Correr parece ser a atividade mais natural do mundo.[7] Você coloca um par de tênis, sai pela porta e simplesmente vai. Mas, como fisioterapeuta, vejo diariamente que essa simplicidade esconde uma mecânica complexa. Seus pés são a fundação de cada passo. Eles absorvem o impacto, equilibram o corpo e impulsionam você para frente.[4] Quando essa base não funciona bem, o corpo todo sofre. A forma como seu pé toca o solo dita muito sobre sua longevidade no esporte.
Muitos corredores só pensam na pisada quando a dor aparece. Você talvez sinta aquela pontada na planta do pé ao acordar ou um desconforto no joelho após os treinos longos.[3][8] Ignorar esses sinais é um erro comum. Entender a mecânica do seu pé não é apenas sobre comprar o tênis mais caro da loja. Trata-se de conhecer sua própria anatomia e respeitar os limites do seu corpo.
Neste artigo, vamos mergulhar fundo no universo da pisada. Não vou usar termos médicos complicados sem explicá-los. Quero que você entenda o “porquê” das coisas. Vamos conversar de igual para igual, como se estivéssemos no meu consultório avaliando sua corrida na esteira. Prepare-se para olhar para seus pés com outros olhos a partir de agora.
Entendendo a Anatomia da Sua Base[3][4][5]
Para compreender o impacto da pisada, você precisa primeiro visualizar a engenharia dos seus pés.[5] Eles não são blocos rígidos. Cada pé possui 26 ossos, 33 articulações e mais de 100 músculos, tendões e ligamentos.[4] Essa estrutura intrincada foi desenhada para se adaptar a terrenos irregulares. Infelizmente, passamos a maior parte da vida em pisos planos e sapatos rígidos, o que “adormece” essa capacidade natural.
O arco plantar é o protagonista dessa engenharia. Pense nele como uma mola natural. Quando você pisa, o arco deve ceder levemente para absorver o choque. Esse movimento armazena energia elástica. Na hora de sair do chão, essa energia é devolvida, ajudando na propulsão. Se o arco é muito alto ou muito baixo, essa mecânica de mola falha. Isso obriga outros músculos e articulações a trabalharem dobrado para compensar a ineficiência.
A fáscia plantar conecta tudo isso. Ela é uma banda espessa de tecido que vai do calcanhar aos dedos. Ela age como a corda de um arco, mantendo a tensão e a estrutura do pé. Durante a corrida, a carga sobre a fáscia é imensa.[4] Se a musculatura do pé estiver fraca, a fáscia recebe todo o tranco. É aqui que surgem as inflamações crônicas que tiram tantos corredores das pistas. Fortalecer essa base é tão importante quanto treinar o cárdio.
A Complexidade Óssea e Articular
Os ossos do pé trabalham em sincronia perfeita durante a corrida. O tálus e o calcâneo formam a articulação subtalar, responsável pelos movimentos laterais. É aqui que ocorre a maior parte da pronação e supinação. Se essa articulação estiver rígida, seu pé perde a capacidade de adaptação ao solo. Isso transmite o choque rotacional direto para o joelho e quadril. Manter a mobilidade desses ossos é crucial para uma corrida fluida.
As articulações do mediopé transformam o pé de uma estrutura flexível em uma alavanca rígida. No momento do impacto, o pé precisa ser mole para absorver a pancada. Frações de segundo depois, ele precisa ficar duro para você se impulsionar. Se essa transição falha, você perde potência e aumenta o risco de lesões nos metatarsos. Corredores com frouxidão ligamentar sofrem muito com essa instabilidade.
Já os dedos, ou falanges, têm um papel vital no equilíbrio final. O dedão (hálux) é o último ponto de contato com o solo. Ele precisa de mobilidade para fazer a alavanca final. Se você tem joanetes ou rigidez no dedão, seu corpo compensa jogando o peso para fora. Isso altera toda a cadeia de movimento da perna. Cuidar da mobilidade dos dedos é um detalhe pequeno que faz uma diferença enorme.
O Papel dos Arcos Plantares
Temos três arcos no pé, embora o arco longitudinal medial seja o mais famoso. Ele funciona como o principal amortecedor do corpo. Pessoas com pé chato (arco desabado) tendem a ter uma estrutura muito flexível. O pé “desmorona” para dentro facilmente. Isso estira excessivamente os tecidos moles da sola do pé e da parte interna da perna. O controle muscular precisa ser muito maior nesses casos.
Por outro lado, o arco alto (pé cavo) cria uma estrutura muito rígida. Imagine um amortecedor de carro travado. O impacto do solo sobe seco pelas pernas. Corredores com arco alto têm menos área de contato com o chão. A pressão se concentra excessivamente no calcanhar e na frente do pé (metatarsos). Isso predispõe a fraturas por estresse e dores ósseas. O desafio aqui é ganhar mobilidade e dispersar essa carga.
O arco transverso, que cruza o meio do pé, ajuda na estabilidade lateral. Quando ele enfraquece, os ossos do meio do pé se espalham. Isso é comum em corredores que usam tênis apertados demais por anos. A dor se manifesta bem no peito do pé ou entre os dedos (neuroma de Morton). Manter a força desses arcos exige exercícios específicos que a maioria dos corredores ignora.
O Sistema de Amortecimento Natural
Seu corpo tem mecanismos de defesa contra o impacto repetitivo. O coxim gorduroso do calcanhar é a primeira linha de defesa. Ele é uma almofada natural que protege o osso calcâneo. Com a idade e o uso excessivo, essa gordura pode atrofiar. Isso deixa o osso exposto e causa dores agudas no calcanhar, muitas vezes confundidas com esporão. Preservar esse coxim envolve escolher superfícies menos duras para treinar.
A musculatura da panturrilha também faz parte desse sistema. O músculo sóleo e o gastrocnêmio absorvem grande parte da energia na aterrissagem. Se eles estiverem tensos ou fracos, a carga vai direto para o tendão de Aquiles e para a estrutura do pé. Alongar e fortalecer a panturrilha alivia a pressão sobre a planta do pé. É um trabalho de equipe entre perna e pé.
A própria rotação da tíbia (osso da canela) ajuda a dissipar forças. Quando o pé prona (rola para dentro), a tíbia roda internamente. Esse movimento, se controlado, é saudável e necessário.[7] O problema é quando o sistema falha por fadiga ou fraqueza. O amortecimento natural tem um limite.[9] Respeitar os dias de descanso permite que essas estruturas se regenerem e continuem protegendo você.
Os Três Tipos Principais de Pisada[1][3][5][8][10]
Classificar a pisada é o ponto de partida para qualquer avaliação. No entanto, não se prenda a rótulos como se fossem sentenças definitivas. A pisada pode mudar com a fadiga, com o aumento da velocidade ou com o tipo de terreno. O que buscamos entender é o padrão predominante do seu movimento. Isso nos dá pistas valiosas sobre onde as sobrecargas estão ocorrendo.
A pisada neutra é frequentemente vendida como o “ideal”, mas a realidade é mais sutil. Mesmo quem tem pisada neutra pode se lesionar se exagerar no volume de treino. Já a pronação e a supinação não são doenças. Elas são características biomecânicas.[4][11] O problema surge apenas quando esses movimentos são excessivos ou ocorrem muito rapidamente, impedindo o corpo de se adaptar a tempo.
Vamos analisar cada um desses padrões com o olhar clínico. Você vai aprender a identificar os sinais no seu próprio corpo e no desgaste dos seus tênis.[3] Lembre-se de que o objetivo não é ter uma pisada esteticamente perfeita. O objetivo é correr sem dor e com eficiência, respeitando a sua anatomia única.[10]
Pisada Neutra: O Equilíbrio Biomecânico
Na pisada neutra, o contato inicial ocorre geralmente na parte externa do calcanhar.[8] Em seguida, o pé rola ligeiramente para dentro. Esse movimento de rolagem absorve o impacto de forma eficiente.[4] No final, o impulso é dado centralizado, usando todos os dedos, especialmente o dedão. A carga é distribuída de maneira uniforme por toda a planta do pé.[1]
Corredores neutros têm, em teoria, menor risco de lesões por desalinhamento.[3][5] O eixo da perna se mantém relativamente estável. O joelho não cai para dentro nem é forçado para fora. O desgaste na sola do tênis costuma ser em forma de “S”, começando no calcanhar externo e terminando no centro do antepé. É o padrão de desgaste mais saudável para se observar.
No entanto, “neutro” não significa imune a lesões. Erros de treinamento, como aumentar a distância muito rápido, ainda machucam corredores neutros. A vantagem é que você tem uma liberdade maior na escolha dos tênis. Você não precisa de controles de movimento agressivos nem de amortecimento excessivo em áreas específicas. O foco deve ser manter o fortalecimento muscular geral para preservar essa mecânica eficiente.
Pronação: Quando a Rotação Passa do Ponto
A pronação é um movimento natural e necessário. Todo mundo prona um pouco para absorver o impacto. O problema é a “hiperpronação”. Aqui, o pé toca o chão e desaba excessivamente para dentro.[1][2][5][10] O arco plantar achata quase completamente. Isso cria uma torção interna na tíbia e no fêmur, o que pode sobrecarregar a parte interna do joelho.[2]
Você identifica a pronação excessiva pelo desgaste na parte interna do tênis.[1][2] Olhe seus sapatos velhos: se a borda interna do calcanhar e do dedão estiverem lisas, você provavelmente é um pronador severo. Esse padrão exige muito do tendão tibial posterior, um músculo que tenta segurar o arco do pé. Quando ele cansa, surgem as dores na canela (canelite) e no tornozelo.
Muitos pronadores tentam corrigir isso apenas com tênis de estabilidade. Embora ajudem, os tênis não resolvem a causa raiz. Frequentemente, a pronação excessiva vem de um quadril fraco (glúteo médio). Se o quadril não estabiliza a perna, o joelho cai para dentro e o pé acompanha. O tratamento eficaz envolve fortalecer o pé e o quadril simultaneamente.
Supinação: O Pé Rígido
A supinação é o oposto da pronação e é bem mais rara. O supinador aterrissa com a borda externa do calcanhar e mantém o apoio na lateral externa do pé durante toda a passada. O pé não rola para dentro o suficiente. Isso significa que a absorção de impacto é mínima. O pé funciona como um bloco rígido batendo contra o asfalto.
O desgaste do tênis no supinador é concentrado exclusivamente na borda lateral externa. As lesões comuns incluem entorses de tornozelo por inversão (virar o pé), fraturas por estresse no quinto metatarso e dores na banda iliotibial. Como o choque não é absorvido, ele sobe direto para os joelhos e quadris, causando desgastes articulares precoces.
Para o supinador, o foco é o amortecimento e a mobilidade.[3] Você precisa de tênis flexíveis que incentivem o movimento do pé. Evite modelos com controle de estabilidade, pois eles jogam o pé ainda mais para fora. O trabalho de fisioterapia foca em soltar as articulações do pé e alongar a cadeia lateral da perna, permitindo que o pé “aceite” melhor o solo.
Biomecânica da Corrida: As Fases do Ciclo
Analisar apenas a pisada estática é olhar apenas uma foto de um filme inteiro. A corrida é dinâmica. O que acontece no momento em que seu pé toca o chão é resultado do que aconteceu no ar. O ciclo da marcha na corrida é dividido em fases distintas. Entender cada uma delas ajuda a identificar onde exatamente o seu movimento pode estar falhando.
Diferente da caminhada, na corrida existe uma fase de flutuação onde nenhum pé toca o chão. Isso aumenta drasticamente as forças de impacto na aterrissagem. O corpo precisa gerenciar a gravidade e a velocidade horizontal. Se você corre “pulando” muito para cima (oscilação vertical), o impacto na descida é brutal. Uma corrida eficiente é mais “rasante” e fluida.
Vamos quebrar esse movimento em três momentos cruciais: o contato inicial, o apoio médio e a propulsão. Cada fase exige ações musculares específicas. Uma falha na primeira fase vai desencadear compensações nas seguintes. É um efeito dominó biomecânico que precisamos controlar para manter você correndo por anos.
O Contato Inicial: Calcanhar vs. Mediopé
O debate sobre como aterrissar é eterno no mundo da corrida. A maioria dos corredores amadores entra com o calcanhar (retropé). Isso não é necessariamente ruim, desde que o pé não esteja muito à frente do corpo (overstriding).[1] Se você aterrissa com o calcanhar muito longe do seu centro de gravidade, você freia o movimento. Isso gera um pico de impacto enorme nos joelhos e quadris.
Aterrissar com o mediopé ou antepé é comum em velocistas e corredores de elite. Essa técnica usa a panturrilha e o arco do pé como amortecedores naturais, poupando o joelho. No entanto, exige muito mais força muscular. Tentar mudar sua pisada de calcanhar para antepé da noite para o dia é receita certa para lesão no tendão de Aquiles. A transição deve ser lenta e guiada.
O segredo não é forçar uma aterrissagem com a ponta do pé, mas sim aterrissar perto do corpo. Aumentar a cadência (passos por minuto) ajuda a trazer o pé para baixo do quadril. Isso reduz o impacto, independentemente se você toca primeiro com o calcanhar ou o meio do pé.[9] Foque em passos curtos e rápidos, não em esticar a perna.
Apoio Médio: O Pico de Carga
Esta é a fase crítica onde todo o seu peso está sobre um único pé. O joelho está flexionado e o corpo passa sobre o pé de apoio. É aqui que a pronação máxima acontece. Seu glúteo médio precisa contrair forte para manter a bacia nivelada. Se ele falha, o quadril oposto cai (Sinal de Trendelenburg), e o joelho de apoio roda internamente, forçando o pé a desabar.
A estabilidade nessa fase define a eficiência da sua corrida. Se você é instável, perde energia tentando se equilibrar em vez de ir para frente. Músculos intrínsecos do pé trabalham intensamente para agarrar o chão e criar uma base sólida. Corredores com “pé bobo” ou fraco desperdiçam muita força aqui.
Lesões como a síndrome da banda iliotibial e a dor patelofemoral geralmente têm origem em falhas no apoio médio. O joelho sofre as consequências de um pé que não estabiliza ou de um quadril que não sustenta. O fortalecimento unipedal (em uma perna só) é essencial para melhorar essa fase. Exercícios como agachamento unilateral são obrigatórios para corredores.
Propulsão: O Mecanismo de Alavanca
A fase final é a saída do pé do solo. O calcanhar levanta e o peso vai para os dedos. A panturrilha se contrai vigorosamente para empurrar o chão para trás. O dedão (hálux) precisa dorsifletir (dobrar para cima) para permitir uma saída limpa. Se o dedão é rígido (hálux rígido), o pé roda para fora para fugir da dor, alterando a mecânica.
A fáscia plantar atua aqui através do “Mecanismo de Windlass”. Ao levantar o dedão, a fáscia se estica e encurta o pé, elevando o arco. Isso transforma o pé em uma alavanca rígida, perfeita para propulsão. Se a fáscia está inflamada ou frouxa, esse mecanismo falha, e a corrida perde potência. Você começa a correr “arrastado”.
Glúteos também são vitais na propulsão. Eles devem estender o quadril para lançar o corpo à frente. Muitos corredores usam apenas a panturrilha e os isquiotibiais, esquecendo o motor principal que é o glúteo. Isso sobrecarrega a parte inferior da perna. Aprender a ativar o glúteo máximo na saída da passada melhora o desempenho e poupa seus pés.
Fortalecimento e Propriocepção: O “Foot Core”[2][3][4][5]
Por muito tempo, a solução para dores no pé foi “suporte”. Palmilhas, tênis estruturados, faixas. Hoje, a ciência da fisioterapia mudou o foco para “funcionalidade”. Assim como treinamos o core abdominal para proteger a coluna, precisamos treinar o “Foot Core” – o centro de força do pé. São pequenos músculos profundos que estabilizam o arco.
Um pé forte não precisa de tanto suporte externo. Ele consegue se gerenciar. O uso crônico de tênis muito amortecidos e rígidos pode atrofiar esses músculos. Seus pés ficam “preguiçosos”. O objetivo do trabalho de Foot Core é reativar essa musculatura adormecida, devolvendo a inteligência natural dos seus pés.
A propriocepção é a capacidade do corpo de saber onde está no espaço. Nos pés, existem milhares de sensores nervosos. Eles dizem ao cérebro se o chão é duro, mole, inclinado ou escorregadio. Quando você usa sapatos com solas muito grossas, você “venda” esses sensores. Melhorar a propriocepção é como tirar essa venda, permitindo reações mais rápidas e precisas para evitar torções.
Por Que Tênis Não São Suficientes
Tênis são ferramentas de proteção, não de correção definitiva. Um tênis antipronação pode impedir que seu pé rode para dentro, mas ele não ensina seu músculo a segurar o arco. Se você tira o tênis, o problema continua lá. Pior, o músculo pode ficar ainda mais fraco por depender do suporte do calçado o tempo todo.
Os músculos intrínsecos (que começam e terminam dentro do pé) são pequenos, mas vitais. Eles controlam os movimentos finos dos dedos e a estabilidade do arco. Exercícios simples, como tentar pegar uma toalha com os dedos dos pés ou afastar os dedos uns dos outros, ajudam a acordar essa musculatura. Parece bobo, mas é a base da reabilitação.
A tendência atual é alternar tênis. Use um modelo com mais suporte para treinos longos quando a fadiga bate. Mas use modelos mais leves e flexíveis para treinos curtos ou de técnica. Isso obriga seu pé a trabalhar de formas diferentes.[5][12] A variedade de estímulos é o segredo para um pé resiliente e adaptável.
Propriocepção: Acordando Seus Pés
Treinar o equilíbrio é treinar a propriocepção. Ficar em um pé só enquanto escova os dentes é um começo. Para corredores, precisamos de algo mais dinâmico. O uso de bases instáveis, como o “disco de equilíbrio” ou o “bosu”, desafia o pé a fazer microajustes constantes. Isso fortalece os ligamentos e melhora a comunicação entre o pé e o cérebro.
Outro exercício poderoso é o “short foot” (pé curto). Você tenta encurtar o pé contraindo o arco, sem dobrar os dedos como garras. É difícil no começo, pois exige controle motor fino. Mas dominar isso ensina você a ativar o arco plantar sob demanda. É como aprender a contrair o abdômen antes de levantar um peso.
Caminhar descalço em casa é uma forma segura de estimular a propriocepção. Sinta o chão frio, a textura do tapete, a dureza do piso. Esses estímulos sensoriais mantêm os nervos do pé alertas. Um pé sensível é um pé que reage rápido para evitar uma torção quando você pisa em um buraco na rua.
O Impacto das Superfícies de Corrida
Onde você corre molda como você pisa.[1][2][5] O asfalto é implacável. Ele devolve quase toda a energia do impacto para o seu corpo. É ótimo para velocidade, mas duro para as articulações. Se você só corre no asfalto, o estresse repetitivo é constante e idêntico a cada passo. Isso favorece lesões por overuse (uso excessivo).
A grama e a terra batida são mais gentis. Elas absorvem parte do impacto, poupando seus ossos. Além disso, a superfície irregular obriga seu pé a trabalhar em diferentes ângulos. Isso é um treino de fortalecimento natural. No entanto, o risco de torção é maior se você não estiver acostumado. A transição deve ser gradual.[4][12]
A areia fofa é o teste final de força. Ela absorve tanto o impacto que você precisa fazer muita força para sair do lugar. Isso fortalece muito a panturrilha e os músculos intrínsecos. Porém, pode sobrecarregar o tendão de Aquiles e a fáscia plantar rapidamente. Use a areia como uma ferramenta de treino de força específica, não para rodagens longas habituais.
Lesões Comuns Ligadas à Mecânica do Pé
Ninguém quer se lesionar, mas entender as lesões mais comuns ajuda na prevenção. A maioria das dores em corredores não é azar; é física pura. É o resultado de uma carga maior do que o tecido consegue suportar. E a forma como você pisa determina qual tecido vai falhar primeiro.
Não ignore a dor “pequena”. Na corrida, a dor pequena de hoje é a fratura por estresse do mês que vem. O corpo avisa antes de quebrar. Rigidez matinal, dor que melhora com o aquecimento e volta depois, inchaço leve… todos são sinais de alerta. Vamos ver os três vilões mais frequentes que chegam ao meu consultório.
O tratamento precoce encurta o tempo de recuperação drasticamente. Parar por três dias agora é melhor do que parar por três meses depois. Aprenda a diferenciar a dor muscular do treino (que é difusa e passa logo) da dor de lesão (que é pontual, aguda e persistente). Escute seus pés, eles são seus melhores treinadores.
Fascite Plantar e Esporão
A fascite plantar é o terror dos corredores. É uma inflamação ou degeneração da banda de tecido na sola do pé. A dor clássica é aquela “agulhada” no calcanhar ao dar os primeiros passos da manhã. Ela acontece quando a fáscia é estirada excessivamente e repetidamente, criando microlesões que não cicatrizam.
Pronadores excessivos são vítimas frequentes, pois o desabamento do arco estica a fáscia o tempo todo. Mas corredores de arco alto também sofrem, pois a fáscia é curta e rígida, incapaz de absorver choque. O esporão de calcâneo é apenas uma consequência óssea dessa tração crônica, não a causa da dor em si. Tratar o esporão sem tratar a fáscia e a pisada é inútil.
O tratamento envolve massagem com bola de tênis na sola do pé, alongamento da panturrilha e fortalecimento dos músculos intrínsecos. O uso de palmilhas pode dar um alívio temporário necessário para cicatrizar. Mas a cura real vem de corrigir a mecânica da corrida e garantir que a fáscia tenha flexibilidade suficiente para suportar a carga.
Canelite (Síndrome do Estresse Tibial Medial)
Sabe aquela dor na frente da canela que queima durante a corrida? Isso é canelite. É uma inflamação no periósteo, a membrana que envolve o osso da tíbia. Ela ocorre quando os músculos da perna puxam o osso com muita força e frequência. É clássica em iniciantes que aumentam o volume de treino muito rápido.
A pisada tem tudo a ver com isso.[3][5] Na pronação excessiva, o músculo tibial posterior trabalha exaustivamente para frear o pé. Essa tração constante na tíbia gera a inflamação. Correr em superfícies muito duras ou usar tênis velhos sem amortecimento piora o quadro. Se ignorada, a canelite pode evoluir para uma fratura por estresse na tíbia.
Reduzir o impacto é a prioridade. Diminua o volume de corrida, evite descidas íngremes e troque o asfalto pela grama. Fortalecer a musculatura anterior da perna (tibial anterior) e a panturrilha ajuda a equilibrar as forças. Gelo local após o treino ajuda a controlar a inflamação aguda, mas o repouso relativo é inegociável.
Joelho de Corredor e Banda Iliotibial
O joelho é a vítima inocente de um pé e quadril problemáticos. A Síndrome da Dor Patelofemoral (“joelho de corredor”) é uma dor na frente do joelho, ao redor da rótula. Ela acontece quando a rótula não desliza corretamente no fêmur. A pronação excessiva faz a tíbia rodar internamente, desalinhando esse trilho da rótula.
Já a Síndrome da Banda Iliotibial causa dor na lateral externa do joelho. É comum em supinadores ou em quem tem fraqueza de glúteo. A banda iliotibial fica tensa tentando estabilizar o joelho e roça contra o osso fêmur. É uma dor aguda que muitas vezes obriga o corredor a parar no meio do treino.
Em ambos os casos, olhar apenas para o joelho é um erro. O tratamento precisa focar na estabilidade do pé e, principalmente, na força do quadril. Fortalecer o glúteo médio impede que o joelho caia para dentro. O uso de rolo de liberação miofascial na lateral da coxa ajuda a soltar a tensão, mas a correção biomecânica é o que previne a recidiva.
Terapias Aplicadas e Indicadas
Como fisioterapeuta, minha abordagem para problemas de pisada é integrativa. Não existe pílula mágica. O tratamento é uma combinação de alívio da dor, correção mecânica e educação do paciente. Se você está enfrentando dores, procure um profissional especializado em esporte. Aqui estão as terapias que mais utilizamos com sucesso.
A Baropodometria é o exame padrão-ouro para diagnóstico. É uma plataforma cheia de sensores que analisa sua pisada estática e dinâmica. Ela nos mostra exatamente onde você joga mais carga, como seu centro de gravidade oscila e se há rotações anormais. Com esses dados, podemos desenhar Palmilhas Posturais ou Esportivas sob medida. Diferente das palmilhas de farmácia, estas são feitas para corrigir especificamente o seu defeito mecânico.
A Terapia Manual e a Liberação Miofascial são essenciais para soltar tecidos presos. Usamos as mãos ou instrumentos para soltar a fáscia plantar, a panturrilha e a banda iliotibial. Isso melhora a mobilidade e reduz a dor imediatamente. A Osteopatia também ajuda a ajustar pequenos bloqueios articulares no pé e tornozelo que podem estar impedindo o movimento fluido.
Por fim, a Reeducação Funcional da Corrida é onde mudamos o jogo. Usamos feedback em tempo real (como espelhos ou vídeos) para ensinar você a aterrissar mais leve, aumentar a cadência e ativar o glúteo. Associado a isso, usamos a Eletroestimulação para acordar músculos fracos e o Laser de Baixa Potência ou Ultrassom para acelerar a cicatrização de tendões e ligamentos inflamados. Lembre-se: o melhor tratamento é aquele que ensina seu corpo a não se machucar novamente.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”