Você chega na academia ou na pista de corrida, larga a mochila e, quase que automaticamente, puxa o pé para trás encostando o calcanhar no glúteo. Segura por trinta segundos, sente aquela “queimadinha” na coxa e troca a perna. Depois, tenta tocar a ponta dos pés com os joelhos esticados. Pronto, você acha que está preparado para o tiro de 100 metros ou para o agachamento pesado. Como fisioterapeuta, vejo essa cena todos os dias. E preciso te dizer algo com a franqueza de quem cuida de atletas: se o seu objetivo é explodir, correr rápido ou levantar muito peso, você acabou de mandar uma mensagem de “dormir” para os seus músculos.
Existe uma confusão enorme entre ter flexibilidade e fazer alongamento antes da hora. A ciência do esporte já bateu o martelo sobre isso há alguns anos, mas o hábito antigo demora a morrer. O alongamento estático, aquele que você segura a posição parado, gera respostas fisiológicas que vão na contramão da explosão muscular. Quando você quer potência, você quer um sistema nervoso alerta e músculos prontos para reagir como um elástico tenso. O alongamento estático faz exatamente o oposto: ele relaxa, seda e diminui a capacidade de reação imediata.
Vamos conversar sobre o que acontece dentro das suas fibras musculares e nos seus tendões quando você decide alongar antes de treinar força ou potência. Quero que você entenda a mecânica por trás disso para que nunca mais desperdice energia antes mesmo de começar a série principal. Vamos ajustar sua rotina para que seu corpo trabalhe a seu favor, e não lutando contra um freio de mão que você mesmo puxou.
O Conflito Fisiológico: Relaxamento vs. Excitação
Para entender por que o alongamento pode atrapalhar, você precisa visualizar o músculo não apenas como carne, mas como um material viscoelástico. Pense nele como uma mistura de um elástico com um fluido denso. Quando você realiza um alongamento estático prolongado antes do treino, você causa uma deformação temporária nessa estrutura. As fibras se afastam e a estrutura cede. Isso gera uma sensação de alívio e relaxamento, o que é ótimo para dormir ou para depois do treino, mas péssimo para quem precisa contrair rápido.
O alongamento estático reduz a rigidez passiva da unidade músculo-tendínea. Em termos práticos de fisioterapia, isso significa que a tensão natural que mantém seu músculo pronto para disparar diminui. Imagine uma corda de violão. Para ela tocar a nota certa e vibrar com energia, ela precisa estar tensionada. Se você vai lá e afrouxa a tarraxa (faz o alongamento estático), a corda fica frouxa. Quando você tenta tocar, o som sai abafado e sem energia. O mesmo acontece com suas pernas antes de um salto.
Em contrapartida, o aquecimento dinâmico trabalha com a excitação. Movimentos repetitivos, controlados e que aumentam a amplitude gradualmente não deformam a estrutura passivamente. Eles bombeiam sangue, aumentam a temperatura e “lubrificam” as articulações com líquido sinovial. Você prepara a máquina aumentando a rotação do motor, em vez de tentar esticar as peças do motor. A viscosidade do músculo diminui com o calor, o que facilita o deslizamento das fibras sem perder a capacidade de gerar tensão.
Mecanismos Neurais da Perda de Força
O problema não é apenas mecânico ou estrutural nas fibras. O buraco é mais embaixo, ou melhor, mais em cima: no seu sistema nervoso. Quando você segura um alongamento por 30, 45 ou 60 segundos, você ativa sensores chamados Órgãos Tendinosos de Golgi (OTGs). Esses sensores existem para proteger você. Quando detectam tensão excessiva e contínua, eles enviam um sinal para a medula espinhal dizendo: “Perigo de ruptura, relaxe esse músculo agora”. Ocorre então a inibição autogênica. O músculo relaxa para se proteger.
Ao induzir essa inibição logo antes de tentar um levantamento terra ou um sprint, você está lutando contra seu próprio sistema nervoso. Você quer que o músculo contraia com violência, mas acabou de ativar um mecanismo reflexo que ordena o relaxamento. Estudos mostram que essa perda de força pode chegar a 5% ou mais imediatamente após o alongamento. Em esportes de alto rendimento, ou mesmo para bater seu recorde pessoal na academia, essa diferença é brutal. Você entra na série com o freio neural acionado.
Além disso, temos os fusos musculares. Eles são sensores que detectam a velocidade de estiramento. Eles são responsáveis pelo reflexo de estiramento (aquele que faz a perna chutar quando o médico bate o martelinho no joelho). Esse reflexo é vital para a potência. O alongamento estático prolongado dessensibiliza esses fusos. Eles ficam “lentos” para perceber a mudança de comprimento do músculo. Resultado: sua capacidade de reagir rápido e recrutar unidades motoras de forma explosiva cai drasticamente. Seu cérebro manda o comando “contrai agora!”, mas o músculo, meio adormecido pelo alongamento, responde com um atraso milimétrico que custa performance.
A Ilusão da Prevenção de Lesões Agudas
Um dos mitos mais persistentes que enfrento no consultório é: “Doutor, eu me lesionei porque esqueci de alongar antes”. Precisamos separar as coisas. Ter uma boa flexibilidade, que é uma adaptação crônica conquistada com meses de treino, ajuda sim a prevenir lesões, pois permite que suas articulações se movam livremente. Porém, fazer um alongamento agudo cinco minutos antes de correr não blinda seu músculo contra estiramentos.
Na verdade, a literatura científica mostra que, em alguns casos, o alongamento estático pré-treino pode até aumentar o risco de lesão em atividades de potência. Isso acontece porque o alongamento altera a percepção de dor e o feedback sensorial. Você pode sentir que está “solto”, mas na verdade a estrutura está instável e com a resposta neural atrasada. Se você entra em um movimento brusco com a articulação instável e a musculatura inibida, a chance de uma torção ou ruptura aumenta, pois os mecanismos de defesa reflexa estão “sedados”.
O que realmente previne lesão aguda é a temperatura intramuscular. O músculo frio é quebradiço como um elástico velho. O músculo quente é elástico e complacente. O aquecimento dinâmico (trotes, polichinelos, movimentos do esporte) eleva a temperatura interna. Isso melhora a função enzimática e a condução nervosa. O alongamento estático, por ser passivo, muitas vezes deixa o corpo esfriar. Você passa 15 minutos parado no chão esticando, sua frequência cardíaca cai, seu corpo esfria. Entrar num jogo de futebol ou num treino de perna logo em seguida é pedir para se machucar.
Stiffness Muscular: O Segredo da Explosão
Agora vamos falar de um conceito que os fisioterapeutas esportivos amam: stiffness (rigidez). No senso comum, rigidez parece algo ruim. “Estou rígido, preciso alongar”. Mas para a performance atlética de explosão, a rigidez é ouro. Pense numa mola de suspensão de um carro de corrida. Ela é dura, rígida. Isso permite que ela armazene energia quando comprimida e devolva essa energia com violência quando liberada.
Seus tendões e músculos funcionam como essa mola. No ciclo alongamento-encurtamento (como quando você agacha rápido antes de pular), você armazena energia elástica. Se o seu sistema músculo-tendíneo tiver uma boa rigidez (stiffness ideal), essa energia é devolvida integralmente, te jogando para cima. Se você fez muito alongamento estático, você diminuiu essa rigidez. Você transformou sua mola de aço numa mola de caneta velha.
Quando a rigidez diminui, o tempo de contato com o solo aumenta durante a corrida e a transferência de força piora. Você gasta mais energia para fazer o mesmo movimento. Sente-se “pesado”. O corpo precisa trabalhar mais metabolicamente porque a ajuda mecânica da elasticidade natural foi perdida. Portanto, manter uma certa tensão de repouso no músculo antes da prova ou do treino de força é essencial para que a transferência de energia seja eficiente e econômica.
Contexto e Especificidade: Quando Alongar Faz Sentido
Eu disse que alongar antes é ruim para explosão, e sustento isso. Mas a fisioterapia não é binária, tudo depende do contexto e do objetivo do atleta. Se você é um ginasta olímpico, uma bailarina ou um goleiro de handebol que precisa fazer uma abertura total de pernas em fração de segundos, a necessidade de amplitude de movimento (ADM) supera a necessidade de rigidez máxima.
Nesses casos específicos, onde a falta de amplitude impede a realização técnica do movimento, o alongamento entra como parte da preparação, mas deve ser seguido imediatamente por exercícios de ativação muscular para “reacordar” o sistema nervoso. Se você não consegue agachar até o fundo porque seu tornozelo é travado, você precisa mobilizar e talvez alongar a panturrilha antes, para que a mecânica do movimento seja possível. A técnica correta é prioridade sobre a potência pura.
Outro ponto interessante é o uso do alongamento durante o treino de hipertrofia, não antes. Existem evidências recentes sobre a hipertrofia mediada pelo alongamento. Alongar o músculo sob carga (como na parte funda do crucifixo ou do agachamento búlgaro) ou fazer um alongamento intenso entre as séries pode aumentar o sinal para crescimento muscular. Mas note a diferença: aqui o objetivo é dano tecidual controlado e estresse metabólico para crescer, não para correr mais rápido ou pular mais alto naquele momento.
Terapias Aplicadas e Estratégias de Mobilidade
Como fisioterapeuta, minha recomendação prática para você substituir aquele alongamento estático passivo antes do treino é focar em Mobilidade Dinâmica e Liberação Miofascial.
A Liberação Miofascial (com o rolo de espuma ou foam roller) antes do treino é fantástica. Diferente do alongamento estático, ela não inibe a força muscular se feita de forma rápida e rítmica. Ela ajuda a hidratar o tecido (tixotropia), melhora o deslizamento entre as capas musculares e reduz a percepção de rigidez sem desligar o sistema nervoso. Passe o rolo por 30 segundos a 1 minuto nos principais grupos musculares para aumentar o fluxo sanguíneo local.
Em seguida, entre com a Mobilidade Dinâmica. São exercícios que levam suas articulações aos limites de movimento de forma controlada e repetitiva. Exemplos clássicos são o “The World’s Greatest Stretch” (o maior alongamento do mundo), pêndulos de perna, agachamentos com peso do corpo, rotações de tronco e passadas com afundo. O objetivo é lubrificar a cápsula articular e mostrar para o cérebro a amplitude que você vai usar no treino.
Se você tem encurtamentos reais que precisam ser tratados, deixe o Alongamento Estático para sessões separadas do treino de força, ou para o final do treino (fase de volta à calma). Nesses momentos, você pode segurar a posição por 60 segundos ou mais para buscar alterações plásticas no tecido conjuntivo e ganhar flexibilidade a longo prazo, sem prejudicar sua performance imediata.
Sua rotina ideal pré-treino deve seguir a ordem: Liberação Miofascial (rápida) -> Mobilidade Articular -> Aquecimento Específico (o movimento do esporte com carga leve) -> Treino Principal. Seguindo esse roteiro, você preserva sua potência, protege suas articulações e prepara sua mente para a guerra. Bons treinos!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”