Menopausa e Performance: Como manter a densidade óssea através do exercício orientado

Menopausa e Performance: Como manter a densidade óssea através do exercício orientado

Você saiu do consultório médico com um papel na mão e uma nuvem na cabeça. O exame de densitometria óssea mostrou aquelas palavras que assustam qualquer mulher ativa: “osteopenia” ou, talvez, “osteoporose”. O conselho padrão muitas vezes é vago: “tome cuidado para não cair” e “faça caminhadas leves”. Como fisioterapeuta que acompanha mulheres incríveis nessa fase da vida, preciso te dizer algo com urgência: tratar seu corpo como se fosse de vidro é a pior estratégia possível agora.

A menopausa não é o fim da sua performance atlética, nem o momento de se recolher. Pelo contrário, é o momento de treinar com mais inteligência e, surpreendentemente, com mais carga. Existe um mito perigoso de que o osso, uma vez perdido, nunca mais volta. A ciência moderna e a prática clínica nos mostram que o osso é um tecido vivo, dinâmico e faminto por estímulo. Ele quer ser desafiado.

Vamos conversar francamente sobre o que está acontecendo dentro do seu esqueleto. Quero que você entenda a biologia, perca o medo do peso e descubra como transformar esse diagnóstico em um plano de ação. Esqueça a imagem da vovó na cadeira de balanço; vamos construir a imagem da mulher que carrega as próprias malas, brinca com os netos no chão e continua forte.

A Química do Osso: Por que seus hormônios mudaram o jogo?

Precisamos começar pelo básico que muitas vezes não te explicam direito. Seus ossos não são barras de concreto estáticas. Eles são um canteiro de obras constante, com duas equipes trabalhando 24 horas por dia: os osteoclastos (que demolem o osso velho) e os osteoblastos (que constroem osso novo). Durante a juventude, a equipe de construção é mais rápida que a de demolição.

O estrogênio, aquele hormônio que diminui na menopausa, funcionava como o “gerente” dessa obra. Ele mantinha a equipe de demolição sob controle e incentivava os construtores. Quando o estrogênio sai de cena, os osteoclastos (demolidores) fazem a festa e começam a trabalhar em ritmo acelerado, removendo cálcio mais rápido do que seu corpo consegue repor. É por isso que você perde densidade óssea tão rápido nos primeiros anos pós-menopausa.

Mas aqui entra a mágica da fisioterapia: existe outra forma de dar ordens aos construtores sem depender apenas do estrogênio. Chama-se Lei de Wolff. Essa lei da biologia diz que o osso se adapta às cargas que são colocadas sobre ele. Se você der um estímulo mecânico forte (peso e impacto), o osso entende que precisa ficar mais forte para sobreviver e “acorda” os osteoblastos. Osteopenia não é uma sentença final; é um aviso de que seu corpo precisa de um novo tipo de gerente: o exercício de carga.

Musculação Estratégica: Não é sobre ficar “bombada”, é sobre tração

Muitas pacientes chegam para mim com medo de pegar peso na academia. Elas acham que vão se machucar. A verdade é que o risco de fratura por fraqueza é muito maior do que o risco de lesão por levantar peso de forma orientada. Para o osso crescer, ele precisa sofrer deformação. Quando o músculo contrai com força, ele puxa o tendão, que puxa o osso. Essa tração é o sinal químico para depositar cálcio.

Um conceito vital aqui é a Carga Axial. Isso significa exercícios que colocam peso no sentido da gravidade, comprimindo a coluna e os quadris (os lugares que mais fraturam). Exercícios como agachamentos e leg press são fundamentais. Fazer exercícios sentada em máquinas isoladas é confortável, mas não gera essa compressão vertical que sua coluna precisa para se manter densa. Você precisa sentir que está sustentando a estrutura do seu corpo contra uma resistência real.

Outro ponto crucial é a intensidade. Aquele pesinho rosa de 1kg ou 2kg que você faz 50 repetições enquanto conversa? Ele serve para resistência muscular, mas faz muito pouco pelo seu osso. Para sinalizar o aumento de densidade óssea, precisamos de cargas que permitam entre 8 a 12 repetições difíceis. O osso precisa de um “susto”, de uma carga que ele não está acostumado a carregar no dia a dia. Se está fácil demais, seu osso não vê motivo para gastar energia ficando mais forte.

Além da compressão, foque nos movimentos de puxada, como remadas e puxadas altas. A coluna torácica (o meio das costas) é um local comum de microfraturas por achatamento. Fortalecer os músculos das costas que puxam as vértebras para trás e abrem o peito ajuda a proteger a integridade dos corpos vertebrais, evitando aquela postura curvada que muitas mulheres desenvolvem com a idade.

Impacto Inteligente: O segredo que a caminhada não te conta

Eu sei que seu médico recomendou caminhada. E caminhar é ótimo para o coração, para a mente e para lubrificar as articulações. Mas, sendo muito honesto com você: a caminhada é um estímulo muito fraco para a construção óssea. Seu corpo já está acostumado a caminhar há décadas. Para ganhar osso, precisamos de impacto ou vibração.

Isso acontece devido ao efeito piezoelétrico. Quando o osso recebe um impacto (como um pé batendo no chão com um pouco mais de força), ele gera uma pequena carga elétrica interna que atrai minerais como o cálcio e o magnésio para aquela matriz. Sem esse “choque” mecânico, o cálcio que você toma no suplemento pode não saber para onde ir.

Agora, calma. Eu não estou dizendo para você sair pulando de caixotes hoje. A introdução ao impacto deve ser progressiva. Começamos com o que chamo de “Dynamic Walking” — caminhada com passos firmes e vigorosos, batendo o pé com intenção. Depois, evoluímos para pequenos saltitos sem sair muito do chão, como pular corda imaginária.

O mito de que “quem tem osteopenia não pode pular” precisa ser desconstruído com cautela. Se você não tem fraturas ativas ou instabilidade grave, o impacto controlado é o remédio. Um exercício simples e poderoso é o “Heel Drop”: fique na ponta dos pés e deixe os calcanhares caírem no chão com um baque seco. Faça isso 20 vezes por dia. Esse pequeno impacto viaja pela tíbia e fêmur até o quadril, mandando o sinal de fortalecimento exatamente para onde precisamos.

Propriocepção e Equilíbrio: O Seguro Anti-Queda

Vamos falar do inimigo real. A osteoporose em si não dói e não mata. O que causa o problema grave é a fratura. E a fratura acontece, na maioria das vezes, porque houve uma queda. Por isso, na minha prática clínica, treino de equilíbrio é tão importante quanto levantar peso.

Com a menopausa e o envelhecimento, nosso sistema vestibular (que fica no ouvido e controla o equilíbrio) e nossos sensores nos pés ficam menos sensíveis. É como se o GPS do seu corpo ficasse com o sinal fraco. Você tropeça com mais facilidade e demora mais para reagir e evitar a queda. Precisamos recalibrar esse GPS diariamente.

Um tornozelo forte e móvel é sua primeira linha de defesa. Se você pisa num buraco e seu tornozelo é rígido, você cai em bloco. Se ele é móvel e forte, você corrige a pisada e segue em frente. Exercícios de ficar em um pé só (unipodal) enquanto escova os dentes ou lava a louça devem se tornar parte da sua rotina diária, não apenas do treino.

Para avançar, usamos o conceito de “Dupla Tarefa”. Na vida real, você não cai quando está concentrada em se equilibrar; você cai quando está andando, falando no celular e desviando de um cachorro. Treinar o equilíbrio enquanto você joga uma bola na parede ou faz contas de cabeça prepara seu cérebro para reagir automaticamente no caos do dia a dia, garantindo que, se um desequilíbrio acontecer, seu corpo saiba se recuperar antes de chegar ao chão.

A Pelve e o Core: A Fundação da Carga

Você deve estar pensando: “Ok, vou agachar e pular, mas e o meu xixi?”. Essa é uma preocupação real e muitas vezes silenciosa. A menopausa também afeta o colágeno e a força dos músculos do assoalho pélvico. Aumentar a carga e o impacto sem preparar essa base pode levar a escapes de urina ou prolapsos.

O “Core” aqui não é apenas ter um abdômen tanquinho. É saber gerenciar a Pressão Intra-abdominal. Quando você levanta um peso ou tosse, a pressão na barriga aumenta. Se você não souber ativar o abdômen profundo e o assoalho pélvico juntos, essa pressão empurra seus órgãos para baixo e sua coluna fica desprotegida.

Antes de colocar uma barra pesada nas costas, precisamos garantir que seu “cilindro” de estabilidade funciona. Isso envolve reaprender a respirar durante o esforço — soltar o ar e contrair o períneo quando faz a força. Isso protege sua bexiga e cria uma cinta natural que estabiliza a coluna lombar, permitindo que você transfira a força das pernas para o tronco sem se machucar.

A conexão entre os glúteos e o core é vital para a saúde do fêmur. O colo do fêmur é o local mais perigoso para fraturas. O glúteo médio (a lateral do bumbum) é o principal músculo que se insere nessa região. Manter esse músculo forte não é estética; é blindagem óssea. Exercícios como a “ostra” ou caminhadas laterais com elástico bombardeiam essa região com fluxo sanguíneo e estímulo mecânico, protegendo o ponto mais crítico do seu quadril.

Terapias complementares

Além do suor e do esforço, temos algumas tecnologias a nosso favor. A Plataforma Vibratória é um recurso excelente na fisioterapia para quem ainda não pode fazer alto impacto. A vibração mecânica de baixa amplitude imita o efeito do impacto, estimulando os ossos sem sobrecarregar as articulações. É um ótimo complemento para dias de recuperação ou fases iniciais.

A suplementação deve ser guiada por médico e nutricionista, mas lembre-se: o cálcio é o tijolo, a vitamina D é o caminhão de entrega, e o exercício é o pedreiro. Você pode ter tijolos sobrando no sangue (tomando suplemento), mas se não tiver o pedreiro (exercício) para colocar o tijolo na parede (osso), nada acontece.

Menopausa é apenas uma vírgula, não um ponto final. Com a estratégia certa de carga, impacto e equilíbrio, você não está apenas “mantendo” o que tem; você está construindo uma versão mais resiliente de si mesma. Confie no seu corpo, respeite o processo e lembre-se: osso forte é osso usado. Bom treino!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *