Você acabou de largar a barra no chão depois daquele WOD insano e sente que seus antebraços vão explodir a qualquer momento. Seus dedos estão curvados como garras e pegar a garrafa de água parece uma tarefa impossível de realizar agora. Eu vejo isso todos os dias aqui no consultório e sei exatamente o que está acontecendo dentro da sua musculatura. Essa sensação de inchaço extremo e falta de controle motor é o que chamamos de pump e, embora pareça sinal de dever cumprido, o excesso de tensão residual pode virar uma lesão chata se não cuidarmos disso logo. Vamos conversar sobre como devolver a função para as suas mãos e aliviar esse desconforto agora mesmo.
Entendendo a Anatomia do Seu Grip
Os Flexores e Extensores do Punho
Você precisa entender que a mágica da sua pegada não acontece na mão em si, mas sim no antebraço. A maior parte do volume muscular que controla o fechamento dos seus dedos está localizada logo abaixo do cotovelo. Quando você aperta a barra durante um levantamento terra ou se pendura para fazer um to-to-bar, são os flexores superficiais e profundos dos dedos que estão trabalhando hora extra. Eles funcionam como cabos de aço que puxam as articulações dos dedos através de longos tendões que passam pelo túnel do carpo.
O problema começa quando focamos apenas em fechar a mão e esquecemos que existe um lado oposto que precisa equilibrar essa força. Os extensores do punho, que ficam na parte de “cima” do antebraço, muitas vezes ficam sobrecarregados tentando estabilizar o punho para que os flexores possam fazer força. É uma batalha constante de tração. Se os flexores estão encurtados e cheios de tensão, os extensores ficam estirados e fracos, criando um desequilíbrio mecânico perigoso.
Para nós fisioterapeutas, tratar o grip significa olhar para esse balanço entre a parte anterior e posterior do braço. Não adianta apenas soltar onde dói. Precisamos garantir que a musculatura que fecha a mão tenha capacidade de relaxar completamente para que a musculatura que abre a mão possa funcionar sem resistência. Imagine um elástico que nunca volta ao tamanho original e você entenderá como seus músculos se sentem após centenas de repetições.
O Papel da Fáscia Antebraquial
Toda essa musculatura é envolvida por uma camada de tecido conectivo muito resistente chamada fáscia antebraquial. Pense nela como uma manga de camisa de compressão que envolve todos os músculos, nervos e vasos sanguíneos do seu antebraço. Em condições normais, essa fáscia permite que os músculos deslizem uns sobre os outros sem atrito. É esse deslizamento que garante um movimento fluido e sem dor quando você rotaciona o punho ou move os dedos individualmente.
No entanto, o volume alto de treino e a inflamação constante fazem com que essa fáscia se torne mais rígida e aderida. Ela perde a hidratação e começa a colar nos músculos, restringindo o espaço disponível para que eles se expandam quando o sangue chega. É exatamente isso que causa aquela sensação de que a pele vai rasgar durante o treino. A pressão interna aumenta porque o “envelope” do músculo ficou pequeno demais para o conteúdo.
Liberação miofascial não é apenas sobre apertar músculos, é sobre restaurar a capacidade de deslizamento entre essas camadas. Quando trabalhamos a fáscia, estamos tentando devolver a hidratação para esse tecido e desgrudar as camadas. Isso melhora imediatamente a circulação sanguínea e reduz a compressão sobre os nervos que passam ali no meio, aliviando aquela sensação de dormência ou formigamento que às vezes aparece nas pontas dos dedos.
A Conexão com o Cotovelo
Muitas pessoas chegam até mim reclamando de dor no cotovelo, as famosas epicondilites, sem perceber que a origem está lá na mão. Os músculos que controlam seu grip se originam, em sua grande maioria, nos epicôndilos medial e lateral do úmero. Isso significa que a tensão gerada na ponta dos seus dedos é transmitida diretamente para a âncora desses músculos no cotovelo. Se o antebraço está tenso como uma pedra, o ponto de inserção no osso é quem sofre o tranco a cada repetição.
É fundamental que você visualize seu braço como uma corrente única e não como pedaços separados. A tensão que começa na pegada gancho sobe pelos tendões, passa pelo ventre muscular no antebraço e puxa o periósteo lá no cotovelo. Se você sente pontadas na parte interna ou externa do cotovelo, é um sinal claro de que a musculatura do antebraço está sobrecarregada e encurtada, puxando o osso constantemente, mesmo quando você está em repouso.
Tratar o antebraço é a melhor forma de proteger seus cotovelos a longo prazo. Manter essa musculatura flexível tira a tensão da inserção óssea. É por isso que, na fisioterapia, raramente tratamos apenas o local da dor. Se o seu cotovelo grita, nós vamos investigar como está a qualidade do tecido muscular do seu antebraço e a mobilidade do seu punho, pois é ali que geralmente reside o culpado silencioso.
Por Que o WOD Destrói Seu Antebraço
O Volume de Repetições e a Isquemia
O Crossfit é famoso por exigir um volume de repetições que desafia a fisiologia normal do músculo. Quando você faz uma série longa de kettlebell swings ou pull-ups, seus músculos do antebraço ficam contraídos por um longo período sem relaxamento total. Essa contração contínua comprime os vasos sanguíneos que alimentam o próprio músculo. O sangue arterial, rico em oxigênio, tem dificuldade de entrar, e o sangue venoso, cheio de metabólitos, não consegue sair.
Esse fenômeno cria um ambiente de hipóxia, ou seja, falta de oxigênio local. O músculo começa a trabalhar em regime anaeróbico, produzindo lactato e íons de hidrogênio que aumentam a acidez do tecido. É essa acidez que causa a dor de queimação insuportável. O inchaço subsequente é uma resposta inflamatória aguda e uma tentativa do corpo de lidar com esse estresse metabólico, mas que acaba restringindo ainda mais o fluxo se a fáscia estiver rígida.
Você precisa entender que a recuperação entre um WOD e outro depende da sua capacidade de limpar esse “lixo” metabólico. Se a tensão muscular permanece alta pós-treino, a circulação continua prejudicada mesmo quando você está descansando no sofá. O tecido fica “sujo” quimicamente, o que atrasa a regeneração das fibras e facilita o aparecimento de fibroses e aderências que vão limitar seu movimento no futuro.
A Pegada e a Tensão Mecânica
A forma como você segura a barra ou as argolas dita a quantidade de tensão que será gerada. A pegada gancho, ou hook grip, é excelente para segurança e performance, mas ela coloca uma tensão mecânica brutal sobre o polegar e os flexores profundos. Você está essencialmente travando o polegar contra a barra e usando o peso do corpo contra ele. Isso cria pontos de tensão muito específicos e profundos que dificilmente somem apenas com alongamentos simples.
Além disso, existe o componente da força de preensão sustentada. Em movimentos como o farmer carry ou deadlift, a contração é isométrica, o que significa que o músculo gera força sem mudar de comprimento. Contrações isométricas máximas são conhecidas por gerar grande rigidez pós-exercício. O sistema nervoso central mantém o tônus muscular elevado como um mecanismo de proteção, deixando o antebraço duro mesmo horas depois do treino ter acabado.
Muitas vezes você nem percebe que está apertando a barra com mais força do que o necessário. O cansaço generalizado faz com que percamos a eficiência técnica e, para compensar, apertamos a barra com a “força do ódio”. Esse excesso de força desnecessária acelera a fadiga e cria trigger points, que são nódulos de tensão dolorosos dentro da fibra muscular, capazes de irradiar dor para a mão ou para o cotovelo.
O Impacto dos Movimentos Ginásticos
Os movimentos ginásticos pendurados adicionam um elemento de tração que é único. Não é apenas sobre fechar a mão, é sobre segurar o peso do corpo inteiro enquanto se balança. Isso impõe uma força de distração nas articulações do punho e cotovelo, ao mesmo tempo que os músculos tentam manter tudo conectado. O balanço do kipping, por exemplo, exige uma coordenação fina entre relaxar e contrair em frações de segundo.
Quando a fadiga bate, perdemos esse timing. Começamos a “pendurar” nos ligamentos e na estrutura passiva, ou mantemos o músculo tencionado o tempo todo por medo de cair. Essa falta de alternância entre contração e relaxamento durante o movimento dinâmico é o que chamamos de co-contração ineficiente. Isso gera uma rigidez defensiva massiva no antebraço, pois o cérebro entende que a articulação está em risco e manda travar tudo ao redor.
É comum ver atletas que não conseguem esticar completamente os dedos após uma sessão de toes-to-bar. Isso não é apenas fadiga muscular, é um encurtamento adaptativo agudo. A fáscia e os músculos se moldaram àquela posição de garra. Se não fizermos um trabalho ativo para reverter esse padrão logo após o treino, o corpo começa a adotar essa postura de flexão como o novo normal, levando a desequilíbrios posturais crônicos no membro superior.
Técnicas de Automassagem e Liberação Manual
Usando a Bolinha de Lacrosse ou Tênis
A ferramenta mais simples e eficaz que você pode ter na sua mochila é uma bolinha rígida, como a de lacrosse. Para liberar o antebraço, não adianta apenas rolar a bola de qualquer jeito. Você precisa ser cirúrgico. Coloque a bola sobre uma mesa ou caixa, apoie a parte “gordinha” do antebraço (perto do cotovelo) sobre ela e use o peso do seu corpo para aplicar pressão. O segredo aqui é a paciência: encontre um ponto dolorido e pare ali.
Quando encontrar esse ponto de tensão, mantenha a pressão e comece a fazer movimentos lentos com a sua mão. Abra e feche os dedos, gire o punho para cima e para baixo. Você vai sentir como se o músculo estivesse se movendo por baixo da pressão da bola. Essa técnica, chamada de “pin and stretch” (pressionar e alongar), é muito mais eficaz do que apenas rolar, pois obriga as camadas de tecido a deslizarem umas sobre as outras, quebrando aderências.
Evite passar a bola diretamente sobre os ossos ou sobre áreas onde você sente choque elétrico, pois isso indica que você está comprimindo um nervo. Foque nos ventres musculares. Trabalhe tanto a parte de baixo (flexores) quanto a parte de cima (extensores). Dedique pelo menos dois minutos para cada braço. A sensação deve ser de um desconforto suportável, aquela “dor boa” de que algo está sendo solto, e não uma dor aguda e cortante.
A Técnica de Deslizamento Profundo
Se você tiver um pouco de creme hidratante ou óleo, pode usar uma técnica manual muito poderosa. Sente-se confortavelmente e apoie o antebraço na coxa ou numa mesa. Com o polegar da outra mão ou com a articulação dos dedos (os “nós” da mão fechada), você vai realizar deslizamentos lentos e profundos, indo do punho em direção ao cotovelo. Estamos seguindo o fluxo do retorno venoso, ajudando a drenar aquele inchaço que conversamos antes.
Aplique uma pressão firme e constante. Imagine que você está tentando empurrar a água de dentro do músculo para fora. Você pode fazer isso em linhas, cobrindo toda a circunferência do antebraço. Quando encontrar áreas mais densas ou “caroços”, diminua a velocidade. Respire fundo e deixe o tecido ceder sob o seu toque. Não tenha pressa. O tecido fascial responde melhor a estímulos lentos e contínuos do que a movimentos rápidos e superficiais.
Uma variação excelente é fazer esse deslizamento enquanto você move o punho na direção oposta. Se você está deslizando a mão para cima nos flexores, estenda o punho para trás simultaneamente. Isso cria um alongamento dinâmico muito potente. Essa técnica ajuda a realinhar as fibras musculares e melhora a percepção corporal da região, reduzindo a sensação de peso e fadiga quase instantaneamente.
Atenção ao Braquiorradial e Pronador
Existem dois músculos que são frequentemente esquecidos, mas que são grandes vilões da dor no antebraço: o braquiorradial e o pronador redondo. O braquiorradial é aquele músculo que salta na lateral do antebraço quando você faz uma pegada neutra (como segurar um copo de chopp). Ele trabalha muito em puxadas e no transporte de cargas. Pince esse músculo com a mão oposta, segure firme e mova o punho para os lados. Ele costuma ser extremamente sensível.
Já o pronador redondo fica na parte interna, próximo ao cotovelo, cruzando o antebraço na diagonal. Ele é responsável por virar a palma da mão para baixo. No Crossfit, usamos muito essa função. A tensão excessiva aqui pode comprimir o nervo mediano, simulando sintomas de síndrome do túnel do carpo. Pressione essa região com o polegar, busque um ponto tenso e faça a rotação do antebraço (como se estivesse girando uma maçaneta) enquanto mantém a pressão.
Liberar esses dois pontos específicos pode trazer um alívio surpreendente para dores que parecem estar no cotovelo ou no punho. Muitas vezes, a dor difusa no antebraço é apenas dor referida desses trigger points. Ao desativá-los, você restaura a mecânica normal do rádio e da ulna, permitindo que os ossos girem livremente um sobre o outro sem restrições musculares.
Mobilidade e Alongamento Dinâmico
Abertura de Flexores no Solo
O alongamento estático clássico é bom, mas podemos melhorá-lo. Fique na posição de quatro apoios no chão. Gire as mãos para que os dedos apontem para os seus joelhos. Apoie toda a palma da mão no chão. Agora, em vez de ficar parado, faça pequenos movimentos de balanço para trás, tentando sentar nos calcanhares, mas sem tirar a base da mão do chão. Vá e volte, respeitando o seu limite.
O movimento oscilatório ajuda a lubrificar a articulação e a dizer para o sistema nervoso que é seguro atingir aquela amplitude. Se sentir muita pressão no punho, aproxime os joelhos das mãos para diminuir a carga. O objetivo é sentir um alongamento forte, mas tolerável, em toda a parte interna do antebraço. Mantenha os cotovelos estendidos, pois se você dobrá-los, perde a tensão na origem dos flexores.
Você pode adicionar variações a esse movimento. Tente levantar apenas os dedos do chão mantendo a palma, ou fazer pequenos círculos com o corpo. Isso explora diferentes feixes de fibras musculares. Lembre-se de respirar. Prender a respiração aumenta a tensão muscular, o que é exatamente o oposto do que queremos aqui. Use a expiração para ganhar um pouco mais de amplitude a cada balanço para trás.
Mobilização Neural para o Nervo Mediano
Muitas vezes a sensação de “travamento” não é muscular, é neural. Os nervos são como fios elétricos que precisam deslizar dentro dos tubos musculares. Se eles estão presos, você sente tensão, dor ou formigamento. Para o nervo mediano, que inerva boa parte da mão e flexores, vamos fazer um movimento de “garçom”. Fique em pé, com o lado a ser alongado próximo a uma parede. Coloque a palma da mão na parede com os dedos apontando para trás, braço esticado na altura do ombro.
Agora, com cuidado, gire o tronco para o lado oposto, afastando-se da parede, enquanto mantém a mão fixa. Você vai sentir um “choque” ou um estiramento agudo que corre do peito até os dedos. Isso é o nervo sendo tensionado. Não segure essa posição. Vá até sentir o início da tensão e volte imediatamente, relaxando o braço. Faça isso de forma rítmica: tensiona, relaxa, tensiona, relaxa.
Chamamos isso de “flossing” neural, como se fosse um fio dental limpando o trajeto do nervo. Repita cerca de 10 a 15 vezes. Se a tensão for muito forte na mão, você pode diminuir a extensão do cotovelo ou não girar tanto o pescoço. O objetivo é mobilizar o nervo, não estirá-lo agressivamente. Isso melhora a condutividade elétrica e reduz a sensibilidade excessiva do antebraço pós-treino.
Soltando a Membrana Interóssea
Entre os dois ossos do seu antebraço, o rádio e a ulna, existe uma membrana forte chamada membrana interóssea. Ela transfere forças e estabiliza o braço. Quando ela fica rígida, a rotação do punho fica bloqueada. Para trabalhar essa região, você vai precisar usar o polegar e os dedos da mão oposta para entrar no espaço entre os ossos, tanto pela frente quanto por trás do antebraço.
Pressione os dedos nesse “vale” entre os ossos e tente separar o rádio da ulna. Imagine que você quer afastar os dois ossos um do outro. Enquanto mantém essa pressão de separação, faça movimentos de flexão e extensão do punho. É uma sensação estranha e pode ser um pouco dolorosa, mas alivia muito a pressão interna do antebraço. Faça isso ao longo de todo o comprimento do antebraço, do cotovelo até o punho.
Essa técnica é fundamental para quem sente dor ao fazer exercícios com a barra acima da cabeça (overhead) ou na posição de front rack. Liberar a membrana interóssea melhora a capacidade de supinação e pronação, facilitando o encaixe dos cotovelos altos no clean ou no front squat sem sobrecarregar os punhos. É um detalhe anatômico pequeno que faz uma diferença enorme na mecânica do movimento.
Sinais de Alerta: Quando a Dor Não é Apenas Cansaço
Distinguindo Dor Muscular de Tendinopatia
Você precisa desenvolver a sensibilidade para diferenciar a dor do “pump” da dor patológica. A dor muscular pós-treino é difusa, espalhada pelo ventre muscular e geralmente melhora com movimento leve e calor. Ela aparece depois do treino e pode durar uns dois dias. Já a dor de uma tendinopatia (início de lesão no tendão) é pontual, localizada especificamente onde o tendão se prende ao osso, e tende a ser aguda e penetrante.
Se você acorda de manhã e sente rigidez e dor localizada no cotovelo que melhora um pouco quando “esquenta” no treino, mas volta pior depois, acenda o sinal vermelho. Isso é clássico de epicondilite (medial ou lateral). Continuar treinando pesado em cima dessa dor, achando que é apenas fadiga, é o caminho mais rápido para uma lesão crônica que pode te afastar dos treinos por meses.
Nesse caso, a liberação miofascial agressiva diretamente sobre a dor pode piorar o quadro. O tendão machucado não gosta de ser esmagado. O foco deve ser na musculatura ao redor para tirar a tensão que chega ao tendão, e não no tendão em si. Aprender a ouvir esses sinais sutis do seu corpo é a chave para a longevidade no esporte. Não ignore aquela pontada “chata” que insiste em aparecer.
A Perda de Força Inexplicável
Um sinal neurológico importante que não pode ser ignorado é a perda súbita de força ou coordenação. Se você vai pegar um copo d’água e ele escorrega da sua mão, ou se você não consegue girar a chave na porta de casa, isso indica que a compressão nervosa está severa. O inchaço dentro dos compartimentos do antebraço pode estar bloqueando a transmissão do sinal nervoso para os músculos da mão.
Isso vai além de estar cansado. É uma falha funcional. Se isso acontecer, você precisa parar imediatamente de sobrecarregar os membros superiores. Insistir em treinar grip nessas condições vai forçar você a usar compensações biomecânicas bizarras, sobrecarregando ombros e pescoço. O sistema nervoso “desliga” a força como um disjuntor para evitar danos maiores. Respeite esse desligamento.
Nesses casos, o repouso ativo e as técnicas de mobilização neural que ensinei são mais importantes do que o fortalecimento. Você precisa desobstruir o caminho do nervo antes de pedir para ele carregar carga novamente. Se a perda de força vier acompanhada de alterações de cor na mão ou dor extrema e pulsante que não passa com repouso, procure ajuda profissional imediatamente, pois pode ser um quadro mais sério de síndrome compartimental.
Dormência Noturna e Formigamentos
Muitos alunos me relatam que acordam no meio da noite com as mãos dormentes ou sentindo “agulhadas”. Isso acontece porque, durante o sono, tendemos a flexionar os punhos e cotovelos, posições que aumentam a pressão sobre os nervos já irritados pelo treino. Se isso está se tornando frequente na sua rotina, significa que a inflamação local está constante e não está baixando nem com o repouso.
Esse é um indicativo de que a sua rotina de recuperação não está sendo suficiente para o volume de treino que você está impondo. Pode ser necessário rever a ergonomia do seu dia a dia (uso de computador e celular) além dos treinos. O uso excessivo de telas mantém os flexores tensionados e o punho em posições ruins, somando-se ao estresse do WOD.
Considere usar munhequeiras rígidas para dormir por algumas noites se a dormência for intensa. Isso mantém o punho neutro e evita que você o dobre inconscientemente, dando uma folga para o túnel do carpo e para os tendões flexores. É uma medida paliativa simples que pode melhorar muito a qualidade do seu sono e a recuperação tecidual durante a noite.
Estratégias para Manutenção e Prevenção
Fortalecimento de Extensores
Como falei no início, o desequilíbrio é a raiz de muitos males. No Crossfit, passamos 90% do tempo apertando coisas (flexão). Raramente fazemos força para abrir a mão contra resistência (extensão). Para equilibrar essa equação, você precisa incluir exercícios específicos para os extensores do punho e dos dedos na sua rotina de acessórios.
Um exercício simples é colocar um elástico de borracha ao redor dos dedos e fazer força para abri-los contra a resistência do elástico. Faça isso várias vezes ao dia, pode ser no carro ou assistindo TV. Outra opção é usar um balde com arroz: enfie a mão no arroz e tente abrir os dedos lá dentro. A resistência dos grãos trabalha a musculatura extensora de forma muito eficaz e funcional.
Fortalecer os extensores ajuda a estabilizar o punho durante os levantamentos pesados. Quando os extensores estão fortes, eles conseguem manter o punho na posição neutra ideal com menos esforço, evitando aquela “quebra” do punho que sobrecarrega a articulação. Pense nisso como construir um suporte melhor para a sua pegada. Um antebraço equilibrado é um antebraço resiliente.
Gelo x Calor: O Que Usar?
Essa é uma dúvida clássica. Logo após o treino, se o antebraço estiver pegando fogo, pulsando e muito inchado, a imersão em água gelada (crioterapia) pode ajudar a controlar a dor aguda e a inflamação excessiva. Mergulhe os antebraços em um balde com água e gelo por 10 a 15 minutos. Isso causa vasoconstrição e ajuda a “acalmar” o tecido irritado, reduzindo a velocidade de condução nervosa da dor.
No entanto, se a sua queixa é aquela rigidez crônica, aquele antebraço duro que demora para “pegar no tranco” antes do treino, o calor é o seu melhor amigo. O calor aumenta a elasticidade do colágeno e melhora o fluxo sanguíneo, preparando o tecido para ser mobilizado. Use uma bolsa de água quente antes de fazer as técnicas de liberação que ensinei.
O contraste também é uma estratégia fantástica para o antebraço. Alterne 1 minuto na água quente e 1 minuto na água fria, repetindo por 5 ciclos. Isso funciona como uma bomba vascular, forçando os vasos a abrirem e fecharem, o que ajuda muito a drenar o edema e a acelerar a remoção de metabólitos sem sobrecarregar o sistema linfático.
A Importância dos Acessórios de Proteção
Não tenha vergonha de usar grips (luvas de ginástica) e munhequeiras, mas use-os com inteligência. O grip de couro ajuda a poupar a pele e melhora a aderência, permitindo que você segure a barra com um pouco menos de força de aperto, o que poupa a musculatura. Mantenha o magnésio sob controle; o excesso de magnésio aumenta o atrito demais e pode fazer a pele rasgar, além de criar uma pasta que atrapalha mais do que ajuda.
As munhequeiras oferecem suporte articular compressivo. Elas são ótimas para cargas máximas ou alto volume de overhead squat e thruster, mas não devem ser usadas o tempo todo. Se você usa munhequeira até para o aquecimento, seus músculos estabilizadores começam a ficar preguiçosos. Use-as como uma ferramenta estratégica nos WODs mais pesados para dar um alívio mecânico aos tendões.
Lembre-se também de cuidar dos calos. Calo alto é sinal de atrito, mas calo excessivo muda a mecânica da pegada e causa dor, fazendo você mudar a forma de segurar a barra inconscientemente. Mantenha os calos lixados e a pele hidratada. Uma pele flexível suporta muito mais tensão do que uma pele ressecada e rígida.
Terapias Profissionais que Eu Indico
Para finalizar nossa conversa, quero te falar sobre o que podemos fazer aqui na clínica se essas dicas caseiras não forem suficientes. Quando a tensão se torna crônica, às vezes precisamos de ferramentas mais pesadas para “resetar” o sistema. Uma das minhas favoritas para antebraço é o Dry Needling (Agulhamento a Seco). Usamos agulhas finas, iguais às de acupuntura, para desativar os pontos de gatilho profundos que seus dedos não alcançam. A resposta de relaxamento é quase imediata e melhora muito a vascularização local.
Outra técnica excelente é a Liberação Miofascial Instrumental (IASTM), conhecida por muitos como técnica de Graston ou raspadores. Usamos instrumentos de aço inoxidável com bordas desenhadas para mobilizar a fáscia e quebrar fibroses de forma muito mais eficiente do que a mão consegue. Isso é ótimo para recuperar a arquitetura do tecido e estimular a produção de novo colágeno alinhado.
Em casos mais teimosos, a Osteopatia pode ser fundamental para avaliar se o problema não vem de um bloqueio na cervical ou no ombro que está afetando a inervação do braço. E, claro, a Terapia Manual clássica, com mobilizações articulares do carpo e do cotovelo para restaurar os pequenos movimentos de deslizamento entre os ossos. O importante é não deixar a dor virar parte da sua rotina de treino. Cuide dos seus antebraços e eles vão segurar qualquer barra que você levantar.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”