Prevenção de lesões de fise (placa de crescimento) em jovens jogadores

Prevenção de lesões de fise (placa de crescimento) em jovens jogadores

Fala, tudo bem? Puxa uma cadeira e senta aqui. Se você é pai, mãe ou treinador de um jovem talento, a gente precisa ter uma conversa muito séria hoje. Eu vejo brilho nos olhos dessa garotada que chega aqui na clínica querendo ser o próximo ídolo do futebol, do vôlei ou da ginástica. Eles têm energia de sobra, vontade de vencer e uma capacidade de aprendizado incrível. Mas, por dentro desse corpo cheio de potencial, existe uma “zona de construção” delicada que, se não respeitada, pode colocar tudo a perder antes mesmo do jogo começar.

Estou falando da fise, a famosa placa de crescimento. É um termo que assusta quando aparece no raio-X ou na ressonância, mas que precisa ser entendido como parte natural da biologia de quem ainda está crescendo. O problema não é ter placa de crescimento; o problema é tratar uma criança ou adolescente como se fosse um adulto em miniatura, dando a eles cargas de treino e responsabilidades físicas que a estrutura óssea deles ainda não está pronta para suportar.

Neste papo de hoje, vou desmistificar o que acontece no esqueleto do jovem atleta. Vou te explicar por que o joelho do seu filho dói, por que ele começou a mancar depois daquele campeonato intenso e, o mais importante, como podemos blindar esses garotos e garotas para que eles atravessem a fase de crescimento sem dores crônicas e com o passaporte carimbado para uma vida esportiva longa e saudável. Vamos nessa?

O que é a fise e por que ela é o “Calcanhar de Aquiles” do jovem atleta?

Anatomia da placa de crescimento: Mais fraca que o ligamento

Imagine que você está construindo um prédio. As vigas de concreto já estão lá, fortes e sólidas, mas as junções entre elas ainda estão preenchidas com um cimento fresco, mais mole. No corpo da criança, os ossos longos (como o fêmur na coxa ou a tíbia na canela) são as vigas. A fise, ou placa de crescimento, é esse cimento fresco localizado nas pontas dos ossos. É uma camada de cartilagem ativa onde as células estão se multiplicando loucamente para fazer o osso esticar.

Biologicamente, essa região é uma maravilha da natureza, permitindo que a gente cresça. Mecanicamente, porém, ela é o elo mais fraco da corrente. Em um adulto, os ligamentos e tendões são, muitas vezes, as primeiras coisas a romperem sob estresse extremo. Em uma criança, a placa de crescimento é de 2 a 5 vezes mais fraca que os ligamentos que a rodeiam. Isso significa que, numa torção de tornozelo onde um adulto romperia o ligamento, a criança pode fraturar a fise.

Entender essa fragilidade estrutural é o primeiro passo. Não é que seu filho seja “fraco” ou “de vidro”. É que a anatomia dele prioriza o crescimento em vez da resistência máxima à tração. Cada vez que ele salta, corre ou chuta, as forças passam por essa zona mole. Se a carga for maior do que a capacidade dessa cartilagem de resistir, começamos a ter microlesões que, se ignoradas, podem virar problemas sérios de desenvolvimento ósseo.

O estirão do crescimento: Quando o osso cresce mais rápido que o músculo

Você já notou que, de repente, a calça do uniforme ficou curta em questão de semanas? Esse é o estirão do crescimento, o momento mais crítico para o jovem atleta. Durante essa fase, os ossos crescem numa velocidade impressionante. O problema é que os tecidos moles – músculos e tendões – não têm a mesma velocidade de adaptação. Eles ficam para trás nessa corrida biológica.

O resultado é um sistema sob tensão constante. Imagine uma corda de arco: o arco (osso) ficou maior, mas a corda (músculo/tendão) manteve o mesmo tamanho. Isso deixa a corda esticada ao máximo, puxando violentamente as pontas onde ela se prende. Essas pontas são, adivinhe só, vizinhas das placas de crescimento. Essa tensão natural já existe mesmo em repouso; adicione a isso 10 horas de treino semanal e você tem a receita para a inflamação.

Nessa fase, o jovem atleta também perde flexibilidade e coordenação motora. Eles ficam “desengonçados”, tropeçam nos próprios pés e perdem a técnica que já dominavam. Isso não é falta de talento, é o cérebro tentando recalibrar o controle de um corpo que mudou de tamanho e alavanca da noite para o dia. Cobrar performance técnica perfeita nesse período é lutar contra a fisiologia.

Diferenciando dor do crescimento de lesão de fise

Muitos pais chegam aqui dizendo “o médico disse que é dor do crescimento”. Cuidado com esse diagnóstico de exclusão. A dor do crescimento clássica geralmente é bilateral (nas duas pernas), ocorre mais no final da tarde ou noite, não está ligada a um trauma específico e a criança acorda bem no dia seguinte, pronta para correr. Ela não causa inchaço, vermelhidão ou alteração na forma de andar (mancar).

Já a lesão da fise ou as apofisites (inflamações onde o tendão se prende ao osso) têm características diferentes. A dor piora durante ou logo após a atividade física. Ela é pontual – a criança consegue apontar com um dedo exatamente onde dói (geralmente uma proeminência óssea). E o sinal mais claro: altera a função. Se o atleta começa a mancar, mudar a passada ou evitar certos movimentos para não sentir dor, isso não é “apenas” crescimento. É lesão.

Ignorar esses sinais e rotular tudo como “fase” pode levar a fraturas por estresse ou avulsões ósseas, onde o tendão arranca um pedaço do osso. Precisamos ter um olhar clínico aguçado. Dor que impede a prática esportiva ou muda a biomecânica exige avaliação imediata e ajuste de carga, não apenas um “vai passar”.

Os vilões silenciosos: Causas comuns de lesões fisárias

Especialização precoce: O perigo de repetir o mesmo gesto mil vezes

Hoje em dia existe uma pressão enorme para que as crianças escolham um esporte único muito cedo. “Ele vai ser jogador de futebol”, e aí o garoto de 10 anos só joga futebol, treina fundamentos de futebol e compete no futebol o ano todo. A especialização precoce é um dos maiores fatores de risco para lesões de fise porque ela submete o corpo a um padrão de estresse repetitivo sem variação.

O corpo humano precisa de variabilidade para distribuir as cargas. Se a criança só faz o movimento de chutar ou de arremessar uma bola de beisebol, ela está martelando a mesma placa de crescimento, no mesmo ângulo, milhares de vezes. O tecido não tem tempo de se recuperar entre as sessões porque o estímulo é sempre idêntico. A falta de diversidade motora cria desequilíbrios musculares severos e sobrecarrega estruturas específicas.

Além do risco físico, a especialização precoce rouba da criança o desenvolvimento de habilidades motoras globais que outros esportes trariam. Um jogador de futebol que também nada ou faz judô desenvolve um corpo mais resiliente e adaptável. Focar em um único esporte antes da puberdade é, estatisticamente, o caminho mais rápido para o consultório de fisioterapia e, infelizmente, para o abandono precoce do esporte por burnout ou lesão.

O mito do “No Pain, No Gain” na infância

Essa mentalidade militar de “sem dor, sem ganho” é perigosa para adultos, mas é desastrosa para crianças. O sistema de dor da criança funciona perfeitamente como um alarme de incêndio. Se dói, é porque tem algo errado. Treinadores ou pais que incentivam o jovem a “superar a dor” ou “ser guerreiro” estão ensinando a ignorar os sinais vitais do próprio corpo.

Uma criança não deve treinar com dor na placa de crescimento. Ponto final. A dor na fise indica que a taxa de destruição tecidual está maior que a taxa de reparo. Continuar treinando sobre essa dor não vai deixar o atleta mais forte mentalmente; vai causar danos estruturais que podem deformar o osso permanentemente. A coragem no esporte infantil não é jogar machucado, é ter a maturidade de dizer “hoje não dá” para proteger o futuro.

Nós, profissionais, precisamos educar as famílias de que descanso é treino. Recuperação é parte da performance. Um jovem que para duas semanas para tratar uma inflamação inicial perde muito menos do que aquele que empurra com a barriga por seis meses e acaba com uma fratura por estresse que o tira da temporada inteira.

Déficits biomecânicos e controle motor imaturo

Muitas vezes, a culpa não é só do volume de treino, mas da qualidade do movimento. Jovens atletas frequentemente têm déficits de controle motor. Eles têm força para saltar, mas não têm controle para aterrissar. O joelho cai para dentro (valgo dinâmico), o tronco despenca para frente, o pé desaba. Essa má mecânica aumenta exponencialmente a força de tração sobre as fises.

Imagine um elástico sendo puxado. Se você puxa alinhado, ele aguenta X. Se você puxa torcendo, ele arrebenta com metade da força. Quando o jovem não tem estabilidade de core (centro do corpo) e glúteos, as articulações periféricas pagam o preço. Aterrissagens de saltos mal feitas no vôlei ou basquete geram picos de impacto que vão direto para a tuberosidade da tíbia.

Corrigir a técnica e ensinar a criança a se mover com eficiência é a melhor prevenção. Não adianta apenas tratar a dor e devolver o atleta para o campo com a mesma mecânica “torta” que causou a lesão. A reabilitação precisa envolver reeducação do movimento, ensinando o cérebro a controlar o corpo em crescimento.

As zonas de perigo: Onde as lesões acontecem com mais frequência

O joelho: Entendendo o Osgood-Schlatter

Essa é a campeã das queixas no meu consultório. O menino ou menina aponta para aquele “caroço” logo abaixo do joelho e diz que dói para correr, saltar e até ajoelhar. Isso é a Doença de Osgood-Schlatter. Acontece quando o tendão patelar (que é a continuação do músculo da coxa) puxa repetidamente a placa de crescimento da tíbia.

O corpo, tentando se defender dessa tração excessiva, começa a depositar mais osso no local, criando a protuberância. Em casos parecidos, a dor é no polo inferior da patela (Sinding-Larsen-Johansson). Ambos são causados pela combinação de crescimento rápido, quadríceps encurtado e excesso de impacto. É muito comum no futebol, basquete e ginástica.

O tratamento não é cirúrgico, mas exige paciência. Precisamos reduzir a carga de impacto, soltar a musculatura da coxa e fortalecer a cadeia posterior (glúteos e posteriores) para equilibrar as forças. O uso de joelheiras ou tiras subpatelares ajuda a mudar o ponto de tensão, mas o segredo é o gerenciamento da dor e da carga.

O calcanhar: A Doença de Sever e o impacto da corrida

Se a dor é no calcanhar, especialmente em crianças entre 8 e 12 anos que jogam futebol ou fazem ginástica, provavelmente estamos lidando com a Doença de Sever. É uma inflamação na placa de crescimento do calcâneo, onde o tendão de Aquiles se prende. O mecanismo é o mesmo: o osso cresceu, a panturrilha ficou curta e agora está puxando o calcanhar a cada passo.

Chuteiras com travas baixas ou tênis muito planos agravam o problema porque aumentam a tensão no tendão de Aquiles. A criança começa a andar na ponta dos pés para evitar apoiar o calcanhar. É uma dor limitante que tira o prazer do esporte.

A solução envolve calcanheiras de silicone para elevar levemente o calcanhar (tirando a tensão do tendão temporariamente), muito alongamento suave de panturrilha e modificação das atividades de impacto. Não é “fascite plantar” de adulto; é uma entidade própria da pediatria esportiva.

O cotovelo e o ombro nos esportes de arremesso

No beisebol, tênis e vôlei, os membros superiores são o alvo. O “Little League Elbow” (Cotovelo das Pequenas Ligas) é uma lesão por estresse na parte interna do cotovelo, causada pela força de valgo durante o arremesso. A fise do epicôndilo medial sofre tração violenta a cada lançamento.

No ombro, temos a epifisite do úmero proximal (“Little League Shoulder”). São lesões sérias que, se não tratadas com paradas estratégicas nos arremessos, podem levar a deformidades e artrose precoce. A contagem de arremessos (pitch count) é a ferramenta preventiva mais importante nesses esportes.

Aqui, a técnica é soberana. Arremessar ou sacar usando apenas o braço, sem a ajuda do tronco e das pernas, sobrecarrega as articulações pequenas. Ensinar a criança a usar a cadeia cinética completa para gerar força poupa as placas de crescimento do braço.

Estratégias de Blindagem: Prevenção ativa na prática

Monitoramento de carga: A regra da idade e o descanso obrigatório

Como saber quanto é demais? Uma regra de ouro simples e eficaz é: a criança não deve treinar mais horas por semana do que a sua idade em anos. Se seu filho tem 10 anos, o teto seguro é 10 horas semanais de esporte organizado. Passou disso, o risco de lesão dispara estatisticamente.

Além disso, o descanso não é negociável. A criança precisa de pelo menos 1 a 2 dias na semana sem treino específico da modalidade e, idealmente, 2 a 3 meses no ano longe daquele esporte específico (pode fazer outras atividades, mas dar folga daquele padrão de movimento).

Monitore também a intensidade. Se a semana foi pesada com jogos escolares e do clube, a semana seguinte deve ser mais leve. Essa ondulação de carga permite que as placas de crescimento se recuperem e se fortaleçam, em vez de se desgastarem.

Treinamento neuromuscular: Ensinando o corpo a aterrissar e desacelerar

Prevenção não é só alongar. É ensinar o cérebro a controlar o corpo. Programas de aquecimento neuromuscular, como o FIFA 11+, mostraram reduzir lesões drasticamente. O foco deve ser ensinar a criança a aterrissar de saltos com os joelhos alinhados (sem deixar cair para dentro) e amortecendo suavemente (“cair como um gato, sem fazer barulho”).

Exercícios de equilíbrio, pranchas para o core e agachamentos com técnica perfeita devem fazer parte da rotina desde cedo. Não precisamos de cargas altas de peso; o peso do próprio corpo é suficiente para gerar adaptação neuromuscular nessa idade.

Ensinar a desacelerar é mais importante que ensinar a acelerar. A maioria das lesões acontece na frenagem. Jogos de “pique-estátua” ou circuitos de agilidade que exigem paradas bruscas controladas são excelentes ferramentas lúdicas de prevenção.

Flexibilidade funcional: Soltando a tensão sobre a placa sem perder força

O alongamento para crianças deve ser dinâmico antes do treino e estático depois, mas sempre com cuidado. Durante o estirão, o músculo está tenso como uma corda de violino. Forçar um alongamento agressivo pode irritar ainda mais a inserção.

O foco deve ser a “flexibilidade funcional”: manter a amplitude de movimento necessária para o esporte. O uso do rolo de liberação miofascial (foam roller) é fantástico para soltar a fáscia e o músculo sem tracionar a placa de crescimento excessivamente. Ensinar o jovem atleta a usar o rolinho na panturrilha, quadríceps e glúteos é dar a ele autonomia sobre a própria saúde.

Manter a musculatura “solta” reduz a tensão constante sobre a fise, dando uma margem de segurança maior durante os movimentos explosivos do esporte.

O papel dos pais e treinadores na longevidade do atleta

Comunicação aberta: Criando um ambiente onde a dor não é fraqueza

O maior medo do jovem atleta é decepcionar os pais ou perder a vaga no time. Por isso, eles escondem a dor. Pais e treinadores precisam criar um ambiente seguro onde relatar desconforto é visto como sinal de inteligência e profissionalismo, não de fraqueza.

Pergunte regularmente: “Como está o corpo hoje?”, “Sentiu alguma pontada diferente?”. Se a criança relatar dor, valide. Não julgue. Leve a sério. Uma semana fora agora salva uma temporada inteira lá na frente. Você é o guardião da saúde dele, já que ele ainda não tem maturidade para ser.

Variabilidade motora: Por que jogar outros esportes protege seu filho

Incentive a prática de múltiplos esportes (multisport). Se ele joga futebol, que tal natação ou judô? A natação tira o impacto e trabalha o cardio. O judô ensina a cair e fortalece o core. Essa variedade distribui o estresse físico e evita o burnout mental.

A especialização pode esperar até o final da adolescência (15-16 anos). Os estudos mostram que atletas que diversificaram na infância têm carreiras mais longas e menos lesões do que aqueles que se especializaram cedo demais. Deixe seu filho brincar de esporte, não trabalhar com esporte.

O sono e a nutrição como ferramentas de reparo tecidual

O sono é o melhor “anabolizante” natural e o reparador tecidual mais potente que existe. É durante o sono profundo que o hormônio do crescimento (GH) é liberado. Adolescentes atletas precisam de 9 a 10 horas de sono. Dormir pouco aumenta o risco de lesão em quase 2 vezes.

Nutrição também é chave. Cálcio e Vitamina D são os tijolos da construção óssea. Em fases de crescimento rápido, a demanda calórica é gigante. Se o atleta gasta muito e come pouco (déficit energético), o corpo tira recursos do osso, enfraquecendo a fise e aumentando o risco de fraturas por estresse. Garanta que o “tanque” esteja sempre cheio com comida de qualidade.


Terapias aplicadas e indicadas

Para fechar, quero deixar claro que, se a prevenção falhar e a dor aparecer, a fisioterapia tem recursos excelentes. A base sempre será a Cinesioterapia (exercícios terapêuticos) focada em corrigir os desequilíbrios musculares e padrões de movimento errados.

Terapia Manual (liberação miofascial, mobilizações articulares suaves) ajuda muito a aliviar a tensão muscular que traciona a fise e a reduzir a dor aguda. Em casos de inflamação mais teimosa, a Fotobiomodulação (Laser de baixa potência e LED) é uma grande aliada, pois acelera a regeneração celular e controla a inflamação sem o uso de medicamentos, o que é ótimo para crianças.

O uso de Palmilhas Ortopédicas personalizadas pode ser necessário em casos de Doença de Sever ou pisadas muito pronadas que alteram a mecânica do joelho. E, claro, a educação em saúde: ensinar o atleta a ouvir o próprio corpo é a terapia mais valiosa que podemos oferecer. Cuide do futuro campeão hoje, respeitando o tempo da natureza.

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