Como conservar e aumentar a vida útil da roupa de mergulho

Como conservar e aumentar a vida útil da roupa de mergulho

Sabe quando você chega no consultório reclamando daquele ombro travado ou daquela dorzinha na lombar depois de um mergulho longo? Muitas vezes, a gente foca só no corpo, mas esquece que o equipamento que você usa é uma extensão da sua própria pele. Como fisioterapeuta, eu vejo o neoprene não só como uma borracha, mas como uma fáscia externa que precisa ter elasticidade para não limitar seus movimentos. Se a roupa está ressecada ou rígida, seu corpo faz o dobro da força, e é aí que a lesão aparece.

Cuidar do seu wetsuit é cuidar da sua saúde física e do seu bolso. Uma roupa de mergulho de qualidade é um investimento alto e, se tratada com o carinho que você trata seus músculos depois de um treino, ela pode durar anos mantendo as propriedades térmicas e elásticas. Não existe mágica, existe rotina e compreensão de como o material reage ao ambiente.

Vou te explicar aqui, de forma bem prática e direta, como você vai garantir que seu equipamento dure muito mais. Vamos passar por tudo, desde a lavagem até como a biomecânica do seu corpo influencia no desgaste da roupa. Prepara a anotação mental, porque essas dicas vão salvar seu equipamento.

A Ciência por Trás do Neoprene e a Água Doce

A regra número um que você deve tatuar na mente é sobre a água doce. O sal do mar, quando seca, forma cristais microscópicos. Imagine esses cristais como milhares de pequenas facas afiadas dentro das tramas do tecido e nos poros da borracha. Cada vez que você se mexe com uma roupa cheia de sal seco, esses cristais cortam as fibras internas, reduzindo drasticamente a vida útil do material. A água doce não é apenas para tirar o cheiro, é para dissolver essas lâminas invisíveis.

Se você mergulha em piscina, o inimigo muda de nome mas o ataque é o mesmo. O cloro é um agente químico agressivo que ataca a composição do neoprene, acelerando o processo de degradação e perda de cor. A lavagem imediata após a saída da água é inegociável. Não espere chegar em casa se você mora longe da praia ou da piscina. Jogue uma ducha de água doce na roupa assim que sair, ainda no corpo se possível, para tirar o excesso.

O inimigo invisível chamado sal e cloro

Você precisa entender que o sal é higroscópico, ou seja, ele atrai água. Se você deixa sua roupa secar com sal, ela nunca seca completamente, mantendo uma umidade interna que favorece fungos e mau cheiro, além de manter a borracha num estado de corrosão constante. O cloro, por sua vez, ataca a cola que une as partes do neoprene. Com o tempo, você vai notar que as costuras começam a abrir ou o tecido começa a esfarelar. Isso é o resultado químico da preguiça de lavar a roupa imediatamente.

A remoção desses agentes não acontece apenas passando uma água rápida. É necessário garantir que a água doce penetre nas fibras. O ideal é que você tenha um recipiente grande ou um tanque onde possa mergulhar a roupa. O jato do chuveiro ajuda, mas a imersão garante que a água dilua o sal que está entranhado nas partes mais espessas da borracha, como nas áreas do peito e das costas.

Lembre-se também da areia e de outros detritos. Eles funcionam como uma lixa. Se você não remover bem a areia, ela vai ficar roçando entre sua pele e o neoprene na próxima vez que você usar. Isso causa assaduras em você e desgaste por abrasão no tecido interno da roupa (o revestimento de nylon ou plush). Enxague com abundância, virando a roupa do avesso e de volta ao normal várias vezes.

A temperatura ideal da água para higienização

Muitos clientes me perguntam se podem lavar a roupa no banho quente. A resposta é um sonoro não. O calor é um dos maiores inimigos da elasticidade. A água quente relaxa as fibras do tecido sintético e pode amolecer a cola das vedações. Quando a roupa esfria novamente, ela pode não retornar à sua tensão original, perdendo aquele ajuste perfeito que chamamos de “fit”.

Use sempre água fria ou em temperatura ambiente. Se estiver num dia muito frio de inverno, a água morna (aquela que não agride sua pele sensível) é o limite máximo aceitável, mas evite se puder. O neoprene é feito para isolar termicamente, mas ele não foi projetado para ser cozido. A exposição frequente a altas temperaturas vai deixar a borracha quebradiça precocemente.

Pense no neoprene como se fosse um ligamento do seu corpo. Se você aquece demais um tecido biológico, ele muda suas propriedades colágenas. Com a borracha sintética é similar. Mantenha a água fresca para preservar a integridade estrutural das bolhas de nitrogênio que existem dentro do neoprene e que são responsáveis pelo isolamento térmico.

A técnica de imersão prolongada

Para uma limpeza profunda, principalmente se você fez vários mergulhos na semana ou aquela viagem de surf intensa, a imersão é a chave. Encha um tanque com água fria e deixe a roupa de molho por cerca de 15 a 20 minutos. Não precisa deixar de um dia para o outro, pois a água estagnada também pode gerar odores se ficar muito tempo.

Durante essa imersão, faça movimentos de compressão com as mãos, como se estivesse massageando a roupa. Isso ajuda a bombear a água doce para dentro e a água salgada para fora. É uma drenagem linfática no seu equipamento. Você vai ver que a água do tanque vai ficar turva e salgada. Se necessário, troque a água e repita o processo até que a água saia limpa.

Evite esfregar com força ou usar escovas duras. O tecido externo que reveste o neoprene costuma ser sensível à abrasão mecânica. O atrito das mãos é suficiente para soltar a sujeira e o sal. Trate a roupa com gentileza, lembrando que ela é o que te mantém aquecido e protegido.

O Processo de Secagem e a Gravidade

Depois de lavar, a forma como você seca define se a roupa vai durar dois anos ou cinco. A gravidade é implacável. O neoprene molhado pesa muito mais do que seco. Se você pendurar de qualquer jeito, o peso da água vai esticar as fibras para baixo. O resultado é uma roupa que fica comprida, com os ombros esgarçados e o pescoço frouxo, permitindo a entrada de água fria no próximo mergulho.

A paciência na secagem é fundamental. Você não pode acelerar esse processo com secadoras de roupa, aquecedores ou secadores de cabelo. Qualquer fonte de calor direta vai derreter as fibras sintéticas e ressecar a borracha instantaneamente. A secagem deve ser natural, permitindo que a água evapore e escorra no tempo dela.

Por que o sol é o câncer da borracha

Nunca, em hipótese alguma, seque sua roupa de mergulho sob a luz direta do sol. Os raios ultravioleta (UV) são devastadores para o neoprene. Eles quebram as ligações químicas da borracha, fazendo com que ela perca a elasticidade e comece a rachar. Sabe aquela roupa velha que parece um papelão duro e craquelado? Foi vítima do sol.

O sol também desbota o tecido e enfraquece as costuras. Procure sempre um local à sombra e bem ventilado. A circulação de ar é mais importante que o calor para a secagem. Um local com brisa constante vai secar sua roupa de forma eficiente sem agredir o material. Se você não tem uma área externa com sombra, seque dentro de casa, em uma área de serviço ventilada ou até no banheiro com a porta aberta.

Pense na sua pele. Se você ficar no sol sem proteção, você queima e envelhece precocemente. O neoprene não tem regeneração celular como a gente. O dano causado pelo UV é cumulativo e irreversível. Proteja seu equipamento da radiação solar sempre que ele não estiver em uso na água.

A importância de secar pelo avesso primeiro

Essa dica é de ouro e tem dois motivos. Primeiro, higiene e saúde da pele. O lado de dentro é o que fica em contato com seu corpo, acumulando pele morta, suor e bactérias. Secar o avesso primeiro garante que essa parte fique livre de umidade mais rápido, evitando a proliferação de fungos que podem causar micoses e dermatites.

Segundo, se por acidente algum raio de sol atingir a roupa, é melhor que atinja o tecido interno do que a borracha externa lisa (skin) que é mais sensível. Além disso, se você precisar usar a roupa novamente no dia seguinte e ela ainda estiver um pouco úmida, é muito mais agradável vestir uma roupa seca por dentro e úmida por fora do que o contrário.

Vire a roupa do avesso logo após a lavagem. Deixe secar até que o toque esteja seco. Depois, desvire para secar a parte externa. Esse rodízio garante uma secagem uniforme e previne aquele cheiro de cachorro molhado que ninguém suporta dentro do barco ou do carro.

O posicionamento correto para evitar deformação

Não use pregadores de roupa nos ombros ou nas extremidades. A pressão localizada marca o neoprene permanentemente e cria pontos de fragilidade. A melhor maneira de secar é dobrando a roupa ao meio na cintura, passando-a pela barra de um cabide grosso ou sobre um varal de tubo grosso. Imagine como se fosse uma calça social no cabide.

Isso distribui o peso igualmente entre a parte superior e inferior. Se você pendurar pelos ombros com a roupa encharcada, o peso das pernas vai esticar o material do tronco, alterando a anatomia da peça. Como fisio, eu sei a importância da anatomia correta. Se a roupa deforma, ela muda a biomecânica do seu movimento.

Evite varais de arame fino, pois eles cortam a borracha como uma faca cega devido ao peso. Se tiver apenas varal fino, coloque uma toalha ou um tubo de espuma (daqueles de macarrão de piscina) sobre o fio para aumentar a superfície de contato e evitar vincos profundos no meio da roupa.

Armazenamento Inteligente para Manter a Elasticidade

Guardar a roupa corretamente é tão importante quanto lavar. Muitos mergulhadores jogam a roupa embolada num canto da garagem e só pegam no próximo verão. Quando vão vestir, a roupa está toda marcada, dura e com cheiro ruim. O neoprene tem memória. Se você deixá-lo dobrado ou amassado numa posição por muito tempo, ele vai assumir aquela forma e perder a capacidade de voltar ao normal naquela área.

O local de armazenamento deve ser fresco e seco. Garagens muito quentes ou armários úmidos não são ideais. O calor excessivo do ambiente, mesmo sem sol direto, pode acelerar a degradação da borracha.

A escolha do cabide anatômico

Invista em um cabide largo, específico para roupas de mergulho. Eles têm as hastes bem grossas e largas, simulando o ombro humano. Isso dá suporte à estrutura da roupa sem criar pontos de pressão pontuais. Se não quiser gastar com um cabide específico, você pode adaptar um cabide de plástico robusto colando espumas nas pontas ou juntando dois ou três cabides com fita adesiva para criar volume.

Nunca use cabides de arame finos, daqueles de lavanderia. Eles enferrujam, mancham a roupa e deformam o ombro de uma maneira que estraga o caimento da peça permanentemente. Lembre-se, a roupa deve repousar, não ficar pendurada sob tensão.

Se você tiver espaço, a melhor opção absoluta é guardar a roupa estendida horizontalmente, como embaixo de uma cama (se for um local limpo e arejado), mas sabemos que isso é raro. O cabide largo é a solução mais prática e eficiente para a maioria das pessoas.

O perigo das dobras permanentes

Evite dobrar a roupa como se fosse uma camiseta para guardar em gavetas. As dobras comprimem as células de nitrogênio do neoprene. Com o tempo, essas células colapsam na linha da dobra, criando uma área onde o isolamento térmico é zero e a elasticidade é comprometida. É ali que a roupa vai rasgar no futuro.

Se for absolutamente necessário dobrar para viajar, tente fazer o menor número de dobras possível e evite colocar peso sobre a roupa na mala. Enrole a roupa em vez de dobrar de forma vincada. Ao chegar no destino, tire da mala e pendure imediatamente para que o material relaxe e recupere a forma.

Pense nas articulações do corpo. Se você fica muito tempo numa posição só, você sai travado. A roupa também “trava”. Evite criar vincos profundos que se tornarão cicatrizes no tecido.

O ambiente ideal longe de ozônio e umidade

Pouca gente sabe, mas motores elétricos geram ozônio, e o ozônio destrói borracha. Evite guardar sua roupa de mergulho perto da caldeira, do aquecedor a gás ou de motores elétricos de garagem. Os vapores químicos de tintas, solventes e gasolina também são prejudiciais. Uma garagem fechada com esses produtos não é o melhor lugar.

O guarda-roupa do seu quarto geralmente é o local mais seguro, desde que não tenha umidade excessiva (mofo). O mofo se alimenta de resíduos orgânicos e do próprio tecido. Se sua roupa ficar mofada, é muito difícil remover os esporos sem usar produtos químicos agressivos que danificariam ainda mais a peça. Mantenha o ambiente arejado.

Cuidados Críticos com Zíperes e Costuras

O zíper é a “coluna vertebral” da sua roupa de mergulho. Se ele trava, a roupa se torna inútil. E o zíper é o local favorito para o sal se cristalizar e travar o mecanismo. Seja de metal ou plástico, o cursor precisa correr livremente. Se você forçar um zíper travado pelo sal, vai arrancar os dentes ou quebrar o cursor, e o reparo é caro e difícil.

As costuras também são pontos de tensão. Elas unem os painéis de neoprene e garantem a vedação. Se você puxa a roupa pelas costuras, você está pedindo para elas estourarem. Sempre manuseie a roupa pegando pelo corpo do tecido, nunca puxando pelas emendas.

A corrosão salina nos cursores metálicos e plásticos

Zíperes de metal sofrem oxidação rápida em ambiente marinho. Mesmo os de plástico têm o cursor (a parte que corre) feita de uma liga metálica que pode corroer. O sal age como um cimento entre os dentes do zíper. Após cada lavagem com água doce, certifique-se de abrir e fechar o zíper algumas vezes para garantir que a água limpou todo o trilho.

Se você notar um pó branco ou esverdeado no zíper, é sinal de oxidação e acúmulo de sal. Use uma escova de dentes velha e macia com água morna para limpar delicadamente os dentes e o cursor. Não deixe esse resíduo acumular, pois ele vai soldar o zíper na posição fechada ou aberta.

Lubrificação preventiva e corretiva

Existem lubrificantes específicos para zíperes de roupas de mergulho (geralmente à base de cera ou silicone). Use-os periodicamente. Isso mantém o cursor deslizando suavemente e cria uma película protetora contra o sal e a corrosão. Aplique o produto ao longo do trilho e movimente o zíper para espalhar.

Na falta de um produto específico, parafina de vela pode ajudar em zíperes metálicos, mas evite usar óleos comuns ou vaselina à base de petróleo, pois eles podem atrair areia e sujeira, criando uma pasta abrasiva que vai desgastar o mecanismo, além de poder atacar a cola do neoprene ao redor.

Identificando o estresse nas costuras seladas

Faça inspeções regulares nas áreas de maior tensão: axilas, virilha e pescoço. Verifique se a fita de vedação interna (aquela fita preta que cobre a costura por dentro) está começando a descolar ou levantar. Se estiver, você pode consertar com cola de neoprene (cola preta específica) antes que o problema aumente.

Um pequeno descolamento vira um buraco enorme se ignorado. É como uma dorzinha muscular que vira uma lesão grave se você não trata. A manutenção preventiva com um pingo de cola na hora certa estende a vida da roupa em anos. Mantenha um tubo de cola de reparo no seu kit de mergulho.

Agentes Químicos e Biológicos que Degradam o Material

Além do sal e do sol, existem outros agentes que destroem sua roupa silenciosamente. A composição química do neoprene é complexa e reage mal a certos compostos orgânicos e sintéticos. A higiene pessoal e o cuidado com o que toca sua roupa são essenciais.

Muitos mergulhadores e surfistas têm o hábito de urinar na roupa para se aquecer. Embora pareça inofensivo e momentaneamente confortável, a urina é altamente corrosiva para as colas e vedações a longo prazo, sem falar na questão higiênica e no odor que fica impregnado e difícil de remover.

O impacto da urina na cola e no tecido

A urina contém ácido úrico e amônia. Esses compostos atacam quimicamente a estrutura da cola que mantém os painéis de neoprene unidos e as fitas de vedação. Com o tempo, a roupa de quem urina constantemente nela começa a desmanchar e as costuras se abrem “do nada”.

Além disso, a proliferação bacteriana causada pelos resíduos orgânicos da urina degrada o tecido interno. Se acontecer (e sabemos que acontece), a lavagem pós-mergulho precisa ser muito mais rigorosa, usando produtos específicos eliminadores de odor e enzimas que quebram essas moléculas orgânicas, não apenas água.

Sabões comuns versus produtos específicos

Não use sabão em pó, detergente de louça ou alvejante na sua roupa de mergulho. Esses produtos são muito agressivos, podem ressecar a borracha e deixar resíduos que irritam sua pele. O detergente remove a oleosidade natural que mantém a borracha flexível. O amaciante de roupas é proibido, pois ele entope os poros do tecido e destrói a aderência das fibras.

Use shampoos específicos para neoprene (wetsuit shampoo). Eles são formulados para remover sal, cloro e odores sem agredir o material, além de conterem agentes condicionantes que ajudam a manter a maciez da borracha. Se não tiver acesso, use um shampoo de bebê neutro bem diluído em água. É a opção “caseira” mais segura.

Óleos, protetores solares e derivados de petróleo

Evite passar protetor solar oleoso ou bronzeador nas áreas do corpo que vão ficar cobertas pela roupa. Os óleos minerais e compostos de petróleo reagem quimicamente com o neoprene sintético, fazendo-o perder a elasticidade e virar uma “chiclete” pegajoso ou endurecer.

Vaselina ou graxa para facilitar a entrada do corpo também são péssimas ideias. Se precisar de lubrificação para vestir, use condicionador de cabelo diluído em água ou produtos específicos à base de água. Mantenha sua roupa longe de gasolina ou óleo de motor no barco. O contato com esses fluidos pode causar danos irreversíveis instantâneos.

Biomecânica do Movimento e o Desgaste do Material

Como fisio, preciso que você entenda a relação entre seu corpo e o equipamento. O neoprene funciona por estiramento. Quando você rema no surf ou nada no mergulho, você estica o material. Se a roupa não estiver bem ajustada ou se o material estiver velho, esse estiramento gera uma tensão excessiva tanto na roupa quanto nas suas articulações.

Uma roupa velha e dura restringe sua Amplitude de Movimento (ADM). Para vencer a resistência da roupa, seus músculos precisam fazer mais força. Isso gera fadiga precoce e aumenta o risco de tendinites. Ao mesmo tempo, você está forçando as costuras da roupa ao limite, levando a rupturas nas áreas de maior mobilidade.

Como a restrição de movimento força o neoprene

Imagine o movimento de braçada. Você levanta o braço repetidamente. Se a axila da roupa estiver rígida ou o tamanho for pequeno demais (torso curto), cada braçada puxa todo o material da cintura para cima. Esse “cabo de guerra” constante vai estourar a costura embaixo do braço ou no pescoço.

A escolha do tamanho correto é vital. Uma roupa muito apertada não é “aerodinâmica”, ela é um limitador biomecânico. Ela vai se desgastar muito mais rápido porque está sempre operando no limite da elasticidade, sem margem para o movimento articular. Respeite as tabelas de medidas dos fabricantes.

Zonas de maior atrito e tensão durante a prática

Joelhos, cotovelos, axilas e virilha são as zonas críticas. Nos joelhos, a maioria das roupas modernas tem reforços, mas ainda assim é uma área de muito estiramento e abrasão (especialmente no surf ao subir na prancha). Evite ajoelhar em superfícies ásperas como pedras ou asfalto antes de entrar na água.

No mergulho, o atrito do colete equilibrador (BC) sobre os ombros e cintura desgasta a superfície da roupa. Certifique-se de que seu equipamento de mergulho esteja bem ajustado para não ficar “dançando” e lixando o neoprene durante o mergulho. O atrito constante em um mesmo ponto vai afinar a borracha até furar.

A relação entre tamanho incorreto e fadiga do material

Se a roupa é grande demais, formam-se dobras. A água circula excessivamente (o que esfria o corpo), e essas dobras criam pontos de atrito com a pele e de fadiga no material, pois a borracha fica dobrando e desdobrando no mesmo lugar repetidamente. Isso cria rachaduras.

Se é pequena demais, as fibras estão pré-tensionadas mesmo em repouso. Qualquer movimento adicional pode exceder o ponto de ruptura do tecido ou da costura. O equilíbrio biomecânico é ter uma roupa que pareça uma segunda pele: firme, mas que permita você agachar e levantar os braços sem sentir que está sendo estrangulado ou comprimido excessivamente.

Ergonomia no Manuseio: Vestir e Tirar sem Danificar

A maior parte dos danos nas roupas de mergulho não acontece dentro da água, mas no estacionamento, na hora de vestir e tirar. A pressa e a falta de técnica são fatais. Quando você está ansioso para entrar no mar ou doido para sair do frio e tomar banho, você puxa a roupa com força desnecessária.

A ergonomia correta de vestir envolve paciência e ajuste gradual. Não adianta puxar a roupa até a cintura se ela ainda está mal posicionada no tornozelo. A tensão se acumula e o tecido rasga onde seus dedos estão fazendo força.

A técnica correta para evitar o estiramento excessivo

Vista a roupa por etapas. Ajuste perfeitamente os tornozelos e panturrilhas antes de subir para os joelhos. Ajuste bem as coxas e a virilha antes de subir para o tronco. A roupa deve ser “rolada” ou puxada com a polpa dos dedos, distribuindo a tensão, e não puxada com as pontas dos dedos cravadas.

Evite pular ou “dançar” violentamente para a roupa entrar. Esses movimentos bruscos geram picos de tensão no material. Se estiver muito difícil de passar, pare, respire e ajuste a parte de baixo novamente. Geralmente a roupa trava em cima porque está mal vestida embaixo.

O risco das unhas e objetos pontiagudos

Unhas compridas são navalhas para o neoprene, especialmente para os tipos mais macios e elásticos (super stretch) ou com acabamento “smooth skin” (aquele emborrachado liso no peito). Um único deslize e você crava a unha, criando um rasgo em forma de meia-lua. Mantenha as unhas aparadas ou tenha extremo cuidado, usando apenas a parte interna dos dedos.

Remova anéis, pulseiras e relógios antes de vestir a roupa. Eles podem enroscar no tecido interno e desfiar a fibra ou rasgar a vedação do punho. A regra é: pele limpa e lisa para entrar na roupa.

O uso de sacolas plásticas como facilitador de deslizamento

Essa é uma dica clássica que todo fisio ou instrutor experiente conhece. Se a roupa é difícil de passar no pé ou na mão, coloque uma sacola plástica (dessas de supermercado) no pé antes de vestir. O neoprene vai deslizar sobre o plástico sem atrito nenhum.

Depois que o pé passar pela perna da roupa, você puxa a sacola para fora. Isso reduz drasticamente a força que você precisa fazer e o estresse nas costuras do tornozelo, que são áreas que costumam estourar por causa do calcanhar. Funciona para as mãos também. É física simples: reduzindo o atrito, você reduz a necessidade de força e preserva o material.

Terapias Manuais e Cuidados com o Mergulhador

Agora, falando de você, a peça mais importante desse conjunto. De nada adianta uma roupa nova se o seu “chassi” está desalinhado. A prática de esportes aquáticos exige muito da cintura escapular (ombros) e da coluna lombar. A roupa de mergulho, por adicionar uma resistência elástica ao movimento, aumenta a carga de trabalho muscular.

Liberação miofascial pós-mergulho

Depois de lavar sua roupa, cuide da sua fáscia. O uso de rolinhos de espuma (foam rollers) ou bolinhas de tênis para massagear as costas e os ombros ajuda a soltar a musculatura que ficou contraída lutando contra a pressão da água e a resistência do neoprene. Focar no músculo latíssimo do dorso (as “asas” das costas) e no trapézio é essencial para evitar aquele pescoço duro no dia seguinte.

A liberação miofascial melhora a circulação sanguínea, acelera a remoção de ácido lático e devolve a mobilidade aos tecidos, preparando você para a próxima sessão.

Prevenção de lesões no ombro e lombar

O “ombro de nadador” ou de surfista é uma patologia comum causada por uso excessivo e mecânica ruim, muitas vezes agravada por uma roupa de borracha restritiva. Exercícios de fortalecimento do manguito rotador (os pequenos músculos que estabilizam o ombro) são obrigatórios para quem usa wetsuit com frequência.

Para a lombar, o fortalecimento do core (abdômen e paravertebrais) é fundamental. A roupa de mergulho pode puxar seus ombros para frente, incentivando uma postura curvada. Você precisa ter a musculatura posterior forte para contrabalançar essa força e manter a coluna alinhada. A Osteopatia ajuda muito a reequilibrar essas tensões e manter a mobilidade torácica necessária para uma boa respiração e movimento.

Aquecimento articular antes de vestir a roupa

Nunca vista a roupa com o corpo “frio”. Faça movimentos circulares com os ombros, pescoço, quadris e tornozelos antes de começar a luta para vestir o neoprene. Isso lubrifica suas articulações (líquido sinovial) e prepara os músculos.

Um corpo aquecido tem melhor mobilidade, o que facilita o processo de vestir a roupa, exigindo menos contorcionismo e menos estiramento do material. É um ciclo virtuoso: você cuida do corpo, o corpo entra fácil na roupa, a roupa sofre menos, e você mergulha ou surfa melhor e sem dor. Cuide bem do seu equipamento, mas cuide melhor ainda de você!

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