drop muito alto pode estar exacerbando seus sintomas sem você perceber.

A pergunta “proteção ou muleta?” depende do contexto. Se usado temporariamente para aliviar uma lesão aguda no tendão, é proteção. Se usado cronicamente sem nenhum trabalho de fortalecimento, pode virar uma muleta que enfraquece a função natural do seu pé e encurta sua cadeia posterior. O corpo se adapta ao que oferecemos a ele. Se você sempre dá um salto alto para ele, a musculatura da panturrilha pode perder a capacidade de alongar e gerar força em amplitudes maiores, tornando você dependente desse tipo de calçado para sempre.

Drop Baixo (<4mm): A Busca Pelo “Natural”[10]

No canto oposto do ringue, temos os drops baixos, geralmente entre 0mm e 4mm.[11] A filosofia aqui é interferir o mínimo possível. Com o pé plano, a tendência natural do corpo é encurtar a passada e aterrissar com o médio-pé ou antepé. Isso acontece porque aterrissar com o calcanhar sem aquele acolchoamento extra é desconfortável e o corpo se auto-ajusta para evitar a dor. Essa mecânica de aterrissagem frontal é excelente para absorver impacto usando os músculos, não os ossos.

O preço a se pagar aqui é uma exigência brutal da cadeia posterior. Panturrilhas, tendão de Aquiles e a fáscia plantar precisam trabalhar dobrado para controlar a descida do calcanhar ao solo (fase excêntrica) e depois impulsionar o corpo à frente. Se você não tiver mobilidade de tornozelo suficiente ou força na panturrilha, a troca repentina para um drop baixo é quase uma garantia de lesão. É muito comum eu receber pacientes que compraram um tênis “zero drop” porque leram que era melhor e ganharam uma tendinopatia de Aquiles em duas semanas.

Por outro lado, para quem tem problemas crônicos de joelho (como a síndrome da dor patelofemoral), a transição cuidadosa para drops mais baixos pode ser milagrosa. Ao mudar a aterrissagem para o antepé, reduzimos drasticamente a carga no joelho. A corrida se torna mais fluida, com menos frenagem a cada passo. O segredo é que esse “natural” precisa ser reconquistado. Passamos a vida usando sapatos com salto (mesmo sapatos sociais e botas têm drop), então nossa anatomia “civilizada” precisa de tempo para voltar a funcionar como a natureza planejou.

A Lei da Redistribuição de Carga

Aqui chegamos ao ponto central da minha prática clínica. Não existe drop certo ou errado, existe o drop que joga a carga para onde você aguenta carregar. Imagine que a carga da corrida é uma mochila pesada de 20kg. O drop alto coloca 15kg dessa mochila nos seus joelhos e quadris e 5kg nos seus tornozelos. O drop baixo inverte o jogo: coloca 15kg nos tornozelos e panturrilhas e apenas 5kg nos joelhos. Qual é a melhor opção? Depende de onde você é mais forte ou de onde você está machucado.

Essa redistribuição de carga é a chave para a prescrição de tênis. Se você é um corredor com histórico de lesões no menisco ou desgaste na cartilagem do joelho, eu provavelmente vou te incentivar a experimentar drops menores gradualmente, para poupar essa articulação. Agora, se você é alguém com histórico de ruptura de Aquiles ou fascite plantar crônica, eu vou te manter longe dos drops baixos até que tenhamos certeza absoluta de que sua estrutura aguenta, e talvez prefira mantê-lo em drops médios a altos para sempre.

É importante notar que essa lei funciona também para a performance.[2] Músculos cansados perdem eficiência. Em provas de longa distância, como maratonas, alguns atletas preferem drops um pouco mais altos porque, quando a fadiga bate no km 35 e a técnica desmorona, aquele suporte extra no calcanhar ajuda a poupar as panturrilhas que já estão gritando. Já em provas curtas e rápidas de 5km, a agressividade e a reatividade de um drop baixo podem ser mais vantajosas para maximizar a propulsão. Você deve pensar no drop como uma ferramenta de gestão de energia.

A Importância da Cadência e da Técnica[1]

Mudar o tênis sem mudar a técnica é como colocar pneus de Fórmula 1 em um fusca e esperar que ele corra a 300km/h. O tênis é apenas a interface entre você e o chão; quem corre é você. O drop influencia sua biomecânica, mas a sua cadência (número de passos por minuto) e a sua postura influenciam muito mais.[1] Muitas vezes, o problema não é o drop de 10mm ou 4mm, mas o fato de você estar dando passadas gigantes e lentas, o que chamamos de overstriding.

Quando você dá passos muito longos, seu pé aterrissa muito à frente do seu centro de gravidade. Isso atua como um freio, gerando uma força contrária ao seu movimento. Não importa o drop do tênis, se você fizer isso, vai se machucar. O ajuste da técnica, muitas vezes, torna a questão do drop secundária. Um corredor com boa técnica consegue correr de forma eficiente e segura com praticamente qualquer calçado, pois ele sabe como amortecer o impacto usando o corpo, independentemente do que está calçando.

Focar apenas no equipamento é uma armadilha comum.[1] Vejo corredores gastando fortunas em tênis importados na esperança de resolverem suas dores, quando o investimento deveria ser em aprender a correr. A biomecânica eficiente envolve o corpo todo: o balanço dos braços, a inclinação do tronco, a ativação do glúteo. O tênis é a cereja do bolo, não o bolo inteiro. Vamos entender como integrar o drop com a técnica correta.

O Mito da Pisada Perfeita

Existe uma obsessão no mundo da corrida com a “pisada perfeita”, muitas vezes vendida como a aterrissagem com o antepé (ponta do pé). Muitos gurus dizem que tocar o calcanhar no chão é um pecado mortal. Isso não é verdade. A grande maioria dos maratonistas de elite aterrissa com o calcanhar ou com o médio-pé, especialmente quando estão cansados. O problema não é tocar o calcanhar, é tocar o calcanhar longe do corpo e com o joelho totalmente esticado.

Se você aterrissa com o calcanhar, mas o pé está próximo ao seu centro de massa (embaixo do quadril) e o joelho está levemente flexionado, essa é uma pisada segura. O drop do tênis pode influenciar qual parte toca primeiro, mas a segurança vem da posição do joelho e da tíbia. Tentar forçar uma pisada de ponta de pé artificialmente, só porque disseram que é “certo”, geralmente leva a tensões excessivas nos metatarsos e fáscia plantar.

A sua pisada perfeita é aquela que seu corpo escolhe naturalmente quando você está correndo de forma relaxada e eficiente. O drop deve acomodar essa pisada, não tentar forçá-la a ser outra coisa. Se você aterrissa de calcanhar e se sente bem, um drop médio a alto (8-10mm) vai tornar essa mecânica mais suave.[3] Se você luta contra o tênis para aterrissar de frente, aí sim temos um problema de compatibilidade que precisa ser resolvido.

Aumentando a Cadência para Reduzir Impacto[9]

Se eu pudesse dar apenas uma dica para prevenir lesões, seria: aumente sua cadência. A cadência é a frequência dos seus passos. A maioria dos corredores amadores corre com uma cadência baixa, algo em torno de 150 a 160 passos por minuto (ppm), dando passadas longas e saltitantes. Isso aumenta muito o impacto vertical a cada aterrissagem e a dependência do amortecimento e do drop do tênis.

Quando você aumenta sua cadência para algo mais próximo de 170 ou 180 ppm (não precisa ser exato, apenas “mais rápido”), seus passos ficam mais curtos. Com passos curtos, é quase impossível aterrissar com o pé muito à frente do corpo. O pé cai naturalmente embaixo de você. E sabe o que acontece magicamente? A influência do drop diminui.[7][11] Com a passada curta e rápida, o tempo de contato com o solo é menor e a aterrissagem tende a ser mais chapada (médio-pé), independentemente se o tênis tem drop 10 ou drop 0.

Manipular a cadência é uma intervenção fisioterapêutica poderosa. Ela reduz a carga no joelho e no quadril de forma mais eficaz do que qualquer tênis caro. Antes de culpar o drop do seu calçado pelas suas dores, tente correr com um metrônomo ou uma playlist de músicas com batida mais rápida. Você vai perceber que a corrida fica mais leve e o debate sobre “qual drop usar” se torna menos crítico, pois sua mecânica está protegendo suas articulações.

O Papel da Propriocepção[3][8]

Propriocepção é a capacidade do seu corpo de sentir onde ele está no espaço. Nos pés, temos milhares de terminações nervosas que leem o terreno e avisam o cérebro como ajustar a tensão muscular para não torcer o pé. Tênis com muito amortecimento e drops altos, muitas vezes, “adormecem” essa comunicação. É como tentar ler braille usando luvas de boxe. O excesso de espuma filtra as informações do solo.

Tênis com drop menor e, geralmente, menos estrutura (embora existam tênis de drop zero maximalistas), tendem a melhorar essa percepção sensorial. Quando você sente melhor o impacto, você corre de forma mais suave instintivamente. É o reflexo de proteção: se você correr descalço no asfalto, não vai socar o calcanhar no chão porque dói. Você vai pisar macio. Tênis com drop baixo tentam resgatar um pouco dessa sabedoria corporal.

Incorporar treinos de propriocepção descalço em casa ou na grama ajuda a “ligar” esses sensores. Isso fortalece os músculos intrínsecos do pé, aqueles pequenininhos que sustentam o arco plantar. Um pé forte e inteligente lida melhor com qualquer tipo de drop. Se o seu pé é fraco e “cego” (sem propriocepção), você fica refém da estabilidade que o tênis oferece. O objetivo é que o tênis seja um parceiro, não uma muleta permanente.

Avaliação Fisioterapêutica na Escolha do Calçado

Não adianta chutar qual é o melhor tênis para você. O que funcionou para o seu amigo que corre maratonas pode ser veneno para a sua biomecânica. Como fisioterapeuta, defendo que a escolha do calçado deve ser baseada em dados, não apenas na cor bonita ou no preço. Uma avaliação funcional pode revelar limitações no seu corpo que ditam qual drop você vai tolerar melhor.

Muitas vezes, a necessidade de um drop alto é resultado de uma restrição física que pode ser tratada. Se você não tem mobilidade no tornozelo, você precisa do drop alto para correr. Mas será que você quer depender disso para sempre ou prefere ganhar mobilidade e ter liberdade de escolha? A avaliação serve para traçar esse mapa: onde você está hoje e para onde seu corpo pode ir com o treinamento certo.

A seguir, explico três pilares da avaliação que fazemos no consultório para ajudar nessa decisão. São testes que mostram a realidade nua e crua da sua capacidade de movimento, sem filtros de marketing.

Análise de Marcha em Vídeo

A ferramenta mais honesta que temos é a câmera lenta. Colocar o paciente na esteira, filmar de lado e de costas, e depois assistir frame a frame é revelador. A olho nu, tudo parece rápido demais. No vídeo, conseguimos medir o “ângulo de ataque” do pé no solo, a flexão do joelho no momento do impacto e se há colapso do arco plantar (pronação excessiva) ou do quadril.

Nessa análise, podemos ver claramente o efeito do drop.[8] Às vezes, coloco o paciente para correr com um tênis de drop 10mm e depois com um de drop 4mm. A diferença na postura é visível. Com o drop baixo, muitas vezes o tronco inclina um pouco mais à frente e o joelho flexiona mais. Com o drop alto, a postura fica mais ereta. Ao ver isso, discutimos: “Olha, com esse tênis baixo seu joelho está protegido, mas repare como seu calcanhar desce muito, esticando o Aquiles. Seu tendão aguenta isso?”.

A análise de vídeo tira o “eu acho” da equação. Ela mostra como o seu corpo reage à geometria do tênis. Às vezes, o corredor acha que está aterrissando com o antepé, mas o vídeo mostra um “heel strike” (toque de calcanhar) severo. Isso muda toda a estratégia de escolha do calçado. É a prova real de como a biomecânica está acontecendo na prática.

Testes de Mobilidade de Tornozelo

Este é o divisor de águas. O teste mais comum é o “Knee to Wall” (Joelho na Parede). Você fica de frente para uma parede, apoia o pé no chão e tenta encostar o joelho na parede sem tirar o calcanhar do solo. Se você precisa afastar o pé muito pouco da parede para conseguir (menos de 10cm, por exemplo), você tem uma dorsiflexão limitada. Seu tornozelo é rígido.

Se você tem tornozelo rígido, um tênis de drop baixo é perigoso para você no curto prazo.[3] Como seu tornozelo não dobra o suficiente para a frente, seu corpo vai compensar jogando o pé para dentro (pronação excessiva) ou levantando o calcanhar antes da hora, sobrecarregando a fáscia plantar. Para esse perfil, um drop de 8mm a 12mm é quase obrigatório para permitir uma corrida fluida sem compensações lesivas.

Por outro lado, se você tem ótima mobilidade (consegue afastar o pé mais de 12-15cm da parede), você tem “licença poética” para usar drops baixos com segurança. Sua articulação tem amplitude livre para absorver a carga excêntrica que o tênis plano exige. Saber a sua medida de dorsiflexão é o dado mais importante para decidir o drop do seu próximo tênis.

Avaliação de Força Muscular Específica

Mobilidade sem força é instabilidade. Não basta ter um tornozelo flexível; é preciso ter panturrilhas de aço. No consultório, testamos a resistência da panturrilha pedindo para o paciente ficar na ponta de um pé só (elevação plantar unipodal). Um corredor saudável deve conseguir fazer pelo menos 25 repetições com boa qualidade, subindo bem alto e descendo devagar, sem perder o equilíbrio.

Se você fadiga na décima repetição, suas panturrilhas não estão prontas para suportar a carga de um drop baixo em uma corrida de 10km. Lembre-se: o drop baixo joga a carga para a panturrilha. Se ela é fraca, essa carga vai para o tendão de Aquiles ou para o osso (fratura por estresse). Nesse caso, a indicação é manter um drop moderado enquanto fazemos um protocolo intenso de fortalecimento.[3]

Também avaliamos a força do glúteo médio e do quadríceps. Se o seu glúteo é fraco, seu joelho tende a cair para dentro (valgo dinâmico). Um tênis instável ou muito macio pode piorar isso.[3] A avaliação de força nos diz se o seu “chassi” aguenta o motor que você quer colocar. Sem força de base, discutir drop é como discutir a aerodinâmica de um carro com o motor fundido. Primeiro consertamos a força, depois ajustamos o fino da biomecânica.

Terapias e Considerações Finais

Depois de toda essa análise, como tratamos as questões que surgem dessas escolhas? Se você está com dores causadas por uma escolha errada de drop ou quer fazer a transição, a fisioterapia tem um arsenal específico.

Para quem sofreu com a transição abrupta para drops baixos e está com tendinopatia de Aquiles ou fascite plantar, o foco inicial é a gestão de carga. Não adianta apenas alongar. Usamos exercícios isométricos (fazer força sem movimento) para analgesia e, progressivamente, exercícios excêntricos e pliométricos para remodelar o tendão. A terapia manual, como liberação miofascial da panturrilha e da planta do pé, ajuda a soltar a tensão acumulada, mas o que cura tendão é exercício de força. Muitas vezes, recomendamos voltar temporariamente para um tênis de drop mais alto ou usar uma calcanheira de silicone dentro do tênis baixo para aliviar a tensão enquanto tratamos.

Para quem corre com drop alto e sofre com dores no joelho (síndrome patelofemoral), o trabalho foca no fortalecimento do quadril (glúteo médio e máximo) para melhorar o controle da perna na aterrissagem. Além disso, o retreinamento de marcha é essencial. Usamos metrônomos para aumentar a cadência e pistas visuais (como correr na frente de um espelho) para corrigir o overstriding. Nesse caso, a transição gradual para um tênis com drop menor (talvez um 6mm ou 8mm) pode ser parte da terapia para tirar a sobrecarga mecânica do joelho.

A mensagem que quero deixar para você é de empoderamento. O drop do tênis influencia sua biomecânica, sim, mas você não é refém dele. Ele é uma ferramenta. Use drops mais altos quando quiser proteger a panturrilha ou em dias de recuperação. Use drops mais baixos para treinos de técnica, fortalecimento do pé ou se seu joelho pedir arrego. O melhor tênis não é o que a revista diz, é aquele que, quando você coloca no pé e corre, você esquece que está usando. Se o tênis some do seu pensamento durante o treino, é sinal de que ele está trabalhando em harmonia com o seu corpo. Escute seus pés, fortaleça suas pernas e bons treinos!

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