Proteção UV nos óculos esportivos

Proteção UV nos óculos esportivos

Você provavelmente gasta horas escolhendo o melhor tênis para absorver o impacto da corrida ou a melhor roupa para garantir a transpiração correta. Equipamentos de proteção articular como joelheiras ou bandagens funcionais também costumam estar no seu radar. No entanto existe um equipamento crucial que muitas vezes é negligenciado ou escolhido apenas pela estética e que define a qualidade do seu treino e a saúde do seu corpo a longo prazo. Estamos falando da proteção para os seus olhos.

Como fisioterapeuta vejo muitos atletas chegarem ao consultório com queixas que parecem puramente musculares mas que têm origem sensorial. A visão é o nosso principal sensor de entrada de informações sobre o ambiente. Se os seus olhos sofrem para processar a luz ou precisam lutar contra a radiação nociva o seu corpo inteiro reage para proteger esse sistema. Não se trata apenas de evitar uma doença ocular no futuro. Trata-se de garantir que sua performance hoje não seja limitada por um fator ambiental que você pode controlar facilmente.

Quando você está exposto ao ar livre a radiação solar não afeta apenas a sua pele. Seus olhos são estruturas extremamente sensíveis e vascularizadas que recebem o impacto direto dos raios ultravioleta. Ignorar a proteção adequada é como correr uma maratona descalço no asfalto quente. O dano acontece silenciosamente e quando você percebe os sintomas a lesão já está instalada. Vamos conversar sobre como blindar sua visão e consequentemente melhorar sua postura e rendimento.

A radiação ultravioleta e o impacto no sistema visual

A luz solar é composta por diferentes tipos de radiação e nem todas são visíveis ao olho humano. A radiação ultravioleta possui energia suficiente para alterar as estruturas biológicas do seu corpo. Quando falamos de óculos esportivos não estamos procurando apenas uma lente escura que diminua a claridade. O objetivo primário é criar uma barreira física e química contra ondas eletromagnéticas que literalmente cozinham as células da sua córnea e da sua retina.

Entendendo as faixas UVA, UVB e UVC

Você precisa compreender que a radiação UV se divide em três faixas principais e cada uma interage de forma diferente com a atmosfera e com seu corpo. Os raios UVC são os mais perigosos e letais mas felizmente são quase totalmente absorvidos pela camada de ozônio e não chegam até nós. O problema real para o atleta ao ar livre reside nas faixas UVA e UVB. Os raios UVB são aqueles que causam a queimadura superficial e a vermelhidão na pele e nos olhos eles afetam principalmente a córnea e o cristalino.

A radiação UVA é mais traiçoeira porque ela penetra mais fundo. Ela representa a maior parte da radiação que atinge a superfície terrestre e mantém sua intensidade constante durante todo o dia, mesmo quando o tempo está nublado. Essa radiação atravessa a córnea e atinge a retina e a mácula que são as partes nobres responsáveis pela formação da imagem. O dano causado pelo UVA é cumulativo e está associado ao envelhecimento precoce das células oculares.

Muitos pacientes me perguntam se apenas usar um boné resolve o problema. A resposta é um sonoro não. A radiação não vem apenas de cima. Ela reflete no asfalto, na areia, na água e na grama. Em dias nublados a dispersão dos raios é ainda maior. Sem uma barreira eficaz nas lentes seus olhos estão sendo bombardeados por todos os ângulos. Óculos sem tratamento UV adequado são piores que não usar nada pois as lentes escuras dilatam a pupila e permitem que mais radiação entre.

O mecanismo de lesão celular nos olhos

O processo de lesão ocular pelo sol é muito semelhante ao que acontece com uma lesão muscular por esforço repetitivo mas em nível celular. Quando a radiação UV atinge as células do olho ela gera radicais livres. Essas moléculas instáveis causam estresse oxidativo que danifica o DNA das células e as proteínas estruturais do olho. Pense nisso como uma inflamação crônica que nunca tem tempo de cicatrizar porque você está treinando no sol todos os dias.

Uma das condições agudas mais comuns que vejo em ciclistas e corredores de longa distância é a fotoceratite. É basicamente uma queimadura de sol na córnea. Os sintomas incluem dor intensa, sensação de areia nos olhos, lacrimejamento excessivo e fotofobia extrema. Isso pode tirar você de combate por dias e atrapalhar completamente sua planilha de treinos. A recuperação exige repouso absoluto em ambiente escuro o que gera perda de condicionamento físico indireta.

Além da inflamação aguda existe o crescimento anormal de tecidos. O corpo tenta se proteger da agressão constante criando uma barreira física. Isso resulta no pterígio que é aquela “carne” que cresce no canto do olho em direção à pupila. É uma resposta fibrótica do organismo muito comum em surfistas e praticantes de esportes na areia. Além de estético o pterígio pode tracionar a córnea e causar astigmatismo alterando sua acuidade visual e consequentemente seu tempo de reação no esporte.

A exposição cumulativa e o envelhecimento precoce

Na fisioterapia trabalhamos muito com o conceito de carga crônica. O corpo aguenta cargas agudas bem mas a carga crônica sem recuperação leva à falência do tecido. Com os olhos a lógica é a mesma. A catarata, que é a opacificação do cristalino, é adiantada em anos ou décadas em pessoas que praticam esportes outdoor sem proteção. O cristalino perde sua transparência e flexibilidade dificultando o foco e a nitidez.

Outra consequência grave da acumulação de radiação é a degeneração macular. A mácula é o centro da sua visão onde você tem o detalhamento fino. Danos nessa região são irreversíveis e levam à perda da visão central. Imagine não conseguir focar no rosto de uma pessoa ou ler as informações no seu relógio de treino. Isso é o que está em jogo quando você ignora a qualidade das suas lentes.

A proteção UV nos óculos esportivos retarda esse envelhecimento. Ela preserva a elasticidade dos tecidos oculares e mantém a transparência dos meios ópticos. Para um atleta veterano manter a saúde ocular é tão importante quanto manter a cartilagem dos joelhos saudável. É o que vai garantir sua longevidade no esporte permitindo que você continue ativo e competitivo por muito mais tempo.

Tecnologias de lentes para alta performance

Você não usaria um tênis de corrida feito de couro rígido para correr uma maratona. Da mesma forma não deve usar lentes de vidro ou plástico comum para praticar esportes. A tecnologia óptica avançou muito e hoje temos materiais como o policarbonato e o trivex que oferecem proteção física contra impactos além da proteção química contra radiação. Mas o grande diferencial está nos tratamentos que essas lentes recebem.

A escolha da tecnologia correta depende diretamente do ambiente onde você treina. Um ciclista de estrada enfrenta desafios visuais diferentes de um corredor de trilha. O mercado oferece soluções específicas para filtrar determinados comprimentos de onda de luz melhorando não apenas a segurança mas a qualidade da informação visual que chega ao seu cérebro. Vamos analisar as principais tecnologias disponíveis.

A física por trás das lentes polarizadas

A luz do sol vibra em todas as direções. Quando ela atinge uma superfície plana como o asfalto molhado, o capô de um carro ou um espelho d’água ela se reflete de forma horizontal. Esse reflexo concentrado cria um brilho intenso e ofuscante que chamamos de polarização. Esse brilho elimina o contraste e esconde buracos, manchas de óleo ou desníveis no terreno colocando você em risco de queda.

As lentes polarizadas possuem um filtro vertical microscópico em sua estrutura. Imagine uma persiana veneziana entreaberta. Ela bloqueia a luz que vem na horizontal (o reflexo ofuscante) e permite apenas a passagem da luz vertical que carrega a informação visual útil. Para quem pratica esportes aquáticos, pesca, ciclismo ou corrida de rua essa tecnologia é indispensável para conforto e segurança.

No entanto é preciso atenção. Em alguns esportes onde a leitura rápida de telas digitais (ciclocomputadores ou GPS) é necessária a polarização pode criar manchas negras no visor dependendo do ângulo. Além disso em trilhas com muitas sombras e raízes molhadas retirar todo o reflexo pode diminuir a percepção de profundidade de algumas texturas. Por isso a avaliação do seu cenário de treino é fundamental.

Lentes fotocromáticas e a adaptação de luz

Se o seu treino começa de madrugada e termina com o sol alto ou se você entra e sai de matas fechadas as lentes fotocromáticas são suas melhores amigas. Elas possuem moléculas baseadas em carbono que reagem à radiação UV. Quando expostas ao sol essas moléculas mudam de forma e escurecem a lente. Quando a radiação diminui elas voltam ao estado transparente.

Essa tecnologia permite que você use o mesmo óculos durante todo o treino sem precisar parar para trocar de lentes. Isso mantém seus olhos protegidos contra impactos físicos o tempo todo. A velocidade de transição (claro para escuro e vice-versa) varia conforme a qualidade da lente e a temperatura ambiente. Em dias muito frios elas tendem a escurecer mais e em dias muito quentes a reação pode ser levemente mais lenta.

Do ponto de vista fisioterapêutico manter uma luminosidade constante na retina é excelente. Isso evita que a pupila tenha que fazer um trabalho excessivo de contração e dilatação constante. Esse esforço muscular intrínseco do olho, quando repetido milhares de vezes em um treino longo, gera fadiga visual e central contribuindo para a sensação de cansaço geral no final da atividade.

Tratamentos hidrofóbicos e antiembaçantes

Quem sua muito sabe o desespero de ter a lente embaçada no meio de uma descida técnica ou de um sprint. O embaçamento ocorre pela condensação do vapor do suor na superfície mais fria da lente. Tecnologias antiembaçantes alteram a tensão superficial da lente fazendo com que a água se espalhe em uma camada fina e transparente em vez de formar gotículas que bloqueiam a visão.

Já os tratamentos hidrofóbicos e oleofóbicos funcionam repelindo água e gordura. Isso é vital para que o suor escorra rapidamente sem deixar rastros e para que marcas de dedo ou protetor solar não fiquem impregnadas na lente. Uma lente suja distorce a luz e obriga o cérebro a “preencher” as lacunas da imagem o que aumenta o processamento cognitivo e a fadiga mental.

Lentes de qualidade inferior perdem esses tratamentos em poucas lavagens. Lentes esportivas de alta performance têm esses tratamentos incorporados na matriz do material ou aplicados em camadas de alta durabilidade. Investir nisso é investir em clareza visual. Você não quer perder um detalhe do terreno a 40km/h porque sua lente está manchada de óleo ou embaçada.

A influência das cores no desempenho atlético

A cor da lente não é apenas uma questão de estilo. Cada cor filtra comprimentos de onda específicos do espectro de luz visível alterando a forma como você percebe contraste, profundidade e cores do ambiente. Como fisioterapeuta analiso isso sob a ótica da neurociência. A cor certa envia o estímulo certo para o córtex visual facilitando a tomada de decisão motora.

Escolher a cor errada pode mascarar perigos. Uma lente muito escura em um dia nublado diminui seu tempo de reação. Uma lente clara demais em um dia de sol intenso causa ofuscamento e tensão muscular. O segredo está em manipular o espectro de luz a seu favor realçando o que você precisa ver e atenuando o que atrapalha.

Contraste e profundidade em ambientes terrosos

Para esportes praticados em ambientes com muito verde e marrom como mountain bike, trilha ou golfe as lentes de base marrom, cobre, rosa ou vermelha são excepcionais. Essas cores filtram a luz azul (que dispersa muito e diminui a nitidez) e realçam os vermelhos e verdes. O resultado é um aumento dramático no contraste.

Com esse tipo de lente as raízes, pedras e desníveis do terreno saltam aos olhos. Você consegue ler a textura do chão com muito mais rapidez e precisão. Isso permite que você ajuste seu corpo e sua passada antes do impacto evitando torções e quedas. A percepção de profundidade é aprimorada dando mais segurança em descidas técnicas e terrenos irregulares.

Lentes laranjas e amarelas são ideais para dias nublados ou condições de baixa luz (fim de tarde ou amanhecer). Elas transmitem uma grande quantidade de luz para o olho enquanto aumentam o contraste. Elas iluminam o cenário dando uma sensação de maior clareza visual mesmo quando o sol não está presente ajudando a identificar obstáculos na penumbra.

Conforto visual em ambientes de alta luminosidade

Em cenários onde o brilho é extremo e as cores do ambiente não variam muito como no asfalto cinza ou no mar azul profundo as lentes cinzas e verdes são as mais indicadas. A lente cinza reduz a intensidade da luz de forma neutra sem alterar a percepção real das cores. É a melhor opção para quem corre longas distâncias sob sol forte e quer o máximo de descanso para os olhos.

As lentes verdes também oferecem bom contraste e conforto visual sendo muito versáteis para condições de luz variada. Elas ajudam a reduzir o brilho e a clarear as sombras. O objetivo aqui é diminuir a quantidade total de fótons que atingem a retina evitando a saturação dos fotorreceptores.

Quando você treina em altitude ou na neve a radiação é ainda mais intensa. Nesses casos lentes com tratamento espelhado são fundamentais. O espelhamento reflete grande parte da luz antes mesmo dela entrar na lente funcionando como um escudo térmico e luminoso. Isso mantém o olho mais fresco e protegido contra a cegueira momentânea causada pelo reflexo intenso.

O uso de lentes claras em condições noturnas

Muitos atletas acham que à noite não precisam de óculos. Grande erro. À noite você está exposto a insetos, poeira, galhos e pedras projetadas por carros. A proteção física continua sendo necessária. Para isso existem as lentes totalmente transparentes ou levemente amareladas para uso noturno.

Essas lentes devem ter tratamento antirreflexo de alta qualidade para evitar que os faróis dos carros ou a iluminação pública criem fantasmas ou halos na sua visão. O material deve ser o mesmo policarbonato resistente das lentes de sol pois o risco de impacto físico é o mesmo ou até maior devido à visibilidade reduzida.

Usar óculos à noite também protege seus olhos do vento. O vento resseca a córnea fazendo você piscar mais vezes e perder o foco visual. Manter a umidade natural do olho com uma barreira física garante que sua visão permaneça nítida durante todo o percurso noturno prevenindo irritações e olhos vermelhos no dia seguinte.

Biomecânica e ergonomia da armação esportiva

De nada adianta a melhor lente do mundo se a armação não fica parada no seu rosto ou se ela machuca suas orelhas. A ergonomia é o ponto onde o equipamento encontra a anatomia humana. Como fisioterapeuta avalio o conforto não como um luxo mas como uma necessidade para evitar compensações posturais e pontos de tensão.

Uma armação solta faz você mudar a posição da cabeça constantemente para “segurar” os óculos. Uma armação apertada gera dor de cabeça compressiva. O design esportivo deve levar em conta a movimentação dinâmica do corpo o suor e as forças de impacto.

O ajuste das hastes e a pressão temporal

As hastes dos óculos não devem fazer pressão excessiva nas têmporas. Nessa região passam artérias e nervos superficiais importantes. Uma compressão constante ali pode desencadear dores de cabeça tensionais que o atleta confunde com desidratação ou esforço. O ideal são hastes retas ou levemente curvadas com material emborrachado que agarre a pele sem apertar.

O sistema de fixação deve ser por atrito suave através de borrachas hidrofílicas. Esse tipo de borracha fica mais aderente quando molhada pelo suor. Isso impede que os óculos escorreguem pelo nariz o que é extremamente irritante e perigoso. Você precisa esquecer que está usando óculos. Se você lembra deles durante o treino é porque o ajuste está errado.

A compatibilidade com outros equipamentos também é vital. Se você usa capacete as hastes dos óculos não podem brigar com o sistema de retenção do capacete. Isso cria pontos de pressão atrás da orelha ou na nuca. Teste sempre os óculos com o seu capacete habitual para garantir que eles se integrem perfeitamente.

Campo de visão periférico e segurança

No esporte a visão periférica é o que te salva. É ela que detecta o carro vindo na lateral, o adversário se aproximando ou o galho baixo. Óculos casuais ou de moda costumam ter aros grossos ou lentes pequenas que bloqueiam essa visão lateral. Óculos esportivos precisam ter um design “wrap-around” ou curvado que envolva o rosto.

Essa curvatura serve para duas coisas. Primeiro ampliar o campo visual sem obstruções da armação. Segundo proteger contra a luz lateral. A luz que entra pelos lados reflete na parte interna da lente e vai direto para o olho causando um ofuscamento muito incômodo. Além disso a proteção lateral impede a entrada de vento e poeira que ressecam o olho.

Armações “rimless” (sem aro na parte inferior ou superior) são excelentes para esportes como ciclismo onde você passa muito tempo olhando para cima (posição aerodinâmica) ou para baixo. A ausência de aro remove pontos cegos e deixa o equipamento mais leve melhorando a sensação de liberdade visual.

Materiais de absorção de impacto

O material da armação deve ser flexível e resiliente. O Grilamid (um tipo de nylon) é o padrão ouro na indústria esportiva. Ele é leve, resistente a variações de temperatura e incrivelmente flexível. Em caso de impacto ou queda a armação não deve quebrar em pedaços pontiagudos que possam ferir seu rosto. Ela deve deformar e absorver a energia ou se soltar em partes seguras (as hastes se desencaixam em vez de quebrar).

Evite armações de metal para esportes de contato ou de alta velocidade. O metal é rígido e em um acidente pode causar lacerações graves. Além disso o metal esquenta muito no sol e esfria muito no inverno podendo causar queimaduras ou desconforto na pele. Plásticos de alta tecnologia são sempre a escolha mais segura e biomecanicamente correta.

A relação entre visão, postura e tensão cervical

Aqui entramos na minha área de especialidade. Existe uma conexão direta e neurológica entre seus olhos e os músculos do seu pescoço. Essa conexão é mediada por reflexos vestíbulo-oculares e cérvico-oculares. Quando sua visão não está clara ou quando você sofre com excesso de luz seu corpo adota posturas de compensação que geram dor e lesão.

O reflexo de semicerrar os olhos e a cadeia posterior

Quando você está sem óculos ou com óculos ruins em um dia de sol sua reação natural é franzir a testa e semicerrar os olhos (o famoso “squinting”). Esse movimento ativa a musculatura periocular e frontal. O problema é que essa tensão não fica isolada ali. Ela se irradia para os músculos suboccipitais que ficam na base do crânio conectando a cabeça à primeira vértebra cervical.

A tensão nos suboccipitais é uma das principais causas de dores de cabeça tensionais e rigidez no pescoço. Quando esses músculos encurtam eles puxam a cabeça para uma posição de extensão (queixo para cima). Isso altera toda a biomecânica da coluna cervical sobrecarregando o trapézio e os músculos das costas. Tudo isso porque você não protegeu seus olhos da luz.

Usar óculos com a proteção UV e a tonalidade correta permite que você mantenha os músculos da face relaxados. Olhos relaxados significam pescoço relaxado. Pescoço relaxado significa ombros soltos e melhor mecânica de corrida ou pedalada. É um efeito cascata positivo que começa na lente dos seus óculos.

Propriocepção visual e o controle do equilíbrio

O equilíbrio humano depende de três sistemas: o vestibular (labirinto), o proprioceptivo (sensores nos músculos e articulações) e o visual. A visão é a âncora principal. Se a entrada visual é pobre, distorcida ou ofuscada o cérebro fica inseguro. Para compensar essa insegurança ele aumenta o tônus muscular global deixando você mais rígido e “duro” nos movimentos.

Essa rigidez diminui sua fluidez e eficiência atlética. Você gasta mais energia para realizar o mesmo movimento. Além disso a falta de contraste no solo prejudica a antecipação. Se você não vê o buraco com clareza seu corpo não se prepara para o impacto no tempo certo resultando em choques articulares mais violentos e maior risco de entorse.

Óculos que melhoram o contraste funcionam como um “super sensor” para o seu cérebro. Com informações visuais de alta qualidade seu sistema nervoso central pode relaxar a musculatura de proteção e permitir movimentos mais fluidos, econômicos e precisos.

Fadiga visual e compensações musculares

A fadiga visual drena sua bateria de energia geral. O esforço cognitivo para processar imagens em condições de luz ruim compete com o esforço motor para correr ou pedalar. O cérebro prioriza a visão. Se ver está difícil ele “rouba” energia de outros sistemas. É por isso que após um treino longo no sol sem óculos você sente um cansaço e uma sonolência desproporcionais ao esforço físico.

Além disso a fadiga visual leva à anteriorização da cabeça. Você projeta o pescoço para frente na tentativa inconsciente de “ver melhor”. Essa postura de “pescoço de tartaruga” aumenta absurdamente o peso da cabeça sobre a coluna cervical gerando hérnias de disco e dores crônicas a longo prazo. Proteger a visão é proteger a coluna.

Manutenção da integridade do filtro UV

Seus óculos são um equipamento de precisão e precisam ser tratados como tal. A proteção UV não dura para sempre se for mal cuidada e riscos na lente podem causar difração da luz piorando sua visão em vez de ajudar. A durabilidade do seu investimento depende diretamente dos seus hábitos de limpeza e armazenamento.

A degradação dos tratamentos químicos da lente

Produtos químicos agressivos são os maiores inimigos das lentes espelhadas e com filtro UV. Nunca use álcool, limpa-vidros domésticos, detergentes com amônia ou sabonetes com hidratantes para limpar seus óculos. Esses produtos atacam o revestimento da lente fazendo com que ela descasque ou fique manchada irreversivelmente.

O suor é extremamente corrosivo devido ao sal e à acidez. Se você deixar os óculos secarem com suor após o treino o sal vai cristalizar e agir como uma lixa microscópica na próxima vez que você passar um pano. Com o tempo isso remove as camadas de proteção antirreflexo e hidrofóbicas tornando a lente inútil.

Higienização correta pós-treino

A regra de ouro é: lave seus óculos imediatamente após o treino. Use apenas água corrente fria ou morna e uma gota de sabão neutro (detergente de louça neutro é ótimo). Esfregue suavemente com as pontas dos dedos para remover a gordura e o sal. Enxágue abundantemente.

Para secar nunca use a camiseta, papel toalha ou papel higiênico. As fibras de madeira do papel e a poeira na camiseta riscam a lente. Use apenas o saquinho de microfibra que veio com os óculos ou um pano de microfibra limpo específico para ótica. Faça movimentos suaves sem esfregar com força.

Sinais de que seus óculos perderam a eficácia

Óculos têm vida útil. Se a lente estiver cheia de riscos, a luz vai se dispersar nesses sulcos criando halos e ofuscamento. Se o revestimento espelhado estiver descascando a proteção não é mais uniforme. Se a armação estiver ressecada e esbranquiçada ela perdeu a flexibilidade e pode quebrar no seu rosto em um impacto.

Geralmente recomenda-se a troca das lentes ou dos óculos a cada dois anos de uso intenso, ou antes, se houver danos visíveis. Lembre-se que o filtro UV em si costuma estar na massa da lente (em boas marcas) e não sai, mas a qualidade ótica da superfície se degrada comprometendo sua visão.

Considerações sobre Terapias e Abordagens Fisioterapêuticas

Como conversamos ao longo deste artigo a proteção visual inadequada pode levar a tensões musculares reais. Se você negligenciou o uso de óculos por muito tempo e agora sente dores cervicais, dores de cabeça frequentes após o treino ou tensão nos ombros algumas abordagens terapêuticas podem ajudar a reverter esse quadro enquanto você adota o novo hábito de usar óculos corretos.

Liberação Miofascial é fundamental para soltar a musculatura suboccipital, o trapézio e o esternocleidomastoideo, músculos que ficam hipertensionados quando forçamos a visão. Técnicas manuais ou instrumentais ajudam a restaurar a irrigação sanguínea e a mobilidade do pescoço aliviando as dores de cabeça tensionais.

Dry Needling (Agulhamento a Seco) é uma ferramenta poderosa que utilizo para desativar pontos-gatilho (nós de tensão) profundos no pescoço e na mandíbula que muitas vezes são ativados pelo esforço visual constante. É uma técnica rápida e eficaz para “resetar” o tônus muscular alterado.

Por fim a Reeducação Postural Global (RPG) ou exercícios de controle motor cervical são indicados para corrigir a anteriorização da cabeça. Se você passou anos projetando a cabeça para frente para ver melhor seu corpo “aprendeu” essa postura errada. Precisamos ensinar sua coluna a voltar para o eixo neutro melhorando sua biomecânica de corrida e prevenindo lesões discais.

Cuide dos seus olhos com a mesma dedicação que você cuida dos seus músculos. Eles são a janela da sua performance e o guia do seu movimento. Bons treinos e proteja-se!

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