O perigo da especialização precoce e as lesões por esforço repetitivo

O perigo da especialização precoce e as lesões por esforço repetitivo

Fala, tudo bem? Puxa uma cadeira aqui no consultório. Se você chegou até mim, imagino que esteja preocupado com aquele “clique” no ombro do seu filho nadador, ou com a dor no calcanhar da sua filha que faz ginástica cinco vezes por semana. É cada vez mais comum eu ver o consultório cheio de atletas que ainda nem trocaram todos os dentes de leite, mas já têm lesões de gente grande. A gente precisa ter uma conversa muito séria, de fisioterapeuta para família, sobre essa corrida maluca pela medalha de ouro antes da hora.

Existe uma cultura muito forte hoje em dia de achar que precisamos criar “mini-profissionais”. Vemos vídeos na internet de crianças de 6 anos fazendo dribles incríveis e achamos que, se nosso filho não estiver fazendo o mesmo, ele vai “perder o bonde” do esporte profissional. Mas, como alguém que conserta os corpos que quebram nesse processo, eu te digo: o corpo humano tem um relógio biológico de maturação que não adianta querer adiantar. Acelerar esse processo tem um custo, e a moeda de troca geralmente é a saúde articular e tendínea do seu filho.

Vamos mergulhar fundo no que acontece debaixo da pele dessas crianças. Não vou usar termos complicados sem explicar, mas você precisa entender a biomecânica e a fisiologia para tomar as melhores decisões. A especialização precoce – que é focar em um único esporte, o ano todo, excluindo outras atividades antes da puberdade – é um dos maiores fatores de risco para lesões que podem, ironicamente, acabar com a carreira que vocês estão tentando construir.

O corpo da criança não é um adulto em miniatura

A fragilidade das placas de crescimento (fises)

A primeira coisa que você precisa gravar é que o esqueleto de uma criança é fundamentalmente diferente do seu. Nos adultos, a parte mais fraca do sistema musculoesquelético geralmente são os ligamentos ou a junção entre músculo e tendão. Mas na criança e no adolescente, o elo mais fraco é a placa de crescimento, ou fise. É uma zona de cartilagem nas pontas dos ossos longos onde ocorre a multiplicação celular para o osso crescer.

Essa região é biologicamente programada para ser remodelada, o que a torna muito mais “mole” e vulnerável a forças de tração e compressão do que os ligamentos ao redor. Quando um adulto torce o tornozelo, ele rompe um ligamento. Quando uma criança tem o mesmo mecanismo de trauma, muitas vezes ela fratura a placa de crescimento porque o ligamento é mais forte que o osso em desenvolvimento.

Na especialização precoce, submetemos essas placas a cargas repetitivas intensas. Se o gesto esportivo (como um arremesso no beisebol ou um saque no vôlei) for repetido milhares de vezes sobre uma placa de crescimento aberta, podemos causar danos irreversíveis, fechamento precoce da fise ou deformidades ósseas. Não é apenas “dorzinha”, é alteração estrutural.

O descompasso entre crescimento ósseo e muscular

Durante os estirões de crescimento, aqueles momentos em que a criança cresce vários centímetros em poucos meses, ocorre um fenômeno biomecânico interessante e perigoso. O osso cresce primeiro e “estica” os tecidos moles (músculos e tendões) que estão presos a ele. Imagine uma corda de violão sendo esticada ao máximo; é assim que ficam os músculos posteriores da coxa e panturrilhas de um adolescente em crescimento.

Nessa fase, o jovem atleta perde flexibilidade naturalmente e, muitas vezes, perde coordenação motora porque o cérebro ainda está atualizando o “mapa” do corpo que mudou de tamanho. Se, nesse momento de tensão muscular extrema e descoordenação, aplicarmos uma carga de treino de alto volume especializada, a chance de lesão dispara.

O tendão, que já está esticado, começa a puxar violentamente o ponto de inserção no osso (apófise). Como o osso ainda está imaturo, essa tração gera inflamações dolorosas chamadas apofisites. É por isso que não podemos treinar um adolescente na fase de estirão com a mesma carga e volume de um adulto, mesmo que ele tenha talento de sobra. O “chassis” ainda não aguenta o motor.

A termorregulação e a percepção de esforço imaturas

Além da parte óssea, o sistema de refrigeração e o “painel de controle” das crianças funcionam de forma diferente. Crianças têm uma proporção de superfície corporal por massa maior que adultos, o que as faz ganhar calor mais rápido em dias quentes e perder calor mais rápido em dias frios. Além disso, elas suam menos, o que torna a termorregulação menos eficiente durante exercícios prolongados.

Mas o ponto crucial aqui é a percepção de esforço. Crianças, especialmente as que querem agradar pais e treinadores, muitas vezes não têm a maturidade cognitiva para diferenciar “dor de cansaço” de “dor de lesão”. Elas continuam correndo e saltando mesmo quando o corpo já está dando sinais de falência mecânica.

Na especialização precoce, onde o ambiente é altamente competitivo, a criança aprende a ignorar esses sinais vitais. O sistema nervoso central, que deveria proteger o corpo limitando a força quando há perigo, é “treinado” para ultrapassar esses limites. Isso cria um cenário onde a lesão por esforço repetitivo se instala silenciosamente até se tornar incapacitante.

A matemática cruel da repetição: Lesões por Overuse

O mecanismo da microtrauma acumulativa

Lesão por overuse, ou superuso, não acontece do dia para a noite. Não é aquele acidente agudo, como cair e quebrar o braço. É uma conta matemática de “carga aplicada” versus “capacidade de recuperação”. Cada vez que o atleta corre, salta ou nada, ocorrem microlesões nos tecidos. Isso é normal e até necessário para ganhar força, desde que haja repouso para o corpo consertar essas microlesões e tornar o tecido mais forte.

O problema da especialização precoce é que ela remove a variável “variabilidade” e muitas vezes a variável “descanso”. Se a criança só joga tênis, ela estressa os mesmos tecidos, nos mesmos ângulos, com as mesmas forças, todos os dias. O tecido não tem tempo de se reparar. As microlesões se acumulam, se fundem e viram uma lesão macroscópica.

É como pingar uma gota d’água na testa. Uma gota não faz nada. Mil gotas irritam. Um milhão de gotas furam a pele. Quando a criança faz o mesmo gesto esportivo milhares de vezes sem a musculatura estabilizadora desenvolvida e sem variação de estímulo, a falha tecidual é uma questão de “quando”, e não de “se”.

Osgood-Schlatter e Sever: As epidemias do esporte infantil

Você provavelmente já ouviu esses nomes estranhos ou conhece alguém que teve. A Doença de Osgood-Schlatter (dor no joelho, logo abaixo da rótula) e a Doença de Sever (dor no calcanhar) são as rainhas do consultório pediátrico esportivo. Elas são, classicamente, lesões de tração em atletas jovens especializados.

No Osgood-Schlatter, o quadríceps forte e encurtado puxa repetidamente a tuberosidade da tíbia (o ossinho da canela) que ainda não calcificou. No Sever, é o tendão de Aquiles puxando o osso do calcanhar. Essas condições explodem em esportes de salto e corrida como futebol, ginástica e basquete.

A especialização precoce agrava isso porque não dá trégua para essas estruturas. Se a criança fizesse natação (que não tem impacto) intercalada com o futebol, daria tempo para o calcanhar “respirar”. Mas ao focar apenas no futebol 5 vezes por semana, a inflamação se torna crônica, a criança manca, perde rendimento e joga com dor, o que altera toda a biomecânica e abre portas para lesões em outros lugares.

Fraturas por estresse: Quando o osso pede socorro

O estágio final e mais temido do overuse é a fratura por estresse. O osso é um tecido vivo que está sempre se remodelando: células retiram osso velho (osteoclastos) e células colocam osso novo (osteoblastos). Para que o osso fique forte, ele precisa de carga, mas se a carga for excessiva e contínua, a taxa de destruição óssea supera a de construção.

Isso cria microfissuras na estrutura óssea. Se o atleta não parar, essas fissuras viram uma fratura real. Vemos muito isso na coluna (espondilólise) de ginastas e bailarinas jovens, e nas canelas e pés de corredores. É uma lesão que obriga a parada total, muitas vezes por meses, e pode exigir cirurgia.

A especialização precoce é o cenário perfeito para isso, pois impõe um volume de carga repetitiva num esqueleto que ainda está mineralizando. Ignorar uma dor na canela ou nas costas de um jovem atleta especializado é negligência. Pode ser o osso gritando antes de quebrar.

O mito das 10 mil horas e a “alfabetização motora”

Variabilidade motora vs. Padrão rígido

Existe uma teoria popularizada de que são necessárias 10 mil horas de prática para atingir a excelência. Muitos pais e treinadores aplicam isso a crianças, achando que precisam começar aos 5 anos para dar tempo. Mas a ciência do esporte mostra que, para esportes de habilidade aberta (como futebol, vôlei, basquete), a diversificação precoce é superior à especialização.

Quando a criança pratica vários esportes, ela desenvolve um “vocabulário motor” vasto. Ela aprende a cair no judô, a ter noção de espaço no futebol, a ter coordenação olho-mão no vôlei e ritmo na dança. Isso cria um sistema nervoso rico e adaptável. Se ela só joga tênis desde os 4 anos, ela vira um robô daquele movimento específico.

Se, no futuro, ela precisar fazer um movimento fora daquele padrão rígido para salvar uma bola ou evitar uma queda, o corpo não sabe como reagir e a lesão acontece. A variabilidade motora é uma vacina contra lesões. O corpo aprende a resolver problemas motores de formas diferentes, distribuindo as cargas por tecidos diferentes.

O risco de assimetrias musculares crônicas

Esportes tendem a ser assimétricos ou a enfatizar grupos musculares específicos. O nadador desenvolve muito os rotadores internos do ombro; o tenista desenvolve um braço muito mais que o outro; o jogador de futebol encurta a cadeia posterior. Em adultos, isso já é problema. Em crianças em crescimento, isso molda a estrutura corporal.

A especialização precoce cristaliza essas assimetrias. Podemos ver alterações posturais estruturais, como escolioses adaptativas ou ombros anteriorizados rígidos, que são difíceis de corrigir depois que o crescimento cessa. O corpo cresce “torto” para se adaptar à demanda do esporte único.

Praticar múltiplos esportes funciona como um “cross-training” natural. O que um esporte encurta, o outro alonga. O que um fortalece, o outro relaxa. Isso mantém o corpo da criança equilibrado e simétrico, prevenindo dores crônicas na vida adulta.

Transferência de habilidades: Por que nadar ajuda a correr

Os pais muitas vezes acham que o tempo gasto em outro esporte é “tempo perdido” para o esporte principal. Errado. Habilidades motoras se transferem. O equilíbrio dinâmico e a explosão adquiridos no basquete melhoram o jogo de rede no tênis. A consciência corporal da ginástica melhora a proteção de bola no futebol.

Estudos mostram que atletas de elite mundial, na sua maioria, praticaram múltiplos esportes até os 14 ou 15 anos e só se especializaram no final da adolescência. Eles têm menos lesões, carreiras mais longas e, curiosamente, mais sucesso do que aqueles que se especializaram muito cedo.

A criança que faz tudo se torna um atleta melhor, não apenas um jogador melhor daquele esporte específico. E um atleta melhor tem ferramentas biomecânicas mais robustas para evitar sobrecargas e lesões traumáticas.

O lado invisível: Burnout e o sistema nervoso

A exaustão mental antes da física

Não podemos separar a cabeça do corpo. O sistema nervoso central controla o tônus muscular, a coordenação e a percepção de dor. A especialização precoce traz consigo uma pressão competitiva adulta: campeonatos, rankings, viagens, pressão por resultados. Isso gera um estresse crônico (cortisol alto).

burnout não é apenas “cansaço de jogar”. É um estado de exaustão física e emocional que leva à queda de performance e à desvalorização do esporte. Quando a criança entra nesse estado, a coordenação motora fina piora, o tempo de reação aumenta e a atenção diminui. Esse é o cenário perfeito para uma lesão traumática, como uma torção de joelho por falta de atenção na aterrissagem.

Muitas “lesões por azar” são, na verdade, falhas de processamento neural causadas por um cérebro estressado e fadigado pela rotina monótona e pressorizada da especialização.

Alterações de sono e recuperação hormonal

O sono é o principal “fisioterapeuta” do corpo. É durante o sono profundo que liberamos o hormônio do crescimento (GH), essencial para reparar os tecidos lesionados no treino. Crianças e adolescentes precisam de mais sono que adultos.

A rotina de atleta de alto rendimento precoce – acordar de madrugada para treinar, escola, treino à tarde, fisioterapia à noite – muitas vezes rouba horas preciosas de sono. Sem sono adequado, não há reparo tecidual. As microlesões se acumulam mais rápido.

Além disso, o estresse competitivo pode alterar o ciclo hormonal, chegando a causar amenorreia (parada da menstruação) em meninas atletas, o que é desastroso para a saúde óssea e aumenta drasticamente o risco de fraturas por estresse.

A perda da identidade fora do esporte

Quando uma criança se especializa muito cedo, ela se torna “o nadador” ou “a ginasta”. Toda a identidade e autoestima dela estão atreladas ao desempenho esportivo. Se ela se lesiona – e como vimos, a chance é alta – ela perde o chão.

Isso gera quadros depressivos e ansiosos que dificultam a reabilitação. A dor física é amplificada pela dor emocional de “não ser ninguém” sem o esporte. Manter a criança em múltiplas atividades e valorizar outros aspectos da vida protege a mente, o que, por sua vez, ajuda a modular a dor e melhora a adesão aos tratamentos preventivos.

Estratégias de blindagem e manejo de carga

A regra de ouro: Idade vs. Horas de treino

Existe uma regra prática muito usada na medicina esportiva pediátrica para prevenir lesões por overuse: o número de horas de treino organizado por semana não deve exceder a idade da criança em anos.

Se seu filho tem 10 anos, ele não deve treinar mais de 10 horas semanais somando tudo (técnico, físico, jogos). Passar desse limite aumenta exponencialmente o risco de lesão. Essa regra simples ajuda os pais a colocarem um freio na empolgação de treinadores e clubes.

Além disso, a recomendação é que a criança tenha pelo menos 1 a 2 dias de descanso total por semana e, idealmente, 2 a 3 meses no ano onde ela não pratica o esporte principal (pode fazer outras atividades, mas não aquela específica).

Monitoramento de dor: Diferenciando crescimento de lesão

Pais precisam ser detetives. Dor do crescimento existe, mas ela tem características específicas: geralmente é bilateral (nas duas pernas), ocorre à noite, melhora com massagem e calor, e não impede a criança de brincar durante o dia.

Já a dor de lesão por esforço repetitivo tende a ser unilateral (ou muito pior de um lado), piora durante ou logo após o esporte, é pontual (a criança aponta com um dedo onde dói) e causa alteração de movimento (mancar).

Se seu filho muda a forma de correr, pede para sair do treino ou precisa de remédio para jogar, isso é lesão. Ignorar isso é permitir que o dano tecidual avance. A comunicação aberta com a criança, sem pressão para “ser forte”, é vital.

O papel do “brincar livre” na prevenção de lesões

O melhor treino preventivo para crianças é o brincar livre. Subir em árvore, pega-pega, pular corda, andar de bicicleta na rua. Essas atividades desenvolvem força, equilíbrio, propriocepção e criatividade motora de forma orgânica e divertida, sem a repetição monótona do treino formal.

O “brincar” recruta músculos em ângulos inusitados, fortalecendo estabilizadores que o treino técnico não atinge. Incentivar o tempo de brincadeira não estruturada é investir na longevidade atlética do seu filho. É o contrapeso necessário à rigidez do esporte competitivo.

Terapias aplicadas e indicadas

Para finalizar nosso papo e te dar um norte prático, quero falar sobre o que a fisioterapia moderna pode fazer para ajudar essas crianças, além de apenas tratar quando machuca.

Primeiro, a Avaliação Biomecânica e do Gesto Esportivo é fundamental. Nós filmamos e analisamos como a criança corre, salta ou arremessa para identificar padrões de movimento perigosos antes que virem dor. A Osteopatia Pediátrica é excelente para manter a mobilidade articular e o equilíbrio das tensões musculares, ajudando o corpo a se adaptar ao crescimento rápido.

Trabalhamos muito com Reeducação Postural Global (RPG) ou Pilates Kids para melhorar a consciência corporal e o alinhamento, combatendo as assimetrias. E, claro, o Recovery Esportivo adaptado para crianças (botas de compressão, liberação miofascial suave) pode ajudar na recuperação, mas sempre lembrando: a melhor terapia é o controle de carga. Se tiver que escolher entre fazer fisioterapia para tratar uma dor ou reduzir o treino, reduza o treino. A saúde do seu filho agradece no longo prazo.

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