Você já parou para pensar que aquela dorzinha chata nos punhos ou na lombar depois do treino pode não ser culpa da sua execução, mas sim do colchonete que você está usando? É muito comum, na empolgação de começar uma rotina fitness, pegarmos o primeiro tapetinho que vemos na frente. Mas a verdade é que existe uma ciência biomecânica importante por trás daquele pedaço de espuma ou borracha que separa o seu corpo do chão rígido.
Como fisioterapeuta, vejo diariamente pacientes que tentam adaptar o treino em casa usando toalhas dobradas, colchonetes de camping finíssimos ou, no outro extremo, colchões macios demais que destroem qualquer chance de estabilidade. O colchonete é a sua base, o seu “solo sagrado” de treino. Se a fundação não estiver adequada ao que você vai construir em cima dela, a estrutura do seu corpo sofre as consequências.
Neste guia, vamos mergulhar fundo no universo das espessuras, densidades e materiais. Quero que você termine esta leitura não apenas sabendo qual comprar, mas entendendo como essa escolha impacta diretamente a saúde das suas articulações e a eficiência dos seus movimentos. Vamos transformar a sua superfície de treino em uma aliada, e não em um obstáculo.
A Ciência por Trás da Espessura: Conforto vs. Estabilidade
O dilema do equilíbrio
Quando falamos de espessura de colchonete, existe uma regra de ouro na física do movimento: quanto mais grosso e macio for o material, maior será a instabilidade gerada. Isso acontece porque, ao pisar ou apoiar as mãos em uma superfície muito fofa, o seu sistema proprioceptivo — que informa ao cérebro onde seu corpo está no espaço — precisa trabalhar dobrado para encontrar o centro de gravidade. Se o seu objetivo é fazer posturas de equilíbrio em pé, um colchonete muito grosso vai fazer seus tornozelos “dançarem”, aumentando o risco de entorses.
Por outro lado, superfícies muito finas oferecem estabilidade total, quase como se você estivesse diretamente no chão. Isso é perfeito para a transferência de força. Quando você empurra o chão para subir em uma flexão ou para sustentar uma prancha, você quer que essa força retorne para o seu músculo, e não que ela seja dissipada ou absorvida por uma espuma mole. Portanto, se o seu treino exige precisão e base firme, menos material entre você e o solo costuma ser a melhor opção.
O segredo está em encontrar o ponto ideal para a sua modalidade.[1][2][3][4] Não adianta ter a estabilidade de um piso de concreto se isso significa esmagar suas proeminências ósseas. Você precisa analisar se o seu treino é predominantemente estático e equilibrado, ou se envolve rolamentos e impactos que exigem uma absorção maior.[1][5] O equilíbrio entre não cair e não se machucar mora exatamente nessa escolha milimétrica.
A proteção articular[6]
Imagine a anatomia do seu joelho. A patela é um osso “flutuante” que desliza sobre o fêmur. Quando você se ajoelha em um chão duro, a bursa pré-patelar (uma bolsinha cheia de líquido que serve para amortecer) é comprimida violentamente contra o osso. Se o colchonete for fino demais para o seu peso ou para a sensibilidade dos seus joelhos, você pode desenvolver bursites ou dores crônicas apenas pelo contato direto repetitivo. O mesmo vale para os cotovelos durante pranchas e para os processos espinhosos da coluna vertebral em abdominais.
A função primária da espessura do colchonete nesse contexto é distribuir a pressão. Um material adequado permite que o osso “afunde” levemente, aumentando a área de contato. Física básica: força dividida por uma área maior resulta em menor pressão. É por isso que pessoas com histórico de lesões articulares ou com menor quantidade de tecido adiposo (gordura) natural para “acolchoar” os ossos precisam, obrigatoriamente, de milímetros extras de proteção.
No entanto, proteção não significa usar um colchão de dormir. O excesso de proteção pode gerar uma falsa sensação de segurança e levar à hiperextensão de punhos, por exemplo. Se a mão afunda demais na espuma, o ângulo do punho muda, podendo comprimir o túnel do carpo. Como fisioterapeuta, sempre avalio se a dor do paciente vem do impacto (falta de colchonete) ou do posicionamento errado (excesso de colchonete).
A densidade da espuma e o “efeito memória”
Muitas vezes você vai encontrar dois colchonetes com a mesma espessura, digamos 10mm, mas que se comportam de maneiras totalmente diferentes. Isso acontece por causa da densidade.[1] Um colchonete de baixa densidade, cheio de ar, vai comprimir até virar uma folha de papel assim que você apoiar o cotovelo. Isso significa que, na prática, aqueles 10mm viram 1mm sob carga, anulando o benefício do amortecimento.
A densidade ideal é aquela que oferece resistência à compressão. Quando você pressiona o material, ele deve oferecer uma força contrária, sustentando seu peso sem “bater no fundo”. Materiais com “efeito memória” lento (que demoram a voltar à forma original) podem ser perigosos para treinos rápidos, pois deixam buracos onde você pisou, criando uma superfície irregular. Para o treino, queremos uma resposta elástica rápida: o material afunda para proteger e volta imediatamente para estabilizar.
Ao escolher o seu equipamento, faça o teste da pinça: aperte o colchonete com o polegar e o indicador. Se você conseguir sentir seus dedos se tocando com facilidade, aquela espessura é ilusória. Você precisa de um material que mantenha uma barreira física real entre suas articulações e o solo, independentemente da força que você aplique sobre ele durante a execução dos movimentos.
Materiais e Densidades: O Que Tem Dentro do Seu Colchonete[1][2][3][4][7][8][9][10][11]
TPE e Borracha Natural
O TPE (Elastômero Termoplástico) tem ganhado muito mercado por ser uma opção equilibrada. Ele é reciclável, biodegradável em certas condições e oferece uma densidade superior ao PVC comum. A grande vantagem biomecânica do TPE é a sua aderência e firmeza. Mesmo em espessuras mais baixas, ele não permite que o corpo “atravesse” o material. Para quem busca performance e sustentabilidade, costuma ser o melhor investimento inicial.
Já a Borracha Natural é o “padrão ouro” para muitos profissionais. Ela é mais pesada e densa.[12] Um tapete de borracha natural de 4mm pode pesar o dobro de um de PVC de 6mm. Esse peso extra garante que o tapete não saia do lugar no chão, e a densidade da borracha oferece um amortecimento “seco” e reativo.[8] Você sente que está protegido, mas não sente que está afundando em areia movediça.
Esses materiais geralmente possuem células fechadas, o que impede a absorção de suor e bactérias para o interior da trama. Isso é excelente para a higiene, mas exige que a superfície tenha uma textura antiderrapante bem desenhada, caso contrário, o suor acumulado na superfície pode fazer você escorregar. É uma troca: você ganha em higiene e densidade, mas precisa estar atento à textura superficial para manter a tração.
PVC e NBR
O PVC (Policloreto de Vinila) é o material mais comum e barato do mercado. Você vai encontrá-lo em quase todas as lojas de departamento. O problema é que o PVC de entrada costuma ter baixa densidade e se desgasta rápido, começando a esfarelar com o uso intenso. No entanto, existem PVCs de alta densidade (HD) que são indestrutíveis e usados em estúdios profissionais. Se optar por PVC, verifique o peso e a garantia de que não contém ftalatos e metais pesados, pensando na sua saúde a longo prazo.
O NBR (Borracha de Nitrilo Butadieno) é aquela espuma macia e grossa, muito comum em colchonetes de 10mm ou 15mm. Ele é extremamente confortável e leve, parecendo uma espuma sintética. É excelente para ficar deitado ou de joelhos, mas péssimo para ficar em pé. Devido à sua estrutura mais “aerada”, ele pode esticar se você fizer força de tração (como num “cachorro olhando para baixo” do Yoga), fazendo você escorregar junto com o tapete.
Eu recomendo o NBR quase exclusivamente para trabalhos de solo passivos ou abdominais simples. Se o seu treino envolve pular, correr no lugar ou posturas de ioga complexas, o NBR pode atrapalhar sua biomecânica por ser elástico demais e instável. Ele é o rei do conforto, mas não da performance técnica. Use-o sabendo dessa limitação.
Espumas de Alta Densidade (D28 a D80)
Quando saímos dos “tapetinhos” (mats) e vamos para os “colchonetes de academia” (aqueles blocos revestidos de napa ou tecido impermeável), entramos na categoria das espumas aglomeradas ou laminadas. Aqui, a sigla “D” seguida de um número dita as regras. D28, D33, D45, D80 referem-se à quantidade de matéria-prima por metro cúbico. Quanto maior o número, mais duro e resistente é o colchonete.
Para uma academia ou uso doméstico intenso com pesos, um colchonete D23 é praticamente inútil; ele vai deformar em semanas e você sentirá o chão. O ideal para suporte de coluna em exercícios com carga começa no D33. Já os colchonetes de alta densidade, como o AG80 (aglomerado 80), são extremamente rígidos e duráveis. Eles são perfeitos para proteger a coluna sem criar instabilidade.
Esses colchonetes são mais altos, geralmente com 3cm a 5cm de altura. Essa altura toda não é apenas luxo, é para garantir que, mesmo sob a pressão de um halter ou do quadril de um atleta pesado, ainda exista material entre o corpo e o chão. Se você treina musculação em casa, esse é o tipo de equipamento que deve buscar, e não os tapetes de enrolar.[7]
Espessura Fina (3mm a 5mm): Conexão Total com o Solo
Ideal para Yoga e posturas de equilíbrio[1][3][5][6][11]
Tapetes finos são a preferência absoluta de praticantes de Vinyasa, Ashtanga e Iyengar Yoga. A razão é puramente proprioceptiva. Com apenas 3mm ou 4mm, seus pés conseguem “agarrar” o chão. Os receptores sensoriais na planta dos pés enviam feedback imediato para o cérebro, permitindo microajustes posturais que mantêm você em pé em uma perna só.
Se você tentar fazer uma postura da árvore (Vrksasana) em um colchonete grosso, seu pé vai oscilar, forçando os ligamentos do tornozelo e joelho. No tapete fino, a base é sólida. A desvantagem óbvia é o conforto. Ficar de joelhos ou com a cabeça no chão em um tapete de 3mm pode ser doloroso se você não tiver uma boa técnica de distribuição de peso ou se tiver sensibilidade óssea.
Para meus pacientes que insistem em tapetes finos mas sentem dor nos joelhos, sugiro sempre ter uma toalha de mão por perto. Dobre a toalha e coloque sob o joelho quando necessário. Assim, você mantém a estabilidade do tapete fino para 90% da prática e ganha o amortecimento extra apenas naquele momento específico, sem comprometer o resto do treino.
Portabilidade e viagens[2][13]
Um aspecto prático que não podemos ignorar é a logística.[2] Se você é uma pessoa que treina no parque, no estúdio ou viaja a trabalho, um tapete de 3mm ou até os “travel mats” de 1.5mm são imbatíveis. Eles podem ser dobrados como uma peça de roupa e cabem dentro da mochila, pesando menos de 1kg.
Manter a rotina de exercícios é fundamental para a saúde musculoesquelética. Muitas vezes, a barreira para treinar é a “preguiça” de carregar um trambolho pesado. Um colchonete fino elimina essa barreira. Ter um equipamento leve incentiva a constância, e a constância é mais importante para o seu corpo do que a espessura perfeita usada apenas uma vez por mês.
No entanto, lembre-se: ao usar tapetes de viagem extremamente finos, você deve ser ainda mais gentil com suas aterrissagens. Evite saltos bruscos (burpees, por exemplo) sobre superfícies muito finas se estiver sobre um piso de concreto ou madeira muito dura, pois a absorção de impacto será quase nula, transferindo a carga para sua estrutura óssea.
Propriocepção aprimorada
A propriocepção é a nossa capacidade de perceber a posição do corpo sem olhar para ele. Tapetes finos maximizam essa percepção. Quando você treina descalço em uma superfície fina, você fortalece a musculatura intrínseca do pé (os pequenos músculos que sustentam o arco plantar). Isso é terapêutico para quem sofre de fascite plantar ou pé plano.
O excesso de amortecimento, seja em tênis ou em colchonetes, “adormece” esses sensores. Ao usar uma espessura fina, você acorda essa musculatura. Eu costumo prescrever exercícios de equilíbrio em solo firme ou tapete fino justamente para reabilitar entorses de tornozelo em estágio avançado, pois precisamos que o corpo reaprenda a estabilizar a articulação rapidamente.
Portanto, encare a espessura fina não como “falta de conforto”, mas como uma ferramenta de treino sensorial. Você vai notar que, com o tempo, seus pés e tornozelos ficarão mais fortes e inteligentes, dependendo menos de suporte externo e mais da própria estrutura muscular.
Espessura Média (6mm a 10mm): O Híbrido Versátil[8]
O padrão ouro para Pilates de solo
Se a sua praia é o Pilates Mat (de solo), você precisa de um pouco mais de carinho com a coluna. O repertório de Pilates envolve muitos rolamentos sobre as vértebras (como o “Rolling Like a Ball” ou o “Roll Up”). Fazer isso em um tapete de 3mm é pedir para ficar com hematomas nas costas. A espessura entre 6mm e 10mm é o ponto ideal.
Nessa faixa, o colchonete é grosso o suficiente para acomodar a coluna vertebral quando você rola, mas ainda firme o bastante para você não afundar demais. No Pilates, buscamos o “Power House” (o centro de força abdominal). Se o colchonete for mole demais, você instabiliza a bacia e perde a conexão com o centro. Se for duro demais, a dor nas costas inibe a ativação muscular correta.
A maioria dos tapetes específicos para Pilates é feita de TPE ou NBR com uma densidade calibrada para essa função. Eles permitem que você deite de lado para fazer a série de pernas sem sentir o trocânter maior (o osso lateral do quadril) esmagado contra o chão, garantindo que o foco do exercício seja na musculatura de glúteo e não na dor óssea.
Treinos funcionais e abdominais[2][7][11]
Para quem faz treinos funcionais em casa — aquela mistura de agachamentos, flexões, abdominais e saltitos — a espessura média é a mais recomendada. Ela é o “coringa”. Permite que você faça um abdominal sem ralar o cóccix e, logo em seguida, fique em pé para um agachamento sem perder totalmente o equilíbrio.
Se você usa tênis durante o treino, cuidado redobrado com o material nessa espessura. Tapetes de Yoga (mesmo os médios) não foram feitos para atrito de solado de borracha e vão rasgar. Para treinos de tênis, procure colchonetes dessa espessura que tenham revestimento reforçado ou sejam de materiais de alta densidade resistentes à abrasão.[7]
Essa faixa de espessura também ajuda a isolar termicamente. Treinar no chão frio no inverno pode causar contraturas musculares reflexas (o corpo se tenciona para manter o calor). Um colchonete de 6mm a 10mm cria uma barreira térmica eficiente, mantendo sua musculatura aquecida e pronta para o exercício, prevenindo lesões por resfriamento local.
Adaptação para iniciantes
Para quem está começando, o conforto é um fator decisivo para não desistir.[7] O iniciante ainda não tem a “calejamento” natural nem a técnica perfeita de distribuição de peso. Punhos doem na prancha, joelhos doem no apoio. Por isso, eu sempre indico começar com colchonetes na faixa de 6mm a 8mm.
É uma questão de adesão ao tratamento ou ao treino. Se o paciente sente dor aguda no apoio logo na primeira semana, ele associa o exercício a sofrimento nocivo, e não a esforço positivo. A espessura média atua como um facilitador pedagógico, permitindo que o aluno se concentre na execução do movimento e não no desconforto do contato.
Conforme a pessoa evolui, ganha força no core e estabilidade nas articulações, ela pode naturalmente migrar para tapetes mais finos se desejar mais performance. Mas a porta de entrada segura e confortável para a maioria da população sedentária reside nessa faixa intermediária de espessura.
Espessura Grossa (acima de 12mm e Colchonetes de Academia): Suporte Máximo
Proteção para coluna e quadris
Quando passamos dos 12mm, geralmente estamos falando de colchonetes de NBR bem fofos ou os clássicos colchonetes de academia revestidos. Essa espessura é fundamental para exercícios em decúbito dorsal (barriga para cima) e lateral, especialmente para pessoas com pouca massa muscular ou idosos com proeminências ósseas salientes.
Em exercícios de reabilitação pós-cirúrgica de quadril ou coluna, essa espessura é quase obrigatória. Precisamos eliminar qualquer ponto de pressão excessiva que possa inflamar tecidos em cicatrização. O colchonete grosso age distribuindo o peso do corpo por uma área muito maior, reduzindo picos de pressão em pontos específicos como o sacro.
Entretanto, é crucial entender que essa espessura “desliga” a propriocepção dos pés. Nunca recomendo fazer agachamentos pesados ou levantamento terra sobre um colchonete de 2cm ou 3cm de altura. O risco de torção é altíssimo. Use essa espessura para o que ela foi feita: proteger o corpo quando ele está deitado ou ajoelhado.
Exercícios de baixo impacto e alongamento[1][7]
Para sessões longas de alongamento estático, onde você permanece na mesma posição por 30, 60 segundos ou mais, a espessura grossa é uma benção. O conforto permite que você relaxe a musculatura. Se o chão é duro, seu corpo entra em “modo de defesa” e tensiona os músculos, o que é o oposto do que você quer no alongamento.
Aulas de “body balance” ou relaxamento final também pedem esse conforto extra. A capacidade de relaxar profundamente (como no Savasana do Yoga ou no relaxamento pós-treino) depende de o sistema nervoso não estar recebendo sinais de alerta de dor por compressão. O colchonete grosso cria um “ninho” seguro para esse relaxamento.
Além disso, em exercícios abdominais dinâmicos, como o “canivete” ou “remador”, o impacto das costas voltando ao chão é absorvido. Sem essa absorção, o impacto repetitivo pode gerar microtraumas nas vértebras ou desconforto nos órgãos internos. O colchonete grosso funciona como um amortecedor de choque necessário para a repetição.
O risco de “afundar” e perder a forma
Nem tudo são flores na espessura grossa. O maior inimigo aqui é o “bottoming out” (chegar ao fundo) de forma desigual. Se você apoia a mão para uma flexão em um colchonete de espuma macia de 20mm, a base da palma da mão afunda mais que os dedos. Isso coloca o punho em hiperextensão, forçando a articulação além do ângulo natural de 90 graus.
Isso pode causar dores agudas no carpo e tendinites a longo prazo. Se você precisa usar um colchonete grosso por causa dos joelhos, mas vai fazer flexões, minha dica de fisioterapeuta é: coloque as mãos diretamente no chão (fora do colchonete) e deixe apenas os joelhos sobre o colchonete. Assim você tem o melhor dos dois mundos: punhos estáveis e joelhos protegidos.
Outro problema é a instabilidade pélvica. Em exercícios de ponte (elevação pélvica), se os pés afundam muito na espuma, você perde a alavanca para ativar os glúteos corretamente, acabando por compensar com a lombar. Fique atento a esses sinais: se sente mais a coluna do que o músculo alvo, o colchonete fofo demais pode ser o culpado.
A Biomecânica por trás da escolha do colchonete
Distribuição de carga corporal
A física nos ensina que pressão é igual a força sobre área. Nosso corpo não é plano; ele é cheio de curvas e pontas ósseas. Quando deitamos no chão, a carga não se espalha igualmente. Ela se concentra no crânio, escápulas, sacro e calcanhares. Um colchonete adequado deve ter a capacidade de deformação suficiente para “abraçar” essas curvas, aumentando a área de contato.
Isso é vital para evitar isquemia (falta de sangue) nos tecidos comprimidos. Sabe quando você fica sentado muito tempo e a bunda dorme? É compressão excessiva. Durante o treino, queremos evitar isso para não gerar pontos de gatilho de dor. A escolha da densidade e espessura deve visar maximizar essa área de contato sem sacrificar a estabilidade estrutural necessária para o movimento.[1][2][5][6][8]
Prevenção de bursites e tendinites por compressão
Existem locais no corpo onde tendões e bursas passam muito perto da pele, logo acima do osso. O trocânter maior (lateral do quadril) e o olécrano (cotovelo) são clássicos. Fazer uma prancha lateral em chão duro comprime diretamente essas estruturas. A repetição desse trauma mecânico leva a inflamações estéreis (não infecciosas).
Muitos pacientes chegam à clínica com “dor no ombro” que, na verdade, é uma dor referida de uma cervical mal posicionada ou uma bursite no cotovelo causada por apoios inadequados. O colchonete atua como uma interface de proteção mecânica. Para quem tem histórico dessas “ites”, a espessura nunca deve ser inferior a 6mm, e materiais mais densos como TPE ou borracha natural são preferíveis às espumas baratas que achatam completamente.
Alinhamento vertebral durante a execução
O colchonete também altera o alinhamento da coluna. Pense na coluna cervical. Se você deita de costas em um colchonete muito grosso e macio, seu tronco afunda, mas sua cabeça (que é mais leve proporcionalmente à área de contato posterior) pode ficar em um ângulo estranho se não houver compensação. Ou o contrário: se o colchonete é muito alto e rígido, ele cria um degrau em relação ao chão.
Na posição de quatro apoios, se o colchonete for muito instável, ele altera o nível dos seus punhos em relação aos joelhos a cada movimento, forçando a coluna a fazer micro-curvaturas (escoliose funcional temporária) para manter o equilíbrio. Um bom colchonete mantém o nivelamento horizontal do corpo, permitindo que as curvaturas fisiológicas da coluna (lordoses e cifoses) se mantenham neutras e saudáveis durante o esforço.
Higiene e manutenção do seu equipamento[2][10]
Porosidade e acúmulo de bactérias
Este é um ponto que poucos consideram, mas que impacta sua saúde dermatológica e respiratória. Colchonetes de “célula aberta” (como alguns de borracha natural crua ou PU) absorvem suor como uma esponja. Se você sua muito, esse líquido penetra na matriz do colchonete e vira um banquete para bactérias e fungos. Isso causa mau cheiro e pode causar micoses de pele.
Colchonetes de “célula fechada” (como TPE, PVC e a maioria dos NBR) são impermeáveis. O suor fica na superfície. Do ponto de vista higiênico, são superiores e mais fáceis de limpar. Se você optar por um de célula aberta pela aderência (eles são os que menos escorregam), saiba que a higienização profunda terá que ser muito mais frequente e rigorosa.
Limpeza correta para evitar desgaste
Não use álcool puro ou produtos abrasivos no seu colchonete, especialmente se for de TPE ou borracha natural. O álcool resseca o material, fazendo com que ele comece a esfarelar precocemente, perdendo a aderência e a espessura. O ideal é usar uma mistura de água com sabão neutro e um pano úmido, ou sprays específicos com óleos essenciais (como tea tree) que são bactericidas naturais.
Deixe secar à sombra. O sol é o maior inimigo dos polímeros e borrachas. A radiação UV quebra as cadeias moleculares, transformando seu tapete macio e flexível em uma tábua dura e quebradiça. Cuide do seu colchonete como cuida da sua pele: limpeza suave e proteção contra o sol forte.
Armazenamento para manter a memória da espuma
A forma como você guarda seu colchonete afeta a espessura dele.[10] Se você dobrar um tapete de enrolar (fazendo vincos), você quebra a estrutura interna da espuma naquela linha. Com o tempo, ele ficará mais fino exatamente onde você precisa de proteção. Sempre enrole com a parte utilizada para fora ou conforme instrução do fabricante.
Para colchonetes de academia (blocos), evite empilhar pesos sobre eles. Deixar um halter de 10kg em cima do colchonete durante a noite vai criar uma depressão permanente. A espuma tem memória, mas ela tem limites. Se comprimida por tempo excessivo, ela perde a capacidade de retornar à altura original, comprometendo a função de amortecimento para sempre.
Terapias e abordagens fisioterapêuticas associadas
Ao final, como profissional, quero situar onde aplicamos esses conhecimentos na prática clínica. O uso do solo é fundamental na reabilitação.
Na Cinesioterapia no solo, utilizamos o chão como uma ferramenta de feedback. Exercícios como o Dead Bug ou pontes são prescritos para estabilização de core. Aqui, o colchonete serve para delimitar o espaço terapêutico e oferecer conforto suficiente para que o paciente consiga focar na contração muscular interna sem distrações dolorosas externas. Frequentemente usamos colchonetes de densidade média (D33) para garantir que a coluna do paciente esteja retificada e apoiada.
Na Reeducação Postural Global (RPG), embora a mesa seja o padrão, muitas auto-posturas de manutenção são ensinadas para serem feitas em casa, no chão. Nesses casos, a instrução sobre a espessura do colchonete é parte da receita médica. Um colchonete errado pode anular os ganhos da sessão de RPG, alterando as cadeias musculares que estamos tentando alongar. Geralmente indicamos superfícies firmes e finas com apenas um leve acolchoamento, para garantir o alinhamento total da coluna.
Já no Pilates Clínico, diferentemente do Pilates fitness, estamos tratando patologias. O uso de colchonetes mais grossos (Mats de 10mm a 15mm) é muito comum para pacientes com osteoporose ou fibromialgia, onde qualquer pressão óssea gera dor. O conforto aqui é terapêutico: ele permite o movimento sem dor, quebrando o ciclo dor-imobilidade-dor.
Escolha seu colchonete com carinho. Ele é o parceiro silencioso que vai garantir que você continue treinando amanhã, mês que vem e daqui a dez anos, com articulações saudáveis e íntegras. Bons treinos!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”