Você já parou para pensar que sua raquete é uma extensão do seu próprio corpo dentro da quadra? Como fisioterapeuta, vejo muitos atletas cuidarem meticulosamente de seus ombros e cotovelos, mas negligenciarem completamente a ferramenta que transmite toda a força do golpe. Uma raquete mal conservada não é apenas um prejuízo financeiro.[2] Ela altera a vibração do impacto, muda o balanço do peso e, acredite, pode ser a causa silenciosa daquela dorzinha chata no seu punho.
Cuidar do seu equipamento é, antes de tudo, um ato de prevenção de lesões. Materiais como carbono, kevlar e a espuma EVA possuem propriedades físicas que se degradam. Quando isso acontece, a absorção de impacto diminui e quem paga a conta são suas articulações. Vamos tratar sua raquete com o mesmo carinho que tratamos sua recuperação muscular. Preparei um guia completo, sem “achismos”, focado na saúde do seu equipamento e na sua performance.
A Higiene é Saúde: O Protocolo de Limpeza Correto
A limpeza da raquete deve ser encarada como o banho pós-treino. É inegociável. Muitos jogadores terminam a partida, jogam a raquete cheia de areia na bolsa e só a veem novamente no próximo fim de semana. Esse hábito cria um ambiente corrosivo que degrada o verniz e as fibras externas.
A técnica do pano úmido: menos é mais
Esqueça os produtos químicos pesados, álcool ou detergentes agressivos. A química da sua raquete é sensível.[2][8] O verniz que protege o carbono pode reagir mal a solventes, tornando-se opaco ou descascando precocemente. A regra de ouro aqui é a simplicidade fisiológica: água.
Utilize um pano de microfibra macio, levemente umedecido apenas com água doce. Passe suavemente por toda a superfície, incluindo as bordas e o coração da raquete. Não há necessidade de esfregar com força. A intenção é remover o suor e a gordura das mãos que ficam impregnados na superfície. Se a sujeira estiver muito resistente, uma gota mínima de sabão neutro diluída em muita água é o máximo de intervenção química permitida.
Removendo o inimigo invisível: a areia e o sal
A areia da praia não é apenas sujeira; ela é um agente abrasivo poderoso. Quando misturada com o sal da maresia, ela se torna corrosiva para os componentes metálicos e para a própria resina da raquete. Grãos de areia presos nos furos da raquete funcionam como pequenas lixas internas cada vez que você rebate a bola.
Após o pano úmido, dedique atenção especial aos furos. Use um cotonete ou uma escova de dentes com cerdas ultra macias para remover gentilmente os grãos alojados. O sal é higroscópico, ou seja, ele atrai umidade. Se você não remover o sal da superfície, sua raquete estará constantemente úmida, mesmo guardada na capa. Isso acelera o processo de oxidação e “apodrecimento” das camadas internas caso haja alguma microfissura.
Secagem pós-jogo: evitando a “pneumonia” do material[3]
Jamais guarde sua raquete úmida. O material interno, geralmente EVA (Etileno Acetato de Vinila), é uma espuma. Embora as raquetes sejam seladas, microfissuras imperceptíveis ou a própria porosidade natural do cabo podem permitir a entrada de umidade. Se essa umidade ficar presa dentro de uma capa fechada, criamos uma estufa perfeita para fungos e degradação do material.
Seque a raquete imediatamente após a limpeza com um pano seco e macio. Deixe-a “respirar” em um local ventilado e à sombra por alguns minutos antes de colocá-la na capa. Evite a exposição direta ao sol forte para secar, pois o calor excessivo é o maior inimigo da espuma EVA. Pense nisso como deixar a pele respirar após um curativo; o material precisa estabilizar sua temperatura e umidade antes de ser confinado.
O “Repouso” do Equipamento: Armazenamento Inteligente
O modo como você guarda sua raquete quando não está jogando define a vida útil dela.[2][3] O “repouso” do equipamento é tão vital quanto o seu descanso noturno para a recuperação muscular. Erros de armazenamento são responsáveis por grande parte das deformações estruturais que vejo em raquetes “novas” que perderam a potência.
Choque térmico e EVA: por que o carro é o vilão
O erro número um dos praticantes de beach tennis é deixar a raquete no porta-malas do carro. O interior de um veículo sob o sol pode atingir temperaturas superiores a 60°C facilmente. A espuma EVA no núcleo da sua raquete é um polímero que responde ao calor expandindo-se.
Quando essa espuma superaquece, ela perde suas propriedades elásticas — chamamos isso de histerese elástica no mundo dos materiais. Ela “cozinha” por dentro. Ao esfriar, ela não volta ao estado original com a mesma resiliência. O resultado? Uma raquete “morta”, que exige muito mais força do seu braço para fazer a bola andar. Isso é um convite direto para lesões no ombro e cotovelo. Trate sua raquete como se fosse um medicamento termolábil: mantenha longe do calor excessivo.[8]
A capa térmica: luxo ou necessidade fisiológica?
Muitos consideram a capa térmica um acessório estético, mas ela é um Equipamento de Proteção Individual (EPI) da sua raquete. A variação brusca de temperatura é agressiva para as fibras de carbono e vidro, que possuem coeficientes de dilatação diferentes da espuma interna. Essa diferença pode causar descolamentos internos invisíveis a olho nu.
A capa térmica atua como um isolante, mantendo a temperatura da raquete mais estável e protegendo-a dos picos de calor e frio. Além disso, ela oferece proteção mecânica contra batidas durante o transporte. Se você investiu em uma raquete de carbono de alta performance, a capa térmica não é opcional; é mandatória para manter a integridade da “musculatura” do seu equipamento.
O ambiente ideal em casa: longe da umidade[7]
Ao chegar em casa, não jogue a raqueteira em qualquer canto úmido ou abafado. Evite despensas sem ventilação ou armários próximos a paredes com infiltração. A umidade excessiva pode permear o cabo, que muitas vezes é feito de madeira ou materiais compostos mais porosos, e subir para a estrutura da raquete.
O local ideal é seco, ventilado e com temperatura amena. Se você mora em cidade litorânea com muita maresia, manter a raquete dentro da capa térmica (desde que a raquete esteja seca) dentro de um armário no quarto é uma boa estratégia. Evite deixá-la apoiada de forma que exerça pressão sobre a face da raquete.[8] Deixe-a na horizontal ou pendurada pelo cabo, garantindo que a estrutura não esteja sob tensão constante durante o repouso.
A Anatomia do Cabo: Onde Sua Mão Encontra a Máquina
O cabo é a interface de controle. É ali que a propriocepção acontece — a sua capacidade de sentir onde a raquete está no espaço. Um cabo mal cuidado interfere na pega, força você a apertar mais a mão do que o necessário e gera tensão excessiva nos flexores do punho e antebraço.
Overgrip saturado: o terreno fértil para bactérias e lesões
O overgrip não é eterno. Vejo jogadores usando o mesmo overgrip até ele desintegrar ou virar uma superfície lisa e preta de sujeira. Isso é anti-higiênico e biomecanicamente perigoso. Um grip liso exige que você faça muito mais força de preensão para a raquete não girar na mão ao impactar a bola.
Essa força extra contínua gera uma tensão isométrica desnecessária, o caminho mais rápido para a epicondylitis (cotovelo de tenista). Além disso, o acúmulo de suor, pele morta e areia cria um biofilme de bactérias e fungos. Troque o overgrip assim que perceber perda de aderência ou mudança significativa na coloração. Para quem joga 3 vezes na semana, uma troca a cada 10 ou 15 dias é uma média saudável.
Cushion Grip: cuidando da “estrutura óssea” do cabo
Abaixo do overgrip existe o cushion grip, a fita original que vem colada no cabo. Ela é responsável por grande parte da absorção de vibração que chegaria à sua mão. Muitos jogadores esquecem que ela também se desgasta e perde o “fofo”, a capacidade de amortecimento.
O suor excessivo pode atravessar o overgrip e encharcar o cushion grip, apodrecendo-o com o tempo. Verifique o estado dele periodicamente ao trocar o overgrip.[2][6][9] Se estiver muito fino, duro ou com cheiro ruim, é hora de trocar.[9] Um cushion grip novo restaura o conforto e protege suas articulações das microvibrações nocivas de cada batida.
O pH do suor: como suas mãos podem corroer a raquete
Nosso suor é ácido e contém sais que são corrosivos a longo prazo. Existem jogadores com suor mais ácido que outros, o que acelera a degradação dos materiais do cabo. Se você transpira muito nas mãos, considere usar munhequeiras.
A munhequeira impede que o suor do braço escorra para a mão e para o cabo da raquete. Isso mantém o grip seco por mais tempo e protege a estrutura do cabo contra a saturação de umidade ácida. É uma barreira física simples que prolonga a vida útil de todo o sistema de empunhadura e melhora sua firmeza na pegada.
Diagnóstico Por Imagem e Toque: Identificando Lesões na Raquete
Assim como avaliamos um paciente, você deve aprender a avaliar a saúde da sua raquete. Problemas estruturais nem sempre são visíveis como uma fratura exposta. Muitas vezes, o dano é interno e silencioso, prejudicando seu jogo sem você perceber.
A percussão clínica: ouvindo o som da quebra interna
Fisioterapeutas usam percussão para avaliar pulmões; você usará para avaliar o EVA. Com a palma da mão, dê batidas secas em diferentes zonas da face da raquete. O som deve ser uniforme e “seco”. Se você ouvir um som de chocalho, vibração estranha ou um som “oco” diferente em uma área específica, pode haver um descolamento interno.
O descolamento entre a espuma EVA e a placa de carbono cria zonas mortas onde a bola não anda. Jogar com uma raquete assim força você a compensar na batida, sobrecarregando o ombro. Se identificar esse som, infelizmente, é o diagnóstico de uma “lesão” grave no equipamento, muitas vezes irreversível.
Microfissuras no carbono: o exame visual detalhado
O carbono é rígido, mas não é inquebrável. Sob boa iluminação, inspecione a face e, principalmente, o arco da raquete em busca de linhas finas que parecem fios de cabelo. Muitas vezes confundidas com riscos na pintura, as microfissuras são rachaduras estruturais em estágio inicial.
Pressione levemente a área com o polegar. Se a fissura “abrir” ou se mover, a integridade estrutural está comprometida. Uma microfissura tende a crescer com a vibração dos golpes. Identificá-la cedo permite que você se planeje para a troca do equipamento antes que ele quebre no meio de um torneio importante, deixando você na mão.
Perda de memória elástica: quando a raquete “cansa”
Materiais sofrem fadiga.[3] Mesmo sem quebras visíveis, uma raquete muito usada “cansa”. O EVA perde a capacidade de retornar rapidamente ao formato original após o impacto (efeito trampolim). O sintoma clínico aqui é a sensação de que você precisa fazer muito mais força para a bola passar da rede, ou que a raquete vibra mais do que o habitual.
Se você joga com frequência (4x na semana) há mais de um ano com a mesma raquete, é provável que ela já esteja em estágio de fadiga avançada. Comparar sua raquete com uma nova do mesmo modelo é um teste funcional excelente. Se a diferença na saída de bola for gritante, sua parceira de jogo já cumpriu sua missão e precisa de aposentadoria.
Biomecânica da Conservação: Hábitos que Previnem Traumas
A forma como você se comporta em quadra afeta diretamente a durabilidade do material. Muitos danos são causados por vícios de comportamento e falta de consciência corporal e espacial. Vamos corrigir esses movimentos.
O respeito ao solo: evitando a “fratura” por impacto
O beach tennis é jogado na areia, mas o solo sob a areia pode ser duro, e as linhas de marcação e postes são perigos reais. O hábito de apoiar a raquete no chão como bengala desgasta a cabeça da raquete. Pior ainda é o “gosto” de bater a raquete no chão após um erro — uma liberação de frustração que custa caro.
O carbono tem baixa resistência a impactos pontuais e secos contra superfícies duras. Um único golpe na canela do parceiro ou no poste da rede pode criar o ponto de fratura inicial. Use fita protetora na cabeça da raquete.[5] Ela funciona como um “capacete”, absorvendo o impacto raspado e prevenindo que a areia lixe o verniz protetor na parte superior.
A física da areia molhada: não sobrecarregue a musculatura da raquete
Jogar com bolas pesadas e molhadas em dias de chuva ou alta umidade é um teste de estresse severo para a raquete. A bola de beach tennis molhada pode pesar o dobro do normal. O impacto repetitivo de uma massa maior exige mais da absorção do EVA e da rigidez do carbono.
Evite treinos longos com bolas encharcadas. Além de destruir seu ombro pelo peso excessivo, isso acelera a fadiga do material da raquete.[3] Se for inevitável jogar nessas condições, tenha consciência de que a vida útil do seu equipamento será reduzida drasticamente. Seque a raquete com frequência durante a partida para minimizar a absorção de água pelos furos.
Transporte consciente: evitando contusões na mochila
Pode parecer bobagem, mas o transporte é uma causa frequente de danos. Jogar a raqueteira no porta-malas com outras malas pesadas por cima, ou sentar em cima da mochila no banco de espera, gera compressão. As raquetes são projetadas para resistir ao impacto da bola na face, não à compressão lateral ou torção.
Organize sua raqueteira de forma que as raquetes fiquem protegidas, sem chaves, garrafas de água ou objetos pontiagudos pressionando a face de carbono. Uma garrafa de metal solta dentro da bolsa pode, com o balanço do caminhar, bater repetidamente no mesmo ponto da raquete, causando danos estéticos e estruturais.
Cuidar da sua raquete de beach tennis é um exercício de disciplina e respeito pelo esporte. Ao adotar esses hábitos, você garante que seu equipamento responda com precisão aos seus comandos, mantendo a performance alta e, o mais importante, protegendo seu corpo de vibrações nocivas e esforços desnecessários. Uma raquete “saudável” é sinônimo de um jogador saudável e longevo no esporte.
Terapias e Cuidados para o Jogador de Beach Tennis[1][2][3][4][6][7][9][10][11]
Como falamos tanto sobre evitar lesões através do cuidado com a raquete, não posso encerrar sem abordar o cuidado com você. O Beach Tennis, apesar de lúdico, exige muito da articulação do ombro (manguito rotador), cotovelo e punho. O uso de raquetes desgastadas, grips finos demais ou pesados demais (devido à umidade) são gatilhos clássicos para patologias.
Aqui estão as principais terapias e condutas que indico no consultório para os amantes das areias:
- Liberação Miofascial: Essencial para soltar a musculatura do antebraço e trapézio. O uso excessivo da raquete cria pontos de tensão (trigger points) que encurtam o músculo e geram tendinites. A liberação manual ou com instrumentos ajuda a manter a flexibilidade do tecido.
- Fortalecimento de Manguito Rotador: Não adianta só jogar; tem que fortalecer.[2] Exercícios com elásticos focados na rotação interna e externa do ombro são a “vacina” contra dores no smash e no saque. Um ombro estável sofre menos com a vibração da raquete.
- Crioterapia (Gelo): Após jogos intensos ou se você usou uma raquete mais pesada/molhada, aplicar gelo no cotovelo ou ombro por 15 a 20 minutos ajuda a controlar a inflamação aguda natural do esforço repetitivo.
- Osteopatia e Quiropraxia: Manter a mobilidade da coluna torácica e do punho é vital. Muitas vezes a dor no cotovelo vem de uma falta de mobilidade no punho ou no ombro, forçando a articulação do meio a trabalhar dobrado. O ajuste biomecânico melhora seu gesto esportivo.
- Dry Needling (Agulhamento a Seco): Excelente para desativar pontos de tensão profundos na musculatura extensora do punho (aquela que dói no “cotovelo de tenista”). É uma técnica rápida e eficaz para alívio de dor e recuperação da função muscular.
Cuide da sua raquete para que ela cuide de você, mas nunca esqueça de fazer a manutenção da sua principal ferramenta: seu próprio corpo. Nos vemos nas quadras!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”