Seja bem-vindo ao meu consultório virtual. Hoje vamos conversar sobre um item que muitos atletas tratam apenas como um pedaço de borracha, mas que eu considero uma das peças mais importantes do seu equipamento de proteção. Ajustar um protetor bucal vai muito além de mergulhar o plástico na água quente e morder com força. Envolve biomecânica, proteção articular e até mesmo a preservação da sua coluna cervical.
Você já parou para pensar que a forma como você morde define a estabilidade do seu pescoço? Quando recebo pacientes aqui na clínica com dores crônicas após treinos de luta ou esportes de contato, muitas vezes a origem do problema não está no ombro ou nas costas. O problema começa na boca. Um protetor mal ajustado obriga sua mandíbula a ficar em uma posição antinatural. Isso gera tensão muscular, fadiga precoce e deixa seu cérebro em estado de alerta constante.
Neste guia, vou te ensinar a ajustar seu protetor bucal com o olhar de quem entende de anatomia e movimento. Vamos transformar esse processo em algo técnico e preciso. Esqueça a pressa. Quero que você entenda o que está fazendo para garantir não apenas a integridade dos seus dentes, mas a saúde da sua articulação temporomandibular (ATM). Vamos colocar a mão na massa juntos.
A biomecânica da sua mandíbula e a proteção
Entendendo a Articulação Temporomandibular (ATM) no impacto
A ATM é uma das articulações mais complexas do seu corpo. Ela conecta a mandíbula ao crânio e precisa de uma harmonia perfeita para funcionar bem. Quando você recebe um impacto no rosto ou cai de mau jeito, a força se dissipa através dessa articulação. Se o seu protetor bucal não estiver perfeitamente moldado, não haverá amortecimento eficiente. O disco articular que fica dentro da ATM pode sofrer compressões excessivas. Isso leva a inflamações agudas e dores que irradiam para o ouvido e cabeça.
Um protetor bem ajustado funciona como um “calço” de segurança. Ele mantém um espaço articular mínimo necessário para que o côndilo da mandíbula não se choque violentamente contra a base do crânio. Na fisioterapia, vemos muitos casos de concussão cerebral que poderiam ter sido amenizados se a mandíbula estivesse estabilizada corretamente. O protetor absorve a energia cinética e a distribui uniformemente por toda a arcada dentária. Sem esse ajuste fino, a força se concentra em um único ponto, aumentando o risco de fraturas ósseas e dentárias.
Você precisa visualizar seu protetor como parte do seu esqueleto durante o esporte. Ele não é um corpo estranho. Ele deve ser uma extensão dos seus dentes maxilares. Se ele fica sambando na boca, sua musculatura mastigatória ficará tensa na tentativa de segurá-lo no lugar. Essa tensão isométrica constante fadiga os músculos masseter e temporal antes mesmo da luta começar. O ajuste correto permite que essa musculatura relaxe e reaja apenas quando necessário.
A conexão entre a mordida e a coluna cervical
A relação entre sua boca e seu pescoço é íntima e direta. Existe uma conexão neurológica e mecânica entre os músculos que abrem e fecham a boca e os músculos que sustentam sua cabeça. Faça um teste agora mesmo. Cerre os dentes com força e perceba como os músculos da sua nuca enrijecem imediatamente. Se o seu protetor bucal for grosso demais de um lado ou tiver uma superfície irregular, ele criará um desequilíbrio nessa cadeia muscular.
Isso significa que um protetor torto pode causar torcicolos ou dores na região dos ombros. Quando ajustamos o protetor, buscamos o que chamamos de oclusão equilibrada. Queremos que, ao morder, o contato seja simultâneo em todos os dentes posteriores. Se você morde e sente que encosta primeiro do lado direito, seu pescoço terá que compensar essa diferença inclinando-se ou girando levemente. A longo prazo, isso gera desgastes nas vértebras cervicais e pode pinçar nervos importantes.
Eu sempre avalio a mobilidade cervical dos meus pacientes atletas. É impressionante como a correção do ajuste do protetor bucal melhora a amplitude de movimento do pescoço instantaneamente. Você ganha mais liberdade para olhar para os lados e esquiva-se melhor. Um equipamento ajustado com precisão fisioterapêutica libera sua cervical para fazer o trabalho dela, que é orientar sua cabeça no espaço e proteger sua medula, sem sobrecargas desnecessárias vindas de uma mordida cruzada ou instável.
Diferenças cruciais entre protetores personalizados e termomoldáveis
Existem basicamente dois mundos quando falamos de protetores: os feitos em consultório odontológico e os termomoldáveis de loja (“boil and bite”). O personalizado é o padrão ouro. Ele é feito a partir de um molde de gesso da sua boca e se encaixa com precisão milimétrica. Como fisioterapeuta, indico fortemente esse modelo para atletas de alto rendimento. Ele respeita cada curva da sua anatomia e interfere minimamente na respiração e na fala.
No entanto, sei que a realidade da maioria começa com os protetores termomoldáveis. Eles são feitos de um material chamado EVA (Etileno Acetato de Vinila), que amolece com o calor. O problema é que eles vêm em um tamanho genérico. Se você tem uma arcada menor ou o palato mais ogival (fundo), o ajuste pode ser desafiador. A qualidade do material também varia muito. Protetores muito baratos deformam rápido e perdem a capacidade de absorção de impacto após poucos usos.
O segredo para quem usa o termomoldável é a paciência no processo de moldagem. Você consegue chegar num resultado muito próximo do profissional se seguir os passos corretos de aquecimento e sucção. O erro comum é comprar o protetor e usá-lo direto da caixa ou aquecê-lo de qualquer jeito. Um protetor termomoldável mal adaptado é perigoso. Ele dá uma falsa sensação de segurança, mas pode se deslocar na hora do impacto e obstruir sua via aérea. Vamos focar em como deixar esse modelo comercial o mais seguro e anatômico possível.
Preparando o ambiente para a moldagem perfeita
Selecionando o material e o tamanho correto para sua arcada
Antes de ligar o fogão, olhe para o produto que você tem em mãos. Protetores vêm geralmente em tamanhos adulto e infantil. A linha de corte costuma ser os 11 ou 12 anos, mas isso depende do tamanho da sua estrutura óssea. Se você é um adulto com arcada pequena, pode ser que um modelo juvenil se adapte melhor e precise de menos recortes. Verifique também a densidade. Protetores de camada dupla (gel por dentro e borracha dura por fora) oferecem melhor moldagem e proteção.
Coloque o protetor na boca ainda frio para testar o tamanho. Ele deve cobrir até o último dente molar. Se ele for muito comprido e encostar na parte mole lá no fundo do céu da boca, vai te dar ânsia de vômito. Se isso acontecer, você precisará cortar as pontas posteriores com uma tesoura pequena. Corte aos poucos. É melhor cortar um milímetro de cada vez e testar novamente do que tirar demais e deixar os dentes do fundo desprotegidos.
Observe a altura das bordas laterais. Se a borda for muito alta, ela vai machucar sua gengiva e o freio labial (aquelas peles que prendem o lábio na gengiva). O protetor deve abraçar os dentes e apenas uma pequena parte da gengiva para ter retenção. Se estiver subindo muito em direção ao nariz, você também precisará aparar a altura. Esse teste a frio é fundamental para mapear onde o material sobra e onde ele falta.
O kit de preparação e a higiene prévia
A organização é chave para não estragar o material. Você vai precisar de dois recipientes fundos. Um para a água fervente e outro para água gelada (com gelo mesmo). Tenha também uma colher ou pinça para manipular o protetor quente sem se queimar, um relógio ou cronômetro do celular e uma toalha limpa. Não tente fazer isso “de olho”. O tempo cronometrado faz a diferença entre um protetor derretido inutilizável e um perfeitamente moldável.
A higiene da sua boca é um passo que muitos ignoram. Escove os dentes e passe fio dental antes de iniciar o processo. Se houver restos de comida entre os dentes, o protetor vai moldar com essas imperfeições. Além disso, você não quer que bactérias fiquem presas no material microporoso durante o aquecimento. O ambiente da boca é cheio de microrganismos. Começar com a boca limpa garante que seu protetor não vire uma colônia de fungos logo no primeiro dia.
Lave também o protetor novo com sabão neutro e água corrente antes de aquecê-lo. Ele vem da fábrica com resíduos de produção e pó. Queremos o material puro em contato com a água quente. Prepare o ambiente em uma mesa onde você possa sentar confortavelmente. Você precisará de concentração e espelho. Fazer isso em pé na pia da cozinha, com pressa, geralmente resulta em um ajuste medíocre. Sente-se, respire e prepare-se para o procedimento.
A importância da respiração nasal antes de começar
Pode parecer estranho uma fisioterapeuta falar sobre respiração antes de moldar um plástico, mas isso é vital. Durante a moldagem, você ficará com a boca ocupada e precisará respirar exclusivamente pelo nariz. Se você estiver com o nariz entupido ou tiver desvio de septo severo, use um descongestionante ou faça uma lavagem nasal antes. Você precisa estar calmo. A ansiedade faz a gente respirar pela boca, e se você abrir a boca durante a moldagem, o protetor cai e deforma.
Treine a respiração diafragmática. Inspire fundo pelo nariz, enchendo a barriga, e solte devagar. Isso ajuda a controlar o reflexo de vômito. Muitas pessoas têm sensibilidade no palato. Respirar fundo e calmamente pelo nariz inibe esse reflexo nauseoso. Se você ficar ofegante, a tendência é movimentar a língua, e a língua é a principal ferramenta para moldar o protetor por dentro.
Garanta que suas vias aéreas superiores estejam livres. Se você tem rinite alérgica atacada no dia, talvez seja melhor esperar um dia melhor para fazer a moldagem. O processo exige que você fique com os dentes cerrados e fazendo sucção por cerca de dois a três minutos. Sem uma boa via nasal, você entrará em hipóxia leve, ficará desesperado para abrir a boca e estragará o molde. A calma e a respiração são seus melhores aliados aqui.
O processo térmico: A ciência do calor
Atingindo a temperatura ideal da água
A temperatura da água dita a viscosidade do EVA. Se a água estiver fria demais, o protetor não amolece o suficiente para copiar os detalhes dos seus dentes. Se estiver fervendo loucamente, o protetor pode derreter e virar uma gosma irreconhecível. A maioria dos fabricantes recomenda ferver a água e esperar cerca de 30 a 60 segundos antes de colocar o protetor. Isso deixa a água em torno de 80°C a 90°C.
Leia as instruções da caixa do seu modelo específico. Alguns materiais mais modernos e com gel exigem temperaturas mais baixas para não descolar as camadas. Se não houver instrução, a regra de ouro é: ferva a água, desligue o fogo e conte até 30 pausadamente. A água deve estar muito quente, soltando vapor, mas sem as bolhas de ebulição ativa que agitam o protetor dentro da panela e podem deformá-lo fisicamente.
Use água suficiente para cobrir totalmente o protetor, mas não precisa encher um caldeirão. O protetor deve flutuar livremente sem encostar nas paredes do recipiente, pois o metal ou vidro do pote pode estar mais quente que a água e grudar no plástico. A uniformidade térmica é essencial. Queremos que todo o corpo do protetor atinja o ponto de transição vítrea ao mesmo tempo.
O tempo de imersão correto
O tempo de imersão é a variável mais crítica. É aqui que a maioria das pessoas erra. Segundos a mais ou a menos mudam tudo. Use o cronômetro. Geralmente, o tempo varia entre 30 a 90 segundos, dependendo da espessura do material. Observe visualmente: o protetor vai começar a amolecer e as paredes laterais podem começar a curvar levemente para dentro. Esse é o sinal de que o plástico está relaxando suas cadeias poliméricas.
Não confie apenas na sua intuição. Se o fabricante diz 45 segundos, respeite os 45 segundos. Se você tirar antes, ele vai parecer chiclete duro e não vai copiar a anatomia da gengiva. Você terá que morder com muita força, o que pode perfurar o material. Se deixar passar do tempo, as paredes colapsam e grudam uma na outra. Se isso acontecer, tente separar com cuidado usando a pinça, mas saiba que a integridade estrutural já pode ter sido comprometida.
Mantenha o foco total no relógio. Quando o tempo acabar, remova o protetor imediatamente com a colher ou pinça. Não use os dedos para pescar o protetor na água quente. A rapidez na transição entre a água quente e a sua boca é importante, mas temos um passo de segurança intermediário crucial que vamos ver a seguir para proteger sua boca de queimaduras severas.
O choque térmico controlado e a segurança da mucosa
Tirar algo a 90°C e colocar na boca é pedir para ter uma queimadura de segundo grau na gengiva e no céu da boca. Isso não só dói horrores, como cria bolhas que vão te impedir de usar o protetor por dias. O segredo fisioterapêutico é o choque térmico rápido. Assim que tirar o protetor da água quente, mergulhe-o na água gelada por apenas um segundo ou passe rapidamente sob água corrente fria.
Esse segundo é suficiente para resfriar a superfície externa do material, tornando-o tolerável ao toque da mucosa sensível, mas mantendo o núcleo do material quente e mole para a moldagem. Não deixe mais que um ou dois segundos, senão ele endurece e você perde o trabalho. É um mergulho relâmpago: entrou, saiu.
Toque levemente com a ponta do dedo antes de levar à boca. Deve estar quente, mas suportável. Lembre-se que a gengiva é muito vascularizada e sensível. Esse cuidado preserva a integridade dos tecidos moles da sua boca. Um atleta com a boca machucada não se alimenta bem e não treina bem. A segurança vem sempre em primeiro lugar no nosso processo de ajuste.
A técnica de moldagem intraoral passo a passo
O posicionamento correto na arcada dentária
Agora é o momento da verdade. Leve o protetor à boca olhando no espelho. Centralize o meio do protetor com o meio dos seus dentes incisivos (os da frente). Use os polegares para empurrar o protetor para cima, contra os molares traseiros primeiro, e depois venha trazendo para frente. Garanta que todos os dentes estejam dentro do canal do protetor.
Não morda imediatamente. Primeiro, assente o protetor. Puxe o lábio superior para cima e para fora, para que o material suba bem na gengiva. O protetor precisa cobrir a junção entre o dente e a gengiva, pois é ali que muitas fraturas de raiz dentária ocorrem. Se o protetor ficar curto, ele protege a coroa do dente, mas deixa a raiz vulnerável a forças de cisalhamento.
Mantenha a cabeça reta. Não incline a cabeça para trás. Olhe para o horizonte no espelho. Isso mantém sua cervical neutra e sua mandíbula na posição fisiológica correta. Se você moldar olhando para o teto ou para o chão, sua mandíbula muda de posição e o ajuste final ficará desconfortável quando você estiver na posição normal de luta ou jogo.
A manobra de sucção e pressão lingual
Este é o grande segredo que diferencia um ajuste amador de um ajuste profissional. Feche a boca suavemente e comece a sugar todo o ar e a água que estiverem dentro. Faça um vácuo forte. Imagine que está sugando um canudo entupido. Enquanto suga, pressione a língua com força contra o céu da boca, espalhando o material contra a face interna dos dentes.
Ao mesmo tempo, use os dedos indicadores e polegares por fora das bochechas e lábios para massagear e pressionar o material contra a face externa dos dentes e gengiva. Essa pressão externa combinada com a pressão interna da língua cria um molde tridimensional perfeito. O material precisa entrar nos espaços interdentais para criar retenção mecânica. É isso que faz o protetor não cair quando você abre a boca.
Mantenha essa sucção e pressão constante. Não pare. O material está esfriando e endurecendo a cada segundo. Você tem uma janela de cerca de 20 a 30 segundos onde o material aceita essa deformação plástica. Se você relaxar agora, o material volta um pouco à forma original (efeito memória) e fica frouxo. Força na língua e nos dedos!
Oclusão cêntrica e o alinhamento da mordida
Enquanto faz o vácuo, morda, mas não com força bruta. Morda com firmeza suficiente para marcar a parte de baixo do protetor com os dentes inferiores. Queremos apenas as indentações leves dos dentes de baixo para que sua mandíbula tenha um lugar de encaixe estável. Se você morder com força máxima, vai furar o plástico e seus dentes vão se tocar, anulando a proteção.
Busque a oclusão cêntrica. Isso significa fechar a boca onde ela se sente mais confortável e repousada. Não projete o queixo para frente nem para os lados. Mantenha os molares de baixo alinhados com os de cima. Essa posição é a que gera menos estresse na ATM. Se você moldar com o queixo projetado (protruso), quando relaxar, o protetor vai empurrar sua mandíbula para trás, causando dor na articulação.
Segure essa posição. Fique estático. Mantenha a sucção, a pressão dos dedos e a mordida firme por cerca de dois minutos. Parece uma eternidade, mas é necessário para que o material estabilize nessa nova forma. Sinta o protetor esfriando na sua boca. Só remova quando sentir que ele está ficando rígido.
Refinando e finalizando o ajuste
O resfriamento final para fixar a forma
Após os minutos de moldagem na boca, remova o protetor com cuidado. Ele ainda estará morno e levemente flexível. Mergulhe-o imediatamente na tigela com água gelada e deixe lá por uns 5 a 10 minutos. Esse choque térmico final cristaliza as moléculas do polímero e “trava” o formato que você acabou de criar.
Se você pular essa etapa e deixar esfriar na mesa, a gravidade pode achatar o arco do protetor, estreitando-o. Na água gelada, ele mantém a forma tridimensional suspensa. Verifique se ele não está encostando no fundo de forma torta. A água gelada garante a durabilidade do molde.
Depois de totalmente frio, coloque na boca novamente. Ele deve fazer um “clique” ao encaixar. Tente tirar usando apenas a língua. Se ele sair fácil demais, o processo de vácuo não foi bom e você precisará repetir (se o material permitir reaquecimento). Um bom protetor deve exigir que você use os dedos para retirá-lo.
Cortando excessos que machucam o freio labial
Com o molde pronto, é hora da inspeção fina. Coloque o protetor e vá para a frente do espelho. Levante o lábio superior. Verifique se a borda do protetor está empurrando o freio labial ou as inserções musculares nas laterais. Se estiver branco ou vermelho na gengiva, é sinal de isquemia ou compressão. Isso vai virar uma afta dolorosa no meio do treino.
Use uma tesoura pequena e afiada (tesouras de unha curvas são ótimas para isso) para fazer pequenos recortes nessas áreas de alívio. Arredonde todas as arestas que você cortou. Uma ponta afiada de plástico vai cortar sua boca como uma navalha. Se necessário, use uma lixa de unha suave para polir onde você cortou.
Verifique também a parte posterior. Se ainda estiver dando ânsia, corte mais um milímetro do final. Lembre-se: o conforto é essencial para a adesão ao uso. Se o protetor incomoda, você vai tirá-lo inconscientemente durante a prática esportiva, ficando exposto ao risco.
Testando a estabilidade e a fala
O teste final é funcional. Coloque o protetor e tente falar. Você deve conseguir falar frases curtas sem que o protetor caia e sem parecer que tem uma batata na boca. Claro, a dicção muda um pouco, mas deve ser compreensível. Tente gritar ou exalar forte como faria num soco. O protetor deve ficar imóvel.
Beba um gole de água com o protetor. Se conseguir engolir sem se engasgar, o ajuste palatal está correto. Simule movimentos da sua modalidade esportiva. Gire a cabeça, pule, faça sombra de boxe. A propriocepção deve ser de que o protetor faz parte de você. Se você precisa ficar mordendo para ele não cair, ele está errado.
Se o teste falhou, não desanime. A maioria dos protetores termomoldáveis de boa qualidade permite que você repita o processo de aquecimento e moldagem umas duas ou três vezes. Volte para a água quente (talvez por menos tempo) e refine o vácuo. A persistência leva à perfeição do ajuste.
Relação entre Protetor Bucal e Postura Corporal
Cadeias musculares e a influência da boca
Como fisioterapeuta, preciso que você entenda que o corpo é uma unidade indivisível. A mandíbula faz parte da Cadeia Mestra Anterior. Tensões na boca repercutem até a ponta do pé. Se o seu protetor gera uma mordida assimétrica, isso envia sinais de tensão para os músculos esternocleidomastoideo e trapézio.
Isso altera a posição da sua cabeça. Uma cabeça anteriorizada ou inclinada muda seu centro de gravidade. No esporte, equilíbrio é tudo. Se você está lutando contra seu próprio equipamento para manter o equilíbrio, você já está em desvantagem. Um protetor bem ajustado ajuda a alinhar a cabeça sobre a coluna, otimizando a distribuição de peso.
Existem estudos que mostram correlação entre a oclusão dental e a força isométrica. Atletas com mordida estável conseguem recrutar mais fibras musculares em testes de força explosiva. Seu protetor é, portanto, um equipamento de performance, não apenas de proteção.
Como uma mordida errada afeta seu equilíbrio
O sistema vestibular (no ouvido interno), que controla o equilíbrio, está vizinho à ATM. Inflamações ou pressões anormais na articulação podem perturbar a função vestibular. Se o protetor deixa sua mandíbula torta, ele altera a informação proprioceptiva que chega ao cérebro.
Você pode sentir tonturas leves ou uma sensação de instabilidade nos movimentos rápidos de rotação. Se perceber que está perdendo o equilíbrio mais fácil ou tropeçando com frequência após começar a usar um protetor novo, desconfie do ajuste. Pode ser necessário recalibrar a oclusão.
A mordida cruzada induzida pelo protetor pode causar até rotação de quadril funcional através das cadeias musculares cruzadas. Parece exagero, mas em alto nível, qualquer milímetro de desalinhamento conta. O ajuste fino busca a simetria corporal.
Sinais de que o protetor está alterando sua postura
Fique atento aos sinais do seu corpo pós-treino. Dor de cabeça tensional na região das têmporas ou na base do crânio não é normal. Sensação de ouvido tapado ou zumbido também são bandeiras vermelhas de compressão da ATM pelo protetor.
Se você acorda no dia seguinte com o pescoço travado ou dores nos ombros que não condizem com o treino realizado, verifique seu equipamento bucal. Outro sinal é o desgaste irregular do próprio protetor. Se ele estiver muito mordido de um lado e novo do outro, sua mordida está desequilibrada.
Observe se você tende a inclinar a cabeça para um lado durante o repouso nos intervalos. O corpo busca conforto. Se o protetor incomoda, o corpo compensa entortando a postura. Corrija o protetor e você verá a postura melhorar automaticamente.
Manutenção e Sinais de Desgaste
A rotina de limpeza para evitar bactérias
A boca é um ambiente úmido e quente, perfeito para bactérias. Após cada uso, lave o protetor com água fria e sabão neutro. Use uma escova de dentes macia (separada só para ele) para limpar as ranhuras internas onde a saliva se acumula. Enxágue bem.
Uma vez por semana, faça uma limpeza mais profunda. Você pode usar pastilhas efervescentes para limpeza de dentaduras ou uma solução de água com um pouco de enxaguante bucal sem álcool. O álcool resseca o EVA e o torna quebradiço precocemente. Evite água quente na limpeza, pois pode deformar o ajuste fino que tanto trabalhamos para conseguir.
Seque totalmente antes de guardar. A umidade no estojo fechado cria fungos (aqueles pontinhos pretos). Deixe secar ao ar livre em local limpo antes de fechar a caixinha. A saúde da sua gengiva depende dessa disciplina. Gengivite atrapalha o treino tanto quanto uma lesão muscular.
Quando é hora de trocar seu equipamento
Protetores bucais não são eternos. Com o tempo, o material perde a elasticidade e a capacidade de absorção de choque. Se você treina de 3 a 4 vezes por semana, a vida útil média de um protetor termomoldável é de cerca de 6 meses.
Troque imediatamente se notar rasgos, furos ou se ele começar a ficar fino demais na área da mordida. Se ele não para mais na boca e fica caindo, a retenção acabou. Reaquecer muitas vezes degrada o polímero. Se já moldou 3 vezes e não ficou bom, compre outro.
Para crianças e adolescentes em fase de crescimento, a troca deve ser mais frequente, acompanhando o desenvolvimento da arcada dentária e a troca de dentes. Um protetor apertado pode prejudicar o crescimento ósseo facial.
Armazenamento correto para manter a forma
O estojo perfurado é o melhor amigo do seu protetor. Ele permite circulação de ar. Nunca jogue o protetor solto dentro da bolsa de treino suada. Além da sujeira, ele pode ser esmagado por caneleiras ou luvas, deformando permanentemente.
Mantenha longe de calor excessivo. Não deixe no painel do carro sob o sol nem esqueça dentro do carro num dia quente. O calor do sol é suficiente para fazer o EVA voltar à forma original plana, perdendo todo o seu molde personalizado.
Tenha um lugar fixo em casa para ele, longe de animais de estimação. Cães adoram o cheiro de saliva e a textura de borracha. Já perdi a conta de quantos pacientes tiveram seus protetores destruídos pelos seus cachorros. Cuide bem do seu equipamento e ele cuidará bem de você.
Terapias aplicadas para disfunções de ATM e proteção
Se, mesmo com o ajuste correto, você sentir dores ou desconforto na mandíbula, saiba que existem terapias específicas na fisioterapia para tratar essas disfunções. O uso frequente de protetor bucal e a tensão dos treinos podem sobrecarregar a musculatura, e nós temos ferramentas para aliviar isso.
Liberação miofascial da musculatura mastigatória
Muitas vezes, a dor vem de pontos de tensão (trigger points) nos músculos masseter, temporal e pterigoideos. Realizamos a liberação miofascial manual, que pode ser feita tanto por fora da face quanto por dentro da boca (intraoral). Essa técnica solta as aderências musculares, melhora a circulação local e devolve a elasticidade ao músculo. É um alívio quase imediato para quem sofre de bruxismo ou apertamento durante o esporte. Soltar essa musculatura melhora o encaixe do protetor e reduz as dores de cabeça pós-treino.
Exercícios de estabilização mandibular
Assim como treinamos o core para estabilizar a coluna, precisamos treinar a musculatura da mandíbula para estabilizar a ATM. Prescrevemos exercícios de controle motor que ensinam a mandíbula a se mover corretamente, sem desvios laterais ou estalos. Trabalhamos a coordenação e a resistência muscular suave. Um atleta com bom controle mandibular sofre menos lesões em caso de impacto, pois a musculatura reage de forma mais inteligente para proteger a articulação, trabalhando em conjunto com o protetor bucal.
Dry Needling para pontos de tensão facial
O agulhamento a seco (Dry Needling) é uma técnica fantástica para atletas. Utilizamos agulhas finas (semelhantes às de acupuntura) para desativar pontos de tensão profundos no músculo que a mão às vezes não alcança com tanta precisão. Ao inserir a agulha no ponto gatilho do masseter, provocamos um relaxamento reflexo da fibra muscular. Isso zera a tensão acumulada, melhora a abertura da boca e facilita a adaptação ao uso do protetor bucal, tornando a prática esportiva muito mais confortável e segura.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”