Fala, monstro! Tudo certo por aí? Senta aqui na maca um pouco, vamos conversar. Se você chegou até mim, imagino que o treino de peito, que deveria ser o ponto alto da sua semana, virou um pesadelo. Você deita no banco, tira a barra do suporte e, lá pela terceira repetição, sente aquela fisgada chata, fina e profunda lá no fundo do cotovelo. Acertei?
É frustrante, eu sei. Você quer empurrar carga, quer ver o peitoral crescer, mas o cotovelo parece que vai desmontar. Muita gente acha que “cotovelo de tenista” ou “cotovelo de golfista” são as únicas coisas que existem, mas no mundo do supino pesado, o buraco é mais embaixo (ou melhor, mais atrás). A relação entre o seu supino e a dor no cotovelo tem nome e sobrenome: sobrecarga do tendão do tríceps.
Hoje, vamos ter um papo franco, de fisioterapeuta para quem treina de verdade. Vou te explicar por que seu tríceps está gritando, onde sua técnica pode estar falhando (sem julgamentos, estamos aqui para ajustar) e como vamos consertar isso sem que você precise abandonar a academia. Esqueça aquela ideia de “ficar 3 meses parado”. Tendão não gosta de férias, gosta de carga inteligente. Acomode-se, respire fundo e vamos entender a mecânica dessa dor.
O culpado provável: A Tendinopatia do Tríceps e o “Lockout”
A anatomia do tendão tricipital: O freio final do movimento
Vamos começar pelo básico da anatomia, mas sem aquele papo chato de livro. O seu tríceps tem três cabeças (por isso o nome), e todas elas se juntam em um único tendão robusto que se prende na pontinha do seu cotovelo, num osso chamado olécrano. A função principal dele? Esticar o braço.
No supino, o peitoral e o ombro fazem a força bruta para tirar a barra do peito, mas quem finaliza o movimento, quem empurra aqueles últimos centímetros e trava o braço lá em cima, é o tríceps. O tendão dele é o ponto de conexão final. Quando você sente dor bem na ponta do cotovelo ou logo acima dela, na parte de trás do braço, é esse tendão dizendo: “Ei, a carga está maior do que eu consigo suportar agora”. Não é necessariamente uma inflamação (tendinite), mas muitas vezes um desgaste ou desorganização das fibras (tendinose).
O erro do “Lockout”: Por que esticar tudo esmaga sua articulação
Sabe aquele hábito de esticar o braço com tudo no final da repetição e “encaixar” a articulação óssea para descansar um segundo? Chamamos isso de Lockout. Biomecanicamente, isso é um desastre para quem já tem dor. Quando você faz esse bloqueio articular violento com 80kg, 100kg nas mãos, a força de compressão no tendão e na articulação é brutal.
O tendão do tríceps sofre uma desaceleração brusca. É como se você estivesse correndo com um carro e puxasse o freio de mão de vez a cada 5 segundos. O tecido não aguenta. Além disso, ao travar o osso, você tira a tensão do músculo (que deveria estar trabalhando) e joga tudo na estrutura passiva (osso e tendão). Para tratar essa dor, a primeira regra que eu dou é: pare antes de travar. Mantenha o cotovelo levemente, quase imperceptivelmente, flexionado no topo. Mantenha o músculo sob tensão e a articulação protegida.
A carga excêntrica: A descida da barra é onde o tendão chora
Todo mundo foca em subir a barra, mas a lesão geralmente acontece na descida. A fase excêntrica (quando a barra desce em direção ao peito) é onde o tríceps precisa alongar enquanto segura o peso. É aqui que as micro lesões acontecem. Se você desce a barra despencando e freia de repente no peito, o tendão sofre um “efeito chicote”.
Seu tendão funciona como uma mola. Se você estica essa mola com controle, ela armazena energia. Se você puxa ela com violência, ela deforma ou rompe. Controlar a descida não é só para hipertrofia, é para saúde articular. Uma descida de 2 a 3 segundos garante que a carga seja distribuída nas fibras musculares, poupando o ponto de inserção no osso.
A Geometria do Supino: Pegada, Punho e Cotovelo
Pegada fechada vs. Pegada aberta: Onde mora o perigo para o tríceps
Existe uma regra simples na biomecânica: quanto mais fechada a pegada, maior a amplitude de movimento do cotovelo e maior a ativação do tríceps. Se você faz supino com as mãos muito próximas, seu cotovelo dobra muito mais. Isso estica o tendão do tríceps ao máximo na parte baixa do movimento.
Se o seu tendão já está sensível, fazer supino fechado é jogar gasolina na fogueira. Para quem está com dor, abrir um pouco a pegada (sem exagerar para não machucar o ombro) pode transferir parte da carga para o peitoral e aliviar o cotovelo. Não precisa virar um crucifixo, mas afastar as mãos alguns centímetros pode mudar o braço de alavanca e diminuir o torque no cotovelo instantaneamente.
O punho “quebrado” (em extensão) e a tensão nos flexores
Olhe para o seu punho agora. Quando você segura a barra, ele fica reto como um soco ou dobra para trás (extensão) como se fosse uma bandeja? Se ele dobra muito para trás, você cria uma instabilidade na base. Mas o pior: isso altera a tensão dos músculos do antebraço que se conectam… adivinha onde? No cotovelo.
Embora a dor principal seja no tríceps (atrás), um punho instável obriga os músculos do antebraço a trabalharem dobrado para estabilizar a barra. Isso gera co-contração e vibração que sobem para o cotovelo. Manter o punho neutro, “socando o teto”, alinha os ossos do braço (rádio e ulna) diretamente embaixo da barra, criando uma coluna óssea sólida que transmite a força sem vazamentos de energia.
O trajeto da barra (Bar Path): Tocar no mamilo ou no pescoço?
A trajetória da barra dita o ângulo do cotovelo. Se você desce a barra muito alta, perto do pescoço (estilo guilhotina), seus cotovelos abrem para os lados (abdução de 90 graus). Isso mata o ombro, mas às vezes alivia o tríceps. Se você desce a barra muito baixa, na barriga, seus cotovelos colam no tronco. Isso protege o ombro, mas exige uma força descomunal do tríceps para subir.
O ponto ideal para quem tem dor no cotovelo geralmente é o meio termo, na linha dos mamilos ou levemente abaixo, com os cotovelos num ângulo de cerca de 45 a 70 graus em relação ao tronco. Descer a barra muito baixo com cotovelos muito fechados (tucking) é uma técnica de powerlifting para proteger o ombro, mas é extremamente taxativa para o tríceps. Se o seu tríceps é o elo fraco agora, talvez precisemos abrir levemente esses cotovelos (com cuidado) para dividir a conta com o peito.
Não é só o cotovelo: Olhando para o vizinho (Ombro)
Instabilidade escapular: Se a base treme, a ponta sofre
Imagine tentar disparar um canhão de dentro de uma canoa. É impossível ter precisão e força. No supino, sua escápula (a “asa” das costas) é a canoa. Se ela não estiver travada e estável no banco, seu ombro fica instável. E se o ombro fica instável, quem paga o pato? O cotovelo.
O cotovelo é uma articulação de dobradiça, ele só quer dobrar e esticar. Se o ombro lá em cima está sambando, o cotovelo começa a sofrer forças de torção e cisalhamento que ele odeia. Antes de culpar o cotovelo, eu sempre avalio a escápula do meu cliente. Fortalecer os músculos das costas (romboides, trapézio inferior, serrátil) e aprender a “retrair e deprimir” as escápulas durante o supino cria a base de concreto para o canhão disparar sem recuo.
Rotação interna excessiva: O cotovelo “abrindo” para fora (Chicken Wing)
Sabe quando a carga está pesada demais e, na hora de subir, seus cotovelos “sambam” e abrem para os lados? Chamamos isso de Chicken Wing (asa de frango). Isso é um sinal clássico de fraqueza do manguito rotador ou do próprio tríceps. Quando você perde o alinhamento mecânico no meio do esforço máximo, a força deixa de ser vertical e passa a ter vetores laterais.
Esses vetores laterais colocam um estresse absurdo nos ligamentos e tendões do cotovelo. Manter o cotovelo “embaixo da barra” o tempo todo é a regra de ouro. Se o cotovelo sai debaixo da linha da barra, o braço de alavanca aumenta e a tensão no tendão triplica. Se você não consegue manter a forma, a carga está alta demais para sua capacidade atual de estabilização.
A falta de arco lombar e a estabilidade do tronco
Não estou falando de virar uma contorcionista, mas um leve arco lombar e pés firmes no chão são essenciais. Isso é o Leg Drive. A força do supino começa no pé. Se você fica com os pés soltos ou balançando, seu tronco não tem rigidez. Sem rigidez no tronco, a transferência de força falha e as articulações periféricas (ombro e cotovelo) sofrem mais impacto.
Um corpo rígido e estável dissipa menos energia. Quanto mais estável você for no banco, menos micro-ajustes seu cotovelo precisa fazer durante a série. E são esses micro-ajustes sob carga máxima que, gota a gota, enchem o copo da lesão.
Estratégias de “Sobrevivência” no Treino
Substituindo a barra por halteres: O poder da pegada neutra
Se o supino com barra dói, não insista. A barra fixa suas mãos numa posição pronada (palmas para frente) que pode não ser a ideal para a sua anatomia. Com halteres, você tem liberdade. Você pode girar os punhos para uma posição neutra (palmas viradas uma para a outra).
A pegada neutra é muito mais anatômica para o cotovelo e alivia a tensão na origem dos extensores e no tendão do tríceps. Além disso, o halter permite que cada braço trabalhe sozinho, corrigindo assimetrias de força que podem estar sobrecarregando um lado só. É a troca número um que fazemos na reabilitação: sai barra, entra halter neutro.
Floor Press: Limitando a amplitude para salvar o tendão
Lembra que eu disse que a parte mais baixa do movimento, onde o cotovelo dobra mais, é a mais estressante? O Floor Press (supino no chão) resolve isso. Como você está deitado no chão, seus cotovelos tocam o solo antes de descerem demais. Isso limita a amplitude de movimento (ROM) mecanicamente.
Você consegue treinar com cargas altas, estimular o peitoral e o tríceps, mas elimina os últimos graus de flexão de cotovelo que são os “assassinos” de tendão. É uma excelente ferramenta para manter a força durante a fase de dor aguda sem agravar a lesão.
Aquecimento específico: Acordando o tríceps sem gastar a bateria
Chegar na academia e ir direto para o supino é pedir para se machucar. O tendão é um tecido viscoelástico. Isso significa que ele fica mais elástico e resistente quando está quente. Mas “aquecer” não é fazer esteira. É jogar sangue para o tríceps.
Eu recomendo altas repetições (20 a 30) com uma carga ridícula (elástico ou polia leve) de extensão de tríceps. O objetivo não é fadigar, é lubrificar. Sinta o sangue chegar no cotovelo. Só depois que a articulação estiver “azeitada” você toca na barra. Esse ritual de 5 minutos pode salvar anos de treino.
O Protocolo de Reabilitação Ativa
Esqueça o repouso absoluto: O conceito de Carga Ótima
Antigamente, o médico dizia: “Dói? Para de treinar”. Hoje sabemos que repouso total enfraquece o tendão. O tendão precisa de carga para se alinhar. O segredo é encontrar a “Carga Ótima”. É aquela carga que você consegue fazer sem dor (ou com um desconforto mínimo, nota 2 ou 3 de 10) e que não piora a dor no dia seguinte.
Se você treina e no dia seguinte acorda com o cotovelo latejando, errou a dose. Se treina e no dia seguinte está igual ou melhor, acertou. Vamos ajustar o volume e a intensidade para manter você ativo, estimulando a síntese de colágeno sem destruir o tecido.
Exercícios isométricos para analgesia imediata
Isometria é mágica para dor em tendão. Fazer força sem movimento. Por exemplo: empurrar uma parede ou segurar um peso na metade do caminho do tríceps testa, parado, por 30 a 45 segundos. Estudos mostram que isso tem um efeito analgésico potente, reduzindo a inibição cortical do músculo.
Eu uso isometria no início do treino para “anestesiar” a dor de forma natural e permitir que o atleta treine melhor, e nos dias de descanso para manter a estrutura forte sem o atrito do movimento repetitivo.
A mágica do fortalecimento excêntrico para tendões
Para curar uma tendinose (degeneração), precisamos remodelar o colágeno. O melhor jeito de fazer isso é com exercício excêntrico lento. Imagine fazer um tríceps na polia: você desce o peso com ajuda (ou com os dois braços) e segura a volta (a subida, onde o músculo alonga) bem devagar, contando até 4 ou 5 segundos.
Essa tensão controlada durante o alongamento do músculo organiza as fibras do tendão. É como pentear um cabelo embaraçado. Dói um pouquinho? Sim, e é esperado. Mas é essa tensão mecânica que sinaliza para as células do tendão: “Precisamos ficar mais fortes e alinhados”.
Terapias Aplicadas e Indicadas
Para finalizar nosso papo e te colocar de volta no supino pesado, além dos ajustes de treino, a fisioterapia moderna tem ferramentas que aceleram (e muito) esse processo.
A Terapia por Ondas de Choque é, hoje, o padrão ouro para tendinopatias crônicas e calcificações. Ela gera um microtrauma controlado que “reinicia” a cicatrização em tendões que pararam de responder. Dói na hora, mas o resultado a médio prazo é fantástico.
O Dry Needling (Agulhamento a Seco) é essencial para soltar os pontos de tensão (trigger points) no ventre muscular do tríceps e nos extensores do antebraço. Se o músculo está tenso e encurtado, ele puxa o tendão 24 horas por dia. Soltar o músculo dá uma folga imediata para o tendão.
A Liberação Miofascial (Manual ou Instrumental) ajuda a melhorar o deslizamento entre as cabeças do tríceps e reduz a fibrose. E, claro, a Fotobiomodulação (Laser de Alta Potência) entra para controlar a inflamação aguda e dar energia (ATP) para as células trabalharem no reparo.
Mas lembre-se: as máquinas ajudam, mas o que cura é o exercício bem dosado e a correção da técnica. Cuide do seu cotovelo, ele é a dobradiça do seu sucesso. Bom treino!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”