ESCOLIOSE E MUSCULAÇÃO: ENTENDENDO A INFLUÊNCIA NA SIMETRIA CORPORAL

ESCOLIOSE E MUSCULAÇÃO: ENTENDENDO A INFLUÊNCIA NA SIMETRIA CORPORAL

Olha só, eu sei exatamente o que passa na sua cabeça quando você se olha no espelho da academia. Você treina pesado, faz a dieta direitinho, descansa o necessário, mas quando tira a camisa ou coloca aquele top de ginástica, parece que o lado direito das costas não acompanha o esquerdo. Ou então, um peitoral parece mais preenchido que o outro. A primeira reação é achar que você está treinando errado ou que precisa colocar mais carga no lado “fraco”. Calma lá. Antes de você sair fazendo séries extras de um lado só e acabar se machucando, precisamos ter uma conversa séria sobre a sua coluna.

A escoliose não é apenas uma curva para o lado, como um “S” ou um “C” desenhado num papel.[1][2] Ela é uma alteração tridimensional. Isso significa que suas vértebras não apenas escorregam para o lado, elas giram sobre o próprio eixo. Imagine uma toalha sendo torcida: é mais ou menos isso que acontece lá dentro. Essa rotação carrega junto as costelas e toda a musculatura fixada nelas. Então, muitas vezes, o que você vê como “falta de músculo” é, na verdade, um músculo que está rodado para frente ou para trás.

Neste artigo, vamos mergulhar fundo no que acontece biomecanicamente no seu corpo.[3] Quero que você entenda como a estrutura óssea dita a forma muscular e como você pode ajustar seu treino de musculação para não apenas melhorar a estética, mas principalmente treinar sem dor e com longevidade. Vamos esquecer as soluções mágicas e focar na fisiologia pura e aplicada ao ferro.

O IMPACTO OCULTO DA CURVATURA NA ESTÉTICA MUSCULAR

A Ilusão de Ótica: Volume Real versus Posicionamento Ósseo

A maior frustração que vejo no consultório é o paciente chegar reclamando que o grande dorsal de um lado é “atrofiado”. Ele aponta para o espelho e mostra como um lado das costas parece plano e o outro tem um volume muscular bonito. O que você precisa entender é que, na grande maioria das vezes, o volume de fibras musculares é praticamente idêntico nos dois lados. O músculo não sumiu, ele apenas mudou de lugar. Devido à rotação das vértebras na escoliose, as costelas de um lado são empurradas para trás, criando o que chamamos de gibosidade.

Essa gibosidade projeta a musculatura para fora, dando a impressão de que aquele lado é hipertrofiado, ou seja, mais forte e maior. Do lado oposto, as costelas rodam para frente, levando a musculatura junto e criando uma depressão ou um “buraco” visual. É uma questão de alicerce. Se a parede está torta, o quadro pendurado nela vai parecer torto também, não importa o quanto você tente alinhá-lo. Tentar “encher” esse lado plano com mais exercícios de hipertrofia sem corrigir a postura ou entender esse posicionamento pode gerar frustração e, pior, sobrecarga desnecessária.

Portanto, antes de se desesperar achando que tem um braço ou uma asa das costas fraca, faça o teste de toque ou peça para um profissional avaliar. Muitas vezes, ao apalpar, percebemos que o tônus muscular é excelente em ambos os lados. O que falta não é fibra muscular, é o posicionamento tridimensional da caixa torácica que esconde o seu progresso. Aceitar essa condição estrutural é o primeiro passo para parar de lutar contra o seu corpo e começar a trabalhar a favor dele.

O Lado Côncavo e o Encurtamento Silencioso

Vamos falar sobre o lado “fechado” da curva, que chamamos de lado côncavo. Imagine um arco e flecha: a parte da madeira que se curva para dentro está sob enorme pressão e tensão constante. Na sua coluna, os músculos desse lado estão perpetuamente encurtados.[2] Eles trabalham horas extras apenas para manter você em pé contra a gravidade, mas fazem isso de uma posição mecânica desvantajosa. Eles estão “travados” em uma contração contínua.

O grande problema aqui é que músculo encurtado não é sinônimo de músculo forte. Pelo contrário, um músculo que perdeu sua capacidade de alongar e contrair em toda a amplitude torna-se ineficiente. Quando você vai fazer uma puxada na polia, por exemplo, esse lado côncavo pode não conseguir se alongar completamente na fase excêntrica (a subida do peso). Isso limita o recrutamento de fibras e a microlesão necessária para a hipertrofia. Você sente que está treinando, mas a amplitude reduzida sabota seus resultados.

Além disso, esse encurtamento gera uma inibição neural. O seu cérebro entende que aquela região já está tensa demais e, como mecanismo de proteção, evita mandar força máxima para lá. É por isso que, muitas vezes, você sente dificuldade em “conectar” a mente com o músculo desse lado durante o treino. Não é falta de vontade, é uma barreira fisiológica criada pela própria tensão crônica que a escoliose impõe aos tecidos moles.

O Lado Convexo e a Falsa Hipertrofia

Agora olhe para o outro lado, o lado convexo, aquele que parece mais alongado na radiografia. A musculatura aqui está sendo esticada como um elástico prestes a arrebentar. Embora visualmente possa parecer o lado “maior” devido à rotação das costelas que mencionei antes, funcionalmente ele está em uma posição de fraqueza por estiramento. As fibras musculares estão distanciadas, o que dificulta a geração de força de pico.

Muitos praticantes de musculação confundem a tensão desse estiramento com força. Eles sentem o músculo “queimar” mais rápido ou ficar dolorido com mais facilidade e acham que isso é sinal de um treino bom. Na verdade, é fadiga precoce. O músculo já está lutando para segurar a coluna que quer cair para o lado oposto. Quando você adiciona carga, ele entra em falha muito antes do que deveria, não por estímulo de crescimento, mas por exaustão postural.

O perigo real mora aqui: como esse lado muitas vezes parece o “lado bom” visualmente, tendemos a negligenciar o fortalecimento específico dele ou o alongamento necessário. O tratamento na musculação deve buscar devolver a capacidade desse músculo de encurtar de forma eficiente (contração concêntrica), algo que ele “desaprendeu” a fazer por passar o dia todo esticado. O equilíbrio não vem de treinar igual, mas de dar a cada lado o estímulo mecânico que ele perdeu.

BIOMECÂNICA ALTERADA: POR QUE SEU TREINO NÃO RENDE IGUAL DOS DOIS LADOS

A Rotação Vertebral e a Ativação do Grande Dorsal

Você já sentiu que, ao fazer uma remada, um cotovelo parece ir mais para trás que o outro? Isso acontece porque a origem e a inserção dos seus músculos estão desalinhadas. O grande dorsal, aquele músculo que dá a largura às costas, se prende nas vértebras e no úmero (osso do braço). Se as vértebras estão rodadas, um dos pontos de fixação do músculo mudou de lugar. Isso altera o vetor de força.

Em termos práticos, num lado você tem uma alavanca mecânica favorável, onde é fácil puxar peso. Do outro lado, devido à rotação, o músculo precisa fazer uma curva para chegar ao ponto de inserção ou está numa linha de tração ineficiente. Isso significa que, mesmo usando a mesma carga nos dois braços, o esforço interno e o recrutamento de unidades motoras são completamente diferentes. Um lado está fazendo um passeio no parque, o outro está numa maratona.

Isso explica por que a simetria é tão difícil de alcançar apenas com máquinas. As máquinas são projetadas para corpos simétricos. Quando você se encaixa nelas, você força seu corpo torto a seguir um trilho reto. O resultado é que o corpo vai usar compensações — girar o tronco, levantar um ombro ou usar a lombar — para completar o movimento. Você completa a série, mas o músculo alvo não trabalhou como deveria.

O Desalinhamento da Cintura Pélvica nos Agachamentos

A escoliose raramente afeta apenas a coluna torácica ou lombar isoladamente; ela cria uma reação em cadeia que chega até a bacia. É muito comum que um lado da pelve seja mais alto ou mais rodado que o outro. Agora, imagine colocar uma barra pesada nas costas e agachar. Se a sua base (o quadril) está desnivelada, a distribuição de carga nas pernas será desigual desde o primeiro milímetro da descida.

O que acontece na prática é que uma perna acaba recebendo muito mais carga que a outra.[4] Você pode notar isso se observar o desenvolvimento das suas coxas: uma pode ser visivelmente mais grossa ou mais definida. Não é porque você é destro ou canhoto, é porque a biomecânica do seu agachamento está jogando o centro de gravidade para o lado que oferece melhor suporte ósseo naquele momento, poupando o lado mais instável.

Isso é perigoso para os joelhos e para a própria coluna lombar. O lado que recebe mais carga sofre maior compressão articular, podendo desenvolver desgastes precoces como condromalácia ou dores no menisco. Enquanto isso, o lado que recebe menos carga não atinge o limiar necessário para hipertrofia máxima. Continuar agachando pesado sem corrigir ou compensar esse desalinhamento pélvico é um convite para aumentar a assimetria das pernas.

A Compensação de Força: Quando o Mais Forte Trabalha Dobrado[5]

Nosso sistema nervoso é extremamente inteligente e preguiçoso. O objetivo dele é cumprir a tarefa (levantar o peso) gastando a menor quantidade de energia e correndo o menor risco possível. Se você tem uma escoliose e vai fazer um exercício bilateral, como um supino ou um desenvolvimento de ombros com barra, o cérebro vai automaticamente jogar a responsabilidade para os músculos que estão em melhor posição mecânica.

Isso cria um ciclo vicioso. O lado “forte” e bem posicionado faz 70% do trabalho, enquanto o lado “fraco” ou mal posicionado contribui apenas com 30%. Ao final do treino, o lado forte ficou ainda mais forte e o lado fraco continua subdesenvolvido. Visualmente, a assimetria piora.[6] E o pior: você muitas vezes nem percebe que isso está acontecendo porque a barra sobe reta.

Essa compensação invisível é a maior armadilha da musculação para escolióticos. Você acha que está corrigindo o problema treinando pesado, mas está apenas reforçando os padrões errados que o seu corpo criou para conviver com a curva. Para quebrar esse ciclo, precisamos obrigar o lado preguiçoso a trabalhar sozinho, sem a ajuda do irmão mais velho forte. É aqui que a estratégia de treino precisa mudar drasticamente.

A ARMADILHA DOS EXERCÍCIOS BILATERAIS NA ESCOLIOSE

O Perigo da Barra Guiada e Máquinas Articuladas

Existe um mito de que máquinas são mais seguras para quem tem problemas de coluna. Em partes, isso tem lógica, mas para a escoliose, máquinas de trilho fixo (como o Smith ou supino máquina) podem ser terríveis. Quando você se prende a um movimento guiado, você retira a liberdade do seu corpo de fazer microajustes. Se o seu ombro direito está mais à frente que o esquerdo devido à rotação da coluna, a barra guiada vai forçar a articulação do ombro a trabalhar numa amplitude que não é natural para ela.

Isso gera um estresse cisalhante nas articulações. Em vez de o músculo absorver a força, são os ligamentos e as cápsulas articulares que sofrem. Com o tempo, isso se traduz em tendinites, bursites e dores que parecem não ter explicação. O equipamento “seguro” torna-se o agente da lesão porque ele ignora a sua anatomia única e assimétrica.

Além disso, na barra guiada, é impossível detectar se um lado está empurrando mais que o outro. A máquina estabiliza o peso para você. Você pode estar empurrando 80% da carga com o braço direito e a barra continuará subindo nivelada. Isso mascara a assimetria de força e perpetua o desequilíbrio muscular que estamos tentando combater.

Sobrecarga Axial e a Compressão Discal Assimétrica

Carga axial é qualquer peso que exerce pressão de cima para baixo na sua coluna, achatando as vértebras umas contra as outras.[7] Agachamento com barra nas costas, desenvolvimento militar em pé e panturrilha na máquina em pé são exemplos clássicos. Numa coluna reta, a pressão é distribuída igualmente pelo disco intervertebral. Numa coluna com escoliose, a pressão é desigual.[3]

Imagine um sanduíche onde você aperta apenas uma das bordas: o recheio vai vazar pelo outro lado. É isso que acontece com seus discos. A carga axial comprime excessivamente o lado côncavo da curva, acelerando a desidratação do disco e aumentando o risco de hérnias. Do lado convexo, as estruturas são estiradas sob tensão. Essa mecânica não favorece a saúde da sua coluna a longo prazo.

Isso não significa que você nunca mais vai agachar, mas significa que a barra nas costas talvez não seja a melhor ferramenta para você agora. Existem alternativas que tiram a carga da coluna e mantêm a tensão nas pernas, como o agachamento com cinto, o leg press bem executado (com cuidado na lombar) ou agachamentos unilaterais segurando halteres, onde o peso está nas mãos e não esmagando suas vértebras.

A Importância da Dissociação de Cinturas no Treino

A marcha humana e a maioria dos nossos movimentos naturais envolvem dissociação de cinturas: quando o ombro direito vai para frente, o quadril direito tende a ir para trás, e vice-versa. A escoliose muitas vezes “congela” ou altera essa capacidade de dissociação fluida.[4] Nos treinos bilaterais rígidos, bloqueamos essa mecânica. Ficamos estáticos, tentando mover apenas os membros.

Para quem tem escoliose, exercícios que promovem essa dissociação ou que trabalham cadeias cruzadas são vitais. O treino convencional de musculação tende a ser muito “quadrado”: pés paralelos, mãos paralelas. Isso não desafia as rotações da coluna e não ajuda a “destravar” as áreas rígidas. Pelo contrário, pode aumentar a rigidez ao criar uma armadura muscular sobre uma estrutura torta.

Precisamos introduzir movimentos que permitam que o tórax se mova independentemente da pelve. Exercícios em polias com rotação controlada, remadas unilaterais com suporte e movimentos funcionais ajudam a restaurar essa mobilidade perdida. O objetivo não é apenas ficar forte, é ficar funcionalmente móvel, permitindo que a musculatura profunda da coluna respire e trabalhe de forma dinâmica, e não apenas estática.

ESTRATÉGIAS PRÁTICAS PARA BUSCAR O EQUILÍBRIO

O Poder do Trabalho Unilateral com Halteres

A regra de ouro para quem busca simetria com escoliose é: separe os lados. O uso de halteres (dumbbells) é o seu melhor amigo. Quando você faz um supino com halteres ou uma remada unilateral, o lado mais forte não pode ajudar o lado mais fraco. Cada membro é responsável pela sua própria carga. Isso expõe imediatamente suas fraquezas e obriga o sistema nervoso a desenvolver novas vias de recrutamento para aquele lado “preguiçoso”.

Comece sempre o exercício pelo lado que você considera mais fraco ou menos coordenado. Faça o máximo de repetições com boa técnica que conseguir. Digamos que saíram 10 repetições. Quando for fazer o lado forte, faça apenas as mesmas 10 repetições, mesmo que aguente fazer 15. Precisamos frear o lado dominante e dar tempo para o lado defasado alcançar. É um jogo de paciência.

Além disso, os halteres permitem microajustes de punho e cotovelo durante o movimento. Se o seu ombro está rodado, você pode girar levemente o halter para encontrar uma posição que não doa e que ative melhor o músculo. Essa liberdade angular é inexistente nas barras longas e é fundamental para acomodar as suas assimetrias estruturais sem gerar lesão.

O Uso de Espelhos e Feedback Tátil para Correção

A sua percepção corporal (propriocepção) pode estar mentindo para você. Pessoas com escoliose muitas vezes sentem que estão retas quando, na verdade, estão tortas.[7] Se a gente te colocar na posição perfeitamente alinhada, você vai sentir que está caindo para o lado. Por isso, você não pode confiar apenas no que sente; você precisa confiar no que vê e no que toca.

Use e abuse dos espelhos. Olhe para a altura dos seus ombros, olhe para o alinhamento do quadril. Use camisetas com linhas ou listras que ajudem a ver se o tronco está torcido. Durante a execução, se possível, peça para um parceiro de treino ou treinador tocar no músculo que deve ser trabalhado. Esse toque (feedback tátil) ajuda o cérebro a localizar o músculo e melhora a contração.

Se você treina sozinho, use a própria mão livre para tocar o músculo trabalhando nos exercícios unilaterais. Sentir o músculo contrair sob os dedos aumenta a conexão mente-músculo. Para o lado côncavo, que tem dificuldade de ativação, isso é “ouro”. Você precisa ensinar seu cérebro onde o músculo está e que é seguro usá-lo com força total.

Respiração Tridimensional durante a Execução

A maioria das pessoas na academia respira apenas com a parte superior do peito ou com a barriga, esquecendo as costelas. Na escoliose, geralmente um lado da caixa torácica é comprimido e não expande bem.[7] Aprender a direcionar o ar para esse lado “amassado” durante o exercício pode mudar o jogo. Isso se chama respiração corretiva ou tridimensional.

Tente o seguinte: durante o intervalo das séries, coloque a mão sobre o lado das costelas que parece mais afundado. Tente respirar empurrando a mão para fora com o ar, expandindo as costelas lateralmente e posteriormente. Visualizar o ar preenchendo as áreas colapsadas ajuda a mobilizar a estrutura torácica de dentro para fora.

Incorporar essa consciência respiratória durante o exercício é avançado, mas poderoso. Ao fazer uma puxada, inspire tentando expandir o lado fechado. Isso ajuda a estabilizar a coluna de uma forma mais simétrica e dá um suporte pneumático (de ar) para as vértebras, diminuindo a compressão e melhorando a eficiência do movimento muscular.

O PAPEL CRUCIAL DO CORE ALÉM DO ABDOMINAL CLÁSSICO

Estabilização Central antes da Mobilidade Periférica

Esqueça os abdominais tradicionais de ficar dobrando a coluna para frente. Para quem tem escoliose, o que precisamos é de estabilidade, não de flexão repetitiva. O conceito é simples: você não pode disparar um canhão de uma canoa. Se o seu centro (o core) é instável como uma canoa na água, você não consegue gerar força nos braços e pernas (o canhão) sem risco de virar.

O treino de core deve focar em manter a coluna neutra e resistir ao movimento. Pranchas são ótimas, mas pranchas laterais são ainda melhores para escoliose porque trabalham a assimetria. Muitas vezes você vai aguentar 1 minuto de prancha lateral num lado e apenas 20 segundos no outro. Isso é um diagnóstico claro de onde está o desequilíbrio que precisa ser sanado.

Antes de pensar em aumentar o peso no agachamento, certifique-se de que seu core consegue segurar sua coluna no lugar. Se você sente dor na lombar durante exercícios de braço ou perna, é sinal de que a estabilidade central falhou. Volte uma casa, fortaleça o centro, e só então avance para as extremidades.

O Quadrado Lombar: O Vilão Escondido na Dor

Existe um músculo profundo chamado quadrado lombar que conecta sua última costela à sua bacia. Na escoliose, quase sempre um dos quadrados lombares está super encurtado e espástico, puxando o quadril para cima e a costela para baixo. É ele o grande responsável por aquela dorzinha chata no final das costas, de um lado só.

Na musculação, precisamos ter muito cuidado para não hipertrofiar ainda mais esse lado que já está curto. Exercícios de flexão lateral do tronco (como segurar um halter e inclinar para o lado) devem ser feitos com extrema cautela e estratégia. Geralmente, queremos alongar o lado encurtado e fortalecer o lado fraco/alongado. Fazer o mesmo exercício para os dois lados pode piorar a curva.[7]

A liberação desse músculo antes do treino, com uma bolinha de massagem ou rolo, pode ser muito benéfica. Se ele estiver relaxado, sua pelve fica mais alinhada e você consegue executar os exercícios de perna com muito mais qualidade e simetria. Tratar o quadrado lombar é muitas vezes a chave para destravar sua evolução na simetria.

Anti-rotação e Anti-extensão como Base do Treino

Os melhores exercícios de abdômen para escoliose são aqueles que você faz parado ou resistindo a uma força. Chamamos isso de exercícios de “anti-movimento”. O “Pallof Press”, por exemplo, onde você segura um elástico ou cabo lateralmente e estica os braços à frente sem deixar o tronco girar, é fantástico. Ele ensina sua coluna a resistir à rotação, que é justamente o componente principal da escoliose.

Outro pilar é a anti-extensão, como o exercício “Dead Bug” (inseto morto) ou a prancha frontal bem feita. O objetivo é evitar que a lombar arqueie excessivamente.[7] Isso cria um cinturão de força natural ao redor da sua coluna. Quando você tem esse controle, a força que você gera nos treinos de hipertrofia é transferida para os músculos alvo, e não dissipada em movimentos parasitas da coluna.

Inclua esses exercícios no início do treino como ativação. Eles acordam a musculatura profunda e preparam o corpo para receber carga com segurança. Um core inteligente sabe quando contrair para proteger a curva e quando relaxar para permitir o movimento.

TERAPIAS E ABORDAGENS FISIOTERAPÊUTICAS COMPLEMENTARES

Reeducação Postural Global (RPG)

A musculação é excelente, mas ela sozinha não resolve a organização estrutural. A RPG é, sem dúvida, a terapia mais clássica e eficaz para quem tem escoliose. Diferente da musculação que trabalha partes, a RPG olha para as cadeias musculares inteiras. O fisioterapeuta vai colocar você em posturas estáticas que tensionam essas cadeias, forçando o alongamento dos músculos encurtados e o fortalecimento dos alongados, tudo ao mesmo tempo.

A grande sacada da RPG é a respiração e a consciência corporal. Você aprende a “sentir” sua coluna se alinhando. Para quem busca estética na musculação, a RPG é o complemento perfeito porque ela “arruma a casa” para que você possa colocar os “móveis” (músculos) no lugar certo. Sem esse alinhamento, você está apenas construindo músculos sobre uma fundação torta.

O Método Schroth e a Correção Tridimensional

Menos conhecido no Brasil, mas padrão ouro na Europa, o método Schroth é específico para escoliose. Ele usa exercícios de respiração rotacional e isometria para “desfazer” a rotação da coluna de dentro para fora. É um trabalho muito ativo e mental. Você usa espelhos, barras de parede e sacos de feijão para posicionar o corpo numa postura de supercorreção.

O interessante para você que gosta de musculação é que o Schroth ensina como se posicionar no dia a dia e nos esforços. Os princípios aprendidos lá podem ser aplicados durante o seu treino de força.[2][5] Você aprende a “abrir” o lado fechado da costela ativamente. Integrar Schroth com musculação é provavelmente o cenário ideal para a máxima simetria possível.

Liberação Miofascial e Osteopatia no Alívio de Tensões

Por fim, não podemos esquecer da manutenção dos tecidos. A fáscia (o tecido que envolve os músculos) de quem tem escoliose tende a ser rígida e aderida, especialmente no lado côncavo. A liberação miofascial ajuda a soltar essas amarras, permitindo que o músculo deslize melhor e cresça. A osteopatia entra com ajustes articulares que devolvem a mobilidade para vértebras e costelas que ficaram rígidas.

Essas terapias manuais não vão “curar” a curva óssea, mas vão aliviar a dor e melhorar a mobilidade imediata. Um corpo sem dor treina mais intenso. Um corpo móvel executa o movimento com maior amplitude. E amplitude com intensidade é a fórmula matemática da hipertrofia. Invista nessas terapias como parte do seu “treino invisível”. Seu corpo e sua simetria agradecerão.

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