Saltador (Jumper's Knee): Como tratar a tendinite patelar no vôlei

Saltador (Jumper’s Knee): Como tratar a tendinite patelar no vôlei

Se você joga vôlei, é bem provável que já tenha sentido aquela “pontada” logo abaixo do joelho ou conhece alguém do time que vive com gelo na região. O Joelho de Saltador, ou tendinite patelar, é quase uma medalha indesejada que muitos atacantes e bloqueadores carregam, mas não precisa ser uma sentença de aposentadoria precoce. Eu vejo isso no consultório toda semana: atletas incríveis que estão jogando com o “freio de mão puxado” por causa da dor. Vamos conversar sério sobre o que está acontecendo no seu joelho e, o mais importante, como vamos resolver isso juntos.

O que é o Joelho de Saltador e por que ele persegue os voleibolistas

Para entender a dor, você precisa entender a engenharia do seu corpo. O tendão patelar é uma estrutura extremamente robusta que conecta a patela (o ossinho do joelho) à tíbia (o osso da canela).[6] Ele faz parte do mecanismo extensor do joelho, trabalhando em conjunto com o quadríceps.[7] Imagine que ele é uma corda grossa e fibrosa projetada para suportar cargas imensas. Toda vez que você salta para um bloqueio ou para um ataque, esse tendão precisa armazenar energia elástica e liberá-la explosivamente.[5] É uma mola biológica de alta performance.

O problema no vôlei não é o salto em si, mas o volume e a intensidade da repetição, somados à mecânica da aterrissagem. Quando falamos de “tendinite”, o sufixo “ite” sugere uma inflamação aguda, mas na maioria dos casos crônicos que vejo em jogadores de vôlei, estamos lidando com uma tendinopatia. Isso significa que não há apenas células inflamatórias ali; existe uma desorganização real das fibras de colágeno. O tendão, que deveria ter fibras alinhadas como um pacote de macarrão cru, começa a ficar bagunçado, com fibras desorientadas e uma tentativa falha de cicatrização.

Essa condição persegue os voleibolistas porque o esporte exige o que chamamos de ciclo de alongamento-encurtamento constante. Você contrai o quadríceps para saltar (fase concêntrica) e, frações de segundo depois, aterrissa absorvendo todo o peso do corpo (fase excêntrica). A força que passa pelo tendão patelar na aterrissagem pode chegar a sete ou oito vezes o seu peso corporal. Se o tendão não tiver tempo de recuperação entre os treinos e jogos, as microlesões se acumulam mais rápido do que o corpo consegue consertar, levando ao quadro de dor e degeneração.

Identificando os Sinais: O corpo fala antes de parar

A dor da tendinite patelar tem uma assinatura muito específica e traiçoeira. Geralmente, ela começa com uma dor bem localizada no pólo inferior da patela – ou seja, na pontinha de baixo do osso do joelho.[5][8] No início, você sente uma rigidez matinal ou uma dorzinha leve no começo do aquecimento. O curioso é que, conforme você se movimenta e o corpo esquenta, a dor some. Isso faz com que muitos atletas ignorem o problema, achando que “foi só um mal jeito”.

Conforme a patologia avança, a dor muda de comportamento.[9] Ela deixa de desaparecer após o aquecimento e começa a persistir durante o treino, mas ainda num nível suportável. É aquela fase em que você começa a tomar um anti-inflamatório por conta própria ou aplica gelo assim que chega em casa. O sinal de alerta vermelho acende quando a dor passa a interferir na sua performance: você pensa duas vezes antes de saltar com força total, ou sente uma pontada aguda e incapacitante logo após aterrissar. Nesse estágio, subir e descer escadas no dia a dia também se torna um martírio.

Além da dor, você pode notar um inchaço sutil na região ou um espessamento do tendão. Se você passar o dedo sobre o tendão patelar, ele pode parecer mais grosso ou “borrachudo” em comparação ao lado saudável. A perda de força no quadríceps também é um sinal clínico importante; o músculo da coxa começa a inibir (ficar mais fraco) como um mecanismo de defesa do corpo para evitar que você gere mais carga no tendão machucado. Se o seu salto vertical diminuiu, pode não ser falta de treino, mas sim seu joelho pedindo socorro.

O Diagnóstico Funcional na Fisioterapia

Quando você chega no meu consultório, a primeira coisa que eu digo é: “esqueça um pouco a ressonância magnética e vamos ver como você se mexe”. Claro que exames de imagem são úteis para descartar outras lesões e ver o grau de degeneração, mas a clínica é soberana. O diagnóstico de tendinopatia patelar é eminentemente funcional. Eu preciso tocar no tendão para identificar o ponto exato da dor e, principalmente, reproduzir a dor com testes de carga.

Um dos testes mais clássicos que realizamos é o agachamento declinado em uma perna só (Single Leg Decline Squat).[10] Pedimos para você ficar em uma rampa inclinada e agachar com a perna afetada. Se houver uma dor aguda e familiar no tendão patelar durante a descida, é um indicativo fortíssimo de Jumper’s Knee. Diferente da dor patelofemoral (que é mais difusa, “atrás” da patela), a dor do tendão é pontual e superficial.

Além de testar o local da dor, precisamos avaliar a cadeia cinética completa. Eu não olho só para o seu joelho. Precisamos ver como está a mobilidade do seu tornozelo (dorsiflexão), pois se seu tornozelo é rígido, o joelho sofre mais na aterrissagem. Avaliamos também a força dos seus glúteos e a estabilidade do quadril. Muitas vezes, o joelho é apenas a vítima de um quadril preguiçoso ou de um pé rígido. O diagnóstico fisioterapêutico busca a causa biomecânica, não apenas o nome da doença.

A Biomecânica do Salto e da Aterrissagem[5][6]

No vôlei, a técnica de aterrissagem é mais importante para a saúde do tendão do que a técnica do salto em si. O grande vilão do tendão patelar é a aterrissagem rígida, com pouco “amortecimento”. Quando você cai no chão com o joelho travado ou com pouca flexão, a desaceleração é brusca, e a onda de choque vai direto para o tendão e para a articulação. O ideal é uma aterrissagem suave, onde você usa a musculatura para dissipar a energia, flexionando joelhos, quadris e tornozelos harmonicamente.

Outro ponto crítico na biomecânica é o valgo dinâmico. Sabe quando o jogador aterrissa e os joelhos “caem” para dentro, encostando um no outro? Isso gera uma força de torção e cisalhamento no tendão patelar que é devastadora a longo prazo. Esse colapso geralmente acontece por fraqueza dos glúteos (especialmente o glúteo médio), que são os principais estabilizadores do fêmur. Se o seu glúteo não “segura” a perna, o joelho desaba para dentro, e o tendão paga a conta.

A mobilidade de tornozelo, especificamente a dorsiflexão (capacidade de trazer a ponta do pé para cima), é um fator silencioso. Se o seu tornozelo não dobra o suficiente na aterrissagem, o corpo compensa jogando o joelho excessivamente para frente ou levantando o calcanhar precocemente. Isso aumenta drasticamente a tensão no aparelho extensor. Por isso, corrigir a biomecânica não é só “melhorar o gesto esportivo” para fazer ponto, é uma estratégia de sobrevivência para os seus joelhos continuarem jogando por mais temporadas.

Protocolos de Tratamento e Reabilitação Ativa[11]

A primeira coisa que você precisa saber sobre o tratamento moderno é: repouso absoluto raramente funciona para tendões. O tendão precisa de carga para se remodelar.[12] Se você ficar um mês parado, a dor some, mas a estrutura do tendão continua fraca. Assim que você voltar a saltar, a dor volta.[6] O segredo é o gerenciamento de carga (load management). Começamos com exercícios isométricos (fazer força sem movimento), como o agachamento estático (Spanish Squat). A isometria tem um efeito analgésico incrível, diminuindo a dor quase imediatamente após o exercício.

À medida que a dor permite, evoluímos para exercícios isotônicos com foco na fase excêntrica. Lembra que a aterrissagem é o problema? Precisamos treinar o tendão para suportar essa frenagem. Exercícios lentos e pesados (Heavy Slow Resistance) são o padrão-ouro atual. Colocamos carga (sim, peso!) e pedimos para você fazer o movimento de extensão e flexão bem devagar. Isso estimula as células do tendão (tenócitos) a produzirem colágeno novo e alinhado, substituindo o tecido degenerado.

A última fase da reabilitação ativa é o retorno aos exercícios de armazenamento de energia, ou seja, a pliometria. Mas não começamos com saltos máximos de bloqueio. Começamos com pequenos saltitos, pular corda, saltos em caixas baixas, focando exclusivamente na qualidade da aterrissagem silenciosa e suave. Só liberamos você para o treino de ataque total quando o tendão consegue suportar essas cargas progressivas sem dor no dia seguinte. O critério de “dor no dia seguinte” é nosso melhor guia para saber se exageramos ou não na dose.

Como Prevenir a Recidiva: O Treino Invisível

Você tratou, melhorou e voltou a jogar. E agora? A prevenção da recidiva exige o que chamamos de “treino invisível”. Isso envolve manter uma rotina constante de fortalecimento, mesmo quando não há dor. O fortalecimento de glúteos e core não é algo que você faz só na fisioterapia; deve fazer parte da sua preparação física para sempre. Um quadril forte protege o joelho.[13] Além disso, a manutenção da mobilidade de tornozelo e quadril deve ser diária, quase como escovar os dentes.

Outro aspecto crucial é o monitoramento do volume de saltos. No vôlei profissional, já usamos tecnologias para contar quantos saltos um atleta dá por treino. No nível amador, você precisa ter essa consciência. Se você treinou ataque pesado na terça-feira, talvez a quarta-feira deva ser focada em passe e defesa, poupando os saltos. Alternar a intensidade dos treinos dá ao tendão as 24 ou 48 horas necessárias para sintetizar colágeno e se recuperar do estresse mecânico.

A nutrição e o sono também jogam nesse time. Tendões têm um metabolismo lento e dependem de uma boa hidratação e nutrientes adequados para se repararem. O sono é o momento em que a mágica da regeneração acontece. Se você dorme pouco e treina muito, está criando um déficit de recuperação que eventualmente será cobrado na forma de lesão. Prevenir o Jumper’s Knee é um estilo de vida que envolve ouvir o seu corpo e respeitar os limites fisiológicos dos seus tecidos.

Terapias Aplicadas e Recursos Tecnológicos

No final das contas, além de todo o suor nos exercícios, nós fisioterapeutas temos algumas cartas na manga para acelerar seu processo e controlar a dor. Não são “curas milagrosas”, mas são ferramentas que, quando combinadas com os exercícios ativos, fazem toda a diferença na sua recuperação e bem-estar.

Terapia Manual e Liberação Miofascial:
Muitas vezes, o quadríceps está tão tenso e encurtado que fica “puxando” o tendão patelar 24 horas por dia, mesmo quando você está dormindo. Usamos técnicas de liberação miofascial (manual ou com instrumentos) para soltar essa musculatura, especialmente o reto femoral. Isso diminui a tração mecânica sobre o tendão, proporcionando um alívio imediato da tensão. Também trabalhamos a mobilidade da patela para garantir que ela deslize suavemente sobre o fêmur.

Eletroterapia, Laser e Ultrassom:
Esses recursos são ótimos coadjuvantes. O Laser de Alta Potência, por exemplo, ajuda na modulação da inflamação e estimula a atividade celular (mitocôndrias) para acelerar a reparação tecidual. Já a eletroanalgesia (como o TENS) pode ser usada para “enganar” o cérebro e diminuir a percepção da dor, permitindo que você consiga realizar os exercícios de reabilitação com mais conforto. Eles não consertam o tendão sozinhos, mas abrem uma janela de oportunidade para tratarmos melhor.

Ondas de Choque e Dry Needling:
Para casos mais crônicos e rebeldes, onde a degeneração já está instalada há tempos, a Terapia por Ondas de Choque é um dos recursos mais evidenciados cientificamente. Ela gera um microtrauma controlado que “acorda” o processo de cicatrização do corpo e estimula a vascularização da área. Já o Dry Needling (agulhamento a seco) é fantástico para desativar pontos-gatilho (nós de tensão) na musculatura da coxa e do glúteo, melhorando a função muscular e reduzindo a dor referida que pode estar piorando o quadro do seu joelho.

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