O desejo de colocar mais anilhas na barra é o que move todo praticante de Levantamento de Peso Olímpico. Você treina duro, sua a camisa e quer ver aquele número do PR subir no quadro branco. Mas existe uma linha muito tênue entre o seu recorde pessoal e uma lesão que te tira dos treinos por meses. É aqui que eu entro. Muita gente acha que fisioterapia é lugar de gente quebrada, mas a verdade é que o fisioterapeuta é o melhor amigo da sua performance.
Vou te explicar exatamente como a gente trabalha para garantir que você levante cada vez mais peso, com uma técnica sólida e, o mais importante, sem dor. O segredo não está apenas na força bruta, mas na eficiência biomecânica do seu movimento. Se o seu corpo não funciona como uma máquina bem azeitada, alguma peça vai falhar quando a carga aumentar. Vamos mergulhar nesse universo e entender como transformar seu corpo em uma estrutura preparada para cargas altas.
A biomecânica do LPO e a cadeia cinética
Para batermos um papo sério sobre performance, precisamos entender como seu corpo se comporta debaixo da barra. O LPO é a arte de transferir força do chão para cima da cabeça da maneira mais eficiente possível. Falamos aqui de cadeia cinética fechada. A força nasce nos seus pés, passa pelas pernas, quadril, tronco e chega aos braços. Se houver qualquer vazamento de energia nesse caminho, você perde potência e sobrecarrega articulações que não foram feitas para segurar o tranco sozinhas.
Quando você inicia o primeiro puxão do Snatch ou do Clean, seus joelhos e quadril precisam trabalhar em perfeita sincronia. Se o seu glúteo não ativa na hora certa, sua lombar paga o preço. Como fisioterapeuta, analiso se a sua extensão tripla (tornozelo, joelho e quadril) está acontecendo de forma coordenada. Um atraso de milissegundos na extensão do quadril pode fazer com que a barra se afaste do seu corpo, aumentando o braço de alavanca e a tensão nos ombros.
A recepção da barra é outro momento crítico. Receber uma carga pesada num agachamento profundo exige que cada segmento da sua coluna vertebral esteja alinhado para dissipar essa força verticalmente. Se você tem uma retificação na torácica ou uma hipercifose rígida, essa força vai “quebrar” em algum ponto, geralmente na transição toracolombar ou nos punhos. O meu trabalho é garantir que essa cadeia de transmissão de força esteja livre de bloqueios.
Mobilidade articular como pilar de sustentação
Você já deve ter ouvido mil vezes que precisa alongar, mas mobilidade é diferente de flexibilidade. Flexibilidade é o quanto seu músculo estica passivamente. Mobilidade é a capacidade de controlar o movimento dentro de uma amplitude articular completa. No LPO, se você não tem mobilidade de tornozelo, especificamente na dorsiflexão, é impossível manter o tronco vertical no agachamento profundo.
A falta de mobilidade no tornozelo gera um efeito dominó desastroso. O calcanhar sai do chão, o joelho colapsa para dentro (o famoso valgo dinâmico) e o quadril roda internamente. Isso coloca uma tensão absurda no ligamento cruzado anterior e no menisco. Trabalhamos para destravar esse tornozelo, permitindo que você agache com estabilidade, mantendo o centro de gravidade da barra alinhado com o meio do pé.
Outro ponto crucial é a mobilidade torácica e de ombros. Para segurar um Jerk ou um Snatch, seus ombros precisam de uma flexão completa e rotação externa eficiente. Se a sua coluna torácica é rígida, seu ombro tem que compensar forçando a articulação além do limite fisiológico, o que leva às famosas síndromes do impacto. A fisioterapia atua liberando essa rigidez torácica para que o ombro possa trabalhar livre e estável.
Estabilidade e controle motor sob carga
Não adianta ter a mobilidade de um ginasta se você não tem força para controlar essa amplitude. É aqui que entra a estabilidade e o controle motor. O seu “core” não serve apenas para mostrar gominhos no abdômen. Ele é um cilindro de pressão que protege sua coluna. No LPO, precisamos de uma pressão intra-abdominal insana para evitar que a coluna ceda sob centenas de quilos.
Muitas lesões acontecem não por falta de força nas pernas, mas por falha na estabilidade central. Quando você recebe a barra e seu tronco oscila, você perde a trajetória ideal. O trabalho de fisioterapia envolve ensinar seu sistema nervoso a recrutar os músculos estabilizadores profundos, como o transverso do abdômen e os multífidos, antes mesmo de você tirar a barra do chão. Isso é o que chamamos de “feedforward”.
A estabilidade escapular é outro fator determinante para um overhead seguro. A escápula é a base de suporte do seu braço. Se ela não estiver “colada” e estável no gradil costal, o úmero fica solto na articulação, sambando a cada repetição. Exercícios específicos de controle escapular garantem que, quando você travar o cotovelo lá em cima, a estrutura óssea suporte a carga, poupando tendões e ligamentos.
A Avaliação Cinético-Funcional Específica para LPO
Para te ajudar a bater PRs sem se machucar, eu não posso apenas adivinhar onde está o problema. Precisamos de dados concretos. A avaliação cinético-funcional específica para o levantamento de peso é o mapa que guia nosso tratamento. Ela é muito mais detalhada do que uma avaliação física comum de academia, pois buscamos os elos fracos que só aparecem sob demanda.
Analisando o Overhead Squat
O agachamento de arremesso, ou Overhead Squat, é a ferramenta de triagem mais poderosa que temos. Eu coloco você para agachar com um bastão ou barra vazia acima da cabeça e filmo de vários ângulos. O que eu procuro aqui não é se você consegue fazer, mas como você faz. Observo se o arco plantar do seu pé desaba, se o fêmur roda internamente ou se a pelve faz uma retroversão no fundo do agachamento (o “butt wink”).
Cada um desses detalhes me conta uma história sobre seus encurtamentos musculares e bloqueios articulares. Se seus braços caem para frente, sei que provavelmente temos um problema de latíssimo do dorso encurtado ou falta de extensão torácica. Se você não consegue descer sem tirar o calcanhar do chão, o foco vai para o sóleo e gastrocnêmio. Essa análise visual minuciosa permite desenhar um plano de correção personalizado antes que você coloque carga.
Analiso também a integridade do movimento sob fadiga. Muitas vezes a técnica é perfeita na primeira repetição, mas degrada na quinta. Isso indica falta de resistência muscular localizada nos estabilizadores. Identificar em qual ponto da série sua forma quebra é crucial para ajustar o volume de treino e prevenir aquelas lesões que acontecem “do nada” no final do treino.
Testes de força isométrica e dinamometria
Não confiamos apenas no “olhômetro”. Usamos a dinamometria para medir a força bruta e a taxa de produção de força. Coloco um dinamômetro digital e peço para você fazer força máxima em rotação externa de ombro, por exemplo. Isso me dá um número exato em quilos ou Newtons. Comparar esse número com a média esperada para atletas do seu peso me diz se você tem a força de base necessária para suportar as cargas do LPO.
Testamos também a força dos extensores do quadril e dos flexores do joelho. Existe uma relação ideal de força entre quadríceps e isquiotibiais. Se o seu quadríceps é excessivamente mais forte que a parte posterior, o risco de lesão no joelho aumenta exponencialmente. O LPO é muito dominante em quadríceps, e a fisioterapia precisa identificar esse desequilíbrio para prescrever exercícios acessórios que fortaleçam a cadeia posterior.
A força de preensão manual (grip) também é testada. Pode parecer detalhe, mas a força da sua mão tem uma correlação direta com a ativação do manguito rotador no ombro. Uma pegada fraca muitas vezes resulta em um ombro instável. Medir e treinar essa força distal ajuda a garantir uma estabilidade proximal, criando uma base sólida para segurar a barra acima da cabeça.
Identificando assimetrias musculares
Ninguém é perfeitamente simétrico, mas no LPO, assimetrias grandes são perigosas. Se uma perna empurra mais que a outra, a barra sobe torta. Isso gera uma força de cisalhamento na coluna e sobrecarrega o lado mais forte, que acaba lesionando por excesso de uso, ou o lado mais fraco, que lesiona por falha mecânica. Na avaliação, usamos testes unipodais, como o salto com uma perna só ou o agachamento unilateral, para ver essas diferenças.
Verificamos também a mobilidade comparativa entre o lado direito e esquerdo. É comum encontrar um ombro com rotação interna limitada enquanto o outro está normal. Isso faz com que, na posição de overhead, um braço fique numa posição diferente do outro, torcendo o tronco para compensar. Corrigir essas assimetrias é prioridade zero. Antes de aumentar a carga total, precisamos equalizar a função dos dois lados do corpo.
Muitas vezes, essas assimetrias vêm de hábitos do dia a dia ou lesões antigas mal curadas. Aquela torção de tornozelo de cinco anos atrás que você “nem tratou” pode ser a causa de você estar jogando mais peso para a perna esquerda hoje. O meu papel é investigar esse histórico, conectar os pontos e trabalhar para trazer o equilíbrio de volta ao seu sistema musculoesquelético.
O Papel do Recovery e da Regeneração Tecidual
Você só fica mais forte quando se recupera, não enquanto treina. O treino é o estímulo catabólico, a destruição controlada do tecido. A mágica do PR acontece no descanso, quando o corpo supercompensa e constrói fibras mais fortes. A fisioterapia moderna olha para o recovery não como luxo, mas como parte essencial da planilha de treino para evitar o overtraining e lesões por esforço repetitivo.
Sono e nutrição celular
Como fisioterapeuta, preciso te perguntar sobre seu sono. Durante o sono profundo é que liberamos o hormônio do crescimento (GH), essencial para reparar os microtraumas nos tendões e músculos causados pelo LPO. Se você dorme mal, sua taxa de regeneração cai, e o tecido acumula dano. Chega um ponto em que a taxa de destruição supera a de reparo, e é aí que a tendinite crônica se instala.
A nutrição celular também entra na nossa conversa. Tecidos como fáscia e tendões precisam de hidratação adequada para deslizar. Um tecido desidratado é um tecido frágil e propenso a aderências. Oriento você sobre a importância da hidratação constante para manter a viscoelasticidade dos tecidos. Um músculo bem hidratado e nutrido responde melhor aos estímulos mecânicos e corre menos risco de estiramento.
Discutimos também o timing do descanso. Não adianta fazer sessões pesadas de LPO todos os dias sem dar tempo para o sistema articular “respirar”. A cartilagem articular não tem suprimento sanguíneo direto e demora mais para se recuperar do que o músculo. O planejamento do descanso estratégico é vital para a longevidade das suas articulações, especialmente joelhos e ombros.
Técnicas de liberação miofascial ativa
A fáscia é o tecido conectivo que envolve todos os seus músculos. Com o treino pesado, ela pode ficar densa e aderida, restringindo o movimento. A liberação miofascial que fazemos não é apenas massagem para relaxar. É uma técnica para restaurar o deslizamento entre os planos musculares. Quando soltamos a fáscia do quadríceps e da banda iliotibial, por exemplo, aliviamos a tensão que puxa a patela para fora do lugar.
Ensinamos também a auto-liberação. Você precisa saber usar o rolo de espuma e a bolinha de lacrosse nos pontos-gatilho certos. Não é para se machucar rolando em cima da dor, mas para aplicar uma pressão isquêmica que melhora a circulação local e “desliga” o excesso de tônus muscular. Isso deve fazer parte da sua rotina de aquecimento ou desaquecimento, dependendo do objetivo.
A liberação ativa, onde eu pressiono o ponto de tensão enquanto você movimenta o membro, é extremamente eficaz para ganhar amplitude funcional. Fazemos isso na panturrilha para ganhar dorsiflexão imediata antes do treino. Isso “engana” o sistema nervoso, mostrando que é seguro ir naquela amplitude, permitindo que você acesse posições melhores durante o levantamento.
A importância do sistema nervoso autônomo
Muitos atletas esquecem que a recuperação é um processo neurológico. Se você vive em estado de alerta, estressado, com o sistema simpático “no talo”, seu corpo não entra em modo de reparo. O LPO exige muito do sistema nervoso central (SNC) por causa da velocidade e coordenação dos movimentos. A fadiga neural muitas vezes chega antes da fadiga muscular.
Utilizamos técnicas para ativar o sistema parassimpático, que é o modo de “descanso e digestão”. Exercícios de respiração diafragmática pós-treino ajudam a baixar a frequência cardíaca e sinalizar para o cérebro que a “guerra” acabou. Isso reduz os níveis de cortisol, que é catabólico, e facilita o início dos processos inflamatórios controlados que curam o corpo.
Monitorar a variabilidade da frequência cardíaca (VFC) é uma ferramenta que usamos cada vez mais. Se sua VFC está baixa, indica que seu sistema nervoso ainda não se recuperou do último treino. Nesses dias, a orientação é reduzir a carga ou focar apenas em técnica. Respeitar a fisiologia do seu SNC é a chave para evitar o burnout e lesões graves por descoordenação motora sob fadiga.
Prevenção de lesões comuns: Ombros, Joelhos e Lombar
Já sabemos que essas três áreas são o Triângulo das Bermudas do LPO. A maioria das queixas chega aqui. Mas a boa notícia é que a maioria dessas lesões é previsível e prevenível. No ombro, o problema geralmente não é o ombro em si, mas a falta de estabilidade da escápula ou rigidez torácica, como já conversamos. Fortalecer o manguito rotador em posições funcionais, simulando a pegada do Snatch, blinda essa articulação.
Para os joelhos, a tendinopatia patelar (joelho do saltador) é o vilão. Ela acontece quando a capacidade do tendão de absorver carga é superada pela demanda. A fisioterapia entra com o controle de carga progressivo. Exercícios isométricos para o quadríceps são mágicos para alívio de dor tendínea, seguidos de excêntricos lentos para remodelar as fibras do tendão. Não é parando de treinar que se cura tendão, é treinando com a carga certa.
A lombar sofre quando perde a batalha contra a gravidade. Geralmente, a dor lombar no LPO vem de uma fadiga dos extensores da coluna ou de uma técnica pobre onde a pelve “roda” sob carga. O trabalho aqui é fortalecer o core em 360 graus e garantir que seus glúteos estejam fazendo o trabalho pesado na extensão do quadril, tirando a responsabilidade da lombar. Ensinar você a usar o quadril como dobradiça é fundamental.
Terapias aplicadas e indicadas para o LPO
Chegamos ao ponto prático: o que eu posso fazer por você na maca e no ginásio terapêutico? Existem diversas ferramentas que aceleram seus resultados e te mantêm saudável. Não existe mágica, existe fisiologia aplicada.
A Liberação Miofascial Instrumental (IASTM) ou manual é uma das terapias mais utilizadas. Usamos lâminas de aço inoxidável ou as próprias mãos para mobilizar o tecido cicatricial e as aderências fasciais. Isso melhora a perfusão sanguínea local e restaura a mobilidade tecidual. É excelente para antebraços (que sofrem com a pegada hook grip) e para a musculatura paravertebral que fica tensa após levantamentos pesados.
O Dry Needling (Agulhamento a Seco) é outra arma poderosa no nosso arsenal. Diferente da acupuntura tradicional, o foco aqui é neurofisiológico. Inserimos agulhas finas diretamente nos pontos-gatilho (nós musculares) para causar uma resposta de contração local e relaxamento reflexo. Isso “reseta” o músculo que está em espasmo, aliviando a dor quase instantaneamente e permitindo que você volte a treinar com o padrão de movimento correto.
A Osteopatia e Terapia Manual são essenciais para ajustes articulares. Mobilizações da articulação talocrural (tornozelo), manipulações da coluna torácica e ajustes da articulação sacroilíaca ajudam a restaurar a artrocinemática, ou seja, o movimento fino dentro da articulação. Quando a articulação se move bem, o músculo ao redor trabalha de forma mais eficiente.
Por fim, e mais importante, temos a Cinesioterapia (Exercícios Terapêuticos). Nenhuma terapia passiva substitui o movimento ativo. Prescrevo exercícios corretivos específicos para suas fraquezas: “Monster walks” para glúteo médio, “YTWL” para estabilizadores de escápula, “Deadbugs” para controle de core. Esses exercícios são o “dever de casa” que garante que os ganhos obtidos na maca se transfiram para a plataforma de levantamento. A combinação dessas terapias com um treino bem periodizado é a fórmula exata para você bater seu PR de Snatch ou Clean & Jerk e sair andando do box sorrindo, pronto para o próximo treino.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”