Fala, nadador! Tudo bem por aí? Se você está lendo este texto, imagino que, em algum momento, já sentiu que seus ombros estavam “pegando” depois de um treino longo ou que, por mais que você bata perna, seu quadril insiste em afundar como uma âncora. É muito comum eu receber no consultório atletas de natação, desde os amadores até os de elite, reclamando de dor no ombro ou estagnação no tempo. E a primeira coisa que eles me mostram é o ombro. Mas, na grande maioria das vezes, o culpado não é o ombro. O culpado está um pouco mais para o centro: é a sua coluna torácica.
Hoje vamos ter uma conversa franca, de fisioterapeuta para atleta, sobre essa região do corpo que muitas vezes é negligenciada. A coluna torácica é esse segmento do meio das costas, onde as costelas se prendem. No nosso dia a dia moderno, sentado em frente ao computador ou olhando para o celular, essa região tende a virar um bloco de concreto rígido e curvado para frente. Quando você joga esse “bloco” na água, a física cobra o preço.
Vou te explicar exatamente como destravar essa região pode ser o segredo para você nadar mais rápido, com menos esforço e, principalmente, sem dor. Esqueça a ideia de que você precisa apenas de “força no braço”. Natação é fluidez, e fluidez exige uma coluna que saiba dançar. Acomode-se aí (de preferência com a postura reta) e vamos mergulhar na biomecânica do seu nado.
O motor oculto: Por que sua coluna torácica dita seu ritmo
A armadilha do ombro sobrecarregado e a anatomia da escápula
Você precisa entender uma regra de ouro do corpo humano: o ombro é escravo da escápula, e a escápula é escrava da coluna torácica. A sua escápula (a “asa” nas costas) desliza sobre as costelas. Se a sua coluna torácica está rígida e curvada em cifose (a postura do corcunda), as costelas mudam de posição e a escápula fica travada, inclinada para frente.
Quando você tenta levantar o braço para dar a braçada no crawl com a escápula nessa posição travada, o espaço para os tendões do ombro passarem diminui drasticamente. O resultado é o impacto subacromial. Você acha que tem um problema no ombro porque é lá que dói, mas a causa raiz é que sua coluna torácica não estendeu o suficiente para permitir que a escápula saísse do caminho.
Sem uma boa extensão torácica, você obriga a articulação do ombro a trabalhar além do limite fisiológico dela. É como tentar abrir uma porta com a dobradiça enferrujada: você força a maçaneta até quebrar. Na natação, a “maçaneta” é o seu manguito rotador. Destravar a torácica é dar liberdade para o seu ombro funcionar sem atrito, prevenindo as tendinites que tiram tanta gente da piscina.
Rotação eficiente versus “nadar plano” (O conceito de Body Roll)
O crawl não é um nado de barriga para baixo; é um nado de lado para lado. Chamamos isso de Body Roll. A força da sua braçada não vem apenas do músculo do braço, ela vem da rotação do tronco, conectando o quadril ao ombro. Se sua coluna torácica não roda, você acaba nadando “plano”.
Nadar plano aumenta absurdamente a sua área de contato frontal com a água, o que gera mais arrasto. É como um barco largo tentando cortar as ondas versus uma lancha fina. Quando você tem mobilidade torácica, você consegue girar o tronco eixo a eixo, cortando a água com o ombro e diminuindo a resistência. Isso é hidrodinâmica pura aplicada à fisiologia.
Além disso, a falta de rotação obriga você a fazer força puramente muscular com os ombros para tirar o braço da água e jogá-lo lá na frente. Com uma boa rotação torácica, o próprio giro do corpo ajuda a impulsionar o braço na fase de recuperação, economizando uma energia preciosa que você vai precisar nos metros finais da prova.
A conexão cinemática: Coluna rígida, pernas afundadas
Pode parecer estranho, mas a rigidez lá nas suas costas afunda suas pernas. O corpo funciona em cadeias musculares. Quando a coluna torácica está rígida, geralmente ela bloqueia a extensão natural do corpo na água. Para compensar a falta de mobilidade em cima e conseguir olhar para frente ou respirar, você acaba arqueando a lombar ou levantando demais a cabeça.
Ao levantar a cabeça ou tencionar a lombar para compensar a torácica travada, o centro de gravidade muda. É uma gangorra: se a cabeça e o peito sobem (pela tensão, não pela flutuabilidade), o quadril e as pernas descem. Você vira um “paraquedas” dentro da água, arrastando as pernas.
Liberar a torácica permite que você mantenha a cabeça em posição neutra e o peito “apoiado” na água de forma natural. Isso alinha sua coluna inteira, fazendo com que o quadril suba à superfície. De repente, seu batimento de pernas se torna propulsivo, e não apenas uma tentativa desesperada de não afundar.
Diagnóstico no espelho: Como saber se você é um “bloco de concreto”
O teste da parede (Wall Angel modificado)
Vamos fazer um teste agora mesmo? Encoste as costas em uma parede. Mantenha os calcanhares a uns 10 cm do rodapé, mas encoste o bumbum, a parte superior das costas e a cabeça na parede. Agora, levante os braços na posição de “candilabo” (cotovelos a 90 graus na altura dos ombros) e tente encostar o dorso das mãos e os cotovelos na parede, sem desencostar a lombar.
Se você precisou arquear as costas (desencostar a lombar da parede) para fazer seus braços tocarem a parede, ou se seus braços nem chegaram lá, temos um problema de extensão torácica. Isso significa que, na água, quando você estica o braço lá na frente, sua coluna está lutando contra você.
Esse teste simples revela o encurtamento dos peitorais e a rigidez da coluna. Se você falhou, saiba que cada braçada que você dá é uma micro-agressão à sua articulação. Você está nadando com o freio de mão puxado.
Auto-avaliação de rotação sentado: O limite dos 45 graus
Agora, sente-se em uma cadeira ou no chão com as pernas cruzadas. É importante estar sentado para travar o quadril e garantir que o movimento venha só da coluna. Cruze os braços sobre o peito, segurando os ombros opostos. Tente girar o tronco para a direita e para a esquerda o máximo que conseguir, sem tirar o bumbum do chão.
O ideal para um nadador de crawl é conseguir pelo menos 45 a 50 graus de rotação para cada lado. Se você mal consegue passar dos 20 ou 30 graus, ou se sente que um lado vai muito mais que o outro, você encontrou uma assimetria importante.
Na piscina, essa assimetria faz você nadar torto. Se você roda bem para a direita mas trava para a esquerda, sua braçada esquerda será curta e ineficiente, e você provavelmente vai começar a ziguezaguear na raia sem perceber, nadando metros a mais do que o necessário.
Sinais na água: O esforço excessivo do pescoço para respirar
O último diagnóstico é sensorial, dentro da piscina. Preste atenção na sua respiração. Você sente que precisa fazer uma força enorme com o pescoço para tirar a boca da água? Você sente que, ao respirar, seu óculos sai quase todo para fora da água?
Se a resposta for sim, sua torácica não está rodando o suficiente. Quem respira é a rotação do corpo, a cabeça apenas acompanha o movimento. Se o tórax está travado, o pescoço tem que compensar girando excessivamente ou levantando.
Isso gera aquela dor cervical chata pós-treino e tensão no trapézio. Se você termina o treino com o pescoço duro, pare de culpar o travesseiro. A culpa é da sua coluna torácica que não está fazendo o trabalho dela de girar para te dar ar.
Soltando as amarras: Exercícios de mobilidade em terra firme
A arte de usar o Rolo de Liberação (Foam Roller) para extensão
O rolo de espuma (foam roller) deve ser o melhor amigo do nadador. Mas cuidado, não é para rolar a lombar! O foco é a torácica. Deite-se com o rolo posicionado no meio das costas, dobre os joelhos e apoie os pés no chão. Entrelace as mãos atrás da nuca para apoiar a cabeça (não puxe o pescoço).
Agora, em vez de apenas rolar para cima e para baixo, faça extensões. Mantenha o bumbum no chão e tente levar a cabeça e os ombros em direção ao solo, arqueando as costas sobre o rolo. Respire fundo nessa posição. Sinta o peito abrir e as vértebras se moverem.
Faça isso em três pontos diferentes da parte superior das costas: logo abaixo do pescoço, no meio das escápulas e na base das escápulas. Isso devolve a capacidade de extensão da sua coluna, revertendo a postura curvada do dia a dia e permitindo um alcance maior na braçada.
O exercício “Livro Aberto” e a dissociação de cinturas
Para ganhar rotação, o exercício do “Livro Aberto” (Open Book) é clássico e infalível. Deite-se de lado, com os joelhos dobrados e juntos (como se estivesse sentado numa cadeira imaginária de lado). Estique os dois braços para frente na altura dos ombros, palma com palma.
Abra o braço de cima, girando o tronco e olhando para a mão que se move, tentando encostar o dorso da mão no chão do outro lado. O segredo é não deixar os joelhos descolarem do chão. Isso trava o quadril e isola a rotação na torácica.
Faça esse movimento de forma dinâmica e respirada. Inspire parado, expire enquanto gira e abre o peito. Repita 10 a 15 vezes para cada lado antes de entrar na piscina. Você vai sentir uma liberdade imediata no ombro assim que começar a nadar.
Mobilidade ativa em quatro apoios (Gato-Vaca segmentado)
A posição de quatro apoios (gato-vaca) é ótima, mas vamos refiná-la para a natação. Em vez de mover a coluna inteira de uma vez, tente segmentar. Apoie as mãos e joelhos no chão. Tente manter a lombar parada e neutra, e mova apenas a parte superior das costas.
Empurre o chão, arredondando as costas (cifose) e separando as escápulas. Depois, deixe o peito afundar em direção ao chão, juntando as escápulas e estendendo a torácica, mas mantenha o abdômen contraído para não colapsar a lombar.
Isso ensina seu cérebro a dissociar: mexer a torácica sem depender da lombar. Esse controle motor é vital na água para manter o core estável enquanto os braços e o tronco superior trabalham.
O cotovelo alto e a mentira da flexibilidade do ombro
A biomecânica da fase aérea (recuperação) sem compensações
Todo nadador ouve o técnico gritar: “Cotovelo alto!”. Mas anatomicamente, manter o cotovelo alto durante a recuperação (quando o braço está fora da água) exige uma rotação interna do ombro combinada com abdução. Se sua coluna torácica estiver curvada (cifose), sua escápula já está rodada para frente.
Tentar subir o cotovelo nessa postura é biomecanicamente conflitante. O corpo trava. Para conseguir, você acaba fazendo uma compensação perigosa: ou joga o braço muito para o lado (nadando largo), ou força a articulação do ombro, pinçando o tendão do supraespinhal.
Quando você melhora a extensão torácica, sua escápula se posiciona mais atrás. Isso libera a articulação do ombro para realizar a recuperação com o cotovelo alto de forma natural e relaxada, sem aquela tensão excessiva no trapézio superior. O estilo fica bonito porque a anatomia está alinhada.
A fase de agarre (catch) e a necessidade de extensão torácica
O momento mais crítico da propulsão é o “catch” ou agarre lá na frente. Você quer esticar o braço o máximo possível para pegar água “limpa” e puxar. Se você é um “bloco de concreto”, seu alcance é limitado.
Muitos nadadores tentam ganhar esse alcance deslocando o ombro para frente ou girando excessivamente o corpo de forma descontrolada. Mas o alcance real e seguro vem da capacidade da torácica de estender e rodar. Uma coluna móvel permite que você alongue a lateral do tronco (o grande dorsal) e alcance centímetros preciosos à frente.
Lembre-se: natação é um jogo de polegadas. Se você ganha 5 centímetros por braçada apenas melhorando sua mobilidade, em uma piscina de 25 metros, isso significa chegar metros à frente do adversário (ou terminar o treino muito menos cansado).
Compensações cervicais: Quando o pescoço paga a conta do tórax
Já falamos da respiração, mas a tensão cervical afeta também a posição do corpo. Se a torácica é rígida, o pescoço fica em hiperextensão constante para você olhar para frente ou apenas manter a cabeça na superfície.
Essa tensão cervical crônica envia sinais neurológicos que aumentam o tônus dos músculos do ombro (trapézio e elevador da escápula). Músculos tensos não são fluidos. Eles gastam mais oxigênio e fadigam rápido.
Ao liberar a torácica, o pescoço relaxa. A cabeça pousa na água. A tensão desaparece. Você para de lutar contra a água e começa a deslizar através dela. A sensação de “nadar fácil” muitas vezes é apenas o resultado de tirar a tensão parasitária do pescoço.
Respiração, flutuabilidade e a caixa torácica
Expandindo costelas para aumentar o volume pulmonar
Sua coluna torácica é a base da sua caixa torácica. Costelas rígidas significam pulmões restritos. Se as articulações entre as costelas e a coluna não se movem bem, você não consegue expandir totalmente o peito para encher o pulmão de ar.
Na natação, onde você tem milésimos de segundo para pegar ar, a eficiência é tudo. Uma caixa torácica móvel (complacente) permite uma entrada de ar rápida e volumosa com menos esforço muscular. Você pega mais oxigênio gastando menos energia.
Além disso, pulmões cheios de ar são suas boias naturais. Maior volume pulmonar melhora sua flutuabilidade na parte da frente do corpo, o que ajuda a equilibrar o quadril e as pernas. Mobilidade torácica é, literalmente, fôlego.
O timing da respiração bilateral e a janela de rotação
A respiração bilateral (respirar dos dois lados) é essencial para manter a simetria muscular e a direção do nado. Porém, a maioria das pessoas tem um lado “cego” – um lado rígido onde respirar parece impossível.
Isso geralmente é uma restrição de rotação torácica para aquele lado específico. Se você não consegue rodar a coluna para a esquerda, você vai levantar a cabeça para respirar desse lado, ou vai evitar respirar desse lado completamente.
Trabalhar a mobilidade simétrica permite que você respire dentro da “cava” da onda criada pela sua cabeça (o bow wave), sem precisar levantar o pescoço. Você respira no tempo certo, sem perder o ritmo da braçada e sem desestabilizar o corpo.
Evitando o “cruzamento” da linha média e o zigue-zague
Quando falta mobilidade de rotação, o nadador tenta compensar jogando o braço que entra na água para o lado oposto, cruzando a linha média da cabeça. Isso acontece porque o corpo tenta achar equilíbrio instável.
Cruzar a linha média faz suas pernas “sambar” para o lado oposto (efeito tesoura) para compensar o desequilíbrio. Isso aumenta o arrasto absurdamente. É como dirigir um carro puxando o volante para esquerda e direita o tempo todo.
Com a torácica móvel, você consegue rodar o tronco mantendo o braço alinhado com o ombro (trilho do trem). O nado fica linear. Toda a força que você faz te empurra para frente, e não para os lados.
Terapias aplicadas e indicadas
Para encerrar nossa conversa, se você fez os testes e percebeu que está realmente “travado”, o trabalho de casa com rolinho e alongamentos é fundamental, mas às vezes precisamos de um “reset” profissional.
A Terapia Manual Ortopédica e a Osteopatia são ferramentas poderosas. Nós usamos manipulações articulares (“estalos”) de alta velocidade e baixa amplitude na coluna torácica para quebrar barreiras neurológicas de movimento e soltar as facetas articulares presas. A mobilização de costelas também ajuda muito na mecânica respiratória.
A Liberação Miofascial (manual ou instrumental) é indicada para soltar os músculos que travam essa região: peitorais (maior e menor), grande dorsal e intercostais. Muitas vezes, o peitoral menor encurtado é o grande vilão que puxa o ombro para frente e trava a coluna.
Em casos de pontos de tensão muito específicos (trigger points) nos músculos paravertebrais ou romboides, o Dry Needling (Agulhamento a Seco) pode trazer um alívio rápido da dor e restaurar a função muscular. O importante é não aceitar a rigidez como algo “normal da idade”. Seu corpo foi feito para se mover. Cuide da sua coluna e ela vai te levar mais longe na piscina. Bons treinos!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”