Você passou pela cirurgia, os pontos já caíram e agora restou aquela marca na pele. Muita gente acha que o processo acabou aí e que agora é só passar um creme para clarear a mancha. Esse é um erro clássico que vejo todos os dias no consultório. A cicatriz que você vê na superfície é apenas a ponta do iceberg. Debaixo dela, existe um processo biológico complexo acontecendo que pode travar seus movimentos se você ignorar.
O nosso corpo é uma máquina de sobrevivência incrível, mas às vezes ele exagera na dose. Quando você sofre um corte cirúrgico, o organismo entra em pânico e tenta fechar aquele buraco o mais rápido possível. Ele não se preocupa com a estética ou com a elasticidade; ele quer segurança. Para isso, ele joga um “cimento” biológico de qualquer jeito. Se não moldarmos esse cimento enquanto ele está fresco, ele endurece e vira uma pedra que chamamos de aderência.
Hoje vamos conversar sobre como a fisioterapia manual entra nesse jogo para organizar a bagunça. Não vamos falar de estética, vamos falar de função. Quero que você entenda que tratar uma cicatriz é devolver a liberdade para o seu corpo se mover sem repuxar. Vamos mergulhar no mundo das fáscias, do colágeno e do toque terapêutico que transforma um tecido rígido em uma pele funcional.
A Biologia da “Cola”: Por que seu corpo cria aderências?
O caos do colágeno desorganizado
Imagine que o tecido normal da sua pele é como uma parede de tijolos bem alinhados. Tudo segue um padrão, o que permite que a parede seja forte e estável. Quando ocorre um corte, o corpo precisa tapar o buraco rápido. Ele não tem tempo de alinhar os tijolos. Ele joga o material de construção, que no nosso caso é o colágeno, de forma aleatória e caótica.
Esse emaranhado de fibras de colágeno cria uma estrutura densa e rígida. Em vez de fibras elásticas que deslizam umas sobre as outras, temos um nó. Esse nó conecta a pele ao músculo, o músculo à fáscia e, às vezes, até aos órgãos internos. Isso é o que chamamos de aderência. É o corpo colando camadas que deveriam ser independentes.
A terapia manual atua justamente aqui. Nós usamos as mãos para aplicar forças mecânicas que “penteiam” essas fibras bagunçadas. O objetivo é sinalizar para as células que elas precisam alinhar esse colágeno na direção do movimento. Sem esse estímulo físico, o corpo assume que aquele emaranhado rígido é o suficiente e deixa como está.
A diferença vital entre cicatriz normal e fibrose
É importante você saber diferenciar uma cicatrização saudável de um processo fibrótico patológico. Uma cicatriz normal vai clareando e ficando plana com o tempo. Ela pode ter uma textura diferente, mas ela se move junto com a pele ao redor. Ela não prende o movimento e, após a fase inicial, não dói.
A fibrose é diferente. Ela é o excesso de tecido cicatricial. Você sente um cordão duro debaixo da pele. Muitas vezes, a pele afunda quando você se mexe, ou fica repuxada. Em casos de lipoaspiração ou abdominoplastia, por exemplo, a fibrose pode criar ondulações visíveis e dolorosas.
Nós tratamos a fibrose como uma disfunção de reparo. O corpo produziu mais cola do que precisava. A terapia manual ajuda a quebrar esse excesso e a reorganizar a estrutura. Não é sobre apagar a marca visual, é sobre garantir que o tecido embaixo dela seja macio e flexível novamente.
O sistema de defesa exagerado do corpo
Por que o corpo faz isso? Por pura proteção. A inflamação é o primeiro passo da cura, mas se ela dura muito tempo ou é muito intensa, o corpo entende que a área ainda está sob ameaça. A resposta dele é depositar mais e mais tecido fibroso para “blindar” a região.
Fatores como genética, tipo de pele e até a tensão que o cirurgião colocou nos pontos influenciam isso. Mas o imobilismo é um grande vilão. Se você fica com medo de mexer a área operada por muito tempo, o corpo entende que aquela rigidez é o novo normal.
O movimento precoce e orientado, junto com a terapia manual, mostra para o sistema nervoso que está tudo bem. Nós “avisamos” ao corpo que ele não precisa criar uma armadura naquela região. Reduzimos o sinal de alerta e, consequentemente, a produção excessiva de tecido cicatricial duro.
O Impacto Invisível: Como cicatrizes afetam a postura e mobilidade
A conexão da fáscia: O efeito “roupa apertada”
Pense na fáscia como uma roupa de mergulho que cobre seu corpo inteiro, da cabeça aos pés, sem interrupção. Agora imagine que eu pego um pedaço dessa roupa na altura da sua barriga, torço e dou um nó bem apertado. O que acontece? O tecido vai repuxar lá no ombro e talvez até no joelho.
Uma cicatriz aderida faz exatamente isso com a sua fáscia. Uma cesariana, por exemplo, pode criar uma tensão que puxa o tronco para frente. Com o tempo, você começa a andar levemente curvada para aliviar a tensão na barriga. Isso não é consciente, é uma adaptação automática do seu sistema motor.
Essa tensão constante altera a biomecânica de todo o corpo. Você pode começar a sentir dor no pescoço ou no quadril meses depois da cirurgia, e a causa raiz é aquela cicatriz abdominal que nunca foi tratada. Liberar a cicatriz é soltar esse nó na roupa de mergulho para que o tecido volte a cobrir o corpo de forma uniforme e confortável.
Dor referida: Quando a cicatriz na barriga dói nas costas
Aderências podem prender nervos superficiais ou profundos. Quando um nervo é comprimido ou estirado por um tecido fibroso, ele envia sinais de dor. Mas o cérebro pode ficar confuso sobre a origem exata desse sinal, criando o que chamamos de dor referida.
Tenho pacientes que chegam com dor lombar crônica que não melhora com nada. Quando vamos avaliar, descobrimos uma cicatriz de apendicite antiga, rígida e profunda. Ao tratarmos a mobilidade dessa cicatriz visceral, a dor nas costas desaparece.
Isso acontece porque a inervação da pele e dos órgãos internos muitas vezes compartilha o mesmo “cabo” de entrada na medula espinhal. Uma cicatriz ativa e sensível bombardeia o sistema nervoso com ruído, e isso pode ser interpretado como dor em uma área vizinha. Tratar a cicatriz é limpar esse ruído neural.
Inibição muscular: O músculo que “desliga” por causa da pele
O seu cérebro protege o que dói ou o que está rígido. Se a pele sobre o seu músculo abdominal não estica, o cérebro inibe a contração desse músculo para evitar rasgar a pele. Chamamos isso de inibição muscular artrogênica ou tecidual.
Você pode fazer mil abdominais, mas se tiver uma cicatriz aderida em cima do reto abdominal, a ativação desse músculo será pobre. Ele não consegue contrair plenamente porque o tecido superficial age como um freio de mão puxado.
Para ganhar força de verdade no pós-operatório, primeiro precisamos soltar o freio. A terapia manual restaura a capacidade de deslizamento entre a pele e o músculo. Assim que a restrição mecânica sai, o cérebro volta a recrutar as fibras musculares com eficiência total.
A Janela de Oportunidade: Fases da Cicatrização e Intervenção
Fase Inflamatória: Respeito e proteção
Nos primeiros dias após a cirurgia (geralmente até o 7º ou 10º dia), estamos na fase inflamatória. Aqui, a regra é não mexer diretamente na ferida. O tecido está frágil, segurado apenas pelos pontos ou cola cirúrgica. Qualquer tensão excessiva pode abrir a incisão (deiscência).
Nesta fase, a nossa atuação é ao redor. Trabalhamos a drenagem do inchaço nas áreas vizinhas para melhorar a circulação que chega na cicatriz. Monitoramos sinais de infecção. É um momento de proteção.
O paciente muitas vezes quer acelerar, mas eu sempre digo: a biologia tem seu tempo. Tentar massagear uma ferida aberta ou recém-fechada é um erro grave. A paciência nos primeiros dias garante uma base sólida para o trabalho pesado que vem depois.
Fase Proliferativa: O momento crítico de alinhar fibras
A partir da segunda ou terceira semana, entramos na fase proliferativa. É aqui que o corpo começa a jogar o colágeno para fechar o corte definitivamente. É a “janela de ouro” para a fisioterapia. O colágeno ainda está imaturo e moldável.
Se começarmos a mobilizar o tecido e aplicar tensão controlada nessa fase, conseguimos orientar as fibras. É como pentear o cabelo enquanto ele ainda está molhado e com creme. É muito mais fácil do que tentar desembaraçar depois de seco.
Nesta fase, introduzimos toques mais firmes nas bordas da cicatriz e começamos a deslizar a pele ao redor. O objetivo é impedir que a cicatriz cole nos planos profundos desde o nascimento dela. Se perdermos esse timing, o tratamento futuro será mais difícil e doloroso.
Fase de Remodelagem: O trabalho de longo prazo
Essa fase começa depois de 3 semanas e pode durar até 2 anos. O colágeno amadurece e se torna mais resistente. Se a cicatriz já está aderida, o trabalho agora é de quebra mecânica dessas ligações fortes.
Aqui a terapia manual precisa ser mais vigorosa. O tecido já aguenta carga. Precisamos aplicar força suficiente para remodelar a estrutura interna da cicatriz. É perfeitamente possível melhorar cicatrizes antigas de anos atrás, mas exige mais sessões e mais persistência.
Nesta etapa, o foco é a funcionalidade total. Queremos que a pele da cicatriz tenha a mesma elasticidade da pele normal. É um trabalho de “lapidação” do tecido que exige constância do paciente e técnica do fisioterapeuta.
Mãos que Curam: Técnicas de Terapia Manual na Prática
A massagem transversa profunda (Cyriax)
Essa é uma técnica clássica e muito eficaz. Nós aplicamos uma fricção profunda transversalmente (atravessado) à direção das fibras da cicatriz. A ideia é literalmente quebrar as pontes transversais que colam uma fibra na outra de forma errada.
Não vou mentir, pode ser um pouco desconfortável. A sensação é de uma queimação local ou de algo sendo “descolado”. Mas o alívio que vem imediatamente depois é enorme. O tecido fica mais solto e a sensação de repuxamento diminui na hora.
Fazemos isso por alguns minutos em pontos específicos de maior densidade. É um trabalho de precisão. Não é esfregar a pele superficialmente; é afundar o dedo e mover a estrutura profunda.
O pinçamento e rolamento da pele (Skin Rolling)
Essa técnica é o melhor teste e tratamento ao mesmo tempo. Nós pinçamos uma dobra de pele entre o polegar e os outros dedos e tentamos rolar essa dobra ao longo da cicatriz e ao redor dela.
Em um tecido saudável, a onda de pele rola suavemente. Onde tem aderência, a pele trava, não sobe, e escapa dos dedos. É ali que insistimos.
Mantemos a tração na área presa até sentir que ela “derrete” ou cede. É uma técnica fantástica para soltar a pele da fáscia superficial. O paciente consegue sentir claramente a diferença entre a área solta e a área presa durante a execução.
Liberação miofascial ao redor da incisão
Muitas vezes, a tensão não está na linha do corte, mas na musculatura vizinha que entrou em espasmo para proteger a área. Se você fez uma cirurgia no joelho, por exemplo, a musculatura da coxa inteira pode estar travada.
Usamos técnicas de deslizamento profundo, com ou sem creme, para soltar esses músculos. Alongar e liberar as fibras musculares adjacentes diminui a tensão que chega até a cicatriz.
É como soltar as cordas que estão esticando uma lona. Se afrouxarmos as cordas laterais (músculos), a lona no centro (cicatriz) relaxa e tem melhor condição de cura.
O Papel do Paciente: Autocuidado e Dessensibilização
O medo de tocar: Superando a barreira psicológica
É muito comum o paciente ter nojo, aflição ou medo de tocar na própria cicatriz. Isso cria uma desconexão com aquela parte do corpo. Parte do meu trabalho é guiar a mão do paciente para que ele toque a área.
O toque é dessensibilizante. O cérebro precisa reconhecer aquela área como parte do corpo novamente. Começamos com toques leves, usando texturas diferentes (algodão, toalha, escova macia) para normalizar a sensibilidade.
Superar essa barreira emocional é fundamental. Se você ignora a cicatriz, você não cuida dela. Tocar, lavar e passar creme são atos de reconexão que ajudam na recuperação neurofisiológica da região.
Hidratação e mobilização diária em casa
A terapia manual no consultório acontece uma ou duas vezes por semana. O tratamento em casa deve ser todo dia. Eu ensino meus pacientes a fazerem mobilizações simples durante o banho ou ao passar hidratante.
Uma cicatriz hidratada é mais elástica. O tecido seco quebra e fica rígido. Use óleos ou cremes específicos recomendados pelo seu médico e aproveite esse momento para fazer pequenos círculos sobre a cicatriz.
Essa manutenção diária impede que as aderências voltem a se formar entre as sessões. É como escovar os dentes; tem que fazer todo dia para manter a saúde do tecido.
Sinais de alerta: Quando parar e chamar o fisio
Você precisa saber o limite. Se a cicatriz ficar vermelha, quente, começar a drenar pus ou abrir pontos, pare tudo imediatamente. Isso são sinais de inflamação aguda ou infecção.
Se a manipulação causar uma dor aguda que não passa depois de alguns minutos, também é sinal de que fomos agressivos demais. O objetivo é remodelar, não reinflamar.
A comunicação com o fisioterapeuta deve ser constante. Se algo parecer errado, mande uma foto ou pergunte antes de continuar a automassagem.
Terapias Aplicadas e Tecnologias Auxiliares
Para finalizar, a terapia manual é a rainha, mas temos ajudantes poderosos na fisioterapia moderna.
A vacuoterapia (ventosas) é excelente para levantar o tecido. Em vez de pressionar para baixo, a ventosa puxa a pele para cima, criando um espaço que facilita muito a quebra de aderências e traz sangue para a região. É muito usada em fibroses antigas.
O laser de baixa potência ajuda na cicatrização celular e controle da dor nas fases iniciais. Já a radiofrequência pode ser usada em fases tardias para melhorar a qualidade do colágeno e a flacidez da pele ao redor.
As fitas de kinesio taping também podem ser aplicadas de forma a “levantar” a cicatriz ou direcionar a tensão da pele, funcionando como uma terapia manual constante enquanto você se move durante o dia.
Cuidar da sua cicatriz é cuidar da sua liberdade de movimento. Não deixe que uma marca na pele dite o que você pode ou não fazer. Com as mãos certas e a dedicação correta, sua cicatriz será apenas uma história no seu corpo, e não uma âncora.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”