Sabe aquela sensação de que suas pernas poderiam aguentar muito mais carga, mas a sua coluna pede “arrego” antes mesmo de o músculo fadigar? Eu vejo isso todos os dias no consultório. Você chega animado para construir pernas fortes, mas sai do treino andando curvado, com a mão na lombar, achando que isso é “normal” ou “parte do processo”. Deixe-me ser bem direta com você: sentir dor na coluna não é normal, e definitivamente não é pré-requisito para hipertrofia.
Como fisioterapeuta, já atendi inúmeros pacientes que precisaram interromper seus treinos por meses devido a lesões que poderiam ter sido evitadas com ajustes simples. O grande segredo não está em deixar de treinar pesado, mas em treinar de forma inteligente, respeitando a biomecânica do seu corpo. Quando você entende como as forças atuam nas suas vértebras durante um agachamento ou leg press, o jogo muda. Você para de lutar contra sua anatomia e começa a usá-la a seu favor.
Neste guia, vamos ter uma conversa franca, de profissional para paciente, sobre como você pode continuar buscando suas coxas gigantes sem sacrificar sua saúde espinhal. Vamos mergulhar nos detalhes que muitas vezes passam despercebidos na correria da academia, mas que fazem toda a diferença entre um treino produtivo e uma visita de emergência à minha clínica. Prepare sua garrafa de água, ajeite a postura aí na cadeira e vamos entender como blindar sua coluna de uma vez por todas.
Entendendo a Raiz do Problema: Por que suas costas travam?
É fundamental começarmos entendendo o que realmente acontece lá dentro quando você sente aquela fisgada. Muitas vezes, você culpa o exercício, dizendo que “o agachamento acaba com a minha coluna”, quando, na verdade, o mecanismo de lesão está na forma como as forças são distribuídas. A sua coluna lombar não foi feita para suportar cargas excessivas se ela não estiver em uma posição neutra e estável.[3] Quando você perde essa estabilidade, a carga que deveria ir para as pernas “vaza” para as articulações da coluna.
O problema geralmente não é o peso em si, mas a alavanca que criamos contra nós mesmos. Imagine sua coluna como um mastro de um navio; se os cabos que o seguram (seus músculos) estiverem frouxos ou puxando de forma desigual, qualquer vento mais forte (a carga) vai envergar ou quebrar esse mastro. No treino de pernas, estamos lidando com forças de compressão (achatamento) e cisalhamento (deslizamento) o tempo todo. Se você não gerencia essas forças, seus discos intervertebrais pagam o preço.
Por isso, antes de colocar mais anilhas, precisamos garantir que sua estrutura de suporte esteja funcionando. A dor é apenas um sinal de alerta do seu corpo gritando que a carga está passando por um tecido que não foi desenhado para aguentar tanto estresse mecânico. Ignorar esse sinal e tomar um analgésico para treinar no dia seguinte é a receita perfeita para uma lesão crônica. Vamos dissecar os três principais culpados por esse cenário.
A biomecânica oculta da dor lombar
Quando falamos de biomecânica de forma simplificada, pense na sua coluna como uma pilha de carretéis de linha (as vértebras) com almofadas de gel entre eles (os discos). Durante um treino de pernas pesado, a gravidade e o peso da barra empurram esses carretéis uns contra os outros. Isso é a compressão, e seus discos aguentam isso muito bem, desde que a pilha esteja reta. O problema surge quando você inclina essa pilha.
Ao inclinar o tronco à frente num agachamento ou stiff, cria-se uma força chamada cisalhamento anterior. É como se uma vértebra quisesse escorregar para frente em relação à outra. Se os músculos eretores da espinha e o seu abdômen não estiverem trabalhando em perfeita harmonia para “travar” esses carretéis no lugar, os ligamentos e o próprio disco sofrem microlesões. Com o tempo, essas microlesões inflamam e geram aquela dor chata que não passa.
Além disso, temos a questão da fadiga acumulada. Muitas vezes sua técnica é perfeita na primeira repetição, mas na décima, quando o oxigênio falta e a perna queima, sua coluna cede. É nesse momento de falha técnica, e não muscular, que a lesão acontece. Entender que sua lombar muitas vezes cansa antes das suas pernas é crucial para ajustar o volume e a intensidade do seu treino de forma segura.[2]
O perigo silencioso da retroversão pélvica (“bunda piscando”)
Você já deve ter ouvido o termo “bunda piscando” na academia, mas sabe o quão perigoso isso é? Tecnicamente chamamos de retroversão pélvica. Acontece no final da descida do agachamento ou do leg press, quando seu quadril gira para dentro e sua lombar arredonda, perdendo a curvatura natural.[2] Nesse exato momento, a pressão nos seus discos lombares aumenta drasticamente, podendo ser o gatilho para uma hérnia de disco.
Muitas pessoas acreditam que precisam descer “bunda no calcanhar” para ter hipertrofia, mas isso não é verdade para todo mundo. Se a sua anatomia de quadril não permite essa amplitude sem girar a pelve, você está apenas se machucando. O arredondamento da lombar sob carga inverte a pressão no disco, empurrando o núcleo gelatinoso para trás, justamente onde passam seus nervos. É um risco desnecessário.
A correção disso não é apenas “forçar a coluna”, mas sim respeitar seu limite de amplitude atual. Pode ser que, hoje, seu agachamento seguro seja até 90 graus. E está tudo bem! É muito melhor construir pernas sólidas com uma amplitude segura do que tentar imitar um atleta olímpico e acabar travado na cama por duas semanas. Vamos aprender a identificar seu ponto de retorno antes que a retroversão aconteça.
Carga versus Técnica: A armadilha do ego
Aqui entra o fator psicológico que vejo derrubar até os mais experientes: o ego. É tentador encher o leg press de anilhas para impressionar a si mesmo ou aos outros. Porém, o músculo não sabe contar peso, ele entende tensão. Se você coloca 400kg no aparelho mas faz um movimento curto (“meio movimento”) ou compensa tirando a lombar do encosto, você não está hipertrofiando a perna, está apenas destruindo suas articulações.
A hipertrofia acontece quando conseguimos direcionar a tensão mecânica para o alvo, no caso, quadríceps, glúteos ou posteriores. Quando a carga é excessiva para sua capacidade atual, seu corpo entra em modo de sobrevivência. Ele recruta qualquer músculo disponível para mover o peso, e adivinha quem sempre entra na jogada para ajudar? Sua lombar. Ela assume a carga que suas pernas não aguentam sozinhas.
Eu sempre digo aos meus pacientes: reduza a carga pela metade e melhore a execução em dobro. Faça uma descida lenta (cêntrica controlada), sinta o músculo esticar e contraia com vontade na subida, mantendo a postura impecável. Você vai ver que, mesmo com menos peso, suas pernas vão “queimar” muito mais e, o melhor de tudo, sua coluna vai terminar o treino leve e sem dor.
O Agachamento Perfeito: Blindando sua coluna[4]
O agachamento livre é, sem dúvidas, um dos melhores construtores de massa muscular que existem, mas também é o que exige maior refinamento técnico. Ele não é apenas um exercício de perna; é um exercício de corpo inteiro. A barra nas costas exige que cada segmento do seu corpo, do pescoço ao dedão do pé, esteja alinhado e tenso. Se uma peça desse quebra-cabeça falhar, a estrutura colapsa.
Para proteger sua coluna aqui, precisamos olhar para o agachamento como uma habilidade a ser praticada, não apenas um movimento de força bruta.[4][5] A estabilidade da sua coluna durante o movimento depende diretamente de onde a barra está apoiada, de quanto seu tronco inclina e de como seus pés interagem com o solo. Pequenos ajustes de centímetros podem reduzir a carga na sua lombar em dezenas de quilos.
Não existe um “agachamento universal” que sirva para todos. Você tem um comprimento de fêmur único, uma mobilidade de tornozelo única e um formato de quadril único. Tentar forçar seu corpo em um padrão de movimento que não é o seu é pedir para se lesionar. Vamos adaptar o agachamento à sua biomecânica, e não o contrário.
A posição da barra faz diferença (High Bar vs Low Bar)[6]
Você sabia que mover a barra alguns centímetros para baixo nas costas pode salvar sua lombar? No agachamento “High Bar” (barra alta), a barra fica apoiada no trapézio superior. Isso exige um tronco mais vertical e joga os joelhos mais para frente. É ótimo para quadríceps, mas requer muita mobilidade de tornozelo. Se você não tem essa mobilidade, acaba curvando a coluna para compensar.
Já no “Low Bar” (barra baixa), a barra repousa sobre a espinha da escápula e deltoides posteriores. Isso obriga você a inclinar um pouco mais o tronco à frente, mas diminui o braço de alavanca na coluna lombar para quem tem fêmures longos. Paradoxalmente, apesar de inclinar mais, para muitas pessoas essa posição é mais segura porque permite usar mais o quadril (que é forte) e menos a extensão lombar isolada.
A escolha entre um e outro depende de como você se sente mais estável. Eu recomendo que você experimente (com carga leve) as duas posições. O objetivo é encontrar o ponto onde seu tronco oscile o mínimo possível e você consiga manter a coluna neutra durante todo o movimento. Não tenha medo de ajustar a posição da barra para se adequar ao seu conforto articular.
Encontrando sua profundidade ideal sem compensar[2]
A internet popularizou a ideia de “ass to grass” (bunda no chão) como o único jeito certo de agachar. Como fisioterapeuta, preciso te dizer: isso é um mito perigoso. A profundidade ideal é a máxima que VOCÊ consegue atingir mantendo a curvatura natural da coluna lombar. Passou desse ponto? Sua pelve entra em retroversão e a compressão discal dispara.
Para testar sua profundidade real, faça um agachamento sem peso na frente do espelho, de lado. Observe sua lombar.[5][7][8][9] No momento em que ela começar a arredondar, pare.[10] Esse é o seu limite ativo hoje. Treinar dentro dessa amplitude segura vai gerar hipertrofia de forma eficiente.[5] Forçar além disso só vai gerar inflamação e desgaste articular a longo prazo.
Com o tempo, trabalhando mobilidade e alongamento, essa profundidade pode aumentar. Mas não force isso com uma barra de 100kg nas costas. Respeite seu limite anatômico atual. Lembre-se: hipertrofia segura é um jogo de longo prazo. Você quer estar agachando daqui a 10 anos, não operando a coluna.
A importância vital da estabilidade dos pés
Tudo começa na base. Seus pés são a fundação do seu agachamento. Se eles instabilizam, seus joelhos balançam, seu quadril desalinha e sua coluna sofre para equilibrar tudo. Um pé “frouxo” dentro do tênis ou um arco plantar desabado (pé chato funcional) durante o exercício envia forças rotacionais terríveis para a coluna.
Você precisa aprender a fazer o “tripé do pé”: pressione o calcanhar, a base do dedão e a base do dedo mindinho contra o chão. Imagine que você está tentando “agarrar” o chão com os pés e girar os joelhos levemente para fora. Isso cria um torque externo que estabiliza o quadril e ativa o glúteo. Glúteo ativado é sinônimo de lombar protegida.
Evite tênis de corrida com muito amortecimento (aquelas molas ou espumas macias) para treinar perna. Eles geram instabilidade. Prefira tênis de solado plano e rígido ou treine descalço (se a academia permitir) para ter máximo feedback sensorial do solo. Uma base sólida permite que sua coluna foque apenas em transmitir força, não em lutar pelo equilíbrio.
Leg Press e Máquinas: Amigos ou vilões?
O Leg Press é frequentemente visto como o “primo seguro” do agachamento, já que a coluna está apoiada. Mas não se engane: ele é um dos maiores causadores de hérnias de disco que vejo na prática clínica. A falsa sensação de segurança faz com que as pessoas coloquem cargas absurdas e cometam erros de posicionamento fatais. Quando você está travado na máquina, seu corpo não tem para onde fugir se o movimento estiver errado.
A máquina remove a necessidade de equilíbrio, o que é ótimo para focar na força bruta muscular, mas isso também significa que as forças de cisalhamento são transferidas de forma muito direta. Se o seu quadril sair do banco nem que seja um centímetro, toda a carga da plataforma (que muitas vezes passa de 200kg ou 300kg) é descarregada nas suas vértebras lombares inferiores (L4-L5-S1).
No entanto, quando bem executado, o Leg Press é uma ferramenta fantástica para hipertrofia com segurança. O segredo está em ajustar a máquina ao seu corpo, e não tentar adaptar seu corpo à máquina. Vamos ver como configurar esse aparelho para que ele seja seu aliado, não seu inimigo.
O ajuste do banco que ninguém te conta
A inclinação do encosto do Leg Press 45º não é apenas uma questão de conforto, é biomecânica pura. Muitas pessoas deixam o banco muito inclinado (reto demais), o que fecha o ângulo do quadril precocemente. Isso faz com que sua mobilidade se esgote mais rápido na descida, forçando a retroversão pélvica muito antes do que deveria.
Experimente reclinar o banco um pouco mais para trás, se a máquina permitir. Ao abrir esse ângulo entre o tronco e as pernas, você ganha espaço para descer a plataforma sem que seu fêmur empurre seu quadril para uma rotação indesejada. Isso alivia a tensão nos isquiotibiais e permite uma amplitude maior com segurança lombar total.
Claro, não recline tanto a ponto de parecer que está deitado dormindo, pois isso pode mudar o foco muscular. Encontre um meio termo onde sua lombar fique perfeitamente colada no banco durante todo o movimento. Se sentir um espaço se formando entre suas costas e o estofado na descida, o ajuste ainda não está ideal ou você está descendo demais.
Posicionamento dos pés para aliviar a lombar[2]
A posição dos pés na plataforma altera completamente a alavanca do exercício. Pés muito baixos na plataforma aumentam a ênfase no quadríceps, mas também aumentam o cisalhamento no joelho e exigem mais mobilidade de tornozelo. Se o calcanhar levantar, a força vai para o joelho e a compensação sobe para o quadril e coluna.
Para proteger a lombar, geralmente recomendo posicionar os pés um pouco mais altos na plataforma. Isso permite um maior recrutamento de glúteos e isquiotibiais, que ajudam a estabilizar a pelve. Além disso, facilita manter o calcanhar chapado na plataforma, garantindo que a força seja empurrada através de toda a perna e não apenas da ponta do pé.
A largura também importa. Uma base um pouco mais larga, com a ponta dos pés levemente para fora, costuma ser mais anatômica para o encaixe do fêmur no quadril, permitindo descer mais sem retroverter a pelve. Teste diferentes alturas e larguras com pouca carga até sentir que o movimento flui sem “trancos” na coluna.
Quando a máquina se torna perigosa: amplitude excessiva
Aqui voltamos ao conceito do “ego”. Ver alguém trazendo os joelhos até bater no peito no Leg Press pode parecer impressionante, mas biomecanicamente é um desastre para a maioria. Quando seus joelhos chegam muito perto do peito, a cabeça do fêmur bate na borda do acetábulo (osso do quadril) e atua como uma alavanca que arranca sua lombar do banco.
Nesse momento de “descolamento” da lombar, seus discos estão extremamente vulneráveis. A regra de ouro no Leg Press é: desça até o ponto onde seu quadril ainda está firmemente ancorado no banco. Nem um milímetro a mais. Para alguns, isso será um ângulo de 90 graus nos joelhos; para outros, um pouco mais.
Não se compare com o colega ao lado que tem uma mobilidade de ginasta. A hipertrofia ocorre pela tensão no músculo, não por encostar o joelho no ombro. Se você limitar a amplitude para preservar a coluna e mantiver a tensão constante (sem travar os joelhos em cima para descansar), terá resultados incríveis sem o risco de sair de cadeira de rodas do treino.
O “Core” Invisível: Sua Cinta Natural de Proteção
Você provavelmente já ouviu falar que precisa “contrair o abdômen”, mas a proteção real da coluna vai muito além de ter um “tanquinho”. Estamos falando do CORE profundo, um sistema de músculos que funciona como um cilindro de pressão ao redor da sua coluna. Se esse cilindro estiver vazando pressão, sua coluna fica instável.
Muitas pessoas acham que treinar core é fazer centenas de abdominais tradicionais no final do treino. Grande erro. O abdominal tradicional (flexão de tronco) tem pouca transferência para a estabilidade necessária num agachamento pesado. O que você precisa é de estabilidade anti-movimento: a capacidade de manter a coluna parada enquanto seus membros fazem força extrema.
Como fisioterapeuta, ensino meus pacientes a ativar essa cinta natural antes mesmo de tocar na barra. É a diferença entre levantar um peso como um guindaste sólido ou como um bambu flexível. Vamos aprender a criar essa pressão intra-abdominal que blinda suas vértebras de dentro para fora.
Desmistificando o Bracing: Não é só “murchar” a barriga
Existe uma confusão enorme entre “murchar a barriga” (hollowing) e fazer o “Bracing”. Murchar a barriga diminui a estabilidade da coluna. O Bracing é o oposto: é expandir e endurecer. Imagine que alguém vai te dar um soco no estômago. O que você faz? Você não puxa o umbigo para dentro; você trava a musculatura toda para fora e para os lados, criando um escudo rígido.
Essa é a sensação que você deve ter durante todo o treino de perna. Antes de cada repetição, respire fundo enchendo a barriga (não o peito) de ar, e então “trave” o abdômen sobre esse ar, como se estivesse vedando uma panela de pressão. Isso cria uma pressão intra-abdominal que empurra a coluna por dentro, dando um suporte incrível.
Mantenha essa tensão durante a descida e a subida. Solte o ar (sem perder a tensão) apenas no final do movimento ou de forma controlada (“tsst”) durante o esforço máximo. Se você perde o Bracing no meio do agachamento, sua coluna fica desprotegida no pior momento possível. Pratique isso em casa, deitado, até se tornar automático.
A conexão entre o assoalho pélvico e a coluna[3]
Pouca gente fala disso na musculação, mas o assoalho pélvico (os músculos que seguram sua bexiga e órgãos) é o “fundo” do nosso cilindro de estabilidade. Se você faz muita força para baixo sem contrair o assoalho pélvico, a pressão vaza por baixo, diminuindo a eficácia do Bracing e podendo causar problemas como incontinência ou hérnias inguinais.
Tente coordenar uma leve contração do assoalho pélvico (como se estivesse segurando o xixi, mas de forma sutil, sem tensão excessiva) junto com o seu Bracing. Isso fecha o cilindro por baixo e aumenta a pressão de suporte para a lombar. É um detalhe fino, mas que aumenta muito a estabilidade do tronco.
Mulheres, em especial, devem estar atentas a essa conexão. Sentir pressão excessiva “lá embaixo” durante um Leg Press pesado é sinal de que a gestão da pressão intra-abdominal não está correta. O objetivo é que a pressão proteja a coluna, não que force seus órgãos internos para baixo.
Exercícios de ativação pré-treino que mudam o jogo
Não chegue na academia e vá direto para o agachamento com 50kg. Seu core precisa “acordar” primeiro. Eu sugiro fortemente incluir 2 ou 3 exercícios de ativação de core antes do treino de perna. Não para cansar o músculo, mas para ligar a conexão neural.
O “Dead Bug” (inseto morto) é fantástico para ensinar seu corpo a mover as pernas enquanto mantém a lombar colada no chão e o abdômen travado. A Prancha Frontal (Plank) feita com tensão máxima por 30 segundos (focando no Bracing) também é excelente. O “Bird Dog” (perdigueiro) ajuda a ativar os multífidos, pequenos músculos que estabilizam vértebra por vértebra.
Gastar 5 minutos fazendo isso antes do treino prepara seu sistema nervoso para proteger sua coluna quando as cargas pesadas entrarem em cena. Pense nisso como o “aquecimento do motor” antes de acelerar o carro de corrida.
Mobilidade de Quadril e Tornozelo: A Chave Mestra[11]
Se o core é a proteção, a mobilidade é a liberdade. A maioria das dores na coluna durante o treino de perna não surge na coluna em si, mas pela falta de movimento nas articulações vizinhas: quadril e tornozelo. O corpo funciona num sistema de compensações. Se o tornozelo não dobra, o joelho sofre e o quadril sobe antes da hora, jogando a carga para as costas.
Você não precisa ser um contorcionista de circo, mas precisa ter os requisitos mínimos de movimento para executar os exercícios básicos. Se você passa o dia todo sentado no escritório (como a maioria de nós), seus quadris estão travados em flexão e seus tornozelos rígidos. Ir direto para o agachamento nessa condição é pedir para se machucar.
Incorporar uma rotina simples de mobilidade não é “perda de tempo”; é investimento em longevidade. Um quadril solto permite que você desça com o tronco mais ereto. Um tornozelo móvel permite que seus joelhos avancem o necessário para manter o equilíbrio. Vamos ver como destravar essas áreas críticas.
Tornozelos rígidos: Onde a compensação começa
Faça um teste rápido: tente agachar até o chão sem tirar os calcanhares do solo. Se você cai para trás ou precisa levantar os calcanhares, você tem rigidez de tornozelo (dorsiflexão limitada). Quando o tornozelo trava no meio do agachamento, seu corpo é obrigado a inclinar o tronco excessivamente para frente para não cair. E quem paga a conta dessa inclinação extra? A lombar.[2][5][7][8][9]
Para melhorar isso, exercícios simples de mobilidade de tornozelo contra a parede ou usando um elástico podem fazer milagres. Fazer liberação miofascial na panturrilha e no sóleo antes do treino também ajuda a soltar a articulação. Se a restrição for óssea ou muito severa, usar um calço pequeno (anilhas) sob os calcanhares ou um tênis de levantamento de peso pode ser uma solução temporária segura.
Não ignore seus pés. Melhorar esses poucos graus de movimento no tornozelo pode ser a diferença entre um agachamento que constrói coxas e um que destrói costas.[11] É a base da cadeia cinética; se ela falha, tudo acima falha também.
Destravando o quadril para agachar melhor
Nossos quadris adoram ficar rígidos, especialmente os flexores de quadril e os rotadores. Quando os flexores estão curtos, eles puxam sua pelve para uma inclinação anterior excessiva, comprimindo as facetas da coluna lombar antes mesmo de você começar a descer. Quando os rotadores estão travados, você não consegue abrir os joelhos corretamente, impedindo o encaixe da pelve.
Exercícios como o “90/90” para mobilidade de rotação e alongamentos dinâmicos para o iliopsoas (posição de afundo) são essenciais. Eles permitem que seu fêmur gire livremente dentro da articulação, sem arrastar a pelve e a coluna junto com ele.
Um quadril móvel permite que você use os glúteos de verdade. E o glúteo é o maior protetor da lombar. Se o quadril está travado, o glúteo “dorme” (amnésia glútea), e a coluna lombar acaba fazendo o trabalho de extensão que deveria ser do quadril. Solte o quadril, acorde o glúteo, salve a coluna.
A diferença entre flexibilidade e mobilidade real[12]
É importante distinguir: flexibilidade é conseguir alcançar uma posição passivamente (como alguém empurrando sua perna). Mobilidade é conseguir chegar nessa posição e ter força e controle sobre ela ativamente. Para a hipertrofia segura, precisamos de mobilidade.
De nada adianta você conseguir encostar a mão no chão se, quando está com uma barra nas costas, não tem controle motor para manter aquela amplitude. Seus exercícios de aquecimento devem focar em “mobilidade ativa”. Mova suas articulações na amplitude máxima usando a força dos seus próprios músculos, não apenas “pendurando-se” nos ligamentos.
Isso garante que, quando você estiver lá embaixo no ponto mais fundo do agachamento ou do leg press, seus músculos ainda estejam no comando, protegendo as articulações, e não em um ponto cego de vulnerabilidade.
Terapias e Cuidados Profissionais[3][7][13]
Agora, se você já sente dores ou quer levar sua prevenção a um nível profissional, existem terapias incríveis que complementam seu treino. Como fisioterapeuta, indico muito a Osteopatia. O osteopata não olha só para onde dói; ele avalia se um bloqueio no seu tornozelo ou uma rigidez na torácica está sobrecarregando sua lombar. Ajustes manuais podem “resetar” essas articulações e melhorar sua biomecânica instantaneamente.
Outra grande aliada é a Liberação Miofascial (seja manual ou instrumental). Músculos como o quadrado lombar, glúteo médio e piriforme costumam ficar supertensos em quem treina perna pesado. Soltar esses pontos de tensão (trigger points) regularmente impede que eles puxem sua estrutura óssea para desalinhamentos, além de acelerar absurdamente a recuperação muscular.
Por fim, não subestime o RPG (Reeducação Postural Global) ou o Pilates Clínico. Eles são fantásticos para ensinar consciência corporal e fortalecimento de músculos profundos que a musculação tradicional às vezes negligencia. Se você combinar um treino de hipertrofia inteligente, com as dicas de proteção que te dei aqui, e uma manutenção regular com terapias manuais, você terá longevidade e resultados estéticos impressionantes, sem nunca mais ter que sair da academia mancando de dor nas costas.
Cuide da sua coluna; ela é a única que você tem. Bom treino!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”