Reabilitação de ligamento colateral medial (joelho) após chaves de perna

Reabilitação de ligamento colateral medial (joelho) após chaves de perna

Fala, guerreiro! Se você está lendo isso, provavelmente ouviu aquele som que todo lutador de Jiu-Jitsu teme: um “pop” seco na parte de dentro do joelho, seguido de uma queimação que te fez largar o kimono e segurar a perna. Eu sei, a sensação é horrível. A chave de perna, especialmente o famigerado heel hook (chave de calcanhar), entrou na moda no grappling moderno, e com ela, as lesões de Ligamento Colateral Medial (LCM) explodiram nas clínicas de fisioterapia.

Mas calma, não é o fim da sua carreira. Ao contrário do Cruzado Anterior (LCA), que muitas vezes pede cirurgia, o LCM é um ligamento extremamente vascularizado e “grato”. Ele quer cicatrizar, ele quer ficar forte de novo. O problema é que a gente, na ânsia de voltar a treinar, atrapalha esse processo natural. Hoje vamos ter um papo sério sobre como transformar esse joelho instável em uma base sólida novamente, respeitando a biologia e usando a cabeça, não apenas a raça.

Vamos dissecar o que aconteceu, por que seu joelho está gritando e traçar um plano de batalha para você voltar a raspar e passar sem medo. Puxe uma cadeira, coloque gelo nesse joelho e preste atenção.

A anatomia do “Pop”: O que aconteceu lá dentro

O papel do LCM na estabilidade lateral

O Ligamento Colateral Medial é como uma fita adesiva grossa e fibrosa que fica na parte interna do seu joelho, conectando o fêmur à tíbia. A função dele é primária: impedir que seu joelho “abra” para dentro (o famoso valgo). Imagine que alguém chuta a parte de fora da sua perna; é o LCM que segura o tranco para a perna não dobrar ao meio.

No Jiu-Jitsu, raramente a lesão vem de um chute, mas sim de alavancas. O LCM é tensionado ao máximo quando o joelho está levemente flexionado e é forçado para dentro. É a principal barreira de proteção antes de forças maiores atingirem os meniscos ou o ligamento cruzado. Quando você sente dor ao tocar na parte interna do joelho, é porque as fibras dessa “fita” foram esticadas além do limite elástico.

A mecânica da chave de calcanhar (Heel Hook)

Por que as chaves de calcanhar são as vilãs da história? Mecanicamente, quando o oponente trava seu pé e gira o calcanhar, ele está criando um torque rotacional. Se o seu pé gira para fora e seu joelho fica parado (ou gira para dentro), cria-se uma força de cisalhamento brutal.

heel hook invertido, ou interno, é especialmente cruel com o LCM. Antes de você sentir dor no tornozelo, o ligamento do joelho já está sendo rompido. A alavanca é tão potente que, muitas vezes, o “pop” acontece antes do cérebro processar a dor para dar o comando de bater. Entender isso é crucial: você não se machucou porque é “fraco”, mas porque a física dessa alavanca vence a resistência biológica de qualquer ser humano.

Classificando o estrago: Graus 1, 2 e 3

Na fisioterapia, classificamos sua lesão em três níveis para decidir o tratamento. No Grau 1, houve apenas um estiramento. Dói, incha um pouco, mas não há frouxidão; o ligamento ainda está firme. Você volta rápido, em 2 ou 3 semanas.

No Grau 2, temos ruptura parcial. Algumas fibras rasgaram. O joelho incha bastante, fica roxo e, quando testamos, sentimos que ele está “bobo”, abrindo mais do que devia. Aqui o buraco é mais embaixo, exigindo 6 a 8 semanas de tratamento sério.

Já no Grau 3, a ruptura é total. O ligamento soltou completamente. O joelho fica instável, muitas vezes associado a lesão de menisco ou LCA (a “tríade infeliz”). Curiosamente, às vezes dói menos que o grau 2 porque não há mais fibras conectadas para tracionar, mas a função mecânica foi perdida. Mesmo assim, o tratamento conservador (sem cirurgia) costuma funcionar muito bem, mas exige paciência de monge.

Fase Aguda: Controle de Danos (Semanas 0-2)

RICE (Repouso, Gelo, Compressão, Elevação) atualizado

Nas primeiras 72 horas, seu joelho é uma zona de guerra inflamatória. Esqueça aquela ideia de “movimentar para não enferrujar” agora. Precisamos estancar o sangramento interno e limitar o edema. Gelo é seu melhor amigo: 20 minutos a cada 2 ou 3 horas.

A compressão é vital. Use uma faixa elástica ou uma joelheira compressiva para evitar que o joelho vire uma bola de futebol. O inchaço excessivo inibe os músculos da coxa (inibição artrogênica), e quanto mais inchado, mais difícil será reativar sua força depois. Eleve a perna acima do nível do coração sempre que possível para ajudar a drenar esse líquido.

A importância inegociável da extensão completa

Aqui está o maior erro que vejo na clínica: o atleta fica com o joelho dobrado o tempo todo porque “estendido dói”. Se você deixar o joelho cicatrizar flexionado, ele vai criar uma fibrose encurtada. Perder a extensão total do joelho (ficar com a perna manca) é muito pior do que perder a flexão.

Desde o primeiro dia, tente manter a perna esticada quando estiver descansando. Coloque um rolinho de toalha embaixo do calcanhar (não do joelho!) e deixe a gravidade agir. Dói? Um pouco. É desconfortável? Bastante. Mas é o que garante que você não vai mancar para o resto da vida.

Brace e muletas: Amigos necessários

Eu sei que você quer mostrar que é durão, mas usar muletas por alguns dias não fere sua honra, e sim protege seu ligamento. Se você pisa e sente dor ou falseio, use muletas. Precisamos tirar a carga para permitir que as fibras de colágeno comecem a se reconectar.

O brace (aquela joelheira articulada com hastes metálicas laterais) é fundamental em graus 2 e 3. Ele impede o movimento lateral (valgo) que rasga o ligamento, mas permite dobrar e esticar. Ele funciona como um “exoesqueleto” temporário enquanto seu ligamento interno está em obras. Use-o para dormir se a lesão for grave, para evitar movimentos bruscos durante o sono.

Reativando a Máquina: Fase de Fortalecimento

Acordando o quadríceps inibido

Lembra que falei da inibição? Seu cérebro, para proteger a articulação, “desliga” o quadríceps. Você tenta contrair a coxa e nada acontece. Nosso primeiro objetivo na reabilitação ativa é reconectar esse fio.

Começamos com isometria (força sem movimento). Sentado com a perna esticada, tente esmagar uma toalha enrolada embaixo do joelho, contraindo a coxa com força total. Segure por 10 segundos. Repita exaustivamente ao longo do dia. Outro exercício excelente é o Straight Leg Raise: deitado, trave o joelho em extensão total e levante a perna reta até a altura do outro joelho. Parece bobo, mas se tremer, é porque precisamos trabalhar isso.

Cadeia Cinética Fechada: Segurança biomecânica

Assim que você conseguir pisar sem dor, migramos para exercícios de Cadeia Cinética Fechada (onde o pé está fixo no chão/plataforma). Eles são muito mais seguros para o LCM do que a Cadeira Extensora, por exemplo, pois geram compressão articular e co-contração dos isquiotibiais, protegendo o ligamento.

O mini-agachamento (descendo apenas 30-45 graus) e o Leg Press com carga leve são o padrão ouro aqui. O foco não é hipertrofia ainda, é controle motor. O joelho não pode “sambar” para dentro durante o movimento. Se entrar em valgo dinâmico durante o agachamento, voltamos uma casa. A qualidade do movimento dita a progressão, não a carga.

O papel crucial do Glúteo Médio

Aqui está o segredo que separa uma boa reabilitação de uma medíocre: o glúteo. O Glúteo Médio (na lateral do quadril) é quem controla o fêmur. Se ele for fraco, seu fêmur roda para dentro a cada passo, esticando o LCM cicatrizado.

Você precisa blindar o quadril. Exercícios como a “Ostra” (Clam shell), passadas laterais com elástico (Monster Walk) e elevação pélvica unipodal são obrigatórios. Pense no glúteo como o volante do carro e no joelho como a roda. Se você não controlar o volante, a roda vai bater na guia. Fortalecer o quadril tira a sobrecarga mecânica lá de baixo no joelho.

Treino de “Caos Controlado”: Preparação para Luta

Perturbações e estabilidade rotacional

No Jiu-Jitsu, ninguém vai te avisar para onde vai te empurrar. O ambiente é caótico. Na fase avançada da fisioterapia, precisamos simular isso. Trabalhamos com bases instáveis (bosu, disco de equilíbrio), mas com um detalhe: perturbação externa.

Fique em um pé só (apoio unipodal) e peça para alguém jogar uma bola para você ou te dar empurrões leves e imprevisíveis no ombro. Seu objetivo é não deixar o pé sair do chão nem o joelho entrar. Isso treina seu sistema proprioceptivo para reagir em milissegundos, ativando a musculatura antes que o ligamento sofra.

Pliometria e aterrissagem

Antes de voltar a fazer quedas, você precisa aprender a aterrissar. A pliometria (saltos) começa simples: saltitos no lugar com os dois pés. O foco é o som — a aterrissagem deve ser silenciosa, amortecendo com a ponta do pé, joelho e quadril.

Evoluímos para saltos laterais (skater jumps), que imitam a troca de base na luta. Aterrissar e “congelar” na posição, garantindo que o joelho esteja alinhado com a ponta do pé, é o teste final de estabilidade dinâmica. Se você consegue saltar para o lado lesionado e aterrissar firme como uma rocha, estamos quase lá.

Simulação de gestos esportivos (Drills)

Não volte direto para o “rola”. Comece com drills (repetições de posição) controlados. Faça entradas de queda (Uchi-komi) sem levantar o parceiro, apenas para sentir a rotação. Treine reposição de guarda sozinho (movimentação de quadril no solo).

Teste a posição de “borboleta” ou gancho. Sinta se há desconforto na face interna do joelho ao forçar o gancho para fora. Essa transição gradual serve para dar confiança psicológica. Muitas vezes o tecido está curado, mas o cérebro ainda tem medo do movimento que causou a lesão.

Estratégia de Retorno ao Tatame e Prevenção

O erro de girar para o lado errado

Na empolgação de escapar de uma chave de pé, o instinto do iniciante é girar o corpo loucamente. Se você girar para o lado oposto ao torque da chave, você está literalmente ajudando o oponente a quebrar seu joelho.

Estude a mecânica. A defesa técnica salva mais ligamentos do que qualquer fortalecimento. Aprenda a “chutar” o pé para o fundo da axila, esconder o calcanhar e brigar pelas pegadas de mão, em vez de explodir em giros aleatórios. Na dúvida, bata. O orgulho cura rápido, o ligamento demora meses.

Uso de Taping Funcional e Joelheiras

Quando for liberado para treinar, use proteção. Uma boa joelheira de neoprene com hastes laterais flexíveis oferece suporte mecânico e, mais importante, feedback sensorial (tato), lembrando seu cérebro de que aquela área precisa de atenção.

taping rígido (esparadrapo inelástico) pode ser feito cruzando sobre a linha articular medial para criar um “ligamento artificial” extra. Peça para seu fisioterapeuta te ensinar a fazer essa bota. Não é garantia de que não vai romper de novo se sofrer uma alavanca bruta, mas ajuda em pequenos entorses.

Seleção de parceiros de treino e posições

No retorno, escolha seus parceiros a dedo. Evite aquele faixa branca gigante e desajeitado ou o “chavzeiro” que só quer pegar seu pé a qualquer custo. Treine com graduados que sabem controlar o movimento e soltar se sentirem que você travou.

Evite posições como a Guarda De La Riva profunda ou a 50/50 nas primeiras semanas, pois elas colocam tensão constante em valgo e rotação externa. Jogue um jogo mais “fechado”, de meia guarda ou passador, onde você tem mais controle sobre onde seus pés estão.

Terapias aplicadas e indicadas

Para fechar, o que a gente faz no consultório para acelerar tudo isso? Além dos exercícios, usamos recursos tecnológicos. O Laser de Baixa/Alta Potência e o LED terapêutico são fantásticos para acelerar a regeneração celular do colágeno e modular a inflamação na fase aguda.

Eletroestimulação (FES/Russas) é usada associada aos exercícios para “acordar” aquele quadríceps preguiçoso, garantindo que você recrute mais fibras musculares do que conseguiria voluntariamente.

Para soltar a musculatura tensa que se forma ao redor para proteger a lesão (como adutores e isquiotibiais travados), usamos Liberação Miofascial Manual e Dry Needling (agulhamento a seco). E, claro, a Terapia Manual Ortopédica (Mulligan/Maitland) para mobilizar a articulação se houver rigidez, garantindo que a “dobradiça” do joelho deslize suave e sem dor. Cuide bem desse joelho, ele é seu principal instrumento de trabalho no tatame. Oss!

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