Doença de Osgood-Schlatter: Dor no joelho em atletas adolescentes.

Doença de Osgood-Schlatter: Dor no joelho em atletas adolescentes

Fala, campeão (e pais de campeões)! Se você chegou até aqui, imagino que o clima em casa ou no treino esteja meio tenso. Provavelmente, seu filho ou filha – que vive correndo, saltando e chutando bola – começou a mancar e a reclamar de uma dor chata bem naquele ossinho pontudo abaixo do joelho. Talvez você tenha passado a mão e sentido um inchaço, uma “bola” dura que não estava ali antes. O nome disso assusta um pouco: Doença de Osgood-Schlatter. Mas respira fundo, senta aqui na minha frente (virtualmente) e vamos conversar.

Como fisioterapeuta acostumado a lidar com a garotada do esporte, eu vejo isso toda semana. É, de longe, a queixa número um nos consultórios quando o assunto é joelho de adolescente. E a primeira coisa que eu preciso te dizer para baixar a ansiedade é: não é uma doença grave, seu filho não “quebrou” nada e, com o manejo certo, ele não vai precisar abandonar o esporte que ama.

No entanto, também não é algo para ignorar e achar que é frescura. É um sinal de alerta do corpo dizendo que o motor (músculos) está forte demais para a carcaça (ossos) que ainda está em construção. Vamos desmontar esse “palavrão” médico e entender o que está acontecendo lá dentro, de um jeito simples, direto e prático, para você sair daqui sabendo exatamente o próximo passo.

O que é essa “bola” dolorida abaixo do joelho?

O estirão do crescimento: Quando o osso ganha a corrida

Imagine uma obra onde a estrutura do prédio sobe muito rápido, mas a fiação elétrica não tem comprimento suficiente para acompanhar. É mais ou menos isso que acontece na adolescência. Durante o estirão do crescimento (aquele momento que a calça fica curta em duas semanas), os ossos longos, como o fêmur e a tíbia, crescem numa velocidade impressionante.

O problema é que os músculos e tendões não crescem na mesma velocidade. Eles são tecidos moles e demoram mais para se alongar. Resultado? O músculo da coxa (quadríceps) fica “curto” e tenso, esticado como uma corda de violão prestes a arrebentar. Essa tensão gera uma pressão constante nas pontas onde ele se prende.

A briga mecânica: Quadríceps vs. Tíbia

Agora, pense na anatomia. O músculo potente da frente da coxa (quadríceps) se transforma no tendão patelar, que passa por cima da rótula e se “cola” num ponto específico da canela chamado Tuberosidade da Tíbia.[2] É exatamente onde dói.

Em um adulto, esse ponto de colagem é osso duro, sólido. Mas em um adolescente de 11 a 15 anos, esse ponto ainda é uma placa de crescimento (cartilagem), ou seja, é uma área mole e vulnerável. Cada vez que o jovem corre ou salta, o quadríceps dá um puxão violento nessa área mole. O corpo, tentando se defender desse “cabo de guerra”, começa a depositar mais osso ali para reforçar a área. É isso que cria a protuberância, a “bola” no joelho. É uma cicatriz de batalha óssea.

Não é “apenas” dor do crescimento: Por que ignorar é perigoso

Muitos antigos diriam: “Ah, é dor do crescimento, deixa ele jogar que passa”. Cuidado com esse conselho. Embora seja autolimitada (passa quando o crescimento termina), continuar forçando em cima da dor aguda pode causar uma avulsão.

A avulsão é quando o tendão puxa tão forte que arranca um pedacinho do osso. Se isso acontecer, aí sim estamos falando de gesso, muletas e meses parado. O Osgood-Schlatter é o aviso amarelo antes do sinal vermelho. Respeitar a dor agora é garantir que o joelho chegue inteiro na vida adulta.

Por que acontece com os atletas mais dedicados?

O ciclo do impacto: Futebol, Vôlei e Basquete

Você raramente verá um adolescente sedentário com Osgood-Schlatter. Essa é uma “maldição” dos ativos. Esportes que envolvem frenagem brusca, saltos repetitivos e chutes são os vilões perfeitos. No futebol, o chute exige uma extensão violenta do joelho. No basquete e vôlei, a aterrissagem do salto exige que o quadríceps freie o peso do corpo todo.

Essa contração excêntrica (quando o músculo faz força enquanto estica) é o que gera a maior tensão possível na inserção do tendão. Se o seu filho treina 3, 4 ou 5 vezes na semana, ele não está dando tempo para a inflamação baixar entre uma sessão e outra. É um ciclo de microtraumas acumulados.

Biomecânica do salto: Aterrissagem dominante de joelho

Muitos jovens ainda não aprenderam a aterrissar direito. Eles caem com o tronco muito reto e os joelhos projetados para frente. Chamamos isso de estratégia de “dominância de joelho”.

O ideal seria usar o quadril (o bumbum) para amortecer a queda, jogando o quadril para trás. Quando o atleta usa pouco o quadril, o joelho absorve 100% da carga. Ensinar a técnica correta de aterrissagem é uma das chaves para tirar a sobrecarga do tendão patelar e aliviar a dor.

Encurtamento muscular: A corda esticada demais

Lembra que falei que o osso cresce rápido? Isso deixa o adolescente naturalmente “duro”, com pouca flexibilidade. Se você pedir para ele tentar tocar os pés sem dobrar os joelhos, provavelmente ele vai travar longe do chão.

Cadeia posterior encurtada (isquiotibiais e panturrilha) e quadríceps tenso formam a tempestade perfeita. Se a parte de trás da perna está presa, a parte da frente tem que fazer o dobro da força para esticar o joelho. Soltar essa musculatura é, muitas vezes, o alívio imediato que eles buscam.

O dilema do repouso: Parar de treinar ou adaptar?

A “Escala do Semáforo” para dor

Essa é a parte mais difícil: convencer um adolescente que sonha em ser profissional a pisar no freio. Eu não gosto da abordagem “pare tudo por 3 meses”. Isso deprime o atleta e gera perda de condicionamento. Eu uso a regra do semáforo com meus pacientes:

  • Verde (Dor 0-3): Pode treinar normal. É aquele desconforto leve que some quando aquece e não atrapalha a técnica.
  • Amarelo (Dor 4-6): Atenção total. A dor aparece durante o treino e persiste depois.[12][13] Aqui, cortamos os saltos e tiros de velocidade, mas mantemos o treino técnico e de força controlada.
  • Vermelho (Dor 7-10): Mancar. Se o atleta altera a forma de andar ou correr por causa da dor, é game over temporário. Repouso relativo e fisioterapia intensiva até voltar para o amarelo.

Modificação de carga: Treinar inteligente

Não precisamos parar o esporte, precisamos parar o gesto que machuca. Se ele joga futebol, talvez precise ficar duas semanas sem chutar a gol, mas pode fazer passes curtos, treinar posicionamento tático e fortalecer o core.

No basquete, trocamos os saltos por arremessos parados (lances livres). A ideia é manter o atleta ativo, suando e convivendo com o time, mas retirando a carga mecânica sobre a tuberosidade da tíbia. Isso mantém a saúde mental e física.

O impacto psicológico no adolescente

Para um jovem de 13 anos, ser cortado do time ou perder um campeonato parece o fim do mundo. Nós, como profissionais e pais, precisamos validar esse sentimento. Não diminua a frustração dele.

Explique que essa é uma fase estratégica. Estamos cuidando da máquina para que ela dure mais. Use exemplos de atletas famosos que passaram por lesões e voltaram. O suporte emocional aqui é tão importante quanto o gelo no joelho.

Estratégias de Fisioterapia: Indo além do gelo

Soltando o freio: Liberação miofascial

O gelo (crioterapia) é ótimo para analgesia local, mas ele não trata a causa. A causa é a tensão do músculo puxando o osso. No consultório, meu foco é soltar esse quadríceps.

Usamos técnicas de liberação manual, rolos de espuma (foam roller) e até instrumentos de raspagem para soltar o músculo reto femoral e a banda iliotibial. É impressionante como a dor no osso diminui instantaneamente assim que conseguimos relaxar o músculo da coxa. É como soltar a corda do cabo de guerra.

Fortalecimento da cadeia posterior

O joelho é vítima do quadril e do tornozelo. Se o quadríceps está trabalhando demais, geralmente é porque o glúteo está trabalhando de menos.

Um pilar do tratamento é fortalecer “o bumbum” (glúteo médio e máximo) e os posteriores de coxa. Se o atleta tiver uma “traseira” forte, ele para de sobrecarregar a frente do joelho. Exercícios como a ponte, o clam shell e o levantamento terra (com carga adaptada e supervisão) são fundamentais.

Reeducação do movimento

Não adianta soltar o músculo na maca se ele voltar para o campo e saltar errado. Usamos espelhos e vídeos para mostrar ao atleta como ele está se movendo.

Ensinamos o “joelho a não entrar” (valgo dinâmico) e treinamos a aterrissagem suave, silenciosa. Eu costumo dizer: “quero que você pule e caia sem fazer barulho, como um ninja”. Isso obriga o sistema muscular a amortecer o impacto, poupando a estrutura óssea.

O futuro do joelho: Prognóstico e a vida adulta

A protuberância óssea fica para sempre?

Sendo bem honesto: na maioria das vezes, sim. Aquele “calombo” ósseo abaixo do joelho tende a calcificar e ficar ali como uma marca de guerra. Esteticamente pode incomodar um pouco, principalmente quando ajoelha, mas funcionalmente não atrapalha em nada.

O importante é que a dor vai embora quando as placas de crescimento fecham (geralmente por volta dos 16-17 anos). O osso endurece e para de doer. A “bola” fica, mas a vida segue normal.

Ossículos não fundidos: Quando a dor persiste

Em casos raros (cerca de 10%), um pequeno pedaço de osso (ossículo) não se funde à tíbia e fica “solto” dentro do tendão, causando dor mesmo na vida adulta ao ajoelhar.

Nesses casos específicos, e somente se a dor for limitante na vida adulta, uma pequena cirurgia para remover esse ossículo pode ser considerada. Mas isso é exceção da exceção. Para 90% dos casos, o tempo é o melhor remédio.

Prevenção de recidivas

Enquanto o jovem estiver crescendo, a dor pode ir e vir. O segredo é manutenção. Manter a rotina de alongamentos diários e o uso de uma tira subpatelar (aquela faixinha de velcro abaixo do joelho) durante os treinos ajuda a mudar o ponto de tensão e permite treinar com mais conforto. Não espere a dor voltar para recomeçar os exercícios.

Terapias aplicadas e indicadas

Para fechar, quero deixar um resumo do que realmente funciona na prática clínica para o Osgood-Schlatter, além do básico repouso e gelo.

Terapia Manual é essencial para mobilizar a articulação femoropatelar e liberar a tensão do quadríceps. O uso de Kinesio Taping (aquelas fitas coloridas) pode ajudar muito a reduzir a carga no tendão durante o dia a dia escolar e treinos leves, dando suporte mecânico e feedback sensorial.

Em casos de dor muito aguda e inflamação persistente, a Fotobiomodulação (Laser de Baixa Potência) tem mostrado excelentes resultados para acelerar a regeneração tecidual e controlar a dor sem remédios.

E, claro, a Reeducação Postural Global (RPG) ou Pilates focado em adolescentes é fantástico para trabalhar a flexibilidade global e a consciência corporal, atacando a raiz do encurtamento muscular.

Lembre-se: Osgood-Schlatter é chato, dói, mas passa. Com paciência, ajuste de carga e fisioterapia inteligente, seu filho vai passar por essa fase e sair um atleta ainda mais completo e consciente do próprio corpo. Estamos juntos nessa!

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