Ser goleiro é viver no limite entre a glória de uma defesa impossível e o risco constante de um impacto brutal.[1] Você sabe bem do que estou falando. Aquela fração de segundo em que você decide “voar” para buscar a bola no ângulo não permite pensar em como o seu corpo vai aterrissar. A gravidade é implacável e o chão é duro.[1] E quem paga o preço, na maioria das vezes, é o seu ombro. Essa articulação é a sua ferramenta de trabalho mais preciosa e, ironicamente, a mais instável do corpo humano.[1] Quando falamos de tratar traumas nessa região, não estamos falando apenas de colar um ligamento ou desinflamar um tendão. Estamos falando de devolver a você a confiança para se jogar no chão novamente sem aquele medo paralisante de sentir tudo sair do lugar.
A reabilitação de um goleiro é um universo à parte dentro da fisioterapia esportiva.[1] Diferente de um jogador de linha, que usa os braços fundamentalmente para equilíbrio e disputa de espaço, você usa o ombro como um escudo, uma alavanca e um amortecedor de quedas. O tratamento precisa ser agressivo na recuperação da estabilidade, mas extremamente cauteloso no ganho de amplitude.[1] Se você chegou até aqui com dores, limitações ou logo após um trauma agudo, entenda que o processo exige paciência e disciplina. Vamos mergulhar fundo no que acontece dentro dessa sua “asa” e como vamos colocá-la para voar de novo.
Neste guia, não vou te encher de termos médicos que você não vai usar. Quero que você entenda a mecânica do seu corpo, o porquê da dor e o racional por trás de cada exercício que vamos fazer. A fisioterapia moderna não é sobre você deitar na maca e esperar o choque fazer milagre.[1] É sobre movimento, controle e reeducação.[1][2] Prepare-se, porque vamos dissecar cada etapa da sua recuperação para garantir que, quando você voltar para as traves, seu ombro esteja mais forte do que era antes da lesão.
Entendendo a Mecânica do Trauma no Gol[1][3]
O impacto direto contra o solo
Quando você salta para uma defesa lateral, a aterrissagem é o momento crítico.[1] A técnica correta ensina a rolar, distribuindo a energia do impacto pelas costas e lateral da coxa, mas no calor do jogo, nem sempre isso é possível.[1] Muitas vezes, o ombro é o primeiro ponto de contato com o solo.[1] Imagine o peso do seu corpo inteiro, somado à velocidade da queda, concentrado em uma área pequena como a cabeça do úmero ou a ponta da clavícula.[1] Esse trauma direto gera uma força de cisalhamento que pode romper ligamentos da articulação acromioclavicular ou causar contusões ósseas profundas que demoram semanas para parar de doer.[1]
Essa pancada seca comprime as estruturas moles, como as bursas e os tendões do manguito rotador, contra os ossos. É comum você sentir uma dor aguda imediata, que pode irradiar para o pescoço ou descer pelo braço.[1] O corpo reage instantaneamente criando um espasmo muscular protetor.[1] Toda a musculatura em volta do pescoço e da escápula trava para evitar que você mexa o braço e cause mais danos.[1] É por isso que, muitas vezes, a dor muscular no dia seguinte é pior do que a dor da pancada em si.[1] Entender que esse impacto direto é um “amassamento” das estruturas nos ajuda a guiar o tratamento inicial para descomprimir a região.[1]
Além da lesão tecidual, existe o impacto na própria cápsula articular.[1] O ombro é mantido no lugar por uma pressão negativa, como um vácuo.[1] Uma pancada forte pode perturbar essa pressão e estirar a cápsula.[1] Mesmo que não ocorra uma luxação completa, onde o osso sai do lugar, pode haver uma subluxação.[1] Isso deixa a articulação frouxa e instável.[1] Você passa a sentir que o ombro está “solto” ou que faz estalos dolorosos em certos movimentos.[1] Tratar isso exige focar não apenas na dor, mas em “apertar os parafusos” da cápsula através de fortalecimento específico.[1]
A alavanca do braço esticado
O pesadelo de qualquer fisioterapeuta é ver um goleiro cair com o braço totalmente esticado para tentar amortecer a queda.[1] Essa posição cria uma alavanca perigosa.[1] A força do impacto sobe pelo punho, passa pelo cotovelo e explode no ombro.[1] Nesse cenário, o úmero funciona como um pé de cabra, forçando a cabeça do osso para fora da cavidade glenóide.[1] É o mecanismo clássico da luxação anterior, aquela em que o ombro “sai para frente”.[1] A força é tão grande que pode arrancar o lábio da glenoide, uma estrutura cartilaginosa que serve como vedação da articulação.[1]
Quando você faz uma defesa com a mão trocada ou precisa se esticar todo para espalmar uma bola no ângulo, seu braço está em abdução e rotação externa máxima.[1] Essa é a posição de maior vulnerabilidade do ombro.[1] Se, nesse momento, a bola bate com muita violência na sua mão ou se um atacante tromba com seu braço, a alavanca forçada para trás estira os ligamentos anteriores ao limite. O tratamento aqui foca muito em treinar o seu cérebro para reconhecer esse limite e ativar os músculos freios antes que o ligamento rompa.[1]
A reabilitação desse tipo de trauma envolve muita propriocepção.[1] Precisamos ensinar o seu ombro a saber onde ele está no espaço sem que você precise olhar para ele.[1] Depois de um trauma em alavanca, os sensores de posição que ficam nos ligamentos são danificados. Se não recuperarmos isso, você vai tentar fazer a mesma defesa daqui a seis meses e o ombro vai sair de novo, porque a musculatura não vai disparar a tempo de proteger a articulação. É um trabalho de reeducação neuromuscular intenso.[1]
O desgaste repetitivo e o microtrauma
Nem todo trauma de goleiro é aquele evento dramático que para o jogo.[1] Existe o trauma silencioso, aquele que você constrói treino após treino.[1] Pense na quantidade de vezes que você arremessa a bola com a mão para ligar um contra-ataque. O movimento de arremesso exige uma desaceleração violenta do braço.[1] Quem freia esse movimento são os músculos posteriores do manguito rotador e a cápsula posterior.[1] Se você faz isso centenas de vezes por semana sem a devida compensação, começa a gerar microtraumas nessas estruturas.[1]
Essas pequenas lesões cicatrizam formando um tecido fibroso, menos elástico.[1] Com o tempo, a parte de trás do seu ombro fica rígida e encurtada.[1] Isso empurra a cabeça do úmero para frente e para cima, alterando toda a mecânica da articulação.[1] Quando você vai fazer uma defesa simples ou levantar o braço, o espaço interno diminuiu e os tendões começam a raspar no osso.[1] É a famosa síndrome do impacto.[1] Você começa a sentir uma pontada chata no ombro depois dos treinos, que vai piorando até virar uma dor constante que te impede de dormir sobre o lado afetado.[1]
O tratamento para esse trauma cumulativo é diferente do trauma agudo.[1] Aqui, precisamos “soltar” essa cápsula posterior retraída e limpar os movimentos da escápula.[1] Muitas vezes, o problema não está onde dói, mas na falta de mobilidade da sua coluna torácica ou na fraqueza dos músculos que seguram a escápula nas costas.[1] Se não corrigirmos essa base, tratar apenas o tendão inflamado é enxugar gelo.[1] Você vai melhorar por duas semanas e a dor vai voltar assim que a carga de treino aumentar.[1]
Principais Lesões que Afastam Goleiros[1][3][4]
Luxação Glenoumeral (Ombro Deslocado)
A luxação é, sem dúvida, o evento mais traumático e assustador para um goleiro.[1] A sensação de vazio na articulação, a deformidade visível e a dor excruciante marcam a memória do atleta.[1] Quando o ombro sai do lugar, ele rasga ligamentos e cápsula.[1] O tratamento conservador, sem cirurgia, é possível em alguns casos, mas exige um comprometimento absurdo com a fisioterapia. O maior risco aqui é a recidiva.[1] Se o ombro sair uma segunda vez, as chances de precisar de cirurgia sobem drasticamente, pois a estrutura óssea começa a se desgastar, criando o que chamamos de lesão de Hill-Sachs ou Bankart ósseo.
Na fase inicial pós-redução (colocar o ombro no lugar), o foco é cicatrização.[1] Você vai ficar imobilizado, mas isso não significa ficar parado. Trabalhamos punho, cotovelo e isometria leve para não deixar o músculo “morrer”. O segredo é respeitar o tempo biológico do tecido.[1] Não adianta querer pular etapas. Um ligamento frouxo é um convite para uma nova luxação na primeira queda.[1] O fortalecimento deve ser focado nos rotadores internos e externos, que formam a parede muscular que vai segurar o osso no lugar quando os ligamentos falharem.[1]
A volta ao campo após uma luxação exige testes rigorosos.[1] Você precisa ter confiança para cair sobre o braço e para bloquear bolas altas.[1] Usamos muitas perturbações externas durante os exercícios — eu empurro seu braço, uso elásticos vibratórios, te coloco em bases instáveis — tudo para simular o caos de uma partida. Só libero um goleiro meu quando vejo que ele parou de proteger o braço inconscientemente. Se você ainda hesita antes de ir na bola, ainda não está pronto.[1]
Lesões do Manguito Rotador
O manguito rotador é o grupo de quatro músculos que abraça a cabeça do úmero.[1][5] Eles são os principais estabilizadores dinâmicos do seu ombro.[1] Para um goleiro, lesões aqui podem ser traumáticas (pancada ou queda) ou degenerativas (uso excessivo).[1] A ruptura parcial é muito comum.[1] Você sente uma fraqueza súbita e uma dor que piora à noite. O braço parece pesado e levantar ele acima da cabeça vira um martírio. A boa notícia é que o manguito é muito vascularizado e responde bem ao tratamento conservador na maioria das rupturas parciais.[1]
O tratamento foca em restaurar o equilíbrio de forças.[1] Geralmente, o goleiro tem o peitoral e o deltoide muito fortes, que puxam o ombro para frente e para cima, e o manguito fraco, que não consegue manter a cabeça do úmero centralizada.[1] Precisamos fortalecer esses músculos profundos com exercícios de baixa carga e alta repetição.[1] Não é sobre levantar peso bruto, é sobre controle.[1] Usamos elásticos de resistência leve para “acordar” esses músculos sem irritar ainda mais o tendão machucado.[1]
A dor no manguito costuma ser teimosa.[1] Ela melhora, depois volta se você exagera.[1] Por isso, a gestão de carga é fundamental.[1][6] Você não pode sair da fisioterapia e ir direto treinar 100 chutes a gol.[1] A progressão tem que ser lenta. Primeiro movimentos abaixo da linha do ombro, depois acima, depois com velocidade e, por último, com impacto. Se pularmos essa escada, a tendinite vira crônica, o tendão calcifica e a mobilidade fica restrita permanentemente.
Disjunção Acromioclavicular (AC)
Essa é a lesão clássica da queda sobre a “ponta” do ombro.[1] A clavícula se separa da escápula, criando muitas vezes um “degrau” visível na parte superior do ombro.[1] Dói muito para cruzar o braço na frente do corpo ou para dormir de lado.[1] Diferente da luxação glenoumeral, o ombro não sai do lugar, mas a conexão entre o braço e o tronco fica instável.[1] Para o goleiro, isso é terrível porque afeta diretamente a capacidade de aterrissagem lateral.[1]
O tratamento da AC depende do grau da separação.[1] Nos graus leves, o foco é controle de dor e manutenção da mobilidade.[1] O uso de “taping” (bandagens funcionais) ajuda muito a estabilizar a clavícula e dar conforto para iniciar os exercícios.[1] Evitamos movimentos que comprimem a articulação ou que puxam o braço para baixo carregando peso.[1] O fortalecimento do trapézio e do deltoide ajuda a suspender o braço e aliviar a tensão nos ligamentos que foram estirados.[1]
A reabilitação final da AC envolve muito treino de queda adaptada.[1] Precisamos reensinar você a cair sem impactar diretamente a ponta do ombro até que a dor suma completamente. Muitas vezes, fica uma deformidade estética, o ossinho saltado, mas funcionalmente você pode voltar a ser 100%. O critério de alta é conseguir fazer flexões de braço e suportar carga direta sobre o ombro sem dor aguda.[1] É uma lesão chata, dolorida, mas que raramente aposenta um goleiro se tratada corretamente.[7]
O Processo de Reabilitação Física[1][2][8]
Fase 1: Controle e Ativação
No início, seu ombro está gritando.[1] Inflamação, dor e medo.[1] O objetivo aqui não é ganhar força, é desligar os sistemas de alarme do seu corpo.[1] Usamos recursos para dor, mas o principal é o movimento suave.[1] Exercícios pendulares, onde você deixa o braço solto balançando com a gravidade, ajudam a nutrir a articulação sem estresse.[1] Começamos com isometria: você faz força para empurrar uma parede sem mover o braço.[1] Isso ativa o músculo sem moer a articulação inflamada.[1]
É crucial manter o resto do corpo ativo.[1] Você pode treinar pernas, core e cardio (bicicleta) enquanto o ombro recupera.[1] Isso mantém seu metabolismo alto e ajuda na circulação, favorecendo a cura.[1] Para o ombro, focamos muito na escápula.[1] Se a base (escápula) estiver firme, o braço sofre menos.[1] Exercícios de retração e protração escapular são a base de tudo.[1] Parece bobo mexer só o “ossinho das costas”, mas é isso que vai salvar seu ombro lá na frente.[1]
Aos poucos, introduzimos movimentos assistidos.[1] Eu levanto seu braço, ou você usa um bastão para ajudar o braço ruim a subir. A regra é: respeito a dor. Desconforto é aceitável, dor aguda não.[1] Estamos ensinando seu sistema nervoso que mexer o ombro é seguro.[1] Se forçarmos demais agora, seu cérebro bloqueia o movimento e desenvolvemos rigidez.[1]
Fase 2: Ganho de Força e Estabilidade
Quando a dor cede e a amplitude de movimento está quase normal, entramos na fase de construção.[1] Agora é hora de colocar carga. Começamos com elásticos (Therabands) de diferentes resistências, trabalhando rotações em vários ângulos.[1] O foco é a resistência muscular.[1] O goleiro precisa de um ombro que aguente 90 minutos de jogo, não apenas uma defesa explosiva. Séries longas, controle excêntrico (segurar a volta do movimento) são essenciais para fortalecer os tendões.[1]
Introduzimos os exercícios em cadeia cinética fechada. Isso significa apoiar a mão na parede, no chão ou em uma bola e mover o corpo.[1] A “prancha” é o exemplo clássico, mas fazemos variações: prancha instável, prancha com um braço só, caminhada com as mãos. Isso comprime a articulação de forma saudável, estimulando os receptores sensoriais e aumentando a estabilidade articular.[1] Para um goleiro, suportar o peso do corpo sobre as mãos é pré-requisito básico.[1]
Nesta fase, também começamos a integrar o movimento do ombro com o tronco e o quadril.[1] O goleiro nunca usa o ombro isolado.[1] Um arremesso começa no pé, passa pelo quadril, tronco e termina na mão. Fazemos exercícios usando medicine balls leves, simulando o gesto esportivo, mas com controle total. Se houver falha no movimento ou compensação (ombro subindo na orelha), voltamos um passo.[1] A qualidade do movimento é inegociável.[1]
Fase 3: Potência e Retorno ao Gesto Esportivo
Aqui a fisioterapia vira treino.[1] O ambiente deixa de ser clínico e passa a ser funcional.[1] Usamos pliometria: arremessar e receber bolas com peso, fazer flexões com palmas, elásticos de alta tensão com movimentos explosivos. O ombro precisa aprender a absorver impacto e gerar força rapidamente.[1] Treinamos a desaceleração do braço, vital para evitar lesões no manguito após lançamentos.[1]
Introduzimos o gesto específico do goleiro. Defesas baixas, médias e altas, inicialmente com bolas de espuma, depois com bolas de futebol. O foco é a técnica de aterrissagem. Corrigimos vícios posturais que podem ter causado a lesão.[1] Se você cai errado, vamos repetir o movimento de queda em câmera lenta, em colchões macios, até reprogramar seu cérebro.[1] A intensidade sobe gradativamente até chegar à velocidade real de jogo.[1]
A avaliação final envolve lançar você em situações imprevisíveis. Chutes desviados, bolas molhadas, contato físico com bonecos ou parceiros. O ombro precisa reagir automaticamente.[1] Se você pensa “cuidado com o ombro” antes de ir na bola, não está pronto. A confiança física e mental precisam estar alinhadas.[1] Só te dou alta quando vejo o brilho no olho de quem quer pegar a bola, e não o medo de quem quer proteger o braço.
Biomecânica Específica do Goleiro[1][3]
A técnica da queda lateral e o rolamento
Muitas lesões acontecem porque o goleiro “prega” no chão em vez de deslizar.[1] A biomecânica correta da queda lateral envolve um ataque à bola onde o corpo se projeta e, ao tocar o solo, realiza um movimento de dissipação de energia.[1] O contato deve ser progressivo: tornozelo, lateral da perna, quadril, lateral do tronco e, por último, o braço deslizando (não batendo). Se você bate o ombro seco, a energia não tem para onde ir e quebra as estruturas.[1]
Trabalhamos muito a mobilidade de quadril na fisioterapia. Se seu quadril é duro, você não consegue descer o centro de gravidade suavemente e acaba despencando sobre o ombro.[1] Ensinamos o “rolamento” de judô adaptado para o goleiro. Transformar a energia da queda em movimento rotacional salva ombros.[1] Você precisa ser fluido, não rígido.[1] Um goleiro rígido quebra; um goleiro fluido amortece.[1]
Corrigir a posição do cotovelo na queda também é vital.[1] O cotovelo deve estar sempre à frente do tronco ou alinhado, nunca preso embaixo do corpo.[1] Cair com o cotovelo preso nas costelas projeta a cabeça do úmero para fora.[1] Treinamos essa consciência corporal exaustivamente, primeiro sentados, depois de joelhos, até chegar à posição em pé.
O arremesso com a mão e a cadeia cinética
O lançamento do goleiro é um movimento violento para o ombro se feito apenas com o braço.[1] A força deve vir das pernas e da rotação do tronco.[1] O ombro é apenas o transmissor final dessa energia.[1] Se você tem um “core” fraco ou pouca rotação torácica, vai sobrecarregar a articulação glenoumeral para conseguir jogar a bola longe.[1] Isso gera tendinites crônicas e lesões labrais (SLAP).[1][5]
Analisamos sua técnica de arremesso em vídeo. Muitas vezes, vemos o cotovelo “caindo” abaixo da linha do ombro durante a fase de aceleração, o que é terrível para o ligamento colateral medial do cotovelo e para o ombro.[1] Corrigimos isso fortalecendo os estabilizadores da escápula e treinando a rotação de tronco.[1] Você vai perceber que, ajustando a biomecânica, a bola vai mais longe com menos esforço no braço.
Outro ponto é o “follow-through”, ou a fase de desaceleração.[1] Depois que a bola sai da mão, o braço continua o movimento e precisa ser freado.[1] Se você trava o braço bruscamente, o estresse na parte posterior do ombro é imenso.[1] Ensinamos o corpo a continuar a rotação e dissipar a energia com um passo à frente ou girando o corpo todo, poupando os pequenos músculos do ombro dessa tarefa ingrata.[1]
O bloqueio alto e a estabilidade overhead
Sair do gol para cortar um cruzamento exige que você leve os braços acima da cabeça e suporte o impacto da bola e, às vezes, de um atacante.[1] Nessa posição de flexão máxima, o ombro está vulnerável.[1] A estabilidade depende inteiramente da musculatura, pois os ligamentos estão frouxos nessa angulação.[1] Se a escápula não girar para cima corretamente, o úmero bate no acrômio (impacto subacromial).[1]
Treinamos a “estabilidade overhead” com exercícios de sustentação de peso acima da cabeça.[1] Você segura uma bola suíça na parede, caminha segurando kettlebells invertidos (bottom-up) ou usa barras oscilatórias.[1] O objetivo é fazer com que os músculos serrátil anterior e trapézio inferior trabalhem como uma âncora, segurando a escápula no lugar enquanto o braço se move.[1]
Além disso, simulamos o impacto no ar.[1] Você salta e eu empurro seus braços ou jogo uma medicine ball pesada para você segurar no ponto mais alto. Isso prepara a articulação para o choque real do jogo.[1] Se você não tiver essa estabilidade dinâmica, qualquer disputa aérea vira um risco de subluxação ou de dor crônica por pinçamento.
O Aspecto Mental e a Confiança[1]
O medo da recidiva (Cinesiofobia)
Talvez o maior desafio não seja o tecido, mas a mente.[1] Depois de um trauma sério, seu cérebro cria um bloqueio.[1] Chamamos isso de cinesiofobia: o medo do movimento.[1] Inconscientemente, você começa a evitar o lado lesionado, muda sua técnica de queda ou hesita milissegundos antes de ir na bola. No gol, hesitação é gol do adversário ou uma nova lesão por má execução técnica.[1]
Abordamos isso com exposição gradual. Não vou te pedir para pular no canto superior logo de cara. Começamos com quedas de joelhos em colchões super macios.[1] Você vê que não doeu. Seu cérebro registra: “seguro”.[1] Aumentamos a altura, tiramos o colchão, aumentamos a velocidade. Cada repetição sem dor é uma vitória neurológica que reconstrói sua autoimagem de atleta saudável.[1]
Conversamos muito durante as sessões. Você precisa verbalizar o que sente. “Tenho medo de esticar o braço assim”. Ótimo, sabendo disso, vamos trabalhar exatamente esse ângulo de forma controlada até o medo sumir. A fisioterapia também é psicologia aplicada.[1] Se você não confiar no seu ombro, ninguém mais vai confiar em você no gol.[1]
Construindo confiança progressiva
A confiança é um músculo que se treina.[1] Usamos metas curtas e alcançáveis. Hoje a meta é segurar uma prancha por 1 minuto. Amanhã é fazer 10 arremessos sem dor. Semana que vem é defender um chute rasteiro. Celebrar essas pequenas vitórias libera dopamina e reduz a ansiedade do retorno.[1] O goleiro precisa se sentir capaz a cada dia.
A introdução da bola é um marco.[1] O contato com o instrumento de trabalho muda sua chave mental.[1] Passamos de “paciente” para “atleta em recuperação”. Usamos bolas mais leves no início, depois bolas oficiais com pressão menor, até chegar na bola de jogo dura e rápida.[1] Essa progressão sensorial é vital para você recalibrar a força da pegada e a firmeza do ombro no impacto.[1]
O feedback visual é poderoso.[1] Filmar seus movimentos e te mostrar: “Olha aqui, seu ombro está estável, sua técnica está perfeita, não tem porque ter medo”. Ver a si mesmo executando bem o movimento ajuda a quebrar a crença de fragilidade.[1] Você passa a acreditar nos seus olhos e não apenas na memória da dor antiga.[1]
O papel da comunicação Goleiro-Fisio
Nossa relação tem que ser de total transparência.[1] Você não pode esconder dor para tentar voltar mais cedo, e eu não posso te prometer prazos mágicos. O “sentir” do goleiro é muito específico. Só você sabe a vibração que dá no ombro quando espalma uma bola forte.[1] Eu preciso desse feedback detalhado para ajustar a terapia.
Estabelecemos um código de sinais para o treino. Se sentir uma pontada, fazemos um sinal e adaptamos na hora.[1] Isso te dá controle sobre o processo. Você não é uma vítima do tratamento, é participante ativo.[1] Saber que pode parar se doer te dá coragem para tentar ir um pouco além.
Preparar você para voltar ao treinador de goleiros é minha missão final. Eu converso com ele, explico suas limitações atuais e o que precisa ser trabalhado. Essa transição não pode ser abrupta.[1] Você sai da minha mão, passa para um treino híbrido (fisio + campo) e só depois vai para o treino full. Esse trabalho em equipe blinda sua mente e seu corpo para o retorno definitivo.[1]
Terapias Aplicadas e Recursos[1][2]
Para fechar, quero falar sobre as ferramentas que usamos para acelerar tudo isso que conversamos. A terapia manual é indispensável.[1] Usamos liberação miofascial para soltar aquela musculatura travada do pescoço e da escápula que sempre acompanha a lesão de ombro.[1] Mobilizações articulares, onde eu movimento suavemente seu osso dentro da articulação, ajudam a ganhar amplitude e lubrificar a cartilagem, reduzindo a dor sem remédios.
A eletrotermofototerapia entra como coadjuvante.[1] O laser de alta potência ajuda muito na cicatrização dos tendões e ligamentos.[1] O ultrassom pode ajudar a organizar as fibras de colágeno na fase aguda.[1] E o gelo (crioterapia) continua sendo seu melhor amigo logo após os treinos intensos para controlar a inflamação reativa.[1] Mas lembre-se: a máquina não cura, ela facilita.[1] Quem cura é o movimento correto.[1]
Por fim, a cinesioterapia funcional (os exercícios) é o prato principal.[1] Usamos kettlebells para estabilidade, elásticos para força, bolas suíças para propriocepção e o próprio gramado como ferramenta terapêutica. A reabilitação de um goleiro não termina quando a dor some, termina quando você faz aquela defesa impossível, cai no chão, levanta rápido e nem lembra qual ombro foi machucado.[1] É aí que sabemos que o trabalho foi bem feito.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”