A importância da dorsiflexão para evitar o valgo dinâmico no Leg Press

A importância da dorsiflexão para evitar o valgo dinâmico no Leg Press

Fala, atleta. Senta aqui na maca um pouco, vamos conversar. Eu estava te observando treinar hoje e notei algo que me preocupa mais do que a carga que você coloca no aparelho. Quando você empurra a plataforma do Leg Press, seus joelhos tendem a se “beijar”, caindo para dentro. Chamamos isso de valgo dinâmico. Você provavelmente já ouviu falar que precisa fortalecer o glúteo para corrigir isso, certo? Isso é verdade, mas é apenas metade da história.

Existe um culpado silencioso, que mora lá embaixo, dentro do seu tênis, e que quase ninguém dá a devida atenção: o seu tornozelo. A capacidade do seu pé de dobrar em direção à canela, movimento que chamamos de dorsiflexão, é o que dita a segurança do seu joelho durante o exercício. Se o tornozelo trava, o joelho paga a conta. É uma questão de física pura e biomecânica que muitas vezes passa despercebida até a dor aparecer.

Hoje vamos desmontar essa mecânica. Quero que você entenda exatamente por que destravar seu tornozelo pode ser a chave para você progredir cargas no Leg Press sem destruir sua cartilagem. Esqueça as dicas superficiais de “apenas jogue o joelho para fora”. Vamos tratar a causa raiz do problema e transformar sua base em uma estrutura sólida e segura. Acomode-se, respire fundo e vamos entender como sua máquina funciona.

O Elo Perdido: Por que seu tornozelo dita as regras do seu joelho

A biomecânica da Cadeia Cinética Fechada no Leg Press

Você precisa entender que o Leg Press é um exercício de cadeia cinética fechada. Isso significa que seus pés estão fixos em uma superfície sólida (a plataforma) e não podem se mover livremente. Nessa configuração, o que acontece em uma articulação afeta obrigatoriamente as outras. O tornozelo é o primeiro elo dessa corrente de transmissão de força.

Se o tornozelo não tiver liberdade para se mover, o movimento tem que ser compensado em algum lugar para que a plataforma continue descendo. O corpo humano é mestre em compensações. Ele vai sacrificar a estabilidade para garantir a mobilidade que você está exigindo ao descer o peso. Se o tornozelo diz “não vou mais”, o joelho diz “deixa comigo, eu dou um jeito”, e esse “jeito” geralmente é torto e perigoso.

O tornozelo precisa permitir que a tíbia (o osso da canela) viaje para frente em direção aos dedos dos pés. Se essa viagem é interrompida precocemente por rigidez, a tíbia para de avançar. Como a carga continua descendo, o fêmur precisa continuar se movendo. Esse desencontro mecânico força o joelho a rodar internamente e aduzir, criando o colapso que vemos visualmente.

O que é Dorsiflexão e a angulação crítica para descer

Dorsiflexão é o nome técnico para o movimento de trazer a ponta do pé em direção ao joelho. Parece simples, mas é vital. No Leg Press, conforme você desce o peso e flexiona os joelhos, você exige cada vez mais graus dessa amplitude. Para um agachamento ou leg press profundo e seguro, você precisa de uma boa quantidade de dorsiflexão disponível.

Muitos atletas têm o que chamamos de dorsiflexão limitada. Isso pode ser por encurtamento muscular ou bloqueio ósseo. Quando você atinge o limite dessa amplitude no meio da repetição, seu calcanhar quer sair da plataforma. Mas como a carga é alta, o calcanhar fica, e o pé “desaba” para dentro (pronação) para criar uma falsa sensação de movimento.

Essa pronação excessiva do pé é o gatilho para o valgo dinâmico. O pé cai para dentro, a tíbia roda internamente e o joelho acompanha, colapsando em direção à linha média do corpo. Tudo isso acontece em milésimos de segundo, a cada repetição, criando um padrão de desgaste acumulativo.

O efeito dominó: Tornozelo rígido, pé pronado, joelho valgo

Imagine uma torre de blocos. Se a base inclina, toda a torre inclina para compensar e não cair. Seu tornozelo é a base. A rigidez dele obriga o pé a buscar estabilidade em uma posição pronada. A pronação do pé (pisada para dentro) está biomecanicamente acoplada à rotação interna da tíbia.

A rotação interna da tíbia, por sua vez, facilita a rotação interna e adução do fêmur. Esse é o combo perfeito para o valgo dinâmico. Você pode ter o glúteo mais forte do mundo, mas se o seu pé desabar a cada repetição por falta de mobilidade no tornozelo, o glúteo vai perder a batalha contra a biomecânica da base.

Corrigir o joelho sem olhar para o tornozelo é enxugar gelo. Você vai gritar para o seu músculo “joelho para fora”, mas a estrutura óssea lá embaixo está gritando “cai para dentro”. Resolver essa disputa exige liberar a restrição inicial: a falta de dorsiflexão.

Valgo Dinâmico no Leg Press: O pesadelo silencioso da articulação

Anatomia do colapso: A torção que você não sente na hora

O valgo dinâmico não é apenas estético. Quando o joelho cai para dentro, você está comprimindo a parte lateral da articulação e estirando a parte medial. O ligamento colateral medial (LCM) sofre tensão excessiva. Mas o pior acontece lá dentro: o ligamento cruzado anterior (LCA) pode sofrer cisalhamento e o menisco lateral é pinçado.

No Leg Press, a carga é alta. Estamos falando de 200kg, 300kg ou mais. Essa força vetorial, quando aplicada em um joelho desalinhado, aumenta exponencialmente a pressão em pontos específicos da cartilagem que não foram feitos para suportar carga. É como dirigir um carro com o alinhamento torto: o pneu vai gastar muito mais rápido de um lado só.

A longo prazo, isso gera condromalácia patelar e artrose precoce. Você não sente a cartilagem gastando na hora, porque ela não tem terminação nervosa. Você só sente quando o dano já atingiu o osso subcondral ou quando a inflamação se instala nos tecidos ao redor.

A ilusão de segurança da máquina vs. a realidade da carga

Muitas pessoas acham que o Leg Press é “mais seguro” que o agachamento livre porque as costas estão apoiadas. Isso é uma meia verdade perigosa. A máquina estabiliza seu tronco, sim, mas ela não estabiliza seus joelhos. Pelo contrário, a sensação de segurança faz com que as pessoas coloquem cargas absurdas, muito maiores do que aguentariam em pé.

Essa carga massiva, combinada com o trilho fixo da máquina, impede que seu corpo faça microajustes naturais de equilíbrio. Se o seu tornozelo trava no meio do caminho com 300kg empurrando contra ele, a articulação do joelho não tem para onde fugir. Ela é obrigada a absorver toda a torção.

No agachamento livre, se você perde o equilíbrio ou a mobilidade falha, você cai ou falha a repetição. No Leg Press, você continua empurrando, moendo a articulação em uma posição mecânica desfavorável. A máquina mascara a falta de competência motora e de mobilidade.

Dor patelofemoral: O primeiro aviso antes da lesão grave

O primeiro sinal de que sua dorsiflexão está matando seu joelho no Leg Press geralmente é uma dor na frente do joelho, ao redor ou atrás da patela. Chamamos isso de Síndrome da Dor Patelofemoral.[1][8] Quando o joelho entra em valgo, a patela é puxada lateralmente para fora do seu trilho natural (a tróclea femoral).

Isso cria um atrito violento atrás da rótula. Se você sente aquela “areia” no joelho ou uma pontada fina ao descer a plataforma, pare e avalie seu tornozelo. Não é normal sentir dor articular. Dor muscular de treino é uma coisa; dor na junta é aviso de que a mecânica quebrou.

Ignorar esse aviso e continuar aumentando a carga é o caminho mais rápido para uma cirurgia no futuro. O corpo avisa sussurrando antes de gritar. A dorzinha chata de hoje é a lesão cirúrgica de amanhã se a mecânica não for corrigida na base.

Testando sua Mobilidade: Você tem um bloco ou uma articulação?

O teste do Joelho na Parede (Knee-to-Wall) passo a passo

Você não precisa de equipamentos caros para saber se seu tornozelo é o vilão. Vamos fazer o teste do Joelho na Parede, ou Lunge Test, agora mesmo. Fique descalço de frente para uma parede. Coloque o dedão do pé a cerca de 10 a 12 cm de distância da parede (aproximadamente a largura de uma mão fechada).

Mantenha o calcanhar colado no chão e tente encostar o joelho na parede, avançando para frente. O calcanhar saiu do chão? Você não conseguiu tocar a parede? O joelho teve que cair para dentro para encostar? Se respondeu sim para qualquer uma dessas, você tem restrição de dorsiflexão.

Esse teste é o padrão ouro clínico para triagem rápida. Se você não tem esses 10cm de avanço livre, seu Leg Press profundo está comprometido. Você está chegando no fim da linha do tornozelo antes de chegar no fim da linha do quadril.

Sensação de bloqueio ósseo vs. tensão muscular: O diagnóstico diferencial

Durante o teste, preste muita atenção no que você sente. Isso é crucial para o tratamento. Se você sente um “repuxão” forte na batata da perna ou no tendão de Aquiles, sua restrição é provavelmente muscular/tecidual. O músculo está curto e não deixa o movimento acontecer.

Agora, se você sente uma pressão, um “pinçamento” ou uma sensação de osso batendo com osso na frente do tornozelo, sua restrição é articular. O osso tálus não está deslizando para trás como deveria. Saber essa diferença muda tudo: alongar resolve o primeiro caso, mas não faz nem cócegas no segundo.

Se o bloqueio é na frente, precisamos de mobilizações articulares. Se é atrás, precisamos de liberação miofascial e alongamento. Identificar a sensação correta poupa meses de tratamentos ineficazes.

O sinal do calcanhar flutuante durante a execução

No próprio Leg Press, peça para alguém filmar seus pés de lado. Observe o calcanhar na fase mais funda do movimento. Ele levanta milimetricamente? O peso sai do calcanhar e vai para a ponta do pé? Isso é o “calcanhar flutuante”.

Mesmo que ele não saia visivelmente do apoio, se a pressão interna muda para os dedos, você perdeu a cadeia posterior. A força deixa de ser empurrada pelo calcanhar (ativando glúteos e isquiotibiais) e passa a ser empurrada pela ponta do pé, sobrecarregando absurdamente o tendão patelar e o quadríceps, além de desestabilizar o joelho.

Manter o calcanhar “chumbado” na plataforma é inegociável. Se para descer mais o calcanhar precisa subir, você está descendo além da sua capacidade real de mobilidade. Reduza a amplitude até consertar o tornozelo.

A Anatomia da Restrição: O que está travando seu movimento?

Sóleo e Gastrocnêmio: Por que o joelho dobrado muda tudo

A panturrilha é formada por dois músculos principais: o Gastrocnêmio e o Sóleo. O Gastrocnêmio cruza o joelho; o Sóleo não. No Leg Press, seus joelhos estão dobrados. Isso deixa o Gastrocnêmio frouxo e “desligado” da restrição. Quem está limitando seu movimento no Leg Press é, quase sempre, o músculo Sóleo.

Por que isso importa? Porque fazer alongamento com a perna esticada (aquele clássico de empurrar a parede) foca no Gastrocnêmio e não vai ajudar quase nada no seu Leg Press. Você precisa alongar e liberar a panturrilha com o joelho dobrado para atingir o Sóleo.

Focar no músculo errado é um erro comum. O Sóleo é um músculo postural, denso e forte. Ele precisa de carga e tempo sob tensão na posição flexionada para ceder e ganhar comprimento.

O osso Tálus e o bloqueio articular anterior

O tornozelo é uma articulação complexa onde a tíbia e a fíbula formam uma pinça sobre o osso Tálus. Para você fazer a dorsiflexão, o Tálus precisa deslizar para trás enquanto a tíbia vai para frente. Se o Tálus estiver “preso” anteriormente, ele bate na tíbia e o movimento trava.

Isso é muito comum em quem já teve entorses de tornozelo. O osso fica posicionalmente falho. Nesse caso, alongar a panturrilha pode até piorar a dor na frente do tornozelo, pois você está comprimindo as estruturas ósseas uma contra a outra.

Precisamos de técnicas que “empurrem” o Tálus para trás, liberando o espaço articular. É como abrir uma porta que emperrou: não adianta forçar a maçaneta (músculo), tem que soltar a dobradiça (osso).

Histórico de entorses: A cicatriz invisível que limita o movimento

Você já torceu o pé jogando bola ou descendo uma escada? Mesmo que tenha sido há 10 anos, seu corpo criou tecido cicatricial (fibrose) na cápsula articular e nos ligamentos. Essa fibrose é menos elástica que o tecido original.

O corpo, para proteger a região lesionada, tende a enrijecer a articulação. Muitas vezes, a limitação de dorsiflexão é uma sequela silenciosa de uma entorse mal curada no passado. O cérebro limitou o movimento para evitar nova lesão, mas agora essa proteção está custando a saúde do seu joelho no treino de força.

Reverter essa rigidez antiga exige paciência e técnicas manuais específicas. Não é só “alongar que passa”. É remodelar um tecido que está consolidado há anos.

Estratégias de Correção Imediata no Treino

Posicionamento dos pés na plataforma: A física da alavanca

Enquanto você trabalha para ganhar mobilidade, precisamos adaptar o treino para você não se machucar hoje. A primeira mudança é subir os pés na plataforma. Quanto mais alto você coloca os pés no Leg Press, menor é a exigência de dorsiflexão do tornozelo.

Colocar os pés mais para cima transfere mais carga para o quadril e isquiotibiais e alivia a necessidade do joelho avançar tanto. Isso permite que você desça bem sem que o tornozelo atinja aquele ponto crítico de bloqueio que gera o valgo.

Não é para treinar assim para sempre, pois altera o foco muscular, mas é uma estratégia de sobrevivência excelente para continuar treinando pesado enquanto reabilita a mobilidade.

O papel do calçado: Amortecimento vs. Estabilidade

Tênis de corrida com muito amortecimento (aqueles super macios) são péssimos para o Leg Press. A sola instável faz com que o pé “dance” e dificulta a percepção de onde está o peso. Além disso, o calcanhar afunda na espuma, alterando a mecânica.

Prefira tênis de solado plano e rígido (estilo tênis de skate ou CrossFit) ou sapatilhas de levantamento de peso. As sapatilhas de LPO (Levantamento de Peso Olímpico) têm um salto rígido atrás. Esse salto artificial aumenta o ângulo do tornozelo, “emprestando” a dorsiflexão que você não tem.

Usar um calçado de LPO no Leg Press pode corrigir instantaneamente o valgo dinâmico causado por falta de mobilidade, permitindo que você treine com a biomecânica perfeita enquanto trabalhamos a flexibilidade natural fora da máquina.

Cues verbais e Foco Externo para manter o alinhamento

O que você pensa durante o exercício muda a ativação muscular. Em vez de pensar “joelho para fora” (foco interno), tente pensar em “rasgar o chão com os pés” ou “separar a plataforma ao meio” (foco externo).

Imagine que seus pés estão colados e você quer afastar o chão um do outro sem mover os pés. Essa intenção ativa o glúteo médio e o arco plantar, criando um torque externo que estabiliza o joelho automaticamente.

Outra dica é focar na pressão do calcanhar e do dedinho do pé. Se você sente o peso na borda externa do calcanhar, é biomecanicamente impossível o joelho cair para dentro. Eduque seu cérebro para buscar essa sensação a cada repetição.

Soluções de Longo Prazo e Mobilidade Ativa

Técnicas de auto-mobilização com bands (elásticos)

Para resolver o bloqueio articular (aquela dor na frente do tornozelo), a melhor ferramenta é a superband (elástico grosso). Prenda o elástico em uma estrutura fixa atrás de você e coloque a outra ponta bem na dobra do tornozelo, em cima do osso Tálus (abaixo dos maléolos).

Dê um passo à frente para criar tensão. O elástico vai puxar o Tálus para trás. Agora, force o joelho para frente em direção à parede, oscilando. O elástico ajuda a deslizar o osso para o lugar certo, desbloqueando o movimento sem dor. Faça isso antes de todo treino de perna.

Liberação miofascial específica para a cadeia posterior

Use um rolo de liberação ou uma barra com peso moderado para soltar a panturrilha. Mas não role apenas para cima e para baixo. Encontre o ponto de dor, pare em cima dele e faça movimentos de “bombear” o pé (cima e baixo).

Isso ajuda a soltar as aderências entre o Sóleo e o Gastrocnêmio. Foque também na fáscia plantar (sola do pé) com uma bolinha de tênis ou golfe. Soltar a sola do pé muitas vezes dá um ganho imediato de mobilidade na cadeia posterior inteira, liberando o tornozelo por tabela.

Fortalecimento do arco plantar e Tibial Anterior

Mobilidade sem controle é instabilidade. Ao mesmo tempo que soltamos a panturrilha atrás, precisamos fortalecer quem puxa o pé para cima na frente: o Tibial Anterior. Tente fazer exercícios de levantar a ponta do pé contra uma resistência.

Além disso, fortaleça o “Core do Pé”. Aprenda a fazer o “pé curto” (short foot): tentar encurtar o pé contraindo o arco plantar sem dobrar os dedos. Um arco plantar forte impede o pé de desabar em pronação, criando uma base sólida que resiste ao colapso do valgo mesmo sob cargas altas.


Terapias Aplicadas e Indicadas

Para finalizar nosso papo e te dar um norte clínico, na fisioterapia nós temos ferramentas poderosas para acelerar esse processo. A Terapia Manual (Conceito Mulligan) é fantástica para mobilizar o Tálus com precisão milimétrica enquanto você faz o movimento, ganhando graus de amplitude sem dor na hora.

Liberação Miofascial Instrumental (IASTM), usando raspadores de metal, consegue atingir fáscias profundas do tendão de Aquiles que a mão ou o rolo não alcançam. O Dry Needling (Agulhamento a Seco) é excelente para desativar pontos-gatilho no músculo Sóleo que mantêm a tensão crônica.

E, claro, a Reeducação Funcional com feedback visual (espelhos e vídeos) para reprogramar o padrão de movimento do seu cérebro. Mas lembre-se: a terapia passiva ajuda, mas é o seu trabalho ativo de mobilidade diária que vai garantir que seu tornozelo permaneça livre e seu joelho seguro para sempre. 

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