Você conhece bem a cena. Tenta aquele 360 flip a prancha gira errado e a borda do shape encontra violentamente o meio da sua canela. A dor é instantânea aguda e faz você ver estrelas enquanto se joga no chão segurando a perna. Ou talvez a sua dor seja diferente. Aquela queimação chata na frente da perna que começa depois de uma hora de sessão no asfalto áspero e não te deixa dormir à noite. Como fisioterapeuta acostumado a tratar skatistas eu sei que a sua canela é o para-choque da sua paixão. Mas precisamos cuidar dela com inteligência clínica e não apenas com gelo e teimosia.
A cultura do skate muitas vezes valoriza a resistência à dor como uma medalha de honra. No entanto ignorar o que acontece com o osso da sua perna pode te tirar do rolê por meses. A canela ou tíbia é um osso muito exposto com pouca proteção muscular na parte da frente. Quando falamos de “canela batida” ou canelite estamos falando de agressões diretas a um tecido chamado periósteo. Ele é a capa que envolve o osso e é extremamente vascularizado e cheio de nervos. Por isso dói tanto.
Neste artigo vamos dissecar o que acontece na sua perna do ponto de vista fisiológico e biomecânico. Vou te passar o mapa para tratar essas lesões chatas sem precisar parar de andar para sempre. Vamos falar de tratamento real de ajustes no seu setup e de como preparar seu corpo para aguentar o impacto do concreto. Chega de mancar por aí fingindo que está tudo bem. Vamos resolver isso.
Entendendo a Dor: Trauma Direto versus Estresse Repetitivo
A diferença clínica entre a pancada do shape e a canelite por esforço
É crucial diferenciar os dois tipos de dor que acometem a canela do skatista de street. O primeiro é o trauma direto contuso. É quando o skate bate na perna. Isso gera um dano localizado com ruptura de vasos sanguíneos e esmagamento de tecido mole contra o osso duro. A dor é pontual existe inchaço imediato e muitas vezes um corte ou escoriação. Esse é o clássico “shark bite” ou mordida do shape.
O segundo tipo é a periostite por esforço também conhecida como canelite. Essa não vem de uma pancada única mas do acúmulo de vibração e tração muscular. Quando você anda em asfalto rugoso com rodas duras a vibração sobe pela perna. Além disso o músculo da frente da canela puxa a capa do osso repetidamente a cada batida de tail. Isso gera uma inflamação difusa ao longo da borda do osso.
Saber qual das duas você tem muda o tratamento. O trauma direto exige gestão do sangramento e do hematoma. A periostite por esforço exige revisão da biomecânica fortalecimento e descanso ativo. Muitas vezes você tem os dois ao mesmo tempo o que torna o quadro clínico uma bagunça inflamatória que precisamos organizar.
Anatomia do periósteo: A pele sensível do seu osso
Imagine que seu osso é revestido por uma película muito fina parecida com a pele de uma cebola. Esse é o periósteo. Ele é responsável por levar sangue para o osso e é onde as novas células ósseas são produzidas em caso de fratura. O problema é que essa película é rica em terminações nervosas livres nociceptivas ou seja receptores de dor.
Quando o shape bate na sua canela ele esmaga essa película contra a matriz óssea dura. Isso causa uma reação inflamatória violenta. O corpo envia sangue para a região para tentar curar mas como não há espaço para o inchaço expandir (pois a pele ali é muito esticada) a pressão aumenta. Essa pressão sobre os nervos é o que causa aquela dor latejante que parece que o osso vai explodir.
Em casos de estresse repetitivo a inflamação acontece porque os músculos que se prendem nesse periósteo ficam puxando ele excessivamente. É como se você ficasse puxando a toalha de uma mesa. Uma hora a toalha rasga ou a mesa vira. No seu caso o periósteo descola milimetricamente do osso criando bolsas de inflamação.
Diferenciando hematoma subperiosteal de fratura por estresse
Um dos maiores medos é saber se a dor é apenas uma batida ou se o osso trincou. Um hematoma subperiosteal é quando o sangue coagula por baixo dessa capa do osso. Ele forma um caroço duro que pode demorar meses para sair. Ele é doloroso ao toque mas geralmente permite que você pise no chão e ande.
Já a fratura por estresse é uma falha na estrutura do osso devido à fadiga do material. A dor da fratura costuma ser muito mais profunda e piora com o impacto vertical como pular corda ou aterrissar uma manobra mesmo sem bater o skate na perna. Se a dor persiste mesmo em repouso ou acorda você à noite é um sinal de alerta vermelho.
Na dúvida o teste de vibração pode ajudar. Coloque um diapasão ou até mesmo o celular vibrando sobre o osso longe da área dolorida. Se a vibração viajar pelo osso e causar uma dor aguda no local da lesão existe chance de fratura. Nesse caso o raio-x é obrigatório. Se for apenas hematoma a dor é mais local e superficial.
Primeiros Socorros no Spot: O Que Fazer na Hora da Pancada
O controle imediato da hemorragia interna com crioterapia
Acabou de bater? Pare. Eu sei que a vontade é sair andando para “esfriar a cabeça” e mostrar que é duro na queda mas fisiologicamente você precisa estancar o sangramento interno. Os primeiros 10 minutos são cruciais. Se você aplicar gelo ou água gelada imediatamente você contrai os vasos sanguíneos (vasoconstrição) e limita o tamanho do hematoma.
Se você continua andando o coração bombeia mais sangue as pernas esquentam e o sangramento aumenta. Isso vai resultar em um “galo” gigante que vai demorar o triplo do tempo para sumir. Coloque gelo direto no spot se tiver ou compre uma água gelada e encoste na perna.
Não coloque calor nessas primeiras 48 horas. O calor dilata os vasos e aumenta o inchaço. A fase aguda é guerra fria. Gelo por 20 minutos a cada duas horas nas primeiras 24 horas é o padrão ouro para limitar o dano tecidual inicial.
Por que você não deve massagear o local da batida logo em seguida
Muitos skatistas têm o instinto de esfregar a mão no local da pancada logo que ela acontece. Não faça isso. Quando você esfrega uma área que acabou de sofrer trauma vascular você rompe ainda mais vasinhos e espalha o sangue para os tecidos vizinhos aumentando a inflamação.
Além disso a massagem profunda em cima de um hematoma agudo pode estimular um processo chamado miosite ossificante. O corpo confuso com tanta agressão começa a depositar cálcio dentro do músculo ou do hematoma criando um osso onde não deveria existir. Isso gera um caroço duro e permanente na sua canela.
A massagem só entra bem depois na fase subaguda e sempre ao redor da lesão para drenar nunca em cima do ponto de dor máxima. Respeite o tempo biológico da inflamação. Deixe o corpo formar o coágulo de proteção antes de tentar mexer nele.
A importância da compressão para evitar a calcificação do hematoma
Depois do gelo a compressão é sua melhor amiga. Use uma faixa elástica ou uma meia de compressão esportiva. A pressão externa mecânica ajuda a conter o edema. Pense nisso como apertar um vazamento com uma fita veda-rosca. Você impede que o líquido invada espaços onde ele atrapalharia a função muscular.
A compressão também oferece uma sensação de segurança e diminui a dor por um mecanismo de “portão” neural. O cérebro percebe a pressão do tecido e diminui a percepção da dor aguda. Mantenha a compressão durante o dia mas tire para dormir para não prender a circulação por tempo demais.
Se você criar um hematoma muito grande e não comprimir o sangue fica estagnado. Sangue parado vira “cola” biológica criando aderências entre a pele e o osso. Isso vai repuxar cada vez que você fizer um ollie no futuro. A compressão mantém tudo no lugar certo.
Biomecânica do Skate Street e a Sobrecarga na Tíbia
O impacto das aterrissagens no flat e a vibração das rodas duras
O skate de rua é um massacre vibratório. Diferente de uma pista de madeira ou de um parque com concreto liso o asfalto da rua é irregular. Rodas pequenas e duras (acima de 99a) transmitem quase 100% da textura do solo para seus pés e consequentemente para sua tíbia.
Essa vibração de alta frequência sobe pelo esqueleto. O osso reage a essa vibração tentando ficar mais denso mas se o descanso não for suficiente ele inflama. É como usar uma britadeira sem luvas o dia todo. Seus braços doem pela vibração. No skate suas canelas doem pelo mesmo motivo.
As aterrissagens no flat (chão plano) são outro fator. Sem uma transição para dissipar a energia toda a força de reação do solo sobe verticalmente. Se você aterrissa com o joelho duro o choque vai direto para a tíbia. Seus músculos precisam trabalhar como amortecedores hidráulicos para filtrar isso.
A função do músculo Tibial Anterior no controle do nose e tail
O músculo que fica na frente da sua canela o Tibial Anterior é o principal responsável por levantar a ponta do pé (dorsiflexão). No skate ele trabalha hora extra. Cada vez que você bate o tail para um ollie ou levanta o pé para chutar um flip esse músculo contrai explosivamente.
Além disso ele trabalha para estabilizar o tornozelo na aterrissagem impedindo que seu pé bata no chão com força excessiva. Esse excesso de uso gera micro-rupturas na inserção dele no osso. É a tração constante desse músculo que causa a periostite medial.
Se você tem esse músculo fraco a carga passa para o osso. Se você tem ele muito tenso e encurtado ele puxa o periósteo o tempo todo. O equilíbrio entre força e flexibilidade desse músculo específico é a chave para evitar a canelite crônica.
Como a falta de mobilidade de tornozelo joga a carga para a canela
Se o seu tornozelo é travado e não dobra o suficiente (pouca dorsiflexão) você tem um problema mecânico grave. Quando você aterrissa o tornozelo precisa dobrar para amortecer. Se ele bloqueia o impacto tem que ir para algum lugar. Ele sobe e explode na canela e no joelho.
Skatistas frequentemente têm tornozelos rígidos devido a entorses antigas mal curadas. O tecido cicatricial dessas torções limita o movimento. Isso obriga a tíbia a absorver cargas de torção e impacto para as quais ela não foi projetada.
Restaurar a mobilidade do tornozelo é uma das intervenções mais eficazes para parar de ter dor na canela. Se a dobradiça funciona o amortecedor (músculo) pode trabalhar. Se a dobradiça trava a estrutura (osso) sofre.
Tratamento Conservador e Recuperação Fora da Pista
Técnicas de drenagem para “espalhar” o líquido inflamatório
Depois das primeiras 48 horas você pode começar a ajudar o corpo a limpar a bagunça. Deite-se com as pernas para cima apoiadas na parede para usar a gravidade a seu favor. Faça movimentos de alisamento suave das extremidades (pé) em direção ao coração (joelho).
Isso estimula o sistema linfático a recolher os subprodutos da inflamação. Você não quer aquele líquido velho e cheio de toxinas parado ali irritando os nervos. A drenagem manual abre espaço para sangue novo e rico em oxigênio chegar para reparar o tecido.
Você pode usar óleos ou cremes com arnica para ajudar no deslizamento e na analgesia. Faça isso por 10 a 15 minutos. A sensação de alívio da pressão interna é quase imediata e acelera muito o retorno à mobilidade normal.
Exercícios de fortalecimento excêntrico para absorção de carga
Para blindar a canela precisamos ensinar o músculo a suportar carga enquanto ele se alonga. Isso é o fortalecimento excêntrico. Um exercício clássico é ficar em pé com os calcanhares na borda de um degrau subir com os dois pés e descer bem devagar apenas com o pé da perna machucada (controlando a descida do calcanhar).
Para o tibial anterior sente-se e prenda um elástico no pé. Puxe o pé para cima (concêntrico) e solte bem devagar contra a resistência do elástico (excêntrico). É na fase de volta lenta que o músculo ganha resistência para aguentar a porrada do skate.
Faça isso em dias alternados. Não treine força no dia que você vai andar pesado de skate. O músculo precisa de tempo para se reconstruir mais forte. Comece leve e aumente a resistência conforme a dor permite.
Liberação miofascial dos compartimentos da perna
A perna é dividida em compartimentos envolvidos por fáscias inelásticas. Quando o músculo incha dentro desses compartimentos a pressão sobe e causa dor. A liberação miofascial ajuda a soltar essa “roupa apertada”. Use um rolo de espuma ou um stick de massagem na panturrilha e na lateral da canela.
Evite passar o rolo diretamente sobre o osso da tíbia onde dói. Trabalhe ao redor na “carne”. Soltar a panturrilha (sóleo e gastrocnêmio) tira a tensão de trás e alivia a tensão da frente por equilíbrio de forças.
Se você encontrar pontos muito doloridos (nós) segure a pressão ali por 30 segundos até sentir relaxar. Isso devolve a elasticidade ao sistema permitindo que o sangue circule melhor e que o músculo trabalhe sem puxar o osso o tempo todo.
Adaptações no Setup e no Calçado para Prevenção
A influência da dureza das rodas e a transferência de vibração
Se você está sofrendo com canelite crônica talvez seja hora de repensar suas rodas 101a ou 103a. Rodas muito duras são rápidas e deslizam bem nos grinds mas não absorvem nada. Elas transferem cada grão do asfalto para o seu esqueleto.
Experimente baixar um pouco a dureza para algo entre 97a e 99a ou use fórmulas de uretano mais modernas que prometem velocidade com absorção de impacto. Essa pequena mudança pode reduzir drasticamente a vibração de alta frequência que irrita o periósteo.
Para quem anda só em rua ruim rodas um pouco maiores (53mm a 55mm) também rolam melhor por cima das imperfeições diminuindo os trancos súbitos que a perna tem que absorver. É uma questão de física: mais uretano mais amortecimento.
Palmilhas de absorção de impacto: Cupsole versus Vulcanizado
Tênis vulcanizados oferecem um “boardfeel” incrível você sente o shape no pé. Mas eles geralmente têm uma sola fina de borracha e pouca espuma. Para quem tem problemas na canela isso é ruim. Tênis “Cupsole” têm uma entressola de espuma mais robusta que dissipa melhor a energia da aterrissagem.
Se você não abre mão do vulcanizado invista em palmilhas de alta performance (como as de poliuretano de alta densidade ou marcas especializadas em skate). Elas absorvem até 90% da energia do impacto que de outra forma iria para sua perna.
Troque seus tênis quando a absorção acabar. Tênis de skate visualmente inteiros por fora muitas vezes estão “mortos” por dentro com a espuma compactada. Se você sente o calcanhar batendo seco no chão é hora de trocar.
O uso estratégico de proteções e meias de compressão
Caneleiras não são “coisa de iniciante”. Para quem está aprendendo manobras novas onde o shape roda muito (shuv-its impossibles hardflips) usar uma caneleira fina de neoprene por baixo da calça pode salvar sua sessão. Ela dissipa a força pontual da batida.
Meias de compressão esportiva (aquelas de corredor) são excelentes para skatistas. Elas aumentam o retorno venoso diminuem a oscilação do músculo durante o impacto e mantêm a região aquecida. Isso ajuda a controlar a inflamação crônica durante a sessão.
Você não precisa usar a caneleira o tempo todo mas ter ela na mochila para aquele dia que você quer marretar uma manobra específica é inteligência não fraqueza. Preservar seu corpo permite que você ande amanhã.
Nutrição e Fisiologia Óssea para Skatistas
Nutrientes essenciais para reparo do periósteo e colágeno
Skatistas quebram e consertam o corpo constantemente. Você precisa de matéria-prima para isso. Cálcio e Vitamina D são óbvios para o osso mas não esqueça da Vitamina C e do Zinco que são vitais para a síntese de colágeno. O periósteo é rico em colágeno.
Se sua dieta é baseada apenas em fast-food e refrigerante seu corpo não tem tijolos para reconstruir o muro. Inclua folhas verdes escuras laticínios ou suplementos se necessário. Um corpo bem nutrido cicatriza hematomas na metade do tempo.
O Magnésio também é crucial para o relaxamento muscular. Músculos espasmados puxam o osso. O magnésio ajuda a regular o tônus muscular e melhora a qualidade do sono.
Hidratação e a viscosidade dos tecidos fascial e muscular
A fáscia precisa de água para deslizar. Se você vive à base de energético e pouca água seus tecidos ficam “secos” e quebradiços. Eles perdem a capacidade viscoelástica de absorver choque. Uma fáscia hidratada é resiliente.
Beba água antes durante e depois da sessão. A desidratação aumenta a percepção de dor e diminui a coordenação motora aumentando o risco de bater a canela de novo por erro técnico.
A água também é o veículo que transporta os fatores inflamatórios para fora da lesão. Sem água o “lixo” fica acumulado na perna mantendo o local inchado e dolorido por mais tempo.
O papel do sono na regulação dos processos inflamatórios crônicos
É durante o sono profundo que liberamos o Hormônio do Crescimento (GH) responsável pela regeneração tecidual. Se você dorme mal ou pouco você vive em um estado inflamatório sistêmico. Sua canela nunca sara de verdade.
Para o skatista que anda todo dia o sono é o principal treino invisível. Tente regular seu ciclo circadiano. Dormir bem reduz os níveis de cortisol que é um hormônio que atrapalha a cicatrização óssea.
Se você tem dor noturna na canela tente dormir com a perna levemente elevada para ajudar no retorno venoso e evitar aquele latejamento que atrapalha o início do sono.
Terapias Aplicadas e Indicadas
Para finalizar se a coisa ficou feia e o tratamento caseiro não resolveu a fisioterapia tem ferramentas pesadas. O Laser de Baixa Potência é fantástico para acelerar a cicatrização do periósteo e reduzir a dor aguda. A Magnetoterapia ajuda na consolidação óssea em casos de microfraturas ou estresse ósseo severo.
O Ultrassom Terapêutico pode ser usado na fase subaguda para organizar as fibras de colágeno do hematoma em reabsorção evitando a calcificação. E para soltar aqueles músculos travados da perna o Dry Needling (Agulhamento a Seco) é muito eficaz para “resetar” o Tibial Anterior tenso. Cuide das suas canelas elas são a sua base para continuar evoluindo no skate.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”