Sabe aquele momento exato em que você sente uma fisgada aguda na coxa durante o treino? É como se alguém tivesse atirado uma pedra na sua perna ou como se um elástico interno tivesse se rompido subitamente. Se você está lendo este guia, provavelmente já passou por esse susto e agora está lidando com a frustração de estar “de molho”, vendo seus tênis de corrida parados no canto do quarto. Eu sei exatamente como é essa sensação de impaciência, mas preciso que você confie em mim: o retorno precipitado é o maior inimigo da sua recuperação.
Como fisioterapeuta, já atendi centenas de corredores com essa mesma lesão. A boa notícia é que o tecido muscular é extremamente vascularizado e tem um potencial de cura fantástico, desde que a gente respeite o tempo biológico dele. Neste guia, não vou apenas te jogar uma lista de exercícios; vou pegar na sua mão e te explicar o processo de cicatrização, como gerenciar essa ansiedade de voltar a correr e, principalmente, como construir uma musculatura à prova de balas para que isso não vire uma lesão crônica recorrente.
Vamos transformar esse revés em uma oportunidade para você voltar mais forte, com uma técnica melhor e conhecendo seu corpo como nunca antes. Esqueça os atalhos mágicos e as promessas de cura em dois dias. A fisioterapia moderna baseada em evidências é o caminho seguro, e você vai entender o porquê em cada linha deste artigo. Prepare-se para mergulhar fundo na sua recuperação.
Entendendo o “Puxão”: O que realmente aconteceu com sua coxa?
Anatomia básica: Quem são os protagonistas?
Quando falamos de estiramento na coxa em corredores, geralmente estamos apontando para dois grupos principais: os isquiotibiais (na parte posterior, atrás da coxa) ou o quadríceps (na parte da frente).[1][2][3] Na corrida, os isquiotibiais são as vítimas mais frequentes. Eles são formados por três músculos: o bíceps femoral, o semitendíneo e o semimembranoso.[2][4][5] Imagine eles como os freios do seu corpo; eles precisam desacelerar a sua perna violentamente cada vez que você lança o pé à frente antes de tocar o solo. É um trabalho excêntrico pesado, ou seja, eles fazem força enquanto estão sendo esticados.
Já o quadríceps, com seu grande reto femoral, atua mais na fase de propulsão e na absorção de impacto quando o pé aterrissa. Embora seja um grupo muscular muito forte e robusto, ele cruza duas articulações (quadril e joelho), o que o deixa vulnerável se a coordenação entre o quadril e o joelho não estiver perfeita.[2] Entender essa anatomia é crucial porque a dor que você sente não é apenas “músculo doendo”; é uma falha mecânica em um sistema de cabos e polias que precisa estar perfeitamente alinhado para funcionar.
Ao visualizar esses músculos como cabos de aço biológicos, você começa a entender que a lesão ocorre quando a tensão aplicada supera a capacidade de carga daquele cabo. Não é azar, é física pura. Se o seu “cabo” estava desgastado, desidratado ou simplesmente fraco demais para a velocidade que você impôs, ele cedeu. Agora, nosso trabalho é recosturar essas fibras de forma alinhada e potente, e não apenas esperar a dor passar.
Graus da lesão: O tamanho do estrago
Classificamos os estiramentos em três graus, e saber onde você se encaixa muda completamente o nosso cronograma. O Grau 1 é aquele aviso leve, um desconforto que permite caminhar, mas incomoda na corrida; representa micro lesões em poucas fibras, menos de 5% do músculo. Você sente a coxa rígida, mas a força está preservada. A recuperação aqui é rápida, coisa de duas a três semanas, se você não insistir em treinar com dor.
O Grau 2 é o cenário clássico da “pedrada”. Você sentiu uma dor aguda, parou o treino imediatamente e talvez tenha aparecido um hematoma nos dias seguintes. Aqui, houve ruptura parcial das fibras, uma falha estrutural mais significativa que gera uma perda de força notável e dor à palpação.[3] A caminhada fica prejudicada nos primeiros dias. Esse grau exige respeito total, pois a cicatriz que se formará no músculo precisa ser bem gerenciada para não virar um ponto de fibrose rígida no futuro. Estamos falando de 4 a 8 semanas de trabalho sério.
Já o Grau 3 é a ruptura total, muitas vezes avulsiva, onde o músculo se solta do tendão ou se rasga ao meio. É raro na corrida recreativa, sendo mais comum em sprints de velocidade máxima ou acidentes. A dor é incapacitante, o hematoma é extenso e forma-se um “buraco” visível na coxa. Nesse caso, a conversa muda de figura e, muitas vezes, a opinião cirúrgica é necessária. Mas, para a grande maioria de vocês, corredores de rua, estaremos navegando entre os graus 1 e 2.
Por que acontece na corrida? A mecânica da falha
Você deve estar se perguntando: “Mas eu estava correndo leve, por que rasgou?”. A resposta raramente está apenas no momento da lesão, mas sim no acúmulo de fatores. A corrida exige que seus músculos ajam como molas, armazenando e liberando energia elástica. Se a sua musculatura está fadigada, ela perde essa capacidade elástica e passa a depender puramente da força contrátil. Quando a fadiga neurológica se instala, o músculo “esquece” o tempo exato de contrair para proteger a articulação, e é aí que o estiramento ocorre.
Outro vilão silencioso é o desequilíbrio muscular. Se o seu quadríceps é excessivamente forte comparado aos seus isquiotibiais (uma relação muito comum), a parte posterior da coxa não consegue frear o movimento da perna gerado pela força da frente. É como colocar um motor de Ferrari num carro com freios de bicicleta; uma hora o freio falha. Além disso, a falta de mobilidade no quadril obriga os músculos da coxa a trabalharem em amplitudes para as quais não estão preparados, aumentando a tensão final nas fibras.
Também precisamos falar sobre o aquecimento — ou a falta dele. Músculos frios são menos viscoelásticos, ou seja, são mais rígidos e quebram mais fácil sob tensão. Se você sai do escritório, onde ficou sentado por 8 horas comprimindo a circulação da coxa, e vai direto para tiros de velocidade sem ativar a musculatura progressivamente, você está praticamente pedindo para se lesionar. O estiramento é, na maioria das vezes, um grito de socorro de um tecido que não aguentava mais a demanda imposta.
Primeiros Socorros: A Fase Aguda (0-72h)
Esqueça o Gelo excessivo: PEACE & LOVE
Durante décadas, mandamos você colocar gelo imediatamente e ficar imóvel. A ciência evoluiu e hoje sabemos que congelar demais a área pode, na verdade, atrasar a cura, pois bloqueia a inflamação necessária para limpar a área lesionada. Agora usamos o acrônimo PEACE & LOVE. Nas fases iniciais (PEACE), o foco é: Proteger a área (pare de correr!), Elevar o membro para drenar o inchaço, evitar Anti-inflamatórios (falaremos disso a seguir), usar Compressão para controlar o edema e Educar-se sobre a lesão.
O gelo ainda tem seu lugar como analgésico natural. Se a dor estiver insuportável, pode usar por 10 a 15 minutos para alívio momentâneo, mas não com o objetivo de “desinflamar” a qualquer custo. O corpo precisa enviar células de reparo para o local, e o frio intenso fecha os vasos sanguíneos, impedindo que esses “pedreiros” biológicos cheguem à obra. O foco nos primeiros dias deve ser o gerenciamento da dor e a proteção contra novos danos, permitindo que o processo biológico natural de limpeza celular ocorra.
A parte do “LOVE” vem logo depois, após os primeiros dias agudos: Load (Carga gradual), Optimism (Otimismo, pois o cérebro comanda a cura), Vascularization (Atividades cardiovasculares sem dor para irrigar o tecido) e Exercise (Exercícios específicos). Essa mudança de mentalidade é vital. Não queremos que você fique deitado na cama por uma semana; queremos movimento inteligente o mais cedo possível, respeitando o limiar da dor.
O perigo dos anti-inflamatórios
Eu sei que a tentação de tomar aquele comprimido para “cortar a dor” é gigante, mas preciso ser dura com você: evite anti-inflamatórios nos primeiros 3 a 5 dias, a menos que seu médico tenha prescrito por uma razão muito específica. A inflamação é o primeiro estágio da cicatrização. É ela que sinaliza ao corpo: “Ei, tem um problema aqui, mandem colágeno novo!”. Ao tomar remédios potentes, você desliga esse alarme químico.
O resultado do uso indiscriminado de anti-inflamatórios é, muitas vezes, uma cicatriz muscular de má qualidade. O tecido pode ficar mais fraco e propenso a rasgar novamente no mesmo lugar.[5] A dor é o seu guia, seu limitador de velocidade. Se você a mascara quimicamente, pode acabar fazendo movimentos que a estrutura ainda não suporta, agravando a lesão sem perceber.
Prefira analgésicos simples, caso a dor atrapalhe o sono, mas deixe a inflamação fazer o trabalho dela. Claro, estamos falando de inflamação controlada. Se a coxa inchar o dobro do tamanho, procure ajuda médica. Mas aquele inchaço local e calor são sinais de que seu corpo está trabalhando duro na reconstrução. Respeite a sabedoria da sua biologia.
Quando procurar o médico especialista
Como fisioterapeuta, tenho autonomia para tratar lesões musculares, mas existem bandeiras vermelhas que exigem um olhar médico e exames de imagem. Se você ouviu um estalo muito alto (pop!), se a perna ficou roxa quase imediatamente e se você não consegue colocar o pé no chão de tanta dor, vá ao ortopedista. Isso pode indicar uma avulsão tendínea ou uma fratura por avulsão, onde o músculo arranca um pedacinho do osso.
Outro sinal de alerta é a perda de sensibilidade ou formigamento que desce pela perna. Isso sugere que o inchaço está comprimindo nervos importantes, como o nervo ciático, ou que a lesão envolveu estruturas neurais. Nesses casos, a automedicação ou o “esperar passar” podem deixar sequelas permanentes. O exame de ultrassom ou ressonância magnética ajudará a mapear a extensão exata do dano.[1][5]
Por fim, se você já teve essa mesma lesão no mesmo lugar mais de duas vezes no último ano, precisamos de uma investigação médica mais profunda. Pode haver causas metabólicas, hormonais ou anatômicas que a fisioterapia sozinha não vai resolver. Não tenha medo de buscar o diagnóstico preciso; ele é o mapa que guiará a nossa reabilitação.
A Fase de Reparo: Construindo a Ponte para a Corrida
Isometria: Segurando a força sem machucar
Assim que a dor aguda em repouso passar (geralmente após 3 a 5 dias), entramos com a isometria. Exercícios isométricos são aqueles onde você faz força contra uma resistência sem gerar movimento na articulação. Por exemplo, deitado de barriga para baixo, tentar dobrar o joelho enquanto a outra perna (ou a mão do terapeuta) impede o movimento. Por que começamos assim? Porque a isometria ativa as fibras musculares sem esticá-las e sem encurtá-las agressivamente, o que é super seguro para o tecido recém-cicatrizado.
A isometria tem um efeito analgésico incrível. Ao sustentar a contração por 30 a 45 segundos (com carga leve a moderada), você manda sinais ao cérebro que inibem a dor. Além disso, começamos a reensinar o músculo a contrair. Muitas vezes, após a lesão, o músculo “desliga” por proteção (inibição artrogênica). A isometria é como dar a partida no carro em ponto morto: o motor liga, o óleo circula, mas o carro não sai do lugar, evitando acidentes.
Realizamos essas contrações em vários ângulos do joelho ou quadril, sempre respeitando o limite da dor. Se doer, reduzimos a força. O objetivo aqui não é hipertrofia, é reconexão neuromuscular e alinhamento inicial das fibras de colágeno que estão sendo depositadas na brecha da lesão.
Mobilidade de Quadril: Soltando as amarras
Muitas vezes, a coxa estoura porque o quadril está preso. Se o seu quadril não estende bem (não vai para trás) durante a passada, a coluna lombar e os músculos posteriores da coxa tentam compensar esse movimento, trabalhando dobrado. Por isso, na fase de reparo, focamos muito em soltar o quadril, mas sem alongar a região lesionada dolorosamente.
Trabalhamos a rotação interna e externa do quadril, a mobilidade da pelve e a liberação dos flexores do quadril (músculos da frente que, quando encurtados, inibem o glúteo e sobrecarregam a posterior). Pense no corpo como uma corrente: se um elo está enferrujado (quadril rígido), o elo vizinho (músculo da coxa) vai sofrer tensão excessiva até quebrar.
Exercícios como o “90-90” para mobilidade de solo ou alongamentos dinâmicos controlados para os adutores e glúteos são essenciais. Lembre-se: não queremos alongar agressivamente o músculo que rasgou ainda! Queremos soltar tudo ao redor dele para que ele possa relaxar e curar sem estar sob tensão constante de estruturas vizinhas rígidas.
O início do movimento excêntrico: O segredo
Aqui está o “pulo do gato” da fisioterapia moderna: o exercício excêntrico. É ele que realmente previne a recidiva. O movimento excêntrico ocorre quando o músculo faz força enquanto se alonga (como segurar a descida de um peso).[3] As pesquisas mostram que esse tipo de carga é o único capaz de realinhar as fibras de colágeno na direção da força, tornando a cicatriz elástica e funcional, em vez de um bolo emaranhado e frágil.
Começamos com exercícios simples, como a “ponte” (elevação pélvica) onde você sobe com as duas pernas e desce devagar apoiado apenas na perna lesionada. Depois evoluímos para o “Levantamento Terra” com pouca carga e foco na descida, ou o “Nordic Hamstring Curl” (avançado). A ideia é expor o músculo gradualmente à tensão de estiramento, ensinando-o a ser forte mesmo quando esticado.
Essa fase pode gerar um pouco de dor muscular tardia, e tudo bem, desde que não seja a dor aguda da lesão original. Estamos remodelando o tecido. Pense nisso como passar um ferro de passar roupa num tecido amassado: a carga excêntrica alisa e organiza as fibras para que elas suportem a tração da corrida futura. Sem isso, o risco de se machucar novamente na primeira acelerada é altíssimo.
O Fator Mental e o Medo da Recidiva
A psicologia da dor: Cinesiofobia
Você já sentiu que sua perna está boa, os exames estão limpos, mas você simplesmente trava na hora de acelerar? Isso tem nome: cinesiofobia, o medo do movimento. É uma resposta natural do cérebro para te proteger. O seu sistema nervoso gravou a memória da dor aguda e agora cria uma barreira psicológica, tensionando a musculatura antecipadamente sempre que você tenta correr. Essa tensão prévia gasta energia e muda sua biomecânica, ironicamente aumentando o risco de lesão.
Precisamos tratar o cérebro tanto quanto o músculo. Eu costumo dizer aos pacientes que a dor é um alarme, e às vezes o alarme dispara mesmo sem ter fogo, só por fumaça ou poeira. Durante a reabilitação, vamos expor você a movimentos que imitam a corrida, mas em ambiente controlado, para provar ao seu cérebro que é seguro. É uma reeducação de confiança.
Não se sinta fraco ou “mole” por ter medo. É biológico. Validar esse sentimento é o primeiro passo. Converse comigo durante as sessões: “Olha, nesse movimento eu sinto que vai rasgar”. Vamos adaptar, reduzir a amplitude e progredir milimetricamente até que seu cérebro perceba que o tecido já cicatrizou e está pronto para a carga.
Testando a confiança antes da pista
Antes de te mandar para o asfalto, fazemos testes de confiança no consultório. Não são apenas testes de força, mas desafios funcionais. Pular em uma perna só, saltar de uma caixa pequena, correr parado com joelhos altos. Se você hesita, faz careta ou protege a perna durante esses testes, ainda não é hora.
A confiança deve ser plena. Você deve ser capaz de realizar um movimento explosivo sem pensar na coxa. Se sua mente vai direto para o músculo a cada passo, você vai correr tenso, alterando sua passada. Usamos exercícios de pliometria leve (pequenos saltos) para construir essa resiliência mental e tecidual simultaneamente.
A confiança também vem de ver os números melhorarem. Quando mostro para você que a força da sua perna lesionada já está 90% igual à da perna boa, seu lado racional ajuda a acalmar o lado emocional. Dados concretos ajudam a vencer o medo subjetivo.
O papel do sono e estresse na cicatrização
Você pode fazer os melhores exercícios do mundo, mas se estiver dormindo 5 horas por noite e estressado com o trabalho, sua recuperação vai empacar. É durante o sono profundo que liberamos o Hormônio do Crescimento (GH), vital para a reparação tecidual. A privação de sono mantém o corpo em estado inflamatório crônico e aumenta a sensibilidade à dor.
O estresse elevado aumenta o cortisol, que é catabólico (degrada tecido) e atrapalha a síntese de novo colágeno. Para um corredor lesionado, dormir é o treino mais importante do dia. Tente adicionar 30 a 60 minutos extras de sono por noite durante a fase de recuperação.
Além disso, a nutrição é o combustível da obra. Proteínas de qualidade e hidratação são os tijolos e a argamassa. Um músculo desidratado é um músculo quebradiço. Beba água como se fosse seu remédio. Encare o estilo de vida — sono, comida, controle de estresse — como parte integrante do seu tratamento fisioterapêutico.
Biomecânica e Técnica de Corrida Preventiva[6]
Cadência: Passos por minuto
Um dos ajustes mais simples e eficazes que fazemos para proteger a coxa no retorno é aumentar a cadência. Cadência é o número de passos que você dá por minuto. A maioria dos corredores amadores tem uma cadência baixa (abaixo de 160-165 ppm), o que significa passos longos e pesados. Passos longos exigem que a perna vá muito à frente do corpo, estirando os isquiotibiais ao máximo logo antes do impacto.
Ao aumentar sua cadência (para algo entre 170-180 ppm), seus passos ficam mais curtos. O pé aterrissa mais próximo ao centro de gravidade do corpo. Isso reduz drasticamente a necessidade de os isquiotibiais “frearem” a perna lá na frente, diminuindo a carga excêntrica sobre eles. É física: passos curtos e rápidos machucam menos do que passos longos e lentos.
Treinar isso é fácil: use um metrônomo (tem aplicativos grátis) ou playlists de música com BPM específico. No início parece estranho, você se sente o “papa-léguas”, mas seus músculos vão agradecer. Essa mudança técnica é muitas vezes a chave para nunca mais ter essa lesão.
Overstriding: A pisada muito à frente
O “Overstriding” é o irmão gêmeo malvado da cadência baixa. É o ato de aterrissar com o pé muito à frente do joelho e do quadril, geralmente com o calcanhar travando no chão. Isso cria uma força de frenagem enorme. Cada passo é como pisar no freio do carro. Essa força de reação do solo viaja direto para o seu quadríceps e isquiotibiais.
Corrigir o overstriding envolve inclinar levemente o corpo inteiro para frente (a partir dos tornozelos, não dobrando a cintura) e focar em pousar o pé “embaixo” de você, não na frente. Imagine que você está correndo em ovos e não quer quebrá-los. Isso promove uma aterrissagem mais suave e eficiente.
Filmar sua corrida em câmera lenta é uma ótima ferramenta aqui. Muitas vezes você acha que está pisando certo, mas o vídeo mostra o calcanhar lá na frente travando o movimento. A correção visual ajuda muito a internalizar a nova técnica.
O papel do glúteo na propulsão
Muitas lesões de coxa acontecem porque a coxa está fazendo o trabalho que deveria ser do glúteo. O Glúteo Máximo é o músculo mais forte do corpo e deveria ser o motor principal da corrida. Se ele está “adormecido” ou fraco, os isquiotibiais (que são apenas ajudantes na extensão do quadril) têm que assumir a carga toda. Resultado: sobrecarga e ruptura.[1][7]
Durante a reabilitação, focamos obsessivamente na ativação do glúteo. Você precisa sentir a “bunda queimar” nos exercícios, não apenas a coxa. Ensinar seu cérebro a recrutar o glúteo antes de recrutar a posterior da coxa é crucial para tirar a sobrecarga da região lesionada.
Exercícios como o “clam shell”, ponte unipodal e agachamentos com foco no quadril são vitais. Na corrida, pense em “empurrar o chão para trás” usando o bumbum. Quando o motor principal funciona (glúteo), os motores auxiliares (isquiotibiais) podem trabalhar na sua zona de segurança, sem risco de pane.
O Grande Retorno: Protocolo de Caminhada-Corrida
Critérios para calçar o tênis
Você não vai sair correndo 5km no primeiro dia. Para ganhar o “alvará de soltura” para a corrida, você precisa gabaritar alguns testes: 1) Alongamento completo da perna sem dor (igual à perna sã); 2) Força isométrica sem dor; 3) Caminhada rápida de 30 minutos sem desconforto; e 4) Saltos unipodais sem dor ou medo.
Se você tem dor “nota 1 ou 2” (numa escala de 0 a 10) durante esses testes, ainda esperamos. A corrida multiplica o peso do seu corpo por 2 ou 3 vezes a cada passo. Se dói parado ou andando, vai doer muito mais correndo. Seja honesto consigo mesmo nesses critérios. Trapacear aqui é trapacear sua própria recuperação.
Lembre-se também que “sem dor” não significa apenas no momento. Monitoramos a resposta nas 24h seguintes. Se a coxa ficar dolorida ou rígida no dia seguinte ao teste, foi carga demais. O tecido ainda não está pronto.
Planilha de transição (Exemplo prático)
O retorno é feito com intervalos. Começamos alternando caminhada e trote leve. Um protocolo clássico para a primeira semana seria:
- Aquecimento: 10 min caminhada + mobilidade.
- Série principal: 1 minuto de trote LEVÍSSIMO + 4 minutos de caminhada. Repetir 3 a 4 vezes. Total de corrida real: apenas 3 a 4 minutos.
- Desaquecimento: Caminhada e alongamento leve.
Parece pouco? Sim, e deve parecer. O objetivo não é condicionamento cardiorrespiratório agora, é adaptação tecidual. Se você fizer isso e no dia seguinte estiver zero dor, na próxima sessão (com um dia de descanso no meio), fazemos 2 min trote / 3 min caminhada.
Vamos progredindo a cada 2 ou 3 treinos, invertendo a balança até que você consiga correr 20 ou 30 minutos contínuos sem dor. Só depois disso pensamos em velocidade ou tiros. Velocidade é a última coisa a voltar, pois é o que mais exige dos isquiotibiais. Paciência de monge tibetano aqui, ok?
Sinais de alerta para parar
Durante esse retorno, preste atenção à “dor fantasma”. Às vezes é só medo, mas às vezes é aviso. Se a dor for aguda, pontual e aumentar durante a corrida, pare imediatamente. Caminhe de volta para casa. Insistir sobre uma dor que piora (que chamamos de dor crescente) é a receita para voltar à estaca zero.
Sinta também a rigidez. Se a perna começa a ficar “dura” ou “pesada” no meio do treino, é sinal de fadiga neuromuscular. O músculo perdeu a capacidade de absorver impacto. Pare antes de doer. Terminar o treino sentindo que “dava para fazer mais” é a meta perfeita na reabilitação.
E claro, monitore o inchaço. Se após o treino a coxa inchar, você exagerou. Recue um passo no protocolo na próxima sessão. A recuperação não é uma linha reta ascendente; tem altos e baixos. O importante é a tendência geral de melhora.
Terapias aplicadas e indicadas[1][3][5][6]
Para fechar, quero te falar sobre as ferramentas que usamos na clínica para acelerar tudo isso que conversamos. Além dos exercícios (que são 80% do sucesso), temos recursos tecnológicos excelentes:
- Fotobiomodulação (Laser e LED): Usamos muito nas fases iniciais e intermediárias. A luz penetra no tecido e estimula as mitocôndrias das células a produzirem mais ATP (energia). Isso acelera a reparação do tecido e ajuda a organizar as fibras de colágeno, além de ter efeito anti-inflamatório local sem os efeitos colaterais dos remédios.
- Dry Needling (Agulhamento a Seco): Sabe aqueles “nós” ou pontos-gatilho que ficam no músculo após a lesão? O agulhamento é fantástico para “resetar” esses pontos de tensão, melhorando a vascularização e aliviando a dor miofascial que muitas vezes persiste mesmo após a cicatrização da lesão.
- Terapia Manual e Liberação Miofascial: Minhas mãos vão trabalhar para soltar as aderências entre as camadas musculares. O tecido cicatricial tende a “grudar” nas fáscias vizinhas, limitando o movimento. A terapia manual devolve o deslizamento natural entre os tecidos, essencial para uma corrida fluida.
- Tecarterapia (Radiofrequência): É uma tecnologia que gera calor profundo através de ondas eletromagnéticas. Isso aumenta drasticamente o fluxo sanguíneo local, melhora a elasticidade do tecido e prepara a musculatura para os exercícios de alongamento e força, tornando-os mais eficazes.
Lembre-se: essas terapias são coadjuvantes. Elas abrem a janela de oportunidade para você se exercitar melhor. Nenhuma máquina substitui o fortalecimento e a correção do movimento. Estamos juntos nessa jornada de retorno. Respeite seu corpo, siga o plano e logo você estará cruzando a linha de chegada novamente, mais forte do que nunca. Vamos nessa?

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”