Se você corre, pedala ou pratica atividades de impacto, provavelmente já ouviu falar — ou pior, já sentiu na pele — aquela pontada chata na lateral do joelho. É uma dor que começa tímida, quase como um aviso, mas que pode te tirar dos treinos por semanas se for ignorada. Estamos falando da Síndrome do Trato Iliotibial (STI), popularmente conhecida como “Joelho de Corredor”.[1][2][3] E acredite, você não está sozinho nessa: é uma das queixas mais frequentes que recebo aqui no consultório.
Vamos conversar sobre isso de forma franca e direta, como se você estivesse aqui na minha mesa de atendimento agora. Quero que você entenda exatamente o que está acontecendo com o seu corpo, sem “mediquês” complicado, e, o mais importante, como vamos resolver isso juntos. O objetivo aqui não é só tirar a dor agora, mas garantir que você continue correndo por muitos anos.
Preparei um guia completo para desmistificar essa lesão. Vamos mergulhar na anatomia, entender os sinais que seu corpo dá e traçar um plano de ação real para sua recuperação. Pegue uma água, sente-se confortavelmente e vamos entender o que esse joelho está tentando te dizer.
O que é a Síndrome do Trato Iliotibial (ITBS)?
Entendendo a anatomia: A banda iliotibial
Para entender a dor, precisamos visualizar a estrutura. Imagine uma faixa grossa e fibrosa, muito parecida com um cinto de segurança resistente, que desce pela lateral da sua coxa. Esse é o trato iliotibial.[2][3][4][5][6] Ele começa lá em cima, na bacia (crista ilíaca), passa pelo quadril e desce até se fixar na tíbia, logo abaixo do joelho. Ele não é um músculo, mas sim uma fáscia espessa que trabalha em conjunto com músculos importantes como o glúteo máximo e o tensor da fáscia lata.[4]
A função principal dessa banda é estabilizar o seu joelho lateralmente.[3][4] Quando você está em pé apoiado em uma perna só — fase crucial da corrida —, é o trato iliotibial que ajuda a segurar a “barra”, impedindo que seu joelho colapse para dentro. É uma estrutura feita para aguentar tensão, mas ela não é elástica como um músculo. Pense nela como uma corda firme: ela transmite força, mas não gosta de ser esticada ou friccionada excessivamente.
O problema surge na anatomia funcional. Como essa faixa cruza a articulação do joelho, ela se move para frente e para trás sobre uma protuberância óssea do fêmur (o epicôndilo lateral) a cada passada.[2] É um movimento natural. Porém, quando existe tensão excessiva ou repetição exagerada sem o devido preparo, essa movimentação deixa de ser suave e passa a ser agressiva, gerando o processo inflamatório que causa a sua dor.[2]
Por que chamamos de “Joelho de Corredor”?
O apelido não é por acaso. Embora ciclistas, remadores e jogadores de futebol também sofram com isso, a corrida é o cenário perfeito para o desenvolvimento da síndrome. Isso acontece pela natureza cíclica e repetitiva do esporte.[7] Em uma corrida de 10 km, por exemplo, você flexiona e estende o joelho milhares de vezes. Se houver qualquer pequeno desajuste mecânico, esse “pequeno” problema é multiplicado por cada passo dado.
Na corrida, o momento crítico ocorre quando o pé toca o solo e o joelho está levemente flexionado, em cerca de 30 graus. É exatamente nesse ângulo que o trato iliotibial passa com maior pressão sobre o osso lateral do joelho. Corredores de longa distância, ou aqueles que aumentaram o volume de treino muito rápido, são os candidatos clássicos.[1][2] O corpo simplesmente não teve tempo de se adaptar à demanda imposta sobre essa estrutura.
Além disso, o termo “Joelho de Corredor” acaba sendo um guarda-chuva para várias dores no joelho, mas a STI é muito específica: a dor é lateral.[2] Se a sua dor for na frente (na patela) ou interna, provavelmente estamos falando de outra coisa. Por isso, diferenciar é crucial. O corredor tende a ter uma mentalidade de “no pain, no gain” (sem dor, sem ganho), mas, neste caso, insistir na dor é o caminho mais rápido para transformar um incômodo de dias em uma lesão de meses.
O mecanismo da lesão: Atrito e compressão
Durante muito tempo, acreditava-se que a dor vinha puramente do atrito da banda roçando no osso, como uma corda puindo em uma pedra. Hoje, a ciência nos mostra que é um pouco mais complexo e interessante que isso. Abaixo dessa banda, existe uma camada de tecido gorduroso e inervado, cheia de vasos sanguíneos. Quando o trato iliotibial está muito tenso, ele comprime essa gordura sensível contra o osso.
Essa compressão repetida irrita as terminações nervosas locais. Então, não é apenas uma questão de “fricção”, mas de “aperto”. Imagine usar uma calça jeans dois números menor e tentar fazer agachamentos o dia todo; a pele e os tecidos por baixo vão reclamar. É basicamente isso que acontece no seu joelho. A banda aperta as estruturas subjacentes a cada passo, gerando uma resposta inflamatória local.
Outro ponto importante é que a banda em si não inflama facilmente, pois é um tecido pouco vascularizado. A dor vem dos tecidos ao redor dela. Isso explica por que tomar anti-inflamatório às vezes só mascara o problema momentaneamente. Se não tirarmos a tensão mecânica que está causando a compressão — ou seja, se não “soltarmos o cinto” —, a dor vai voltar assim que o efeito do remédio passar.
Principais Sintomas e Sinais de Alerta
A dor lateral característica
O sintoma clássico é inconfundível: uma dor aguda, por vezes descrita como uma facada ou queimação, na parte externa do joelho. Geralmente, ela se localiza um pouco acima da linha da articulação. Você consegue apontar exatamente onde dói com um dedo. Diferente de dores musculares difusas que espalham pela coxa, a dor da STI é pontual e teimosa.
Muitos pacientes relatam que a dor irradia um pouco para cima, pela lateral da coxa, ou para baixo, em direção à canela. No entanto, o epicentro é sempre ali, na lateral do joelho. Tocar nessa região costuma ser bastante desconfortável, especialmente se você acabou de treinar. Se a dor for generalizada ou mudar de lugar, precisamos investigar outras causas, mas a precisão local é a marca registrada dessa síndrome.
É interessante notar que, em repouso absoluto, com a perna esticada, muitas vezes não há dor. O incômodo é “dependente de movimento”. Isso engana o corredor. Você acorda bem, acha que está curado, calça o tênis e sai. Nos primeiros quilômetros tudo parece ótimo, mas de repente a dor volta com força total, obrigando você a parar ou mancar para voltar para casa.
Sensações durante o movimento
Além da dor, você pode sentir estalos ou uma sensação de crepitação na lateral do joelho ao dobrar e esticar a perna. É como se houvesse uma corda de violão estourando ou pulando sobre um obstáculo ósseo. Essa sensação tátil (e às vezes audível) é a banda iliotibial passando abruptamente sobre o epicôndilo femoral devido à alta tensão.
Em casos mais agudos, pode haver um leve inchaço local, embora não seja tão comum ver aquele joelho “bola” cheio de líquido como em lesões de menisco ou ligamento. O inchaço aqui é mais sutil, localizado apenas sobre a área de atrito. A pele pode ficar um pouco mais quente e vermelha, sinalizando a inflamação ativa nos tecidos comprimidos abaixo da banda.
A rigidez matinal ou logo após ficar muito tempo sentado também é comum. Quando você se levanta da cadeira do escritório depois de horas, sente aquela fisgada lateral ou a necessidade de “soltar” a perna antes de caminhar normalmente. Isso acontece porque a fáscia tende a enrijecer quando fica imóvel na posição encurtada (joelho flexionado a 90 graus na cadeira).
Quando a dor aparece: O ciclo da atividade
A cronologia da dor na Síndrome do Trato Iliotibial é traiçoeira. No início do problema, a dor aparece apenas no final dos treinos longos. Você termina seus 10k e sente um incômodo leve. No dia seguinte, está tudo bem. Com o tempo, essa janela diminui. A dor começa a aparecer no km 5, depois no km 3, até que começa a doer logo no aquecimento.
Um padrão muito relatado é a piora em descidas ou ao correr em superfícies inclinadas (como a beira da praia ou estradas abauladas). Na descida, o joelho passa mais tempo naquele ângulo crítico de 30 graus de flexão e o músculo precisa trabalhar mais para frear o movimento, aumentando a tensão na banda. Correr em pistas circulares sempre no mesmo sentido também sobrecarrega mais uma perna que a outra, acelerando o processo.
Se você ignora esses sinais e continua treinando “na raça”, a dor passa a estar presente em atividades cotidianas, como descer escadas ou simplesmente caminhar rápido para pegar um ônibus. Esse é o sinal vermelho do seu corpo gritando que a compensação acabou e a lesão se instalou. O ideal é intervir antes de chegar nesse ponto de dor diária.
Causas e Fatores de Risco (Biomecânica aprofundada)
Erros de treinamento e sobrecarga[2][3][6]
Se eu tivesse que apostar na causa número um da sua dor, apostaria no “terrible too”: too much, too soon (muito volume, muito cedo). O entusiasmo é o maior inimigo do corredor iniciante — e do experiente que volta de férias. Aumentar a quilometragem semanal abruptamente ou introduzir treinos de tiro e subidas sem base muscular adequada é pedir para se lesionar.
O tecido do trato iliotibial precisa de tempo para se adaptar às cargas. Quando você dobra a distância do treino de uma semana para outra, seus músculos fadigam. Músculos fadigados deixam de absorver o impacto e estabilizar as articulações. Quem sobra para segurar o tranco? As estruturas passivas, como tendões, ligamentos e a fáscia iliotibial. Elas ficam sobrecarregadas e inflamam.[3][6]
Outro erro comum é a falta de variação no terreno. Correr sempre no asfalto duro, ou sempre na esteira com a mesma mecânica repetitiva, não dá descanso às estruturas. O corpo humano adora variabilidade. Mudar o estímulo, o piso e a intensidade ajuda a distribuir as cargas de forma mais inteligente, evitando que o mesmo ponto (a lateral do joelho) seja martelado incessantemente.
Desequilíbrios musculares: O papel do glúteo médio
Aqui está o segredo que muda o tratamento: a culpa geralmente não é do joelho, mas do quadril. O músculo glúteo médio, localizado na lateral do bumbum, é o principal estabilizador da pelve. Se ele está fraco ou “dormindo” (inibido), quando você pisa no chão, sua bacia cai para o lado oposto. Isso força o fêmur a rodar para dentro e o joelho a entrar (valgo dinâmico).
Esse colapso do joelho para dentro estica a banda iliotibial como uma corda de arco. Quanto mais seu joelho cai para dentro, mais a banda é tensionada e comprimida contra o osso. É uma questão física simples. Portanto, tratar o joelho sem fortalecer o quadril é enxugar gelo. Você pode fazer todo o gelo e massagem do mundo no joelho, mas se o quadril continuar instável, a tensão voltará na primeira corrida.
Muitos corredores têm quadríceps fortes, mas glúteos fracos. Passamos o dia sentados em cima dos glúteos, o que gera uma “amnésia glútea”. O cérebro esquece como recrutar esse músculo eficientemente durante a corrida. Reativar essa musculatura é, muitas vezes, a chave mágica para aliviar a tensão lá embaixo, no joelho.
Pisada e alinhamento: Pronação e rotação interna
A forma como seu pé toca o solo também influencia a cadeia ascendente. Uma pronação excessiva (quando o pé “desaba” para dentro) gera uma rotação interna da tíbia.[8] Como o trato iliotibial se fixa na tíbia, essa rotação torce a banda, aumentando o atrito lá em cima no joelho. É um efeito dominó: o pé cai, a canela roda, o joelho entra e a banda sofre.
No entanto, cuidado com diagnósticos simplistas de “você precisa de tênis para pronador”. Nem toda pronação é ruim; ela é necessária para amortecer o impacto. O problema é quando ela é excessiva ou não controlada pela musculatura. Às vezes, o problema não é o pé em si, mas a falta de controle motor que vem do quadril, como vimos acima.
Fatores anatômicos imutáveis, como ter pernas arqueadas (joelho varo) ou uma diferença no comprimento das pernas (dismetria), também podem predispor à síndrome. Nesses casos, a banda já vive sob tensão natural maior. Se você tem essa anatomia, precisa ser ainda mais rigoroso com o fortalecimento e o controle de carga nos treinos para compensar essa desvantagem estrutural.
Diagnóstico: Como saber se tenho ITBS?
Avaliação clínica e testes físicos[2][3][6]
O diagnóstico da Síndrome do Trato Iliotibial é eminentemente clínico. Isso significa que uma boa conversa e um exame físico bem feito valem mais que muitas ressonâncias. No consultório, costumo usar dois testes principais para confirmar a suspeita: o Teste de Ober e o Teste de Noble. Eles são simples, mas reveladores.
No Teste de Ober, peço para você deitar de lado. Eu estendo sua perna para trás e a solto suavemente para ver se o joelho desce em direção à maca. Se a perna ficar “flutuando” no ar e não descer, é sinal de que o trato iliotibial está encurtado e tenso.[3] Já o Teste de Noble envolve flexionar e estender seu joelho enquanto eu aplico pressão no local da dor. Se reproduzir a “pontada” familiar aos 30 graus de flexão, bingo: temos um forte indicativo de ITBS.
Também avalio sua força muscular, pedindo para você fazer agachamentos unipodais (numa perna só). Se eu vir seu joelho tremendo e caindo para dentro, já sei que os estabilizadores do quadril não estão fazendo o trabalho deles. Essa análise do movimento é fundamental para entender a causa raiz, e não apenas onde dói.
O papel dos exames de imagem
Você pode se perguntar: “Mas não preciso de um raio-X ou ressonância?”. Na maioria das vezes, para iniciar o tratamento, não. O raio-X serve apenas para descartar problemas ossos, como fraturas ou artrose, mas não mostra tecidos moles como a banda iliotibial. A ressonância magnética pode ajudar em casos duvidosos ou crônicos, mostrando o espessamento da banda ou líquido inflamatório ao redor dela.[2]
Contudo, muitas vezes a ressonância vem “limpa” ou com alterações mínimas, mesmo com você sentindo muita dor. Isso acontece porque a dor é funcional e dinâmica. O exame é uma foto estática, e seu problema acontece no filme da corrida. Por isso, não se frustre se o médico disser que seu exame está normal. A dor é real, e o diagnóstico clínico soberano.
Os exames são mais úteis para excluir outras coisas graves. Se houver suspeita de lesão no menisco lateral, por exemplo, a ressonância é mandatória.[2][3] Mas se a história clínica for clássica de corredor com dor lateral progressiva, geralmente pulamos direto para a reabilitação, economizando seu tempo e dinheiro.
Diferenciando de outras lesões do joelho
O joelho é uma encruzilhada complexa. Nem toda dor lateral é trato iliotibial. Precisamos diferenciar, por exemplo, de uma tendinite do poplíteo, uma lesão do menisco lateral ou até de dores referidas da coluna lombar. Uma dor no menisco costuma dar sensação de travamento mecânico e dor na linha articular profunda, enquanto a ITBS é mais superficial.
Outra confusão comum é com a dor femoropatelar (condromalácia), mas esta costuma ser na frente do joelho, “atrás da patela”. A síndrome do bíceps femoral (um dos isquiotibiais) também causa dor lateral, mas geralmente mais para trás e relacionada à flexão do joelho com carga ou velocidade (sprints).
A precisão aqui é vital porque o tratamento muda. Alongar excessivamente uma dor que na verdade é meniscal pode piorar o quadro. Por isso, evite o autodiagnóstico pelo Google e a automedicação. Um profissional consegue fazer essa distinção em minutos com testes provocativos específicos, garantindo que você trate o problema certo.
Tratamento e Reabilitação (Aprofundado)
Fase aguda: Controle da dor e inflamação
Acabou de doer? Pare. A regra número um na fase aguda é cessar a atividade que causa a dor. Não tente “correr através da dor”. Isso só vai aumentar a inflamação. Nos primeiros dias, o objetivo é acalmar o tecido. Gelo é seu melhor amigo aqui: aplique compressas de gelo na lateral do joelho por 20 minutos, a cada 3 ou 4 horas. Isso ajuda a reduzir a velocidade de condução nervosa da dor e controla o edema local.
Medicações anti-inflamatórias podem ser prescritas por um médico por um curto período (3 a 5 dias) para quebrar o ciclo da dor aguda, permitindo que você inicie a fisioterapia com mais conforto. Mas lembre-se: o remédio não cura a causa mecânica. Ele apenas desliga o alarme de incêndio enquanto o fogo ainda está queimando.
Nesta fase, o repouso relativo é necessário.[5] Digo “relativo” porque você não precisa ficar deitado no sofá. Você pode e deve se manter ativo com atividades que não irritem o joelho, como natação (usando flutuador nas pernas) ou fortalecimento de tronco e membros superiores. O importante é não provocar a fricção lateral no joelho.
Liberação miofascial e terapias manuais[4]
Assim que a dor aguda cede um pouco, entramos com a “mão na massa”. A liberação miofascial é fantástica para soltar a tensão. Mas atenção: não se deve massacrar o local da dor no joelho! A inflamação está ali, e apertar vai doer mais. O foco da liberação é no músculo tensor da fáscia lata (no quadril), no glúteo e na musculatura lateral da coxa (vasto lateral).
Usamos rolos de espuma (foam rollers) ou técnicas manuais profundas para soltar esses tecidos. Quando relaxamos o músculo lá em cima no quadril, a tensão na banda iliotibial lá embaixo no joelho diminui automaticamente, como se soltássemos a corda de um violão. É um alívio quase imediato da sensação de repuxamento.
O uso do rolo em casa deve ser feito com cuidado. Rolar diretamente sobre a banda iliotibial na lateral da coxa dói absurdamente e, segundo estudos recentes, pode não ser tão efetivo, já que a banda é muito rígida. O segredo é focar nos músculos que se conectam a ela, na frente e atrás da lateral da coxa. A ideia é hidratar o tecido e melhorar o deslizamento entre as camadas musculares.
Fortalecimento estratégico e correção biomecânica
Aqui é onde a cura real acontece. Precisamos transformar seu quadril em uma rocha. O foco total é no complexo póstero-lateral: glúteo médio, glúteo máximo e rotadores externos. Exercícios como “Ostra” (Clam Shell), abdução de quadril deitado, passadas laterais com elástico (Mini band) e a ponte unilateral são essenciais.
Não basta fazer o exercício; tem que fazer certo. A qualidade do movimento importa mais que a carga. Você precisa sentir o glúteo “queimar”, e não a coxa ou a lombar. À medida que você ganha força, evoluímos para exercícios em pé, funcionais, que imitam a demanda da corrida, como agachamentos unipodais controlados em frente ao espelho, garantindo que o joelho não caia para dentro.
A correção biomecânica também pode envolver reeducação da corrida. Muitas vezes, aumentamos um pouco a cadência (número de passos por minuto) do corredor. Passos mais curtos e rápidos diminuem a carga em cada aterrissagem e evitam que o joelho estenda demais, reduzindo o ângulo de atrito crítico. É uma mudança sutil na técnica que gera um alívio enorme na estrutura.
O Retorno Seguro à Corrida
Critérios para voltar a treinar
A pergunta de um milhão de dólares: “Quando posso voltar a correr?”. A resposta é baseada em testes, não em datas. Você deve ser capaz de realizar um agachamento unipodal sem dor e com bom controle. O toque na lateral do joelho não deve ser doloroso. E, principalmente, você deve ter passado pelo menos uma semana sem dor nas atividades do dia a dia (escadas, caminhadas).
O retorno deve ser gradual. Esqueça a quilometragem que você fazia antes. Começamos com protocolos de caminhada-corrida. Por exemplo: caminhe 5 minutos, corra 1 minuto leve, repita 5 vezes. Se não houver dor no dia seguinte, aumentamos os minutos de corrida progressivamente. A regra de ouro é: a dor nunca pode ultrapassar o nível 3 (numa escala de 0 a 10) durante ou após o exercício. Se doer 4 ou 5, você deu um passo maior que a perna; recue.
Monitorar a dor nas 24 horas seguintes é crucial. Às vezes, o joelho não dói na hora, mas amanhece rígido e dolorido. Isso é sinal de que a carga foi excessiva. O retorno é um jogo de paciência e escuta corporal. Respeite o processo para não cair no ciclo de recaídas (o famoso “efeito ioiô” da lesão).
Ajuste de cadência e técnica de corrida
Como mencionei antes, a cadência é uma ferramenta poderosa. Corredores com cadência baixa (passadas longas e lentas) tendem a aterrissar com o calcanhar muito à frente do corpo (overstriding). Isso gera uma força de frenagem enorme que o joelho tem que absorver. Aumentar a cadência em 5% a 10% ajuda a trazer o pé para baixo do centro de gravidade.
Isso reduz a oscilação vertical (o quanto você salta para cima e para baixo) e diminui a carga acumulada no trato iliotibial. Você pode usar um metrônomo ou playlists de música com BPM (batidas por minuto) específicos para treinar esse novo ritmo. No começo parece estranho, como se estivesse correndo “curtinho”, mas logo se torna natural e muito mais eficiente.
Outro ponto técnico é evitar cruzar a linha média. Imagine uma linha desenhada no chão no centro do seu corpo. Seus pés não devem cruzar essa linha ao correr (como uma modelo na passarela). Eles devem correr em linhas paralelas. “Cruzar as pernas” ao correr aumenta drasticamente a tensão lateral. Corrigir isso exige consciência e, às vezes, treinos educativos de corrida.
A importância do volume progressivo
A regra dos 10% é um clássico por um motivo: funciona. Nunca aumente seu volume semanal de corrida mais do que 10%. Se você correu 20km esta semana, na próxima o teto é 22km. O tecido conjuntivo da banda iliotibial se adapta mais lentamente que o músculo. Dê tempo para ele se fortalecer.
Intercale dias de corrida com dias de descanso ou cross-training. Correr dois dias seguidos pode ser demais no início do retorno. Um dia de estresse deve ser seguido por um dia de recuperação ou estímulo diferente. Isso permite que a microinflamação natural do treino seja reparada antes de virar uma lesão crônica.
Mantenha um diário de treino. Anote não só a distância, mas como se sentiu. “3km, leve desconforto no final”, “4km, sem dor”. Isso ajuda você e seu fisioterapeuta a ajustarem a carga com precisão cirúrgica, evitando surpresas desagradáveis.
Estratégias de Prevenção a Longo Prazo
Rotina de aquecimento e ativação pré-treino
Chegar no parque e sair correndo frio é um erro. Seu corpo precisa de um aviso prévio. Adote uma rotina de 5 a 10 minutos de ativação antes de correr. E não estou falando de alongamento estático (ficar parado puxando o pé atrás), que pode até diminuir a performance. Falo de aquecimento dinâmico.
Faça movimentos que imitem a corrida: elevação de joelhos, deslocamentos laterais, e principalmente, ativação de glúteos. Faça uma série de 15 agachamentos ou pontes no chão antes de sair de casa. “Acordar” o glúteo médio antes de começar a correr garante que ele estará pronto para estabilizar sua pélvis desde o primeiro passo, protegendo seu trato iliotibial.
Escolha do tênis e terreno adequados
O tênis perfeito é aquele que é confortável para você. Não existe uma marca mágica. No entanto, troque seus tênis regularmente (geralmente entre 500km a 800km de uso). Um tênis com amortecimento vencido perde a capacidade de estabilização e absorção de impacto, jogando essa responsabilidade para as suas articulações.
Quanto ao terreno, varie. Se puder, corra em trilhas de terra batida ou grama ocasionalmente; são superfícies mais macias e irregulares que treinam a propriocepção (equilíbrio) do seu tornozelo e joelho de forma natural. Evite correr sempre no lado inclinado da rua (o abaulamento para escoar água da chuva), pois isso cria uma perna “curta” e uma “longa” artificialmente, desequilibrando a bacia.
Cross-training: O benefício de variar o estímulo
Para ser um corredor melhor, não corra apenas. Pratique outras atividades. Ciclismo, natação, musculação ou Pilates são excelentes complementos. Eles fortalecem grupos musculares que a corrida negligencia e dão um descanso para as estruturas de impacto.
O fortalecimento muscular, especificamente, não é opcional para quem quer correr longas distâncias sem dor. Encare a musculação como parte do seu treino de corrida, tão importante quanto o longão de domingo. Um corpo forte é uma armadura contra lesões.
Terapias e Abordagens Específicas
Para finalizar nossa conversa, quero deixar claro quais são as ferramentas terapêuticas que nós, fisioterapeutas, utilizamos com mais sucesso para tratar o “Joelho de Corredor”:
- Liberação Miofascial Instrumental ou Manual: Usamos lâminas ou as mãos para “pentear” as fibras musculares da coxa e quadril, melhorando a mobilidade e reduzindo a tensão que puxa o joelho.
- Dry Needling (Agulhamento a Seco): Uma técnica excelente para desativar “pontos-gatilho” (nós de tensão) no músculo tensor da fáscia lata e glúteos. O alívio da tensão muscular reflexa costuma ser rápido.
- Fortalecimento de Glúteo Médio: A base de tudo. Exercícios com mini-bands (elásticos circulares) são obrigatórios para devolver a estabilidade pélvica.
- Laserterapia e Ultrassom: Na fase muito aguda e dolorosa, podem ajudar a modular a inflamação local e acelerar o processo de reparo tecidual, embora não substituam os exercícios.
- Reeducação do Gesto Esportivo: Análise da sua corrida em vídeo (biofeedback) para corrigir erros de pisada e postura em tempo real.
Cuidar do seu corpo é o melhor investimento para sua longevidade no esporte. A Síndrome do Trato Iliotibial é dolorosa e chata, mas totalmente tratável com paciência e a estratégia certa. Escute seu corpo, fortaleça seus quadris e boas corridas!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”