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Esporão de Calcâneo: Palmilha Resolve ou Apenas Esconde a Dor?

Essa é uma das perguntas que mais escuto na clínica quando o assunto é esporão de calcâneo. O paciente já passou meses com aquela pontada no calcanhar, experimentou diferentes palmilhas, melhorou um pouco, mas a dor voltou. E a dúvida fica no ar: a palmilha ajuda de verdade ou só disfarça o problema enquanto ele continua lá embaixo? A resposta honesta é que a palmilha cumpre um papel importante, mas ela sozinha raramente resolve. Entender o que está por trás da dor no calcanhar é o primeiro passo para tratar de forma correta e, principalmente, para não precisar conviver com isso para o resto da vida.

O esporão de calcâneo é uma das condições ortopédicas mais comuns entre adultos acima de 40 anos, corredores, pessoas que ficam muito tempo em pé e quem está acima do peso. Mas é também uma das condições mais mal compreendidas. Muita gente acha que o problema é o osso que cresceu, que precisa ser removido, que sem cirurgia não tem jeito. A realidade é bem diferente. Na maioria dos casos, o osso em si não é o vilão da história. O que causa dor é a inflamação dos tecidos ao redor, e essa inflamação tem causa, tem tratamento e tem prevenção. Vamos entender tudo isso juntos.

Ao longo deste artigo, você vai entender o que realmente acontece no seu calcanhar quando aparece um esporão, o que a palmilha faz e o que ela não faz, como a fisioterapia age nas causas e não só nos sintomas, e o que você pode mudar no dia a dia para o problema não voltar. Falo com você como falo com meus pacientes: de forma direta, sem jargão técnico desnecessário e com foco no que realmente vai fazer diferença para você.


O Que É o Esporão de Calcâneo e Por Que Ele Dói

Antes de falar sobre tratamento, você precisa entender o que está acontecendo no seu pé. Não porque é uma curiosidade interessante, mas porque quem entende a lesão toma decisões melhores sobre o próprio tratamento. E quando se trata de esporão de calcâneo, muita gente ainda tem uma imagem errada do problema.

A Formação da Protuberância Óssea no Calcanhar

O calcâneo é o maior osso do pé. Ele fica na parte de trás, suporta boa parte do peso corporal e serve de ponto de inserção para estruturas importantes como a fáscia plantar e o tendão de Aquiles. Quando esse osso é submetido a uma tensão mecânica repetida e prolongada, o corpo reage. E a reação do corpo é tentar se fortalecer naquele ponto de tração, produzindo mais tecido ósseo. Esse tecido ósseo extra é o esporão. Uma pequena protuberância pontiaguda que cresce lentamente, ao longo de meses ou anos, na parte inferior ou posterior do calcâneo.

O processo é gradual e silencioso. Muitas pessoas têm esporão de calcâneo e nunca sabem disso porque nunca sentiram dor. O esporão é descoberto por acaso em uma radiografia feita por outro motivo. Isso diz muito sobre a natureza da condição: o osso em si não dói. O que dói é a inflamação dos tecidos moles ao redor da protuberância óssea, especialmente quando a fáscia plantar ou a bursa retrocalcânea estão irritadas e inflamadas.

A formação do esporão leva décadas para acontecer, mas os primeiros sintomas podem aparecer de forma súbita, especialmente após um período de aumento na atividade física ou de mudança no tipo de calçado. A dor é descrita pela maioria dos pacientes como uma pontada ou uma sensação de pisar em uma pedra. E ela é sempre mais intensa nos primeiros passos pela manhã, depois de um período de repouso prolongado, como uma reunião longa ou uma viagem sentado. Isso tem uma explicação que vale a pena entender, e vamos chegar lá.


A Diferença Entre Esporão e Fascite Plantar

Heel spurs 

Uma das confusões mais comuns que encontro na clínica é a dificuldade de distinguir esporão de calcâneo de fascite plantar. E não é para menos: as duas condições causam dor no calcanhar, aparecem nas mesmas populações de risco e muitas vezes estão presentes ao mesmo tempo. Mas são problemas diferentes, com mecanismos diferentes, e essa distinção importa na hora de tratar.

A fascite plantar é um processo inflamatório, e depois crônico, da fáscia plantar, aquele tecido fibroso espesso que corre da parte inferior do calcanhar até a base dos dedos, funcionando como um arco de sustentação do pé. Quando esse tecido é sobrecarregado repetidamente, ocorrem microrrupturas na sua inserção no calcâneo. Essas microrrupturas geram inflamação, dor e, com o tempo, tentativas de reparo que podem resultar em calcificação. E essa calcificação é o que se torna o esporão.

Entendeu a relação? O esporão, na maioria dos casos, é uma consequência de uma fascite plantar crônica não tratada. A tensão excessiva na fáscia plantar, repetida por meses ou anos, estimula o osso a crescer no ponto de tração. Por isso, tratar apenas o osso que aparece na radiografia sem tratar a causa que levou a ele é como limpar o sintoma sem resolver o problema. A palmilha, aliás, atua exatamente nessa lógica: ela amortece o impacto no calcanhar, alivia a tensão na fáscia e reduz a dor. Mas a causa da tensão continua lá, esperando para voltar.


Quem Tem Mais Risco de Desenvolver

O esporão de calcâneo não aparece aleatoriamente. Existe um perfil bastante definido de quem tem mais chances de desenvolver essa condição, e conhecer esses fatores de risco é essencial tanto para prevenir quanto para entender por que o tratamento precisa envolver mudanças de hábito. O mais impactante de todos é o sobrepeso. O excesso de peso aumenta em quase sete vezes a chance de desenvolver esporão de calcâneo em comparação com pessoas sem obesidade, segundo estudos citados na literatura especializada.

A ocupação profissional também pesa muito. Quem passa longas horas em pé, como professores, vendedores, cozinheiros, enfermeiros e trabalhadores de fábrica, sobrecarrega o calcanhar de forma repetida e sustentada. O pé não tem tempo de recuperar a tensão acumulada na fáscia plantar durante o dia. Com o tempo, essa sobrecarga crônica cria exatamente as condições ideais para a formação do esporão.

Alterações no tipo de pisada também entram como fator de risco relevante. Pessoas com pé pronado, aquele que “tomba” para dentro ao caminhar, e pessoas com pé cavo, com arco plantar muito elevado, têm distribuição de pressão diferente na sola do pé. Nos dois casos, a fáscia plantar acaba trabalhando de forma assimétrica e sobrecarregada. Corredores sem preparo adequado, que aumentam volume ou intensidade de treino rapidamente, também estão nesse grupo. O pé não foi preparado para absorver o impacto extra, e a fáscia paga o preço.


A Palmilha: Aliada ou Muleta?

Chegamos à pergunta central do artigo. E a resposta que vou te dar não é nem “sim, ela resolve tudo” nem “não, ela não serve para nada”. A verdade está no meio, e entender esse meio é o que vai te ajudar a tomar decisões mais inteligentes sobre o seu tratamento.

Como a Palmilha Age no Alívio da Dor

Silicone heel pain insert 

A palmilha ortopédica para esporão de calcâneo funciona por dois mecanismos principais. O primeiro é o amortecimento do impacto. Quando você dá um passo, o calcanhar recebe uma força de reação equivalente a uma vez e meia o peso corporal. A palmilha de silicone ou de material EVA com calcanheira amortecida absorve parte dessa energia antes que ela chegue ao calcâneo, reduzindo o estímulo mecânico que irrita os tecidos inflamados ao redor do esporão. O resultado é menos dor durante a marcha.

O segundo mecanismo é a redistribuição da pressão plantar. Uma palmilha bem confeccionada não apenas amortece o calcanhar, mas também modifica a forma como a pressão é distribuída por toda a sola do pé durante o apoio. Quando a pressão é melhor distribuída, a fáscia plantar trabalha com menos sobrecarga na sua inserção calcanear. Um estudo mencionado na literatura mostrou que o uso de palmilha customizada por seis meses em mulheres com esporão de calcâneo reduziu a dor, aumentou a função e melhorou a distribuição de carga plantar no retropé, mediopé e antepé.

O alívio que a palmilha proporciona é real e mensurável. Para muitos pacientes, especialmente nos momentos de crise aguda, a palmilha é o que permite continuar trabalhando e se movimentando sem uma dor incapacitante. Isso tem valor. Não subestime esse aspecto. Controlar a dor para que o paciente consiga participar ativamente da fisioterapia e retomar a vida normal é parte do tratamento, não um desvio dele.


O Que a Palmilha Não Consegue Resolver

Aqui está o ponto que a maioria das pessoas não ouve quando compra a palmilha na farmácia: ela não trata a causa da dor. Ela modifica as condições mecânicas que irritam os tecidos, mas não reverte o encurtamento da fáscia plantar, não fortalece a musculatura do pé, não melhora a mobilidade do tornozelo, não corrige o padrão de marcha e não reduz o processo inflamatório instalado. Quando você tira a palmilha, tudo isso continua exatamente igual.

O risco maior de depender exclusivamente da palmilha é a falsa sensação de que o problema está resolvido. A dor diminui, a vida volta ao ritmo normal, a palmilha vai para a gaveta. E alguns meses depois a dor está de volta, porque nada mudou nas estruturas que a geraram. Esse ciclo de melhora, abandono e recidiva é o que leva pacientes a ficarem anos convivendo com a condição, quando um tratamento bem conduzido de alguns meses poderia ter resolvido de forma definitiva.

Existe outro ponto que pouca gente discute: o uso prolongado de palmilha sem trabalho de fortalecimento pode gerar uma dependência funcional do pé. A musculatura intrínseca do pé, responsável por controlar o arco plantar de forma ativa, precisa ser exercitada para funcionar bem. Quando você transfere toda a função de suporte do arco para a palmilha, esses músculos trabalham cada vez menos. Com o tempo, eles enfraquecem, o pé fica ainda mais dependente do suporte externo, e a condição tende a se cronificar. A palmilha, nesse cenário, virou a muleta.


Palmilha de Silicone Versus Palmilha Personalizada

Não é toda palmilha que funciona da mesma forma. Existe uma diferença considerável entre a calcanheira de silicone comprada na farmácia e uma palmilha personalizada confeccionada a partir da análise biomecânica do pé do paciente. Entender essa diferença ajuda você a fazer uma escolha mais consciente.

A palmilha de silicone de prateleira tem uma função principalmente de amortecimento. Ela é genérica, feita para um perfil médio de pé, e cumpre razoavelmente bem o papel de reduzir o impacto no calcanhar durante a fase aguda da dor. É uma solução de custo baixo, acessível e que funciona como uma primeira medida enquanto você busca avaliação especializada. Para casos leves e recentes, ela pode ser suficiente quando combinada com as outras medidas de tratamento.

A palmilha personalizada, também chamada de órtese plantar sob medida, vai além do amortecimento. Ela é confeccionada após análise da pisada, do tipo de pé e do padrão de marcha do paciente. Ela pode corrigir uma pronação excessiva, compensar uma diferença de comprimento entre os membros, redistribuir a pressão de forma específica para o perfil daquele pé. O custo é maior, mas os resultados em casos mais complexos são significativamente superiores. Em pacientes com pé plano ou cavo associado ao esporão, a palmilha personalizada é claramente a melhor escolha.


O Que a Fisioterapia Trata Que a Palmilha Não Alcança

Se a palmilha age nos sintomas, a fisioterapia age nas causas. Esse é o resumo mais honesto que posso te dar. E é por isso que, para a maioria dos casos de esporão de calcâneo, a fisioterapia não é opcional: ela é o centro do tratamento.

Alongamento da Fáscia Plantar e da Panturrilha

Plantar fasciitis exercises infographic 

O encurtamento da fáscia plantar e da musculatura da panturrilha é um dos principais fatores que mantêm a tensão no calcanhar e alimentam o processo doloroso. Quando a fáscia plantar está encurtada, cada passo que você dá gera uma tração excessiva na sua inserção no calcâneo. É como se você estivesse puxando constantemente um ponto já irritado e inflamado. O alongamento diário desse tecido é uma das intervenções com melhor evidência científica para o tratamento do esporão e da fascite plantar associada.

O alongamento mais indicado para a fáscia plantar é feito sentado, com o pé cruzado sobre o joelho oposto. Você segura os dedos do pé e puxa suavemente em direção à canela, até sentir um alongamento na sola do pé. Mantém por 30 segundos e repete três vezes em cada pé. O melhor momento para fazer é logo pela manhã, antes dos primeiros passos do dia, porque é exatamente nesse momento que a fáscia está mais tensa após horas de repouso em posição encurtada.

A panturrilha precisa de atenção igual. O músculo gastrocnêmio e o sóleo, que compõem a panturrilha, têm inserção indireta no calcâneo pelo tendão de Aquiles, e o encurtamento deles aumenta a tensão sobre a fáscia plantar. O alongamento da panturrilha em pé, com as mãos na parede, uma perna estendida atrás com o calcanhar no chão e o joelho reto para o gastrocnêmio, ou levemente dobrado para o sóleo, deve ser feito com a mesma frequência. Três séries de 30 segundos, pelo menos duas vezes ao dia, fazem diferença real no quadro.


Fortalecimento da Musculatura Intrínseca do Pé

Alongamento sem fortalecimento é metade do trabalho. A musculatura intrínseca do pé, formada pelos músculos que ficam dentro do próprio pé e controlam o arco plantar, o posicionamento dos dedos e a estabilidade geral da pisada, é frequentemente fraca e descuidada em pacientes com esporão de calcâneo. Fortalecer essa musculatura é o que vai permitir que o pé funcione de forma ativa e independente, sem precisar de suporte externo para todo e qualquer esforço.

Um dos exercícios mais eficazes e mais simples para a musculatura intrínseca do pé é o “short foot”, ou pé curto. Sentado com o pé apoiado no chão, você tenta “encurtar” o pé contraindo os músculos da sola e elevando o arco, sem dobrar os dedos. É um movimento sutil, quase invisível, mas que ativa diretamente os músculos intrínsecos responsáveis pela sustentação do arco plantar. Três séries de 10 a 15 repetições, com o pé descalço, são um ponto de partida excelente.

A elevação de calcanhares, também chamada de panturrilhamento, é outro exercício fundamental. Em pé, com os pés paralelos, você eleva os calcanhares do chão e sobe na ponta dos pés. Mantém por dois a três segundos no topo e desce com controle. Esse exercício fortalece a musculatura da panturrilha, que protege a fáscia plantar, e também os músculos intrínsecos que sustentam o arco durante o apoio da ponta do pé. Comece com as duas pernas e, quando estiver confortável, avance para uma perna só. Três séries de 15 repetições são suficientes no início.


Recursos Eletroterapêuticos e Ondas de Choque

Além dos exercícios, a fisioterapia conta com uma série de recursos que agem diretamente sobre a inflamação e a dor no tecido. O ultrassom terapêutico é um dos mais utilizados. Ele aplica energia acústica de alta frequência nos tecidos, gerando um efeito térmico e mecânico que estimula a cicatrização das microrrupturas na fáscia plantar e reduz a inflamação local. A eletroterapia, especialmente o TENS, tem efeito analgésico reconhecido e pode ser uma ferramenta importante no controle da dor nas fases mais agudas do quadro.

O recurso com maior evidência científica para o esporão de calcâneo resistente ao tratamento conservador inicial é a terapia por ondas de choque extracorpórea, conhecida pela sigla ESWT. Ela funciona aplicando pulsos acústicos de alta energia no tecido lesionado, estimulando a neovascularização, a regeneração celular e a dissolução parcial de calcificações. Os estudos demonstram que a ESWT é eficaz no alívio da dor em casos que não responderam ao tratamento convencional em seis meses. Em alguns estudos, a melhora é superior à obtida com ultrassom terapêutico convencional.

O laser de alta intensidade, chamado HILT, é outro recurso que vem mostrando resultados promissores. Ele entrega uma dose específica de fótons nos tecidos lesados, o que resulta em aumento na produção de ATP, melhora do metabolismo celular, redução da pressão intracapilar e efeito analgésico e anti-inflamatório comprovado. A crioterapia, ou seja, a aplicação de gelo, complementa bem todos esses recursos na fase aguda, especialmente após as sessões de fisioterapia ou no final de um dia de muito esforço físico. Gelo por 15 a 20 minutos, com pano de proteção entre o gelo e a pele, é simples e eficaz.


Hábitos e Mudanças de Estilo de Vida Que Mudam o Jogo

Tudo que foi dito sobre palmilha e fisioterapia só vai funcionar de verdade se vier acompanhado de mudanças concretas no dia a dia. O esporão de calcâneo é uma condição de sobrecarga mecânica repetida. Se a sobrecarga continua, o tratamento fica lutando contra a corrente. E perder essa briga é questão de tempo.

Calçado Adequado: O Que a Ciência Aponta

O calçado é um dos fatores mais impactantes e mais ignorados no tratamento do esporão de calcâneo. Não é exagero dizer que o calçado errado pode desfazer em horas o que a fisioterapia construiu em semanas. A escolha do calçado adequado começa por entender o que o pé precisa: amortecimento na região do calcanhar, suporte do arco plantar, estabilidade lateral e espaço suficiente para os dedos sem apertar.

Rasteiras, sapatilhas e chinelos sem suporte são os principais vilões para quem tem esporão. Eles permitem que o pé se mova em excesso durante a marcha, sobrecarregam a fáscia plantar e oferecem zero amortecimento ao calcanhar. Um tênis de corrida ou um calçado com solado intermediário de EVA de boa qualidade oferece muito mais proteção ao tecido já irritado. Salto alto também entra na lista de vilões: ele encurta ainda mais a cadeia posterior, gastrocnêmio e fáscia plantar, exatamente o que você não quer quando está em tratamento.

A troca do calçado não precisa ser dramática nem cara. Precisa ser consciente. Avalie a sola do seu calçado: se ela está gasta de forma assimétrica, especialmente na borda interna do calcanhar, isso indica pronação excessiva. Se está gasta na borda externa, indica supinação. Esses padrões de desgaste mostram como você está distribuindo o peso durante a caminhada, e essa informação é útil tanto para escolher um calçado mais adequado quanto para discutir com seu fisioterapeuta a necessidade de uma palmilha personalizada.


Controle de Peso e Distribuição da Carga

Já mencionei que o excesso de peso pode aumentar em quase sete vezes o risco de desenvolver esporão de calcâneo. E esse risco não desaparece depois que o esporão está instalado. Cada quilograma extra que você carrega é uma carga adicional sobre o calcâneo a cada passo que você dá. Durante uma caminhada comum, o calcâneo recebe impactos equivalentes a uma vez e meia o peso corporal. Em corrida, essa força pode chegar a três vezes o peso corporal.

O controle do peso corporal não precisa ser abordado de forma punitiva ou ansiosa. Ele precisa ser abordado como parte do tratamento, com a mesma seriedade que qualquer outro recurso terapêutico. Uma redução de 5 a 10% do peso corporal já gera redução mensurável na pressão sobre o calcanhar e na intensidade dos sintomas. E essa perda de peso, quando feita com atividade física supervisionada e ajuste alimentar, também fortalece a musculatura dos membros inferiores, que protegem o pé.

A distribuição da carga ao longo do dia também importa muito. Ficar mais de duas horas em pé de forma contínua sem pausa para descanso do pé é uma sobrecarga significativa para quem tem esporão. Se a sua ocupação exige isso, estratégias simples como sentar por cinco a dez minutos a cada hora, alternar o apoio entre os pés, usar tapetes antifadiga no ambiente de trabalho e realizar os alongamentos de fáscia plantar e panturrilha nas pausas podem fazer uma diferença real nos sintomas ao final do dia.


Como Retornar às Atividades Físicas Sem Piorar

Uma das maiores frustrações dos pacientes com esporão de calcâneo é sentir que precisam parar completamente de se exercitar. Isso raramente é necessário e, quando acontece, é por um período limitado. O repouso absoluto prolongado fraqueja a musculatura, piora o controle motor do pé e, paradoxalmente, pode prolongar a recuperação. O que precisa acontecer é um retorno gradual e supervisionado às atividades, não um abandono delas.

Para corredores, o retorno à corrida segue uma lógica de progressão. Antes de voltar a correr, o paciente precisa conseguir caminhar por 30 a 45 minutos sem dor. Depois, começa com trechos curtos de corrida intercalados com caminhada. A frequência e a distância aumentam progressivamente, semana a semana, respeitando a resposta do tecido. Dor durante a atividade ou no dia seguinte à atividade são sinais de que o volume foi alto demais. Nesses casos, recua-se um passo na progressão, não se paralisa tudo.

Atividades de baixo impacto como natação e ciclismo são aliadas valiosas durante o período de recuperação do esporão de calcâneo. Elas mantêm o condicionamento cardiovascular, fortalecem membros inferiores e permitem controlar o peso sem sobrecarregar o calcanhar. Se você era corredor antes do esporão, inclua natação ou bike como parte do retorno. Não como compensação pelo que você “não pode fazer”, mas como parte de uma estratégia mais inteligente de retorno ao esporte.


Quando o Esporão Não Melhora Com Tratamento Conservador

A boa notícia é que a grande maioria dos casos de esporão de calcâneo responde bem ao tratamento conservador. Estudos mostram que cerca de 90% dos pacientes melhoram significativamente com fisioterapia, alongamentos, calçado adequado e, quando necessário, palmilha ortopédica. Mas existem casos que não respondem como esperado, e nesses casos o tratamento precisa ser reavaliado e escalado.

Sinais de Que o Caso É Mais Grave do Que Parece

O primeiro sinal de que o caso precisa de atenção especial é a persistência da dor intensa após três a seis meses de tratamento conservador bem conduzido. Bem conduzido aqui significa fisioterapia regular, alongamentos feitos diariamente, calçado adequado e controle das atividades de impacto. Se tudo isso foi feito com consistência e a dor continua limitando a vida do paciente, existe algo que o tratamento convencional não está alcançando.

Outro sinal de alerta é a dor que acorda o paciente à noite. O esporão de calcâneo típico dói nos primeiros passos da manhã e depois de períodos de repouso, mas não costuma incomodar durante o sono. Dor noturna pode indicar um processo inflamatório mais intenso, a presença de uma bursite associada, ou até mesmo uma fratura por estresse no calcâneo que pode ser confundida com esporão no diagnóstico inicial. Nesses casos, a ressonância magnética traz informações que a radiografia simples não mostra.

A irradiação da dor para o arco do pé ou para os dedos também merece atenção. Quando a dor não fica confinada ao calcanhar, pode haver envolvimento do nervo tibial ou de seus ramos, uma condição chamada síndrome do túnel do tarso, que tem características semelhantes ao esporão, mas exige abordagem específica. O diagnóstico diferencial entre essas condições é feito pelo médico ortopedista ou podólogo com experiência em patologias do pé, e faz toda a diferença na escolha do tratamento.


Corticoide e Ondas de Choque: Quando Indicar

A injeção de corticoide no calcanhar é uma opção quando a dor é muito intensa e não responde às medidas iniciais. O corticoide tem efeito anti-inflamatório potente e proporciona alívio rápido dos sintomas, o que pode ser importante para permitir que o paciente comece a participar ativamente da fisioterapia. Mas ele é usado com cautela e em número limitado de aplicações, porque o uso repetido pode enfraquecer a fáscia plantar e aumentar o risco de ruptura parcial.

A terapia por ondas de choque extracorpórea, a ESWT, é indicada quando o tratamento conservador não produziu resultado satisfatório após seis meses. Ela é especialmente eficaz em casos de fasciíte plantar crônica associada ao esporão, e os resultados costumam aparecer entre quatro e doze semanas após o término das sessões. Geralmente são realizadas de três a cinco sessões, com intervalos de uma semana entre elas. A dor durante e logo após as sessões é esperada e faz parte do processo de tratamento.

O taping, ou bandagem funcional, é outro recurso que pode ser usado como complemento ao tratamento em fases de maior atividade. A bandagem aplicada na planta do pé e no calcanhar reduz a tensão na fáscia plantar durante a marcha, funcionando como um suporte externo temporário que alivia a sobrecarga no ponto de inserção. Não é uma solução definitiva, mas é uma ferramenta útil para dias de maior esforço, como eventos em que o paciente precisa ficar muito tempo em pé, enquanto o tratamento principal ainda está em curso.


A Cirurgia Como Último Recurso

A cirurgia para esporão de calcâneo é indicada em uma minoria dos casos, reservada para quando nenhum tratamento conservador funcionou após um período mínimo de seis a doze meses de tentativas consistentes. Menos de 10% dos pacientes chegam a precisar de cirurgia, e isso confirma que o tratamento conservador bem conduzido resolve a grande maioria dos casos. A cirurgia não deve ser a primeira escolha, e muito menos a escolha feita por impaciência com o tempo de recuperação.

O procedimento cirúrgico mais comum é a fasciotomia plantar, que consiste em fazer uma liberação parcial da fáscia plantar, reduzindo a tensão na sua inserção calcanear. O esporão em si raramente é removido, porque, como já discutimos, ele não é o causador da dor. A cirurgia pode ser feita por artroscopia ou por via aberta, dependendo do caso. A recuperação pós-operatória envolve período de descarga parcial com bota imobilizadora e, em seguida, fisioterapia para restaurar a mobilidade, a força e o padrão de marcha.

O resultado da cirurgia é bom para a maioria dos pacientes que chegam a esse ponto, mas não é garantia de cura definitiva sem as mudanças de comportamento que deveriam ter sido feitas antes. Se os fatores que causaram o problema, encurtamento muscular, excesso de peso, calçado inadequado, atividade física sem progressão, não forem corrigidos após a cirurgia, o processo pode recomeçar. A cirurgia remove uma estrutura, mas não muda o corpo que a gerou.


Exercícios de Fixação

Dois exercícios para consolidar o que você aprendeu ao longo do artigo.


Exercício 1

Seu vizinho acabou de descobrir que tem esporão de calcâneo no raio-x e foi orientado pelo médico a começar o tratamento. Ele diz: “Já comprei uma palmilha de silicone boa, dor melhorou bastante, acho que não preciso de fisioterapia”. Com base no que você leu, o que você diria a ele?

a) Que está certo, a palmilha resolve o problema se a dor melhorou.
b) Que a palmilha ajuda no alívio da dor, mas não trata as causas do esporão, como encurtamento da fáscia plantar e fraqueza muscular do pé, e que sem fisioterapia a chance de a dor voltar é alta.
c) Que a palmilha é inútil e ele deveria parar de usar imediatamente.
d) Que só a cirurgia resolve de vez e ele deveria buscar um ortopedista.

Resposta correta: b)

A palmilha cumpre um papel real no alívio da dor ao amortecimento do impacto e redistribuir a pressão plantar. Mas ela não reverte o encurtamento da fáscia plantar e da panturrilha, não fortalece a musculatura intrínseca do pé e não corrige o padrão de marcha. Quando a palmilha é abandonada ou quando o nível de atividade aumenta, a dor tende a voltar porque as causas mecânicas seguem intactas. A fisioterapia age onde a palmilha não chega: nos tecidos, na força e no movimento. As duas juntas formam a base do tratamento conservador eficaz para esporão de calcâneo.


Exercício 2

Uma paciente de 45 anos, professora, com sobrepeso e esporão de calcâneo diagnosticado há oito meses, relata que fez fisioterapia por dois meses no início, melhorou, parou o tratamento, e a dor voltou mais intensa. Agora ela usa rasteira o dia todo porque “é mais confortável”. Quais são os três erros principais que você identifica no comportamento dela?

a) Parar a fisioterapia antes de consolidar o resultado, usar rasteira (calçado sem suporte) e não fazer alongamentos e fortalecimento de manutenção.
b) Ter feito fisioterapia por dois meses, tomar anti-inflamatório e não fazer raio-x.
c) Não ter feito cirurgia desde o início, usar palmilha de silicone e caminhar muito.
d) Ter procurado fisioterapia antes de esperar um ano de dor.

Resposta correta: a)

Os três erros estão bem definidos. O primeiro é interromper a fisioterapia assim que a dor melhorou, sem completar o programa de fortalecimento e sem consolidar os hábitos que previnem a recidiva. A melhora da dor não é o fim do tratamento, é o meio do caminho. O segundo erro é usar rasteira, que é exatamente o tipo de calçado que mais sobrecarrega a fáscia plantar: sem amortecimento no calcanhar, sem suporte do arco e com excesso de movimento do pé durante a marcha. O terceiro erro é não manter os alongamentos e o fortalecimento como hábito após a fisioterapia, especialmente em uma ocupação que exige horas em pé. A condição voltou porque as condições que a geraram continuaram presentes. O tratamento precisa ser retomado com um plano de manutenção claro.


Artigo produzido com fins educativos. As informações apresentadas não substituem a avaliação clínica de um médico ortopedista ou fisioterapeuta. Cada caso de esporão de calcâneo tem características individuais que precisam ser avaliadas presencialmente por um profissional habilitado.

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