Fala, atleta! Senta aqui na maca um minuto. Se você joga vôlei, basquete, handebol ou qualquer esporte que envolva sair do chão e voltar, precisamos ter uma conversa muito séria. Eu vejo isso acontecer toda semana na clínica e, sinceramente, parte meu coração porque é algo que muitas vezes poderíamos evitar. Estou falando daquele estalo seco no joelho, seguido de uma dor aguda e da sensação de que a perna “saiu do lugar”. A temida ruptura do Ligamento Cruzado Anterior, o nosso famoso LCA.
Você provavelmente gasta horas treinando impulsão para saltar mais alto, certo? Quer passar do bloqueio, quer enterrar a bola. Mas a minha pergunta para você é: quanto tempo você gasta treinando para aterrissar? O salto é a glória, mas a aterrissagem é onde o perigo mora. E aqui vai o maior insight que posso te dar hoje: o segredo para proteger o seu joelho não está no joelho. Está logo acima, no seu quadril. Especificamente, na força e no controle dos seus glúteos.
Esqueça aquela ideia de que glúteo é treino estético. Para você, saltador, glúteo é equipamento de segurança, tão vital quanto uma joelheira ou um tênis com bom amortecimento. Hoje vou te explicar, de forma que você nunca mais esqueça, por que um bumbum fraco é o melhor amigo do cirurgião de joelho e como vamos transformar seu quadril em uma blindagem para seus ligamentos. Vamos entender essa mecânica agora.
O joelho é vítima, o quadril é o culpado
Entendendo a cadeia cinética fechada e o “escravo” da articulação
Eu costumo dizer aos meus pacientes que o joelho é um “escravo” das articulações vizinhas. Ele está preso entre o tornozelo (que pisa no chão) e o quadril (que controla o tronco). O joelho é uma dobradiça; ele foi feito basicamente para dobrar e esticar. Ele não gosta de rodar e odeia ir para os lados. O problema é que o quadril é uma articulação esférica, feita para rodar para todos os lados.
Quando você aterrissa de um salto, seu pé fixa no chão. Isso cria o que chamamos de cadeia cinética fechada. Se o seu quadril não tiver controle e decidir rodar internamente ou “cair” para o lado, ele leva o fêmur (osso da coxa) junto. Como o pé está travado no chão, o joelho é quem sofre a torção no meio do caminho. É física pura. O quadril manda, o joelho obedece. Se o quadril faz um movimento ruim, o joelho paga a conta com os ligamentos.
Essa relação de dependência é a chave da prevenção. Você pode ter o quadríceps mais forte do mundo, mas se o comando que vem de cima (do quadril) for instável, seu joelho vai sofrer forças de cisalhamento que o LCA não foi projetado para suportar. O ligamento é forte, mas ele tem um limite mecânico. Nossa missão é garantir que o quadril nunca coloque o joelho nessa posição de estresse máximo.
O pesadelo do valgo dinâmico na aterrissagem
Você já deve ter ouvido esse termo ou visto vídeos em câmera lenta de lesões. O valgo dinâmico é aquele movimento onde, ao aterrissar ou mudar de direção, os joelhos “beijam” um ao outro, caindo para dentro. Essa posição é a criptonita do LCA. Quando o joelho colapsa para dentro, ele estica o ligamento cruzado anterior ao máximo, como uma corda prestes a arrebentar.
Esse colapso não acontece porque o joelho quer. Ele acontece porque os músculos do quadril, que deveriam manter a coxa alinhada com o pé, falharam. Se os rotadores externos e abdutores do quadril (seus glúteos) não segurarem o fêmur, a gravidade e a inércia empurram tudo para o centro. É um colapso estrutural momentâneo, mas suficiente para romper o tecido.
Identificar esse padrão é a primeira coisa que faço na avaliação. Peço para o atleta saltar de um caixote. Se na aterrissagem o joelho treme e cai para dentro, temos um sinal vermelho piscando. Isso indica que, sob carga e velocidade, seu sistema de proteção está desligado. Corrigir o valgo dinâmico é, basicamente, ensinar seu glúteo a não deixar seu joelho cair.
Por que o LCA rompe sem contato físico
Muitos atletas acham que o ligamento rompe quando alguém cai em cima da perna deles. A estatística mostra o contrário. A grande maioria das lesões de LCA em saltadores ocorre sem contato nenhum com adversários. É o atleta contra o próprio corpo. É o momento da aterrissagem, da desaceleração brusca ou do giro para sair de uma jogada.
Isso é uma ótima notícia, na verdade. Se a lesão ocorre sem contato, significa que ela é previsível e prevenível. Significa que a culpa foi de uma falha mecânica interna, não de um acidente externo incontrolável. Se melhorarmos a mecânica interna, reduzimos drasticamente o risco. O corpo colapsa porque a força que você gerou ou absorveu foi maior do que a capacidade dos seus músculos de estabilizar a articulação.
Ao focar no fortalecimento dos glúteos, estamos atacando a raiz dessa falha mecânica. Estamos dando ao corpo a capacidade de absorver a força do impacto usando músculo, e não ligamento. O ligamento é o último recurso, a última barreira. Se você está pendurado no ligamento a cada salto, é questão de tempo até ele falhar. O músculo tem que chegar primeiro.
A tríade dos glúteos na proteção do ligamento
Glúteo Médio: O estabilizador lateral que impede o colapso
O glúteo médio é a estrela principal quando falamos de prevenção de LCA. Ele fica na lateral do seu quadril e é o principal responsável por abrir a perna (abdução). Mas a função mais vital dele para você não é abrir a perna, é impedir que ela feche quando você está apoiado em um pé só ou aterrissando. Ele é o pilar lateral.
Se o glúteo médio é fraco ou preguiçoso, quando você pisa no chão, a pélvis do lado oposto cai. Isso força o fêmur do lado apoiado a rodar para dentro e aduzir. É o início do valgo dinâmico que falamos antes. Um glúteo médio forte mantém a pélvis nivelada e o joelho alinhado com a ponta do pé, como se fosse um prumo de pedreiro.
Treinar esse músculo exige consciência. Muitas vezes ele está inibido porque passamos o dia sentados. Ele “esquece” como trabalhar. Precisamos acordá-lo e fortalecê-lo para que ele seja um guardião vigilante, impedindo qualquer desvio lateral do joelho durante a aterrissagem do bloqueio ou do rebote.
Glúteo Máximo: O motor da extensão e o freio do corpo
O glúteo máximo é aquele músculo grande que dá o formato ao bumbum. Ele é o motor primário da propulsão; é ele que te joga para cima. Mas na prevenção de lesão, ele atua como o principal freio. Ele controla a flexão do tronco para frente e impede que o fêmur rode internamente. Ele é um rotador externo potente.
Quando você aterrissa, o glúteo máximo precisa contrair excentricamente (enquanto alonga) para absorver a energia. Se ele não faz isso, quem tem que frear o movimento é o quadríceps e a estrutura passiva do joelho. Além disso, ele ajuda a manter o tronco ereto. Um tronco que cai muito para frente na aterrissagem altera o centro de gravidade e coloca mais tensão no joelho.
Ter um glúteo máximo potente garante que você aterrisse com controle. Ele segura o quadril, impedindo que o corpo desmorone sobre os joelhos. É a diferença entre uma aterrissagem suave e controlada e uma aterrissagem seca e perigosa.
A importância vital da rotação externa do fêmur
Essa é uma nuance biomecânica que salva carreiras. O LCA rompe com a rotação interna do fêmur sobre a tíbia fixa. Portanto, qualquer músculo que faça o contrário — rotação externa — é um protetor do ligamento. Os glúteos (tanto o máximo quanto as fibras posteriores do médio) são rotadores externos.
Ao fortalecer essa função de rotação externa, criamos um torque de proteção. Mesmo que a força do impacto tente rodar seu joelho para dentro, seus músculos estão ativos puxando para fora, neutralizando a força lesiva. É um cabo de guerra onde queremos que os glúteos ganhem sempre.
Nos meus treinos preventivos, sempre incluo exercícios que desafiam essa rotação. Não basta empurrar peso; você tem que controlar a rotação do osso da coxa. É esse detalhe fino que mantém a articulação congruente e o ligamento frouxo e feliz, longe da tensão de ruptura.
A aterrissagem: O momento da verdade para o LCA
Absorção de impacto e o perigo da dominância de quadríceps
Existe um padrão de movimento muito comum em atletas de salto que chamamos de “dominância de quadríceps”. É aquele atleta que aterrissa com o tronco muito reto e os joelhos projetados para frente, usando quase só a coxa para frear. Isso coloca uma tensão absurda no tendão patelar e cisalha a tíbia para frente, esticando o LCA.
O quadríceps é importante, claro, mas ele não pode trabalhar sozinho. O LCA sofre quando o quadríceps puxa a tíbia para frente sem que os isquiotibiais e os glúteos puxem para trás para equilibrar. Precisamos mudar sua estratégia de aterrissagem para uma “dominância de quadril”.
Isso significa ensinar você a jogar o bumbum para trás quando toca o chão, como se fosse sentar em uma cadeira. Ao flexionar o quadril e usar os glúteos na aterrissagem, você tira a carga do joelho e a distribui para a musculatura mais forte e volumosa do corpo. É uma mudança técnica que salva o ligamento.
Aterrisando “duro” versus aterrissando com o quadril
O som da sua aterrissagem me diz muito sobre o risco de lesão. Uma aterrissagem barulhenta, seca, “dura”, indica que você não está usando a musculatura para amortecer. A energia do impacto está indo direto para o osso e para a cartilagem. Uma aterrissagem silenciosa, suave, mostra que você usou o curso articular e a contração muscular para dissipar a energia.
Os glúteos são essenciais para essa aterrissagem suave (soft landing). Eles permitem uma flexão profunda e controlada. Se os glúteos são fracos, o atleta tende a travar o joelho em extensão ou flexionar muito pouco, o que é desastroso para o amortecimento. O impacto sobe seco pela perna e encontra o ponto mais fraco: muitas vezes, o ligamento cruzado.
Treinamos isso exaustivamente. Salte e caia sem fazer barulho. Isso obriga seu sistema nervoso a recrutar a cadeia posterior (glúteos e posteriores de coxa) para controlar a descida. É uma reeducação motora simples, mas poderosa.
O papel da desaceleração horizontal nos esportes de quadra
No vôlei e basquete, você não salta só para cima. Você salta para frente, para trás, na diagonal. A aterrissagem envolve frear um movimento horizontal. Imagine atacar uma bola vindo de trás da linha dos 3 metros. Você voa para frente e, ao tocar o chão, precisa parar instantaneamente para não invadir a rede.
Essa força de frenagem horizontal é extremamente agressiva para o LCA. O corpo quer continuar indo para frente, mas o pé travou no chão. O glúteo máximo é o principal freio dessa inércia. Ele segura o tronco e o fêmur, impedindo que eles sejam projetados à frente sobre a tíbia.
Se o glúteo não segurar, o quadríceps tenta sozinho e gera uma translação anterior da tíbia que rompe o ligamento. Fortalecer o glúteo em vetores horizontais, e não apenas verticais, prepara o atleta para essa demanda específica do jogo.
Protocolo de fortalecimento: Do isolado ao funcional
Ativação inicial: Acordando o músculo “dorminhoco”
Antes de colocar carga, precisamos garantir que o cérebro consegue encontrar o músculo. Começamos com exercícios de baixa carga e alta concentração, como o “clam shell” (ostra), a ponte de glúteos no chão ou a abdução deitada de lado. O objetivo aqui não é hipertrofia, é conexão neural.
Você precisa sentir o glúteo queimar, e não a coxa ou a lombar. Muitos atletas compensam usando outros músculos. Nessa fase, eu coloco a mão no glúteo do paciente e digo: “contrai aqui”. É preciso reverter a inibição glútea. Se você não consegue contrair o glúteo voluntariamente deitado, não vai conseguir contrair voando a um metro de altura.
Essa fase é rápida, mas essencial. É calibrar o sistema. Usamos minibands (elásticos pequenos) ao redor dos joelhos para dar um feedback tátil. O atleta tem que empurrar o elástico para fora, ativando o glúteo médio, antes de fazer qualquer movimento.
Carga e hipertrofia: Construindo a blindagem muscular real
Depois que o músculo “acordou”, precisamos de força bruta. Glúteo é um músculo forte e precisa de carga de verdade para crescer e ficar potente. Aqui entram o Agachamento profundo, o Levantamento Terra (Deadlift) e a Elevação Pélvica com barra (Hip Thrust).
A Elevação Pélvica é fantástica porque isola a extensão do quadril com o joelho flexionado, tirando a ajuda dos isquiotibiais e focando totalmente no glúteo máximo. O Agachamento Búlgaro (unilateral) também é obrigatório, pois trabalha o glúteo médio para estabilizar a pélvis enquanto o máximo faz força.
Não tenha medo de peso, desde que a técnica seja perfeita. Precisamos aumentar a área de secção transversa do músculo. Um glúteo volumoso e forte é uma almofada de segurança para o joelho. Sem força real, a estabilidade falha sob a carga de um salto máximo.
Integração com o gesto esportivo do salto (Pliometria)
A última fase é a mais divertida e a mais específica. O músculo já sabe contrair e já tem força. Agora ele precisa aprender a funcionar rápido e no tempo certo. Isso é pliometria. Fazemos saltos em caixas, saltos unipodais e mudanças de direção.
O foco aqui não é a altura do salto, mas a qualidade da aterrissagem. Eu peço para o atleta saltar, cair em um pé só e “congelar” a posição por dois segundos. Ele tem que cair com o joelho alinhado e o glúteo segurando. Se o joelho sambar, repetimos.
Introduzimos também perturbações. Empurro levemente o atleta no ar ou na aterrissagem para que o sistema reflexo dos glúteos aprenda a reagir a imprevistos. É aqui que transformamos a força de academia em prevenção de lesão no jogo real.
Fadiga e controle neuromuscular: Quando o risco aumenta
A perda da técnica e estabilidade com o cansaço
A maioria das lesões não acontece no aquecimento ou no primeiro set. Elas acontecem no final do jogo, no tie-break, quando você está exausto. A fadiga altera o controle motor. O cérebro cansado busca atalhos e para de recrutar os músculos estabilizadores da forma correta.
Quando você está cansado, tende a aterrissar com as pernas mais esticadas e o tronco mais ereto — exatamente o padrão de risco que queremos evitar. Os glúteos param de disparar rápido e o valgo dinâmico começa a aparecer.
Precisamos treinar sob fadiga. No final da sessão de fisioterapia ou treino físico, quando o atleta já está cansado, introduzimos exercícios de aterrissagem. O objetivo é forçar o atleta a manter a técnica impecável mesmo quando os pulmões e as pernas estão queimando. É treinar a resistência mental e motora.
O atraso na ativação (Delay Eletromecânico) pós-esforço
Existe um fenômeno chamado delay eletromecânico. É o tempo entre o cérebro mandar o sinal e o músculo realmente gerar força. Em estado de fadiga, esse delay aumenta. Esses milissegundos de atraso são a janela de oportunidade para o LCA romper. O pé toca o chão, mas o glúteo demora para contrair. O joelho fica desprotegido nesse intervalo.
O treinamento de resistência de força dos glúteos visa diminuir esse efeito. Queremos fibras musculares resistentes, que mantenham a capacidade de disparo rápido por mais tempo. Exercícios de potência em estado de pré-fadiga ajudam o sistema nervoso a otimizar a velocidade de condução do impulso elétrico.
Não basta ser forte no primeiro salto. Você tem que ser estável no centésimo salto. A consistência da ativação glútea ao longo do tempo é o que protege o atleta durante uma temporada inteira ou um torneio longo.
Treinando resistência de força para o “quarto set”
Na prática, isso significa incluir séries de altas repetições ou circuitos metabólicos que envolvam estabilidade de quadril. Fazer passadas (lunges) andando por longas distâncias ou manter a posição de agachamento isométrico enquanto faz passes com medicine ball.
O atleta precisa aprender a sensação de ativar o glúteo mesmo quando a perna está pesada. É criar uma memória muscular resiliente. Se a sua técnica de aterrissagem desmorona quando você cansa, você está jogando roleta russa com seus joelhos nos finais de partida.
Nós simulamos situações de jogo. Saltos consecutivos com pouco descanso, exigindo alinhamento perfeito a cada repetição. Se a qualidade cair, paramos. O cérebro não pode aprender a fazer errado. Ele tem que lutar para manter o padrão certo até a exaustão.
Terapias aplicadas e indicadas
Para fechar nosso papo com chave de ouro, além de todo esse suor, temos algumas cartas na manga na fisioterapia para acelerar esse processo. A Eletroestimulação Funcional (FES ou Corrente Russa) é fantástica para ensinar o glúteo a contrair. Colocamos o aparelho no músculo e pedimos para você fazer o exercício junto. Isso recruta mais fibras do que você conseguiria sozinho.
O Biofeedback é outra ferramenta incrível. Usamos sensores ou até um espelho na frente do atleta para que ele veja em tempo real se o joelho está caindo para dentro. Ver o erro ajuda o cérebro a corrigir instantaneamente. A Terapia Manual também entra para soltar restrições no quadril ou tornozelo que possam estar impedindo o movimento correto.
E, claro, não podemos esquecer da Liberação Miofascial para manter a musculatura solta e vascularizada, pronta para responder aos comandos. Mas lembre-se: a terapia passiva ajuda, mas é o exercício ativo de fortalecimento que vai salvar seu joelho. Glúteo forte, joelho seguro. Bora treinar!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”