Canelite: O guia definitivo para voltar a correr sem dor na tíbia

Canelite: O guia definitivo para voltar a correr sem dor na tíbia

Você provavelmente está lendo isso porque sente aquela queimação familiar na parte interna da canela. Talvez comece como um incômodo leve nos primeiros quilômetros e desapareça, ou talvez já tenha evoluído para uma dor pulsante que impede você de dar até mesmo um trote leve. Eu vejo isso todos os dias no consultório. A canelite, ou Síndrome do Estresse Tibial Medial, é o fantasma que assombra corredores iniciantes e veteranos, transformando o prazer da endorfina em frustração pura.

A boa notícia é que a sua tíbia não está “quebrada” — ela está gritando por atenção. Entender o que o seu corpo está tentando comunicar é o primeiro passo para resolver isso de vez. Não existe pílula mágica, mas existe fisiologia, biomecânica e um plano estruturado. Vamos deixar de lado o “repouso absoluto” que muitos recomendam sem critério e vamos focar em gerenciamento de carga e adaptação tecidual.

Pegue sua garrafa de água, sente-se confortavelmente e vamos conversar sobre como recuperar sua corrida. Vou te explicar exatamente o que está acontecendo aí embaixo, por que os tratamentos antigos falharam com você e qual é o caminho real, baseado em ciência e prática clínica, para você voltar a correr sem medo daquela pontada na canela.

O que é a Canelite? (Entendendo o Inimigo)

Anatomia da dor: Tíbia, Periósteo e Músculos

Para vencer a canelite, você precisa visualizar o campo de batalha. A sua canela é formada principalmente pela tíbia, um osso robusto projetado para suportar carga. Envolvendo esse osso, existe uma membrana muito fina e sensível chamada periósteo.[1] É como se fosse uma “pele” do osso, rica em terminações nervosas e vasos sanguíneos. Quando falamos de canelite, estamos falando, na maioria das vezes, de uma inflamação nessa membrana (periostite) ou de uma reação de estresse no próprio osso.[1][2][3][4][5]

Mas o problema não começa no osso; ele começa nos músculos. Músculos como o sóleo, o tibial posterior e o flexor longo dos dedos têm suas origens fixadas na borda póstero-medial da tíbia. A cada passo que você dá na corrida, esses músculos se contraem para estabilizar seu pé e absorver o impacto. Se eles estão fatigados ou fracos, eles tracionam excessivamente o periósteo, puxando-o repetidamente. Imagine puxar uma fita adesiva colada em uma parede várias vezes; eventualmente, a parede (o periósteo) começa a inflamar.

Essa tração constante gera microlesões. Seu corpo é inteligente e tenta reparar essas lesões criando osso novo, mas se você continua correndo sem dar tempo para esse reparo, o processo inflamatório vence a regeneração. É nesse momento que a dor se instala e não vai embora.[6] Não é apenas “dor muscular”, é uma falha na adaptação do tecido ósseo e fascial à carga que você está impondo.[6]

A diferença entre inflamação e fratura por estresse

Muitos corredores chegam até mim apavorados, achando que fraturaram a perna. É crucial diferenciar a Síndrome do Estresse Tibial Medial (a canelite clássica) de uma fratura por estresse, embora elas façam parte do mesmo espectro de lesão.[3] Pense nisso como uma linha contínua: começa com uma inflamação leve, evolui para uma reação de estresse ósseo (edema ósseo) e, se ignorada, torna-se uma fratura por estresse. A canelite é o aviso amarelo; a fratura é o sinal vermelho.

Na canelite comum, a dor costuma ser difusa. Se eu pedir para você apontar onde dói, você provavelmente vai passar a mão por uma área de cinco a dez centímetros na parte interna da canela. A dor geralmente diminui ou “esquenta” após o aquecimento e volta a doer depois do treino. Já na fratura por estresse, a dor é pontual. Você consegue apontar com a ponta de um único dedo o local exato da dor, e ela é excruciante.

Além disso, na fratura por estresse, a dor não melhora com o aquecimento; ela piora a cada passo e pode doer até mesmo em repouso ou à noite, enquanto você está na cama. O teste do salto em uma perna só é um divisor de águas aqui: quem tem canelite sente desconforto, mas quem tem fratura por estresse muitas vezes não consegue nem tirar o pé do chão devido à dor aguda. Saber essa diferença é vital para definir se você precisa apenas ajustar o treino ou se precisa de muletas.

Por que a dor piora no dia seguinte?

Você correu ontem, sentiu um incômodo leve, mas hoje de manhã, ao colocar o pé no chão, parece que alguém chutou sua canela com uma bota de ferro. Esse fenômeno é clássico e tem explicação fisiológica. Durante a noite, enquanto você dorme, seu corpo entra em estado anabólico de reparo. O fluxo sanguíneo muda, e a inflamação se organiza. O periósteo e os tecidos moles ao redor ficam edemaciados (inchados) e mais rígidos devido à inatividade prolongada.

Quando você acorda e dá o primeiro passo, está exigindo elasticidade de tecidos que estão inflamados e tencionados. A fáscia que envolve os músculos da panturrilha e se insere na tíbia está “fria” e encurtada. Esse estiramento súbito sobre uma área já sensibilizada envia um sinal de dor intenso ao cérebro. É o corpo dizendo: “Ei, ainda não terminamos o reparo aqui, vá devagar”.

Além disso, a resposta inflamatória tem um pico tardio. As citocinas inflamatórias, substâncias químicas que seu corpo produz para sinalizar que há algo errado e iniciar a cura, muitas vezes atingem sua concentração máxima horas após o trauma (o treino). Por isso, a avaliação da dor não deve ser feita apenas durante a corrida, mas monitorada nas 24 horas seguintes. Se a dor no dia seguinte for superior a 3 numa escala de 0 a 10, é sinal claro de que a carga do treino anterior foi excessiva para a capacidade atual do seu osso.

Por que isso está acontecendo com você? (Causas Reais)

O erro do volume (Too much, too soon)

Vamos ser brutalmente honestos: na grande maioria dos casos que trato, a culpa não é do tênis, nem do asfalto, mas da planilha de treino (ou da falta de uma). O erro número um é o que chamamos de “terrible toos”: too much, too soon (muito volume, muito cedo). O sistema cardiorrespiratório evolui muito mais rápido que o sistema musculoesquelético. Você sente que tem fôlego para correr 10km, mas seus ossos e tendões ainda estão preparados para apenas 5km.

O osso é um tecido vivo que responde à Lei de Wolff: ele se remodela de acordo com as cargas impostas a ele. Se você aplica carga gradualmente, ele fica mais denso e forte. Se você aplica carga excessiva sem descanso, ele entra em falência. Aumentar o volume semanal de corrida em mais de 10% a 20% de uma vez é a receita perfeita para a canelite. O osso simplesmente não consegue depositar cálcio e colágeno na velocidade necessária para acompanhar a destruição causada pelo impacto.

Muitos corredores também erram ao voltar de um período parado. Se você ficou um mês sem correr, não pode voltar no mesmo ritmo e distância de onde parou. A densidade óssea e a tolerância tecidual diminuem com o destreino. A canelite é, essencialmente, uma lesão de sobrecarga onde a demanda superou a capacidade do tecido. Você pediu um cheque que seu corpo não tinha fundos para cobrir naquele momento.

A biomecânica da pisada (Pronação excessiva e o “chicote” tibial)

A forma como seu pé interage com o solo dita o que acontece no andar de cima, na sua canela. A pronação (o movimento do pé para dentro ao aterrissar) é natural e necessária para absorver impacto. O problema surge quando essa pronação é excessiva ou ocorre muito rapidamente.[3][6][7][8] Quando o arco do pé desaba abruptamente, ele força a tíbia a fazer uma rotação interna rápida.

Imagine a tíbia torcendo como um pano molhado sendo espremido. Essa torção tibial interna aumenta drasticamente a tensão nos músculos que tentam controlar esse movimento, especificamente o tibial posterior e o sóleo. Eles trabalham hora extra tentando “segurar” o arco do pé para que ele não desabe completamente. Essa batalha mecânica acontece milhares de vezes em uma corrida de 5km.

Se você tem fraqueza nos músculos intrínsecos do pé ou no glúteo (que controla a rotação da perna lá de cima), a tíbia sofre essa chicotada a cada passo. Não é apenas sobre ter “pé chato”, mas sobre a capacidade funcional do seu pé de controlar o movimento. Um pé que desaba sem controle joga toda a responsabilidade de absorção de impacto para a estrutura óssea da canela, que, invariavelmente, vai reclamar.

O mito do tênis perfeito vs. a realidade do calçado gasto

Eu adoro falar sobre tênis, mas precisamos desmistificar algumas coisas. Não existe um tênis mágico que “cura” canelite. Porém, existe o tênis errado. O maior vilão não é a marca, mas o tempo de uso. A espuma do tênis (o EVA ou tecnologias proprietárias) tem uma vida útil, geralmente entre 500km e 800km. Depois disso, a capacidade de amortecimento morre, mesmo que o tênis pareça novo por fora.

Quando a entressola perde a resiliência, ela para de dissipar a energia do impacto. Essa energia precisa ir para algum lugar, e adivinhe para onde ela vai? Direto para a sua tíbia. Correr com um tênis “morto” é como correr descalço no concreto, mas sem a mecânica natural de proteção do pé. Além disso, tênis muito instáveis ou macios demais podem piorar a situação para quem já tem instabilidade de tornozelo, exigindo mais trabalho muscular para estabilizar.

Outro ponto é o “drop” do tênis (a diferença de altura entre o calcanhar e a ponta do pé). Mudar drasticamente de um tênis com drop alto (10-12mm) para um drop baixo ou zero (0-4mm) sem adaptação coloca uma carga absurda na musculatura da panturrilha e no tendão de Aquiles. Como vimos, se a panturrilha fica sobrecarregada, ela traciona a tíbia. A troca de calçados deve ser tão gradual quanto o aumento do volume de treino.

Biomecânica e Técnica de Corrida[3][7][8][9]

Cadência: O segredo dos 170-180 passos por minuto

Se eu tivesse que te dar apenas uma dica técnica para salvar suas canelas hoje, seria esta: aumente sua cadência. Cadência é o número de passos que você dá por minuto (PPM). A maioria dos corredores recreativos corre com uma cadência baixa, algo em torno de 150 a 160 PPM. Isso geralmente significa que eles estão dando passos muito longos e saltando muito alto a cada passada (oscilação vertical excessiva).

Pense na física simples: quanto mais alto você salta a cada passo, maior a gravidade puxando você para baixo e maior o impacto na aterrissagem. Ao aumentar sua cadência para algo próximo de 170 a 180 PPM, mantendo a mesma velocidade, você é obrigado a dar passos mais curtos. Isso reduz o tempo de contato com o solo e, crucialmente, diminui a carga de impacto acumulada.

Estudos mostram que um aumento de apenas 5% a 10% na cadência pode reduzir significativamente a carga no joelho e na tíbia. Você não precisa virar um robô, mas tente correr “mais leve”, fazendo menos barulho ao tocar o chão. Imagine que você está correndo sobre brasas quentes; você quer tirar o pé do chão o mais rápido possível. Essa mudança simples redistribui as forças e alivia o estresse no periósteo tibial quase instantaneamente.

Onde seu pé aterrissa: Overstriding (passada larga demais)

O “overstriding” é o irmão gêmeo da cadência baixa. Acontece quando você aterrissa com o pé muito à frente do seu centro de gravidade (muito à frente do quadril). Quando você faz isso, com o joelho esticado e o calcanhar travado, você está essencialmente pisando no freio a cada passo. A força de reação do solo vem contra você, enviando uma onda de choque direta pela tíbia até o joelho.

Essa aterrissagem “no freio” é devastadora para quem tem canelite. A tíbia precisa absorver essa força de frenagem abrupta. O objetivo biomecânico ideal é aterrissar com o pé o mais próximo possível abaixo do seu corpo, com o joelho levemente flexionado. O joelho dobrado funciona como uma mola natural, usando os músculos do quadríceps e da panturrilha para dissipar a energia.

Você pode corrigir isso inclinando levemente o corpo inteiro para frente (a partir dos tornozelos, não dobrando a cintura). Isso desloca seu centro de massa e facilita uma aterrissagem mais suave e eficiente. Não se preocupe tanto se pisa com o calcanhar ou com o meio do pé agora; preocupe-se onde o pé toca o chão em relação ao seu quadril. Traga o pé para “baixo” de você, não para “frente” de você.

A influência do terreno: Concreto, asfalto ou esteira?

A superfície onde você corre é o palco onde o drama da canelite se desenrola. O concreto (calçadas) é a superfície mais dura disponível, oferecendo zero absorção de impacto. O asfalto é um pouco menos rígido, mas ainda muito duro. Para quem está em fase de reabilitação ou retorno, essas superfícies são hostis. A vibração gerada pelo impacto no concreto viaja diretamente para o osso fragilizado.

A esteira, por outro lado, tem um deck que flexiona, absorvendo uma parte considerável do choque. Para o retorno à corrida pós-canelite, a esteira é uma ferramenta excelente. Ela permite controlar a velocidade, a inclinação e elimina as irregularidades do terreno que podem causar torções inesperadas. Grama e terra batida são ótimas opções também, mas cuidado com buracos e desníveis que podem sobrecarregar os estabilizadores do tornozelo.

Outro fator muitas vezes ignorado é a inclinação lateral das ruas (o abaulamento para escoar água). Correr sempre do mesmo lado da rua faz com que uma perna esteja sempre “mais curta” que a outra devido à inclinação, gerando uma pronação assimétrica. Se você sempre corre o mesmo percurso, na mesma direção, na mesma calçada, está criando um desequilíbrio repetitivo. Varie o terreno e o sentido do seu percurso para distribuir as cargas de forma mais equitativa.

O Papel do Equilíbrio Muscular nos Membros Inferiores

Sóleo e Gastrocnêmio: Os absorvedores de impacto esquecidos

Quando pensamos em panturrilha, pensamos naquele músculo “batata da perna” que aparece quando ficamos na ponta do pé. Esse é o gastrocnêmio. Mas, por baixo dele, existe um herói silencioso chamado sóleo. Estudos biomecânicos mostram que o sóleo é capaz de suportar cargas de até 8 vezes o seu peso corporal durante a corrida. Ele é o principal protetor da sua tíbia.

Se o sóleo é fraco, a carga que ele deveria absorver passa direto para o osso. E aqui está o erro comum na academia: fazer apenas exercícios de panturrilha com o joelho esticado. Isso foca no gastrocnêmio. Para blindar sua canela, você precisa fortalecer o sóleo, e isso se faz com o joelho flexionado. Exercícios de panturrilha sentado (gêmeos sentado) são obrigatórios para qualquer corredor com histórico de canelite.

Não tenha medo de colocar carga. Fazer 3 séries de 50 repetições sem peso não vai criar a rigidez tendínea e a força muscular necessária para aguentar a pancada da corrida. Você precisa de peso real, para séries de 8 a 12 repetições, sentindo o músculo queimar. Fortalecer essa musculatura cria um sistema de amortecimento ativo que envolve a tíbia e diminui a vibração óssea.

O Tibial Anterior e Posterior: Controladores do arco plantar

O tibial anterior é aquele músculo na frente da canela, lateral ao osso. Ele é responsável por levantar a ponta do pé (dorsiflexão) para que você não tropece. Na corrida, ele trabalha excentricamente (freando o movimento) logo após o calcanhar tocar o solo, impedindo que o pé “bata” com força no chão. Se ele está fraco ou fadigado, o pé bate com tudo (slapping foot), aumentando o choque.

Já o tibial posterior corre por trás do maléolo medial (o ossinho interno do tornozelo) e se agarra sob o arco do pé. Ele é o principal suporte dinâmico do arco. Se ele falha, o arco desaba (pronação excessiva), e a tíbia torce. Fortalecer esses dois músculos é essencial para criar uma “cinta” de estabilidade ao redor da canela.

Exercícios simples como caminhar com os calcanhares (para o tibial anterior) e exercícios com elásticos resistindo à inversão do pé (para o tibial posterior) fazem maravilhas. Pense nesses músculos como os cabos de sustentação de uma ponte. Se os cabos estão frouxos, a ponte (sua estrutura óssea) oscila e eventualmente quebra. Mantenha os cabos tensos e fortes.

O Quadril: Como o Glúteo Médio protege sua canela

Pode parecer estranho falar de bunda quando a dor é na canela, mas o corpo é uma cadeia cinética fechada. O que acontece no quadril dita o comportamento do joelho e do pé. O glúteo médio é o principal estabilizador da pélvis. Quando você está apoiado em uma perna só (o que é a corrida, afinal), o glúteo médio impede que seu quadril caia para o lado oposto e que seu joelho “entre” (valgo dinâmico).

Se o seu glúteo está “dormindo” ou fraco, seu fêmur roda internamente, seu joelho cai para dentro e — adivinhe — força a tíbia a rodar internamente também, aumentando a pronação do pé. É um efeito dominó. Muitas vezes, a raiz da canelite não está na perna, mas na fraqueza dos abdutores do quadril.

Você pode massagear a canela o dia todo, mas se não fortalecer o glúteo, a mecânica da lesão continuará lá a cada passada. Inclua exercícios como a “Ostra” (Clam shell), passadas laterais com elástico (Monster walk) e pranchas laterais na sua rotina. Um quadril estável é a melhor apólice de seguro para os seus membros inferiores.

Sinais de Alerta e Diagnóstico[1][2][3][4][5][7][8][9][10]

O teste do toque (5cm de dor difusa)

Como saber se você tem mesmo canelite ou algo mais grave? O autoexame é uma ferramenta poderosa. Sente-se e passe os dedos pela borda interna da sua canela, apertando moderadamente. Na Síndrome do Estresse Tibial Medial, você vai sentir uma dor ou sensibilidade ao longo de uma extensão maior, geralmente pegando o terço médio ou distal da tíbia.[7]

A regra prática é: se a dor se espalha por uma área maior que 5cm (aproximadamente três dedos de largura), isso aponta fortemente para a canelite inflamatória clássica. É uma dor “chata”, profunda, mas espalhada. Você sente o osso irregular, talvez até com alguns calombos pequenos, que é o periósteo espessado.

Agora, se você conseguir encontrar um ponto único, minúsculo, onde a dor é aguda e faz você pular da cadeira ao apertar, pare tudo. Isso é o sinal clássico de uma fratura por estresse focal. Nesse caso, a massagem e o alongamento podem piorar a situação.[7] Esse teste simples de palpação pode te salvar de transformar uma lesão de 3 semanas em uma de 3 meses.

Quando procurar um médico (Red Flags)

Embora a fisioterapia resolva a grande maioria dos casos, existem sinais de alerta vermelhos que exigem avaliação médica imediata. Se a dor persiste mesmo em repouso absoluto, se você sente dor noturna que atrapalha o sono, ou se há um inchaço visível e avermelhado quente ao toque, você precisa de um exame de imagem.

Outro sinal de alerta é a alteração de sensibilidade ou formigamento no pé.[4][5] Isso pode indicar que o inchaço está comprimindo nervos importantes. Além disso, se você tem histórico de problemas nutricionais, amenorreia (em mulheres) ou osteoporose na família, seu limiar para procurar um médico deve ser muito baixo.

Não brinque de herói. A dor é um mecanismo de proteção. Se você está mancando no dia a dia para caminhar até a padaria, você não deveria estar tentando correr. O médico ortopedista poderá solicitar uma Ressonância Magnética, que é o padrão-ouro para ver edema ósseo (o Raio-X muitas vezes não mostra nada nos estágios iniciais da canelite).

Diagnóstico diferencial (Síndrome compartimental)

Às vezes, a dor na canela não é óssea, é vascular e muscular. Existe uma condição chamada Síndrome Compartimental Crônica de Esforço.[6][7][9] Os músculos da perna são divididos em “compartimentos” envolvidos por fáscias inelásticas. Quando você corre, o músculo incha com o fluxo sanguíneo. Se a fáscia é muito apertada, não há espaço para o músculo expandir.

A pressão interna sobe drasticamente, cortando o fluxo sanguíneo e comprimindo nervos. A diferença chave aqui é que, na canelite, a dor muitas vezes diminui conforme você aquece (embora volte depois). Na síndrome compartimental, a dor começa após um certo tempo de corrida (ex: sempre no km 3), piora progressivamente a ponto de ficar insuportável e vem acompanhada de dormência ou fraqueza no pé (o pé “cai”).

Ao parar de correr, a dor da síndrome compartimental desaparece quase magicamente em alguns minutos, pois a pressão baixa. Se o seu sintoma parece com esse relógio suíço de dor e alívio imediato, o tratamento é diferente e, muitas vezes, cirúrgico. Por isso, a avaliação profissional é insubstituível.

O Tratamento Completo (Fase Aguda e Crônica)

“Price” e gestão de carga (não é repouso total!)

Esqueça a ideia de ficar deitado no sofá por um mês. O repouso absoluto enfraquece ainda mais os tecidos. Na fase aguda, usamos o protocolo adaptado: Proteção e Gestão de Carga. Você deve parar de fazer o que dói (correr), mas deve continuar ativo. Se caminhar não dói, caminhe. Se pedalar não dói, pedale.

Manter o fluxo sanguíneo é vital para a cura. A “carga ótima” é aquela que estimula o tecido sem agredi-lo. Na fase mais dolorosa, pode ser apenas exercícios isométricos (fazer força sem movimento) para a panturrilha. Isso mantém a conexão neuromuscular e tem efeito analgésico.

O uso de anti-inflamatórios deve ser feito com cautela. A inflamação é o gatilho inicial para o reparo ósseo. Bloquear totalmente a inflamação com remédios pode, ironicamente, atrasar a consolidação óssea real. Use gelo para dor, mas deixe o corpo fazer o trabalho químico de reparo nas primeiras fases.

A estratégia de retorno gradual (Caminhada-Corrida)

Quando a dor no dia a dia sumir, você não volta a correr 5km direto. Nós usamos o protocolo de Caminhada-Corrida. Começamos, por exemplo, com 1 minuto de trote leve e 4 minutos de caminhada, repetindo 5 vezes. Parece ridículo de tão pouco? Ótimo. O objetivo é terminar o treino sem dor e, mais importante, acordar no dia seguinte sem dor.

Se você passou nesse teste, no próximo treino fazemos 2 minutos de trote e 3 de caminhada. Aumentamos a carga progressivamente ao longo das semanas. Isso dá tempo para o periósteo se “calejar” e se adaptar à vibração novamente. É um jogo de paciência.

Durante essa fase, monitore a dor com um semáforo:

  • Verde (dor 0-2/10): Seguro para continuar.
  • Amarelo (dor 3-5/10): Atenção, não aumente a carga, talvez reduza um pouco. O incômodo deve sumir assim que o treino acaba.
  • Vermelho (dor >5/10 ou que altera sua mecânica): Pare imediatamente. Você está se machucando.

O papel do gelo e da analgesia

A crioterapia (gelo) ainda é sua melhor amiga para controle de sintomas. Aplicar gelo no local da dor por 15 a 20 minutos após os exercícios ajuda a controlar o edema excessivo e reduz a velocidade de condução nervosa da dor, dando alívio imediato. Mas lembre-se: o gelo não cura a causa, ele apenas torna a jornada suportável.

Use o balde com água e gelo para imersão da perna se possível, pois cobre toda a circunferência da tíbia e os músculos adjacentes, sendo mais eficaz que a bolsa de gel apenas no local da dor. Você também pode fazer massagem com gelo (criassagem) usando um copinho de café congelado, esfregando diretamente sobre a área dolorida por 5 a 7 minutos.

Evite calor na fase aguda inflamatória, pois pode aumentar o inchaço. O calor é bem-vindo nos músculos (panturrilha e coxa) antes do treino para melhorar a elasticidade, mas sobre a tíbia inflamada, o frio reina soberano.

Terapias Aplicadas e Indicadas[4][7][8][9]

Para finalizar, como fisioterapeuta, vou te contar o que fazemos dentro do consultório para acelerar esse processo. Não adianta só fazer exercícios em casa se o tecido está fibrótico e sem mobilidade.

Liberação Miofascial e Terapia Manual são essenciais.[8] Nós trabalhamos para soltar o sóleo, o gastrocnêmio e o tibial posterior. Muitas vezes, esses músculos têm “nós” de tensão (pontos gatilho) que encurtam a musculatura e mantêm a tensão constante sobre o osso. Soltar essa tensão mecanicamente com as mãos ou instrumentos (raspadores) alivia imediatamente a tração no periósteo. Mobilizar o tornozelo para ganhar amplitude de movimento também é crucial para melhorar a mecânica da pisada.

Dry Needling (Agulhamento a Seco) é uma ferramenta fantástica que uso muito. Inserimos agulhas finas (como as de acupuntura) diretamente nos pontos de tensão profunda da panturrilha que a mão não alcança. Isso gera um “twitch” (espasmo local) que reseta o músculo, relaxando-o e melhorando a vascularização local. É um alívio quase instantâneo para a sensação de perna “presa”.

Fotobiomodulação (Laser de Baixa Potência e LED) é a tecnologia trabalhando a seu favor. A luz penetra no tecido e estimula as mitocôndrias das células a produzirem mais ATP (energia). Isso acelera a regeneração tecidual, diminui a inflamação e ajuda na consolidação óssea. É indolor e extremamente eficaz para a periostite. Em casos mais crônicos e rebeldes, podemos usar a Terapia por Ondas de Choque, que envia ondas acústicas de alta energia para estimular a revascularização e “acordar” o processo de cura em lesões que estagnaram.

Recuperar-se da canelite não é sobre parar de correr para sempre; é sobre aprender a correr melhor. Escute seu corpo, fortaleça sua base e tenha paciência. A estrada vai estar lá esperando por você. Vamos nessa?

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