Você decidiu começar a pedalar ou já tem aquela bike ergométrica parada em casa servindo de cabide e resolveu dar uma nova chance a ela. Essa é uma decisão fantástica para a sua saúde cardiovascular e articular, mas precisamos ter uma conversa séria antes de você dar a primeira pedalada. Eu vejo isso todos os dias no consultório: pacientes que chegam com dores no joelho, na lombar ou formigamento nas mãos, achando que o exercício não é para eles. Na grande maioria das vezes, o problema não é o exercício, é a ferramenta desajustada.
A bicicleta ergométrica é uma das máquinas mais seguras que existem, desde que ela respeite a sua anatomia. O seu corpo não deve se adaptar à máquina; a máquina é que deve ser moldada para servir ao seu corpo. Quando você ignora o ajuste correto, o que chamamos tecnicamente de “Bike Fit”, você transforma um movimento que deveria ser terapêutico em um mecanismo de agressão repetitiva. Vamos ajustar isso juntos agora, passo a passo, como se você estivesse aqui na minha frente fazendo uma avaliação.
A Biomecânica do Pedal: Por que seu corpo pede o ajuste perfeito
A relação entre conforto e a prevenção de lesões crônicas
Você precisa entender que o ciclismo é um esporte de repetição. Em uma aula de 45 minutos, você pode realizar milhares de rotações de pedal. Se o seu ajuste estiver milimetricamente errado, esse pequeno erro será multiplicado milhares de vezes, gerando o que chamamos de microtraumas repetitivos. O conforto na bicicleta não é apenas uma questão de “sentir-se bem”, é o primeiro sinal biológico de que suas articulações estão trabalhando dentro de uma angulação segura.
Quando um paciente me diz que sente dor na frente do joelho ao pedalar, quase sempre o banco está baixo demais, aumentando a força de compressão na patela. Se a dor é atrás do joelho, o banco provavelmente está alto, estirando excessivamente os isquiotibiais e a cápsula posterior. O ajuste correto elimina essas tensões parasitas. O objetivo é que você termine o treino com a musculatura cansada, o que é ótimo, mas com as articulações preservadas e sem dor pontual.
A prevenção de lesões crônicas, como tendinites e condropatias, começa com a régua e a chave de ajuste, não com o remédio. Um corpo bem posicionado distribui a carga de forma equitativa entre ossos, músculos e ligamentos. Nenhuma estrutura deve trabalhar sobrecarregada para compensar a folga de outra. Humanizar o seu treino significa respeitar os limites mecânicos das suas alavancas biológicas.
O impacto da postura na eficiência do gasto energético
Muitas pessoas buscam a bike ergométrica para emagrecimento ou condicionamento cardiovascular. O que poucos sabem é que uma bicicleta mal ajustada rouba a sua energia. Quando você pedala “todo torto”, seu sistema nervoso central precisa recrutar músculos acessórios apenas para manter você estável em cima do selim. Essa energia gasta para estabilizar o tronco ou para compensar um quadril que balança poderia ser direcionada para os pedais, aumentando sua potência e queima calórica.
A eficiência biomecânica ocorre quando a força que você produz nos músculos da perna é transferida integralmente para a roda da bicicleta, sem perdas no caminho. Se o seu guidão está muito longe, você gasta energia tencionando os ombros e o trapézio. Se o banco está muito baixo, seus quadríceps fadigam muito antes do seu sistema cardiorrespiratório chegar ao limite. O ajuste correto permite que você treine por mais tempo e com mais intensidade, cansando menos as estruturas que não deveriam estar envolvidas na propulsão.
Pense no seu corpo como uma máquina de precisão. Engrenagens alinhadas rodam livres e gastam menos combustível para ir mais longe. O ajuste biomecânico serve para limpar o caminho entre a sua vontade de treinar e a resposta do seu corpo, removendo barreiras físicas que sabotam o seu rendimento sem você perceber.
A importância da avaliação individualizada da anatomia
Não existe uma fórmula mágica universal ou uma tabela de altura que funcione para todos. Você é um ser único, com proporções únicas. Tenho pacientes com a mesma altura, mas um tem o tronco longo e pernas curtas, enquanto o outro é o oposto. Seguir uma regra genérica de “coloque o banco na altura do quadril” é um bom começo, mas o ajuste fino depende das suas particularidades, como flexibilidade e histórico de lesões.
A avaliação individualizada leva em conta fatores que vão além do comprimento dos ossos. Precisamos considerar se você tem um encurtamento importante na cadeia posterior, se possui alguma escoliose ou se um de seus membros inferiores é ligeiramente maior que o outro. Essas assimetrias são comuns e a bicicleta precisa compensá-las, não agravá-las. Às vezes, um simples calço na sapatilha ou uma leve rotação no guidão resolve dores que persistiam há meses.
Portanto, ao seguir as diretrizes que vou passar a seguir, use o seu “sentir” como o barômetro final. Se a regra diz X, mas você sente desconforto, seu corpo está pedindo uma adaptação. A fisioterapia nos ensina a ouvir a dor e o desconforto como sinais de alerta. O ajuste perfeito é aquele que faz você esquecer que está sentado em uma máquina e permite que você entre em um estado de fluxo durante o exercício.
O Centro de Gravidade: Ajustando o Selim (Banco)
Determinando a altura correta para proteger os joelhos
O ajuste da altura do selim é, sem dúvida, o parâmetro mais crítico. Vamos fazer isso juntos. Fique em pé ao lado da bicicleta e localize a crista ilíaca, aquele ossinho saliente na lateral do seu quadril. Suba o banco até essa altura como ponto de partida. Agora, suba na bike. Coloque o calcanhar no pedal e leve-o até o ponto mais baixo da pedalada (posição de 6 horas do relógio). Nessa posição, com o calcanhar apoiado, seu joelho deve estar completamente esticado, mas sem que você precise inclinar o quadril para alcançar o pedal.
Agora, coloque a parte da frente do pé (o metatarso) no pedal, como se fosse pedalar de verdade. Quando o pedal estiver lá embaixo, seu joelho não deve estar nem totalmente esticado (travado) nem muito dobrado. Buscamos uma flexão leve, entre 25 a 30 graus. Isso garante que, no momento de maior força, sua articulação não sofra compressão excessiva e nem chicoteie em hiperextensão, o que protege os meniscos e a cartilagem patelar.
Se o seu quadril balança para os lados enquanto você pedala, é sinal clássico de banco muito alto. Isso causa uma cizalhamento na coluna lombar e pode levar a dores discais. Se você sente as coxas queimarem excessivamente logo no início e sente pressão na frente do joelho, o banco está baixo. Ajuste milímetro a milímetro até sentir que o movimento é fluido e circular, sem trancos.
O ajuste anteroposterior e a regra do prumo
Não basta ajustar a altura; precisamos ajustar a distância do banco para frente ou para trás. Para isso, sente-se na bike e coloque os pedais paralelos ao chão (posição de 3 horas e 9 horas). Olhe para o seu joelho da perna que está na frente. Imagine uma linha reta (um prumo) descendo da ponta do seu joelho (rótula) até o chão. Essa linha imaginária deve passar exatamente pelo eixo do pedal.
Se o seu joelho estiver muito à frente do eixo do pedal, você aumenta drasticamente a pressão na articulação patelofemoral, o que é um veneno para quem tem condromalácia ou tendinites. Se o joelho estiver muito atrás, você perde alavanca de força e sobrecarrega a musculatura posterior da coxa e a lombar, pois terá que se esticar mais para buscar o pedal durante o ciclo.
Muitas bicicletas ergométricas possuem um ajuste de trilho embaixo do selim. Solte a trava e deslize o banco até encontrar esse alinhamento neutro. É um detalhe sutil, mas que muda completamente a mecânica da sua pedalada. Esse equilíbrio anteroposterior é o que permite recrutar glúteos e quadríceps de maneira harmônica, sem sobrecarregar isoladamente nenhum grupo muscular.
A inclinação do selim e a proteção perineal
Esse é um tópico delicado, mas essencial. Muitas pessoas desistem de pedalar por dores na região genital ou dormência no períneo. O selim deve estar, preferencialmente, nivelado, paralelo ao solo. Se você inclinar o nariz do selim muito para cima, haverá compressão direta na uretra e nos tecidos moles, podendo causar dormência e, em casos crônicos, problemas urinários ou de disfunção sexual.
Por outro lado, se você inclinar o nariz do selim muito para baixo, o seu corpo vai escorregar para frente o tempo todo. Para evitar cair, você instintivamente empurrará o guidão com as mãos, sobrecarregando os punhos, tríceps e ombros. O ideal é usar um nível (pode ser um aplicativo de celular) para garantir que o banco esteja reto.
Em alguns casos específicos de desconforto crônico ou anatomia específica, podemos permitir uma inclinação minúscula do nariz para baixo (coisa de 1 ou 2 graus), apenas para aliviar a pressão, mas nunca a ponto de deslizar o quadril. Lembre-se também de que selins muito largos e fofos nem sempre são melhores; muitas vezes eles causam mais atrito nas coxas. O selim ideal apoia os ísquios (os ossinhos do bumbum) e deixa o períneo livre.
A Interface Superior: Configurando o Guidão e o Tronco
A altura do guidão e a sobrecarga na coluna lombar
A altura do guidão dita o conforto da sua coluna. Para a maioria dos alunos e pacientes que buscam saúde e não performance competitiva, o guidão deve estar na mesma altura ou ligeiramente mais alto que o selim. Isso permite uma postura de tronco mais ereta, aliviando a tensão na coluna lombar e permitindo uma melhor expansão torácica para a respiração.
Se o guidão estiver muito baixo, você será forçado a uma flexão acentuada do tronco. A menos que você tenha uma excelente flexibilidade de isquiotibiais e uma lombar forte, essa posição vai gerar dor rapidamente. A curvatura excessiva da coluna pode comprimir os discos intervertebrais anteriores e tencionar os ligamentos posteriores. Comece alto e, conforme ganhar flexibilidade e confiança, pode baixar gradualmente.
Lembre-se que na bicicleta ergométrica (especialmente nas de spinning), você não precisa ser aerodinâmico para cortar o vento. O conforto deve ser a prioridade. Uma altura adequada permite que você mantenha a curvatura natural da coluna lombar (lordose) sem esforço excessivo, prevenindo a famosa dor nas costas pós-treino.
O alcance (Reach) e a tensão na cervical e ombros
O “reach” é a distância entre a ponta do selim e o guidão. Quando você segura o guidão, seus cotovelos devem estar levemente flexionados e seus ombros relaxados, longe das orelhas. Se o guidão estiver muito longe, você terá que “buscar” a pega, esticando os braços completamente e travando os cotovelos. Isso transfere toda a vibração do pedal para o pescoço e a base do crânio.
Um alcance excessivo também fecha o ângulo do tórax, dificultando a respiração profunda. Você deve sentir que suas mãos pousam no guidão naturalmente, sem precisar puxar o tronco para frente. Se a sua bike permitir ajuste horizontal do guidão, traga-o para mais perto até sentir que as escápulas (as asinhas nas costas) estão encaixadas e não protraídas (esticadas para frente).
A tensão na cervical é uma das queixas mais comuns no ciclismo indoor e geralmente vem dessa tentativa de alcançar um guidão distante. Mantendo o ajuste correto, você consegue relaxar o pescoço e olhar para frente ou para a tela da TV/celular sem criar um “kink” (dobra forçada) na coluna cervical, evitando dores de cabeça tensionais.
O posicionamento dos cotovelos e a absorção de impacto
Nunca, em hipótese alguma, pedale com os cotovelos travados em extensão total. Seus braços funcionam como amortecedores naturais. Mantenha sempre uma microflexão nos cotovelos. Isso obriga a musculatura do tríceps e do peitoral a estabilizar o tronco, tirando a carga das articulações do punho e do ombro.
Quando você trava os cotovelos, cria uma coluna rígida que transmite qualquer instabilidade da pedalada direto para o pescoço. Além disso, a posição travada tende a elevar os ombros em direção às orelhas, ativando excessivamente o trapézio superior, aquele músculo que fica duro como pedra quando estamos estressados.
Durante a aula ou treino, faça uma checagem mental constante: “Meus ombros estão relaxados? Meus cotovelos estão destravados?”. Essa consciência corporal é parte do tratamento. Ao manter os braços semiflexionados, você também melhora o equilíbrio e a capacidade de reagir a mudanças de ritmo na pedalada com mais segurança.
A Base de Apoio: Pés, Pedais e Alinhamento
O posicionamento correto do pé no pedal ou firma-pé
A forma como seu pé toca o pedal dita a transferência de força. O eixo do pedal deve estar alinhado com a “bola do pé” (a cabeça do primeiro metatarso, logo antes do dedão). Muitos iniciantes cometem o erro de pedalar com o meio do pé (o arco plantar) ou com a ponta dos dedos. Pedalar com o arco força a fáscia plantar e retira a alavanca do tornozelo; pedalar com a ponta sobrecarrega a panturrilha e o tendão de Aquiles.
Se você usa aquelas alças de firma-pé (gaiolas), aperte-as o suficiente para que o pé não fique sambando, mas não tanto a ponto de cortar a circulação. O pé deve estar firme para que você possa não apenas empurrar o pedal para baixo, mas também ajudar a trazê-lo para cima na fase de recuperação, tornando a pedalada “redonda”.
Caso você use sapatilha com clipe (taquinho), o ajuste do taquinho é fundamental. Ele deve ser posicionado de forma que o eixo do pedal fique sob os metatarsos. Um taquinho muito para frente pode causar dormência nos dedos e sensação de queimação (hot foot); muito para trás pode limitar o movimento do tornozelo.
O alinhamento dinâmico do joelho durante o ciclo da pedalada
Ao olhar de frente, seu joelho deve subir e descer como um pistão, em uma linha reta vertical. Um erro biomecânico muito comum é o valgo dinâmico (joelho caindo para dentro em direção ao quadro da bike) ou o varo (joelhos abrindo para fora como um caubói). Esse desalinhamento desgasta os meniscos e os ligamentos colaterais.
Tente visualizar uma linha que conecta seu quadril, joelho e tornozelo. Essa linha deve se manter reta durante todo o movimento. Se você percebe que seu joelho entra toda vez que faz força, pode ser fraqueza de glúteo médio (o músculo lateral do quadril). Nesse caso, pense conscientemente em “abrir” levemente o joelho para alinhá-lo com a ponta do pé.
Esse controle motor é essencial. Às vezes o ajuste da bike está perfeito, mas a sua mecânica de movimento está viciada. Use um espelho na frente da bike ergométrica se possível. O feedback visual ajuda muito a corrigir esse padrão e a reeducar o seu sistema neuromuscular para trabalhar no eixo correto.
A influência do tipo de calçado na mecânica do movimento
Não subestime o poder de um bom tênis. Para pedalar, evite tênis de corrida com amortecimento muito macio ou solado muito grosso e instável. Quando você empurra o pedal com um tênis de corrida mole, parte da sua energia é dissipada deformando a espuma do tênis, em vez de mover a bicicleta. Além disso, essa instabilidade pode fazer seu pé pronar (desabar para dentro) ou supinar, torcendo o joelho consequentemente.
Prefira tênis de solado mais rígido e plano, se não for usar sapatilhas específicas de ciclismo. A rigidez da sola oferece uma plataforma estável para o pé, protegendo a fáscia plantar e garantindo que o alinhamento que discutimos acima seja mantido mesmo quando você estiver cansado.
Se você pedala com frequência, investir em uma sapatilha de ciclismo (mesmo para ergométrica) é um divisor de águas. A sola rígida da sapatilha distribui a pressão por todo o pé, evitando pontos de dor concentrados e melhorando significativamente a conexão com a bike, o que nos leva a uma pedalada mais segura e potente.
Análise da Cadeia Cinética e Ativação Muscular
O papel da musculatura estabilizadora (Core) no ciclismo indoor
Você pode achar que pedalar é só perna, mas o seu centro de força (Core) é o grande maestro. O abdômen e os músculos paravertebrais agem como um cinto de segurança natural. Se o seu Core está frouxo, seu quadril balança no selim, o que gera atrito (assaduras) e sobrecarga lombar.
Durante a pedalada, mantenha uma leve ativação abdominal, como se fosse levar um soco fraco na barriga e precisasse proteger os órgãos. Isso estabiliza a pelve. Com a pelve estável, as pernas têm uma base sólida para empurrar os pedais. É a diferença entre disparar um canhão de uma canoa (Core fraco) e de um navio de guerra (Core forte).
Essa estabilização lombopélvica previne a maioria das dores nas costas associadas ao ciclismo. Se você sente que suas costas cansam antes das pernas, é um sinal claro de que precisamos fortalecer esse centro ou ajustar a bike para facilitar essa ativação, talvez aproximando o guidão para verticalizar um pouco o tronco.
Diferenças de ativação entre Glúteos e Quadríceps no ajuste
Pequenas mudanças no ajuste alteram qual músculo trabalha mais. Se você quer focar mais nos glúteos, o selim pode ficar ligeiramente mais recuado (respeitando o limite do joelho, claro). Isso aumenta a flexão do quadril e coloca o glúteo máximo em uma posição de maior vantagem mecânica para empurrar o pedal na fase de descida.
Já um selim mais adiantado tende a isolar mais o quadríceps. Como fisioterapeuta, busco o equilíbrio. Não queremos sobrecarregar o tendão patelar (quadríceps demais) nem gerar tensão ciática (glúteo tenso demais). O ajuste neutro distribui a carga: o glúteo inicia a força na parte alta da pedalada e o quadríceps completa a extensão.
Ajustar a bike sabendo disso permite até direcionar o estímulo do treino. Mas lembre-se: a saúde articular vem primeiro. Não adianta querer “malhar glúteo” na bike colocando o banco lá atrás se isso vai fazer você esticar demais a perna e lesionar os isquiotibiais. O equilíbrio é a chave da longevidade no esporte.
A importância da mobilidade de tornozelo na pedalada
O tornozelo é frequentemente esquecido. Uma boa mobilidade de dorsiflexão (capacidade de trazer a ponta do pé para a canela) é vital. Durante a pedalada, o tornozelo não fica rígido; ele articula suavemente. No topo da pedalada, o calcanhar desce um pouco; na parte de baixo, ele sobe levemente. Essa técnica chama-se “ankling”.
Se o seu tornozelo é rígido, você compensará esse movimento no joelho ou no quadril. Pacientes com histórico de entorses de tornozelo mal curados muitas vezes têm restrições que alteram toda a cadeia da pedalada. Se você sente que seu calcanhar levanta muito cedo na pedalada, pode ser encurtamento de panturrilha ou falta de mobilidade articular.
Trabalhar a mobilidade fora da bike vai melhorar seu conforto em cima dela. Um tornozelo móvel permite uma transferência de força mais fluida e evita picos de tensão no tendão de Aquiles. Observe se você pedala com o pé “de bailarina” (ponta muito para baixo) o tempo todo; se sim, tente relaxar o calcanhar para baixo para envolver mais a cadeia posterior.
Adaptações Clínicas para Condições Específicas
Ajustes para quem tem Condromalácia Patelar
A condromalácia é o amolecimento da cartilagem da patela e é uma das condições mais comuns que vejo. Para você que tem esse diagnóstico, a regra de ouro é: evite a flexão excessiva do joelho sob carga. Isso significa que o seu selim deve estar, preferencialmente, no limite superior da altura correta (joelho quase esticado embaixo) e nunca baixo.
Selim baixo aumenta a pressão de contato patelofemoral exponencialmente. Além disso, evite cargas (resistência) muito pesadas com cadência baixa (pedalada lenta e travada). Prefira uma carga leve a moderada com uma rotação mais alta (mais giros por minuto). Isso mantém o líquido sinovial circulando e nutrindo a cartilagem sem a esmagar.
Verifique também o alinhamento do taquinho ou do pé. Qualquer rotação interna do fêmur vai fazer a patela trilhar errado. O ajuste deve ser cirúrgico para garantir que a patela deslize centralizada na tróclea femoral. Se sentir crepitação (barulho de areia) com dor, pare e revise a altura do banco imediatamente.
Cuidados para quem sofre de lombalgia
Para quem tem dor lombar, a extensão (dobrar para trás) ou a flexão (dobrar para frente) excessivas são gatilhos. Na bike, o risco maior é a flexão excessiva. Portanto, suba o guidão. Deixe-o mais alto que o selim para que seu tronco fique mais verticalizado. Isso reduz a tensão na musculatura paravertebral e diminui a pressão intradiscal.
Bikes horizontais (aquelas com encosto) são frequentemente indicadas para casos agudos de hérnia de disco ou lombalgia severa, pois o encosto dá suporte passivo à coluna. Se você usar a bike vertical, foque na contração abdominal (o Core) que mencionamos antes.
Evite sessões muito longas sem intervalos no início. A fadiga dos músculos posturais faz com que a coluna “desabe” em uma postura cifótica (corcunda), o que vai gerar dor. Levante-se do selim a cada 10 ou 15 minutos para esticar a coluna e resetar a postura.
A ergonomia para idosos e gestantes
Para idosos, o foco é segurança, equilíbrio e circulação. A bike horizontal é fantástica aqui, pois elimina o risco de queda e é mais fácil de subir e descer. Se for na vertical, o guidão deve ser alto e próximo para evitar tonturas ou desequilíbrios. O selim deve ser largo e confortável, pois a perda de massa muscular nos glúteos pode tornar o assento doloroso.
Para gestantes, a bike ergométrica é um dos melhores exercícios, pois não tem impacto e ajuda no retorno venoso (reduzindo inchaço nas pernas). No entanto, conforme a barriga cresce, o centro de gravidade muda e o alcance ao guidão fica difícil. Eleve o guidão e traga-o para perto.
Cuidado com a hiperlaxidão ligamentar na gravidez. Os hormônios deixam as articulações mais soltas, então evite esticar as articulações até o limite final. Mantenha os movimentos controlados e em amplitudes médias. A hidratação e a ventilação são cruciais para evitar superaquecimento, que não é bom nem para a mãe nem para o bebê.
Terapias e Condutas Fisioterapêuticas Associadas
Liberação miofascial e recuperação muscular
Depois de ajustar sua bike e treinar, seu corpo precisa de manutenção. A liberação miofascial é excelente para ciclistas. Usar um rolo de espuma (foam roller) na banda iliotibial (lateral da coxa), no quadríceps e na panturrilha ajuda a soltar os pontos de tensão (nós) que se formam pela repetição do movimento.
A fáscia, o tecido que envolve os músculos, pode ficar aderida e rígida com o treino repetitivo. A liberação restaura o deslizamento entre os tecidos, melhorando a circulação e reduzindo a dor muscular tardia. É como pentear as fibras musculares para que elas fiquem alinhadas novamente.
Você pode fazer isso em casa ou procurar um fisioterapeuta para liberações manuais mais profundas, focadas em áreas difíceis como o psoas (flexor do quadril) ou o piriforme, que costumam encurtar em quem pedala muito.
Cinesioterapia e fortalecimento complementar
A bike não substitui o fortalecimento; ela o complementa. Como fisioterapeuta, indico fortemente que você faça exercícios de fortalecimento fora da bike. O ciclismo trabalha muito em um único plano (sagital). Precisamos fortalecer os movimentos laterais e rotacionais para ter um corpo funcional.
Exercícios como o “Ostra” (para glúteo médio), pranchas (para o Core) e agachamentos unipodais são essenciais. Eles corrigem os desequilíbrios musculares que a bike pode acentuar. Se você só pedala, pode desenvolver encurtamento dos flexores de quadril e fraqueza dos extensores de tronco.
O Pilates é um casamento perfeito com o ciclismo, pois trabalha a flexibilidade da cadeia posterior e a força do “Power House” (centro de força), justamente o que precisamos para manter aquela postura bonita e eficiente em cima do selim por horas.
Recursos de eletrotermofototerapia na dor
Se, mesmo com tudo ajustado, você sentir dores ou sofrer uma lesão por excesso, temos recursos tecnológicos para ajudar. O uso de TENS (eletroestimulação) é ótimo para analgesia imediata de dores musculares. O ultrassom terapêutico ajuda na reparação de tendinites (como a patelar ou de Aquiles).
A fotobiomodulação (Laser ou LED) é um recurso moderno fantástico que usamos para acelerar a recuperação muscular e reduzir a inflamação nas articulações, muitas vezes aplicada antes ou depois do exercício em atletas. E não esqueça do básico: gelo para processos inflamatórios agudos (joelho inchado após o treino) e calor para relaxamento de contraturas musculares (tensão no pescoço/trapézio).
O ajuste da bike ergométrica é um processo contínuo de autoconhecimento. Comece com essas diretrizes, ouça seu corpo e ajuste conforme necessário. Pedalar deve ser um prazer, uma celebração do que seu corpo é capaz de fazer, e nunca uma fonte de sofrimento. Bons treinos!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”