Fala, corredor! Se você está lendo isso, provavelmente ama a sensação de liberdade que a corrida proporciona. Aquele momento em que a mente desliga e só existe o ritmo da respiração e o som dos pés no asfalto. Mas eu sei que existe um fantasma que assombra todo corredor, desde o iniciante até o maratonista experiente. É aquele medo repentino de sentir uma “pedrada” na panturrilha ou uma fisgada aguda na coxa que te obriga a parar imediatamente.
Como fisioterapeuta, vejo essa cena repetidamente na minha clínica. O atleta chega frustrado, muitas vezes com uma prova alvo chegando, e sente que seu corpo o traiu. A boa notícia que eu tenho para te dar hoje é que a ruptura muscular raramente é um acidente do acaso. Ela costuma ser o resultado final de uma equação que nós podemos resolver antes que o problema aconteça. Não é sobre sorte. É sobre estratégia, conhecimento do próprio corpo e respeito à fisiologia.[10]
Neste artigo, vamos mergulhar fundo no que você precisa fazer para manter seus músculos íntegros e fortes. Quero que você termine esta leitura sabendo exatamente como preparar sua máquina para aguentar quilômetros e mais quilômetros. Vamos deixar de lado os termos médicos complicados e focar no que funciona na prática, no seu dia a dia de treinos. Pegue sua garrafa de água e vamos entender como blindar seu corpo.
Entendendo a Anatomia da Ruptura (O que acontece lá dentro)
O mecanismo da falha muscular[12]
Para evitar um problema, você primeiro precisa entender como ele nasce. Imagine que seu músculo é como um elástico grosso e resistente composto por milhares de pequenos fios. Quando você corre, esse elástico estica e encolhe milhares de vezes. A ruptura muscular acontece quando a força exigida desse elástico supera a capacidade dele de resistir à tensão.[5][12] Isso geralmente ocorre na fase que chamamos de excêntrica, que é quando o músculo está se alongando enquanto tenta frear um movimento.[9]
No nível microscópico, as fibras musculares deslizam umas sobre as outras como dentes de um pente se encaixando. Quando a carga é excessiva ou o músculo está fadigado, esses “dentes” não conseguem se segurar e as fibras se rompem.[8][12] Pode ser apenas uma microlesão, que é normal no treino, ou uma ruptura maior, que chamamos de estiramento ou distensão.[8][12] É nesse momento que você sente a dor aguda, como se alguém tivesse atirado uma pedra na sua perna.
O grande segredo aqui é entender que um músculo cansado perde a capacidade de absorver energia. Se você exige velocidade ou força explosiva de um tecido que já está exausto e sem reservas de energia, a estrutura física da fibra cede. Por isso, a prevenção começa muito antes de calçar o tênis. Ela começa no entendimento de que seu músculo tem um limite elástico que precisa ser respeitado e expandido gradualmente, e não testado ao máximo em todo treino.
Os grupos mais vulneráveis na corrida[11]
Na corrida, nem todos os músculos sofrem o mesmo risco.[6][11] Existem os protagonistas do movimento que, por trabalharem mais, estão mais sujeitos ao desgaste.[8][11] Os isquiotibiais, que são os músculos da parte de trás da coxa, são os campeões de lesão em velocistas e corredores que tentam aumentar o ritmo bruscamente. Eles são responsáveis por desacelerar a perna antes de o pé tocar o solo e essa frenagem constante é extremamente taxativa para as fibras.
Logo em seguida, temos o tríceps sural, a nossa famosa panturrilha. Ela atua como uma mola propulsora a cada passo. Em corridas de longa distância ou em terrenos com subidas, a panturrilha trabalha incansavelmente. Muitos corredores negligenciam o fortalecimento dessa região e focam apenas nas coxas, criando um desequilíbrio perigoso. Quando a panturrilha fadiga, ela transfere a carga para o tendão de Aquiles ou acaba sofrendo uma ruptura na junção entre o músculo e o tendão.
Não podemos esquecer também do quadríceps, especialmente o reto femoral. Embora seja menos comum romper o quadríceps em corridas de fundo do que no futebol, ele é fundamental na absorção do impacto quando o pé aterrissa. Se o seu quadríceps estiver fraco, o impacto sobe para o quadril e para a coluna, mas o próprio músculo pode sofrer microtraumas que, acumulados, levam à falha. Conhecer esses pontos fracos permite que você foque seu fortalecimento onde ele é mais necessário.
Diferenciando a dor do treino da dor da lesão[2]
Uma das habilidades mais valiosas que você pode desenvolver é a autopercepção corporal. Existe uma linha tênue entre a dor do esforço, que nos faz evoluir, e a dor do dano, que nos tira do jogo. A dor muscular tardia é aquela que aparece 24 ou 48 horas após um treino intenso. Ela é difusa, você sente o músculo “pesado” e dolorido ao toque ou ao alongar, mas ela melhora com aquecimento leve. Isso é sinal de que seu corpo está se adaptando e ficando mais forte.
Por outro lado, a dor da lesão tem características muito específicas.[8] Ela costuma ser aguda, pontual e imediata. Se durante a corrida você sentir uma fisgada que te faz mudar a passada ou mancar, isso é um sinal vermelho piscando. Não tente “correr através da dor” nesse caso. Essa dor geralmente não melhora conforme você aquece; pelo contrário, ela piora ou se mantém constante e limitante.
Outro sinal importante é a assimetria. Se a perna direita está doendo de um jeito que a esquerda não está, preste atenção. Corpos saudáveis tendem a ter sensações simétricas de cansaço. Dor unilateral, inchaço localizado ou a presença de hematomas são indicativos claros de que houve algum grau de ruptura fibrilar. Aprender a parar no primeiro sinal de desconforto agudo pode transformar o que seria uma recuperação de três meses em apenas três dias de descanso.
A Arte do Aquecimento Dinâmico
Por que o alongamento estático pode ser um vilão
Você provavelmente cresceu vendo pessoas segurando o pé atrás do glúteo ou tentando tocar a ponta dos dedos antes de correr. A ciência moderna da fisioterapia, no entanto, mudou nossa visão sobre isso. Fazer alongamentos estáticos, onde você segura a posição por 30 segundos ou mais, antes de correr, pode na verdade diminuir sua performance e aumentar o risco de lesão. Isso acontece porque o alongamento estático relaxa as fibras musculares e reduz temporariamente a capacidade delas de gerar força explosiva.
Imagine aquele elástico de que falamos antes. Se você o estica ao máximo e o segura lá por um tempo, ele fica um pouco frouxo quando você solta. Um músculo “frouxo” antes da corrida tem menos reatividade e estabilidade articular. O que você quer antes de correr é um músculo acordado, reativo e pronto para contrair e relaxar rapidamente. O alongamento estático é excelente, mas o lugar dele é em sessões separadas ou após o treino, visando o relaxamento e a flexibilidade a longo prazo.
Isso não significa que você deve sair do carro e começar a correr frio. O problema não é preparar o músculo, mas sim a forma como fazemos isso. A transição do repouso absoluto para a atividade de alto impacto da corrida precisa ser feita, mas através de movimentos que imitem o que você vai fazer em seguida. Precisamos aumentar a temperatura do corpo e avisar o sistema nervoso que a ação vai começar.
Movimentos balísticos e lubrificação articular
A melhor forma de preparar seu corpo é através do aquecimento dinâmico.[2] Isso envolve movimentos ritmados que levam suas articulações através de sua amplitude de movimento completa, mas de forma ativa. Pense em balanços de perna para frente e para trás, elevação de joelhos e movimentos laterais. Esses exercícios aumentam o fluxo sanguíneo especificamente para os músculos que você vai usar, o que melhora a elasticidade das fibras sem tirar a potência delas.
Além do sangue, temos a questão das articulações.[6] Dentro dos nossos joelhos, quadris e tornozelos existe o líquido sinovial, que funciona como um óleo lubrificante. Quando estamos parados, esse líquido é mais viscoso, mais grosso. O movimento dinâmico aquece esse fluido, tornando-o mais líquido e eficiente na redução do atrito dentro da articulação. É como aquecer o motor do carro em um dia frio; as peças móveis fluem muito melhor.
Eu recomendo aos meus pacientes que dediquem pelo menos 5 a 10 minutos para essa rotina. Comece com caminhada rápida, passe para os balanços de perna, faça alguns agachamentos com peso do corpo e polichinelos. Você deve sentir um leve suor e a respiração ficando um pouco mais ofegante antes mesmo de dar o primeiro passo de corrida. Esse investimento de tempo é, sem dúvida, uma das ferramentas mais poderosas de prevenção que você tem.
Ativação neuromuscular antes da largada
Correr não é apenas um ato muscular; é um ato neurológico. Seu cérebro precisa enviar sinais elétricos claros para seus músculos contraírem na hora certa. Muitas vezes, passamos o dia todo sentados no escritório, o que deixa nossos glúteos “adormecidos” ou inibidos. Se você sai para correr com os glúteos desligados, seus isquiotibiais e sua lombar terão que trabalhar dobrado para compensar, e é aí que a sobrecarga e a ruptura acontecem.
A ativação neuromuscular consiste em exercícios simples para “acordar” esses músculos estabilizadores. Fazer uma prancha abdominal rápida, uma ponte de glúteos (elevação pélvica) no chão ou usar um elástico (mini band) nos joelhos para fazer passadas laterais são ótimas estratégias. O objetivo não é fadigar o músculo, mas sim enviar um e-mail urgente para o cérebro dizendo: “Ei, vamos precisar desse músculo agora, fique atento”.
Quando você ativa o core e os glúteos antes de correr, sua mecânica de corrida melhora instantaneamente. Você aterrissa com mais estabilidade e distribui melhor as forças de impacto. Isso tira a tensão excessiva de músculos pequenos ou vulneráveis e coloca a responsabilidade nos grandes grupos musculares que foram feitos para aguentar carga. É uma estratégia de inteligência corporal que protege suas estruturas mais frágeis.[8]
O Fortalecimento como Armadura[2][3]
A importância da Cadeia Posterior
Se eu pudesse dar apenas um conselho de treino para corredores, seria: fortaleça a parte de trás do seu corpo. A corrida moderna e o estilo de vida sentado favorecem muito o desenvolvimento dos músculos da frente (quadríceps), criando um desequilíbrio. No entanto, a propulsão da corrida vem, primariamente, da cadeia posterior: glúteos, isquiotibiais e panturrilhas. São eles que empurram o chão para trás para que você vá para frente.
Quando essa cadeia posterior é fraca, o corpo tenta encontrar atalhos. O isquiotibial, se for fraco, não aguenta a fase de desaceleração da perna e rompe. O glúteo fraco deixa o joelho cair para dentro, causando dores articulares. Fortalecer essa região não é estética, é funcionalidade pura. Exercícios como Stiff, Levantamento Terra e Elevação Pélvica devem ser os melhores amigos do corredor, encarados com a mesma seriedade que os treinos longos de domingo.
Você não precisa virar um fisiculturista, mas precisa ter músculos resilientes. Um músculo forte é um músculo que demora mais para fadigar. E lembre-se do que falamos no início: a ruptura acontece predominantemente na fadiga. Ao aumentar a resistência de força da sua cadeia posterior, você está, literalmente, construindo uma armadura interna que protege seus ligamentos e tendões contra o estresse repetitivo da corrida.
O papel do Core na estabilidade da passada
Muitos corredores acham que o Core serve apenas para ter uma barriga tanquinho, mas na corrida ele é o centro de transmissão de força. Imagine tentar disparar um canhão a partir de uma canoa instável na água. É isso que acontece quando você tenta correr com pernas fortes mas um tronco fraco. A energia se dissipa, você balança para os lados e suas pernas precisam fazer muito mais força para te manter em linha reta.
Um Core estável mantém sua bacia na posição correta enquanto você corre. Se o Core fadiga no meio de uma prova, sua postura “desaba”. Você começa a correr sentado, com o quadril baixo. Isso altera completamente a biomecânica dos isquiotibiais e das panturrilhas, colocando-os em uma posição de estiramento constante que favorece a ruptura. Manter o tronco ereto e estável é uma medida de segurança para as suas pernas.
Inclua no seu treino pranchas, perdigueiros e exercícios anti-rotacionais. O objetivo é ensinar seu tronco a ficar firme enquanto seus braços e pernas se movem vigorosamente. Essa estabilidade reduz a carga desnecessária nas articulações e permite que os músculos das pernas trabalhem apenas na propulsão e absorção, sem terem que gastar energia extra tentando equilibrar um tronco bambo.
Treino de força excêntrica
Aqui entramos em um detalhe técnico que faz toda a diferença. A maioria das rupturas acontece na fase excêntrica (quando o músculo estica sob tensão). Portanto, faz todo o sentido treinar seus músculos especificamente para suportar esse tipo de carga. O treino excêntrico foca em frear o movimento. Por exemplo, na cadeira extensora, você sobe o peso com as duas pernas (fase concêntrica) e desce bem devagar apenas com uma (fase excêntrica).
Esse tipo de treinamento ensina suas fibras musculares a suportarem altas cargas enquanto estão sendo alongadas. Isso aumenta o comprimento das fibras e a resistência do tecido conjuntivo que as envolve. Estudos mostram consistentemente que o treinamento excêntrico, especialmente para os isquiotibiais (como o exercício Nórdico), reduz drasticamente a incidência de lesões musculares em corredores e jogadores de futebol.
Você pode incorporar isso de forma simples. Ao fazer exercícios de panturrilha em um degrau, suba normal e desça contando até três ou quatro segundos, sentindo o alongamento sob carga. Essa adaptação estrutural deixa o tendão mais robusto e o músculo “à prova de balas” contra as forças de frenagem que ocorrem a cada passo da corrida. É um seguro de vida para sua musculatura.
Gerenciamento Inteligente de Carga e Volume
A regra da progressão gradual[3]
O entusiasmo é o maior inimigo do corredor iniciante. É comum vermos alguém que corre 5km querer correr 10km na semana seguinte, ou tentar baixar seu tempo drasticamente de um dia para o outro. O sistema cardiovascular (coração e pulmão) evolui mais rápido que o sistema musculoesquelético. Você sente que tem fôlego, mas seus músculos e tendões ainda não têm estrutura para aquela nova carga. É aí que a conta chega.
A regra de ouro na fisioterapia esportiva é não aumentar o volume total semanal em mais de 10%. Se você correu 20km no total esta semana, na próxima não deve passar de 22km. Isso dá tempo para que as microlesões naturais do treino sejam reparadas e o tecido se torne mais forte. A pressa em pular etapas é a receita perfeita para sobrecarregar uma estrutura que ainda está em construção, levando à falha mecânica.
Essa regra também se aplica à intensidade. Não tente aumentar distância e velocidade na mesma semana. Escolha uma variável por vez. Seu corpo é uma máquina adaptativa incrível, mas ele precisa de tempo.[4] Construir uma base sólida de corrida lenta e longa prepara seus tecidos para, futuramente, suportar a tensão agressiva dos treinos de velocidade. Tenha paciência; a corrida é um esporte de longo prazo.
O perigo da velocidade sem base
Os tiros de velocidade (sprints) são excelentes para melhorar a performance, mas são também o momento de maior risco de ruptura. A força gerada num sprint é muitas vezes maior do que num trote leve. Se você introduz treinos de tiro sem ter uma base muscular forte e sem um aquecimento impecável, está brincando com fogo. A transição súbita de uma corrida leve para um sprint máximo exige uma coordenação e uma elasticidade que músculos destreinados não têm.
Eu sempre oriento meus clientes a introduzirem velocidade de forma fracionada. Comece com “fartleks”, que são brincadeiras de velocidade onde você acelera um pouco, mas não ao máximo, e depois recupera. Não vá direto para tiros de 100% de esforço na pista. Permita que seu sistema nervoso entenda a mecânica da velocidade progressivamente. E nunca, jamais faça treinos de velocidade se estiver sentindo qualquer dorzinha muscular prévia.
Além disso, a técnica no sprint muda. A passada alonga, o contato com o solo é diferente. Se você tenta correr rápido com uma técnica ruim, pode esticar o isquiotibial além do limite. A introdução de educativos de corrida ajuda a polir essa técnica para que, quando você acelerar, seu corpo saiba se mover de forma eficiente e segura, minimizando o risco de “rasgar” o músculo no meio do tiro.
Respeitando a fisiologia do descanso[4][7]
O treino é apenas o estímulo; o ganho real acontece no descanso. É durante o sono e nos dias de “day off” que seu corpo conserta as fibras danificadas e as reconstrói mais fortes. Se você não dorme bem ou não respeita os dias de descanso, você entra num estado de “overreaching” ou supertreinamento. Nesse estado, o tecido muscular nunca se recupera totalmente, ficando cada vez mais frágil e suscetível a rupturas.
O sono é o melhor anabolizante natural que existe. Durante o sono profundo, liberamos hormônio do crescimento (GH), essencial para o reparo tecidual. Corredores que dormem menos de 7 horas por noite têm estatisticamente taxas de lesão muito maiores do que aqueles que dormem 8 horas ou mais. Encare seu sono como parte integrante da sua planilha de treinos, tão importante quanto o longão de sábado.
Além do sono, aprenda a fazer o “descanso ativo”. Nos dias sem corrida, caminhe, nade ou pedale leve. Isso ajuda a circular o sangue e remover metabólitos tóxicos dos músculos sem adicionar impacto. Escute seu corpo: se você acorda com a frequência cardíaca mais alta que o normal ou se sente irritado e sem energia, pode ser um sinal de que precisa de um dia extra de folga. Não tenha medo de pular um treino para salvar a temporada.
O Papel da Biomecânica e do Equipamento[1][4][5]
Cadência e o mito da passada larga
Existe uma crença popular de que para correr mais rápido é preciso dar passadas gigantescas. Na biomecânica, chamamos isso de “overstriding”. Quando você joga o pé muito à frente do centro de gravidade do corpo, você aterrissa com o calcanhar e com o joelho esticado. Isso atua como um freio a cada passo, gerando uma força de impacto brutal que sobe pela tíbia e sobrecarrega os músculos da coxa e do quadril.
O ideal é buscar aumentar a cadência, ou seja, o número de passos por minuto. Passos mais curtos e rápidos fazem com que o pé pouse mais perto debaixo do seu corpo. Isso reduz a força de frenagem e diminui a carga nos isquiotibiais e joelhos. Uma cadência maior (geralmente acima de 170 passos por minuto) torna a corrida mais fluida e econômica, poupando sua musculatura de choques desnecessários.
Você pode treinar isso usando um metrônomo ou playlists de música com BPM específico. Tente fazer menos barulho ao correr. Se você ouve muito o “tapa” do tênis no chão, provavelmente está aterrissando com muito impacto. Tente correr “leve”, como se estivesse pisando em ovos. Essa suavidade biomecânica é um dos maiores segredos para uma vida longa na corrida sem lesões traumáticas.
O tênis ideal é aquele que seu pé aceita[3]
O mercado de tênis de corrida é bilionário e cheio de promessas tecnológicas. Placa de carbono, amortecimento em gel, controle de pronação. Mas a verdade científica é que o melhor tênis para evitar lesão é aquele que é confortável para você. Não existe um “tênis mágico” que corrige biomecânica a ponto de prevenir rupturas sozinho. Se o tênis te incomoda ou altera sua pisada natural de forma forçada, ele pode inclusive causar problemas.[8]
O tênis deve ser uma extensão do seu pé, não uma jaula corretiva. Se você tem uma pronação leve (o pé cai para dentro), isso é natural e ajuda na absorção de impacto. Tentar corrigir isso com um tênis muito rígido pode transferir a força para o joelho ou quadril. O importante é que o calçado ofereça uma proteção razoável contra o solo e tenha um tamanho adequado – lembre-se que o pé incha durante a corrida, então compre um número maior.
Outro ponto é a vida útil do amortecimento. Tênis “vencidos”, com a espuma compactada, perdem a capacidade de absorver o choque inicial do contato. Isso joga mais trabalho para a sua musculatura, que precisa absorver essa energia vibratória. Trocar o tênis regularmente (geralmente entre 500km a 800km de uso) é uma medida simples de manutenção preventiva para suas pernas.
A influência do terreno no impacto muscular
Correr sempre no asfalto duro e plano pode ser monótono para a mente e estressante para o corpo. O asfalto devolve quase toda a energia do impacto para as suas pernas. Embora seja a realidade da maioria das provas, variar o terreno nos treinos é muito benéfico. Correr na grama, em trilhas de terra batida ou até na areia batida muda o estímulo muscular e recruta diferentes fibras estabilizadoras.
Superfícies mais macias reduzem o pico de impacto, poupando suas articulações e diminuindo a microlesão muscular causada pela vibração. No entanto, cuidado com superfícies muito irregulares ou fofas demais (como areia fofa), pois elas exigem muito mais dos tendões e podem causar entorses. O ideal é encontrar um equilíbrio, usando grama ou terra para os treinos regenerativos ou mais leves.
Além do tipo de piso, a topografia importa. Correr apenas no plano usa a musculatura sempre da mesma forma. Incluir subidas e descidas altera a biomecânica. A subida fortalece a potência, mas a descida é o perigo para a ruptura, pois aumenta muito a carga excêntrica (de frenagem). Treine descidas com cautela, evitando se soltar demais se não tiver a musculatura preparada para segurar o impacto da gravidade.[2][8]
Nutrição e Hidratação na Prevenção de Lesões[10]
Hidratação e a viscosidade dos tecidos
Você sabia que um músculo desidratado é um músculo frágil? Nossos tecidos são compostos majoritariamente por água. A fáscia, que é a membrana que envolve os músculos, precisa estar hidratada para deslizar suavemente. Quando você está desidratado, a fáscia fica “pegajosa” e o atrito interno aumenta. Isso predispõe o tecido a aderências e, consequentemente, a rupturas sob tensão.
A hidratação não deve acontecer apenas durante o treino.[8] Ela é um hábito de 24 horas. Se você começa a correr já desidratado (com a urina muito amarela, por exemplo), seu sangue fica mais grosso, o transporte de oxigênio diminui e a fadiga chega mais cedo. E como já vimos, fadiga precoce é a porta de entrada para a lesão. Beba água consistentemente ao longo do dia para manter seus tecidos elásticos e lubrificados.
Não espere sentir sede para beber água durante corridas longas.[2] A sede já é um sinal de alerta do corpo.[10] Crie uma estratégia de hidratação para seus treinos acima de uma hora. Manter o volume plasmático (quantidade de líquido no sangue) ajuda a regular a temperatura do corpo e garante que os nutrientes cheguem onde precisam para manter a contração muscular eficiente.
Eletrólitos e a função contrátil
Água pura é ótima, mas quando suamos, perdemos sais minerais essenciais chamados eletrólitos: sódio, potássio, magnésio e cálcio. Esses minerais são as “chaves” químicas que permitem que o nervo converse com o músculo. O cálcio e o magnésio, em particular, regulam a contração e o relaxamento das fibras. Um desequilíbrio nesses níveis pode levar a cãibras severas e contrações involuntárias que podem evoluir para estiramentos.[12]
O sódio é o principal mineral perdido no suor. Em dias quentes ou treinos longos, a reposição apenas com água pode diluir o sódio no seu sangue, uma condição perigosa. O uso de bebidas isotônicas ou cápsulas de sal em treinos longos ajuda a manter o ambiente químico do músculo estável. Um músculo com o equilíbrio eletrolítico correto contrai com precisão e relaxa completamente, evitando aquela tensão residual que gera pontos de gatilho.
Não negligencie sua dieta no dia a dia. Alimentos ricos em potássio (banana, batata doce, água de coco) e magnésio (nozes, vegetais verde-escuros) devem fazer parte da rotina do corredor. A prevenção de lesões acontece tanto na mesa de jantar quanto na pista de corrida. Nutrir suas células garante que a estrutura biológica aguente o tranco mecânico.
Proteína e reparo noturno
Por fim, precisamos falar do tijolo da construção muscular: a proteína. Após cada treino, seus músculos estão cheios de microlesões. Isso é normal e desejável para a evolução. O problema é quando não damos material suficiente para o corpo consertar essas microlesões. A proteína fornece os aminoácidos necessários para “cimentar” essas falhas e tornar a fibra mais grossa e resistente.
Muitos corredores focam tanto em carboidratos (macarrão, pão) para ter energia que esquecem da proteína. Tente incluir uma fonte de proteína de qualidade em todas as refeições, e especialmente após o treino. Isso garante que o processo de reparo comece imediatamente, evitando que você inicie o próximo treino com as fibras ainda danificadas do treino anterior, o que seria um convite para a ruptura.
Seu corpo faz a maior parte desse trabalho de reconstrução enquanto você dorme. Comer algo leve com proteína antes de dormir (como iogurte ou leite) pode ajudar a manter um fluxo de aminoácidos durante a noite, otimizando a recuperação. Pense na comida como combustível e como material de obra para o seu templo, que é o seu corpo.
Para finalizar, quero deixar claro que, mesmo fazendo tudo certo, o corpo às vezes precisa de ajuda extra.[2] Se você sentir que a musculatura está “travada” ou com nódulos de tensão, terapias manuais são fantásticas. A Liberação Miofascial ajuda a soltar a fáscia e melhorar o deslizamento muscular. O Dry Needling (agulhamento a seco) é excelente para desativar pontos de gatilho profundos que o alongamento não alcança. A Massagem Desportiva regular ajuda a drenar toxinas e relaxar o tônus excessivo. E, claro, a Osteopatia pode ajudar a alinhar sua bacia e coluna, garantindo que sua biomecânica esteja funcionando sem compensações. Cuide-se, escute seu corpo e boas corridas!

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”