Senta aí, coloca o skate de lado um pouco e vamos trocar uma ideia séria. Se você anda de skate, provavelmente já sentiu aquela fisgada no joelho depois de tentar descer um gap ou passar horas marretando uma manobra nova na escadaria. A gente costuma achar que “faz parte”, toma um remédio e volta pro rolê no dia seguinte. Mas tem uma peça dentro do seu joelho que não se recupera tão fácil assim: o menisco.
No mundo da fisioterapia esportiva, costumamos dizer que o skate é uma “máquina de triturar joelhos” se o skatista não souber usar o corpo. Diferente do futebol ou do basquete, onde existe grama ou piso de madeira flutuante, no skate é concreto contra osso. A dureza do chão não perdoa. Se você aterrissa com a perna esticada ou deixa o joelho sambar na hora do impacto, quem paga a conta não é o músculo, é a articulação.
Hoje eu quero te explicar, sem “mediquês” complicado, o que acontece lá dentro do seu joelho quando você acerta (ou erra) uma manobra. Vamos falar sobre como transformar suas pernas em amortecedores de verdade para que você possa continuar andando de skate por décadas, e não parar aos 30 anos com o joelho de um idoso. A chave de tudo está em uma palavra mágica: absorção.
O Menisco: A “Bucha” do seu Truck Humano
O que ele faz exatamente?
Pense no seu joelho como se fosse o truck do seu skate. No truck, você tem as buchas (amortecedores) de poliuretano que ficam entre o metal para evitar que ferro bata com ferro e para dar estabilidade nas curvas. O menisco é exatamente a “bucha” do seu joelho. Ele é uma cartilagem em formato de “C” que fica entre o osso da coxa (fêmur) e o osso da canela (tíbia).
A função dele é nobre: ele absorve a porrada. Sem o menisco, todo o peso do seu corpo e a força da gravidade do salto iriam direto osso contra osso. Ele distribui essa carga, aumenta a área de contato e ajuda a lubrificar a articulação. Basicamente, ele é o melhor amigo da sua longevidade no esporte.
Medial vs. Lateral: Quem sofre mais no skate?
Temos dois meniscos em cada joelho: o medial (parte de dentro) e o lateral (parte de fora). No skate, ambos sofrem, mas de formas diferentes. O menisco medial é mais fixo, menos móvel. Ele costuma rasgar quando você planta o pé no chão e gira o corpo (aquele revert forçado ou quando o pé trava na transição e o corpo continua girando).
Já o menisco lateral sofre mais com a compressão pura, ou seja, o impacto vertical. Sabe quando você cai de primo ou desce um gap alto e aterrissa “seco”? É o menisco lateral que está sendo esmagado ali. Entender qual parte do seu joelho dói pode nos dar pistas sobre o que você está fazendo de errado na técnica.
O “tranco” seco: Quando a musculatura falha, o menisco paga
Aqui está o grande segredo: o menisco foi feito para ajudar, não para fazer o trabalho sozinho. Quem deveria absorver a maior parte do impacto são seus músculos (quadríceps, panturrilha e glúteos). O menisco é o backup.
O problema começa quando sua musculatura está fraca ou, mais comum ainda, fadigada. Depois de 2 horas de sessão, sua perna já não responde rápido. Você pula, aterrissa, e o músculo “demora” a contrair para frear a descida. Nesse milésimo de segundo de atraso, o tranco passa direto pelo músculo e explode no menisco. É a “aterrissagem dura”. Se você ouve muito barulho do seu pé batendo no chão quando cai, provavelmente está machucando seus meniscos.
A Biomecânica do “Stomp”: Por que a aterrissagem machuca
O perigo do joelho valgo no pouso
Você já viu sua própria sombra ou um vídeo seu aterrissando uma manobra? Preste atenção nos seus joelhos. O maior vilão da lesão de menisco (e do ligamento cruzado, o LCA) é o valgo dinâmico. É aquele momento em que, na hora que o pé toca o skate, o joelho “cai para dentro”, encostando um no outro.
Isso é péssimo. Quando o joelho entra em valgo, ele esmaga o menisco lateral e estira o medial. É uma posição de colapso mecânico. No skate, isso acontece muito porque a base é lateral, mas o impacto é vertical. Se seu glúteo não estiver segurando o fêmur, o joelho colapsa para dentro na hora do “stomp”. Corrigir isso é a prioridade número 1 na prevenção.
Rotação com pé fixo: O pesadelo do menisco
O skate é um esporte de rotação. Shove-its, 180s, 360s. Tudo gira. O perigo mora quando o skate para de girar, mas seu corpo não. Imagine aterrissar um Backside 180 incompleto. As rodas travam no chão (ou na lixa), seu pé fica fixo, mas seu tronco continua girando pela inércia.
O joelho vira um pano de chão sendo torcido. O fêmur roda em cima da tíbia fixa. O menisco fica no meio desse moinho de carne. Se ele for esmagado e torcido ao mesmo tempo, ele rasga. É a famosa lesão em “alça de balde”. Aprender a completar a rotação no ar ou, se não der, abortar a manobra (o bail) sem travar o pé é vital.
Impacto cumulativo vs. Traumático
Nem toda lesão de menisco é aquela dor aguda de uma queda feia. Existe a lesão degenerativa, que é o acúmulo de milhares de micro-traumas. É o skatista que anda há 10 anos e nunca se machucou sério, mas começa a sentir o joelho inchar depois do rolê.
Cada aterrissagem mal absorvida vai “lixando” o menisco. Ele vai ficando desfiado, mais fino e perde a capacidade de amortecer. Chega um dia que você vai abaixar para amarrar o tênis e ele rompe. Por isso, a técnica de absorção não é só para gaps gigantes; é para cada ollie que você dá na calçada.
Absorção de Impacto Ativa: Transformando suas pernas em molas
A diferença entre cair “duro” e cair “fluido”
O melhor skatista não é o que pula mais alto, é o que cai mais macio. Observe os pros. Quando eles aterrissam de um gap gigante, eles agacham quase até o chão. Isso aumenta o tempo de desaceleração.
Física básica: Força = Massa x Aceleração. Se você aumenta o tempo que leva para parar o movimento (agachando profundamente na aterrissagem), você diminui a força de pico que chega no joelho. Cair “duro”, com o joelho quase esticado, é pedir para se lesionar. Você precisa treinar seu cérebro para, automaticamente, flexionar os joelhos assim que sentir o contato com o board.
O papel excêntrico do Quadríceps
Fisiologicamente, chamamos isso de “controle excêntrico”. É a capacidade do seu músculo da coxa (quadríceps) de se alongar enquanto faz força para segurar o peso do corpo. É o freio muscular.
Muitos skatistas têm força para chutar (concêntrica), mas não têm força para frear (excêntrica). Na academia ou em casa, não adianta só subir rápido no agachamento. Você tem que treinar descer devagar. É na descida que você ganha a blindagem para o skate.
Glúteo Médio: O guardião que impede o joelho de entrar
Lembra do joelho caindo para dentro (valgo)? Quem impede isso não é o joelho, é o quadril. O músculo Glúteo Médio, que fica na lateral da sua bacia, é a âncora que segura a perna alinhada.
Se o seu glúteo é fraco (e o de muitos skatistas é, porque a gente foca muito em quadríceps e panturrilha), o joelho fica bobo. Fortalecer a lateral do quadril com elásticos e exercícios de estabilidade é o segredo para aterrissar com o joelho alinhado com a ponta do pé, salvando seu menisco da trituração.
Não é só força, é Mobilidade: O Tornozelo Travado
Se o tornozelo não dobra, o joelho chora
Essa é uma das maiores causas ocultas de lesão no skate. O tornozelo precisa ter uma boa mobilidade de “dorsiflexão” (capacidade de trazer a ponta do pé em direção à canela). Quando você aterrissa e agacha, seu tornozelo precisa dobrar muito.
Se seu tornozelo é rígido — talvez por entorses antigas mal curadas, o que é clássico no skate —, ele trava no meio do caminho. O movimento de absorção tem que continuar em algum lugar, e ele sobe para o joelho. O joelho é forçado a fazer um movimento que não é dele, gerando torque excessivo.
Dorsiflexão limitada: O inimigo do agachamento profundo
Faça um teste agora. Tente fazer um agachamento profundo sem tirar os calcanhares do chão. Se você cai para trás ou precisa levantar o calcanhar, sua dorsiflexão é ruim.
No skate, isso significa que você não consegue amortecer profundamente. Você aterrissa, o tornozelo trava, e seu corpo joga a carga para o menisco ou para a lombar. Recuperar a mobilidade do tornozelo com alongamentos e mobilizações é, muitas vezes, mais eficiente para curar a dor no joelho do que tratar o próprio joelho.
Teste rápido: O joelho passa da ponta do pé?
Existe um mito antigo de que “o joelho não pode passar da ponta do pé”. No skate, isso é mentira. Para absorver impacto, o joelho PRECISA passar da ponta do pé (mantendo o calcanhar no chão). Isso é mecânica natural.
Se você tem medo de deixar o joelho ir para frente, você joga o tronco para frente e sobrecarrega a coluna, ou freia o movimento antes da hora. Libere seu tornozelo para que o joelho possa viajar para frente e dissipar a energia do impacto.
Treinando para o Caos: Exercícios que simulam o Rolê
Pliometria controlada: Ensinando o corpo a aterrissar
Não adianta só fazer Leg Press. O skate é dinâmico. Você precisa de exercícios de pliometria (saltos). Mas o foco não é a altura do salto, é a qualidade da aterrissagem.
Comece pulando de uma caixa baixa (20cm) para o chão. O objetivo é aterrissar sem fazer barulho, como um ninja. Joelhos alinhados, agachamento profundo, sem tremer. Se você dominar a “aterrissagem silenciosa” no treino, seu corpo vai replicar isso na escadaria.
Propriocepção: O equilíbrio em cima do board instável
Seu joelho tem sensores de posição. Quando você aterrissa meio torto, esses sensores avisam o músculo para corrigir. Se essa comunicação for lenta, você se machuca.
Treine equilíbrio em superfícies instáveis (Bosu, disco de equilíbrio ou até em cima do skate sem truck no tapete). Fique num pé só, feche os olhos, simule o movimento da remada. Isso deixa o reflexo do seu joelho rápido e inteligente.
“Bail” Training: Aprender a cair é prevenção
Saber cair é a habilidade mais subestimada. Às vezes, a manobra deu errado e tentar “salvar” a aterrissagem é o que causa a lesão. Se o skate saiu do pé, chute ele para longe e role.
Treinar rolamentos (como no judô) e saber deslizar com a joelheira na transição tira a carga vertical. O orgulho de querer cair em pé a qualquer custo é o que rompe meniscos. Aceite o chão, role e levante para a próxima.
Terapias e Recuperação: O que fazer se já dói?
Se você já está sentindo aquela dorzinha chata na linha da articulação, aqui vai o papo de fisioterapeuta para cliente:
- Gelo não cura, mas alivia: Pode colocar gelo por 20 minutos se inchou, mas não ache que isso resolve o problema mecânico.
- Liberação Miofascial: Soltar a musculatura do quadríceps e da banda iliotibial (lateral da coxa) com rolo de espuma ajuda a tirar a tensão que comprime o menisco.
- Fortalecimento sem dor: Se dói para agachar tudo, agache até onde não dói (isometria). O importante é não deixar a perna atrofiar.
- Procure um Fisioterapeuta Esportivo: Ultrassom e “choquinho” (TENS) sozinhos são tratamentos do passado. A fisioterapia moderna para menisco envolve terapia manual para ganhar mobilidade e exercícios de força progressiva.
O skate é agressivo, mas seu corpo é adaptável. Se você der a ele as ferramentas certas — força, mobilidade e técnica de aterrissagem —, seu menisco vai aguentar o tranco. Cuide das suas “buchas”, regule seu “truck” (fortalecimento) e bom rolê!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”