Conforto ao andar de skate: Biomecânica e ajuste do setup

Conforto ao andar de skate: Biomecânica e ajuste do setup

Quando você sobe no skate a primeira coisa que busca é a sensação de liberdade mas logo em seguida vem a realidade do asfalto áspero. Como fisioterapeuta vejo muitos skatistas que aceitam a dor como parte do processo. Eles acham normal terminar a sessão com os pés latejando ou a lombar travada. Eu estou aqui para te dizer que não precisa ser assim e que o conforto é essencial para a longevidade no esporte.

O conforto no skate não é apenas sobre usar um tênis fofinho. É uma equação complexa que envolve a física dos materiais do seu carrinho e a biomecânica do seu corpo. Se o seu setup vibra demais essa energia sobe pelos seus ossos e desgasta suas articulações. Se seu corpo está rígido ele quebra em vez de absorver o impacto.

Nesta conversa vamos desconstruir o que significa estar confortável em cima do shape. Vou te passar a visão clínica de como cada peça do skate e cada músculo do seu corpo interagem. O objetivo é que você consiga andar por mais horas hoje e continue andando daqui a vinte anos sem as dores crônicas que tiram tantos talentos da pista precocemente.

A base de tudo começa nos pés e no calçado

O dilema entre board feel e proteção articular

Existe uma briga eterna no mundo do skate entre sentir o skate e proteger o pé. Os tênis vulcanizados são finos e flexíveis. Eles oferecem um controle incrível porque seus nervos sensoriais na planta do pé conseguem ler cada curva do shape. O problema fisiológico disso é que a proteção contra impacto é mínima. O calcanhar recebe a pancada seca do chão.

Já os tênis cupsole possuem uma entressola costurada e mais densa. Eles funcionam como uma armadura que absorve a energia cinética de um gap ou de uma escada. Para quem já sente dores nos joelhos ou calcanhares essa é a escolha biomecânica mais sensata. Você perde um pouco da sensibilidade fina mas ganha uma sobrevida enorme para seus meniscos e para o coxim adiposo do calcanhar.

O segredo está em encontrar o meio termo para o seu estilo de rolê. Se você só anda de manual e solo talvez o vulcanizado não agrida tanto. Mas se você gosta de pular e impactar o solo usar um tênis com solado muito fino é pedir para desenvolver uma fascite plantar ou uma contusão óssea. O conforto começa na barreira que você coloca entre seu esqueleto e o concreto.

A importância vital das palmilhas e do arco plantar

A palmilha original que vem na maioria dos tênis de skate é apenas um pedaço fino de espuma estética. Ela deforma nos primeiros dias e para de funcionar. O arco do seu pé funciona como uma mola natural. Se ele desaba toda vez que você aterrissa o seu joelho roda para dentro e isso gera uma tensão absurda nos ligamentos.

Investir em palmilhas de absorção de impacto feitas de poliuretano ou gel de alta densidade muda a experiência do rolê. Elas preenchem o espaço vazio sob o arco do pé e dão suporte. Isso evita que a fáscia plantar se estire excessivamente a cada manobra. O pé fica mais descansado porque a musculatura intrínseca não precisa trabalhar tanto para manter a estabilidade.

Para o skatista que tem o pé chato ou plano esse suporte é ainda mais crítico. A falta de cava no pé faz com que a tíbia rode internamente causando dor na parte interna do joelho. Uma boa palmilha realinha toda a perna. É um investimento pequeno que previne visitas dolorosas ao meu consultório para tratar tendinites.

O espaço interno e a liberdade dos dedos

Muitos skatistas compram tênis apertados demais achando que isso melhora a precisão do chute. Isso é um erro biomecânico grave. Seus dedos precisam de espaço para se espalhar dentro do calçado. Esse movimento de abrir os dedos é fundamental para o equilíbrio e para a dissipação de força.

Quando os dedos ficam espremidos você altera a circulação sanguínea e comprime os nervos digitais. Isso causa dormência formigamento e a longo prazo deformidades como joanetes e dedos em garra. Além disso a unha encravada e o hematoma subungueal o famoso dedo roxo são causados pelo impacto repetido da unha contra a biqueira do tênis apertado.

O conforto real exige que você consiga mexer os dedos livremente. O calcanhar deve estar travado e seguro mas a frente do pé precisa respirar. Teste o tênis no final do dia quando seus pés estão mais inchados. Se estiver apertado na loja vai ser insuportável depois de duas horas de sessão no sol quente.

Configuração do hardware para redução de vibração

Dureza das rodas e a transmissão de impacto para a coluna

A roda é o primeiro ponto de contato com o solo. Se você anda em asfalto rugoso com uma roda muito dura como uma 101a ou 99a você sente cada pedrinha no chão. Essa vibração de alta frequência sobe pela perna passa pelo quadril e termina na coluna vertebral. É como segurar uma britadeira por horas.

Essa vibração constante fatiga a musculatura paravertebral que tenta estabilizar a coluna. Para quem busca conforto usar uma roda levemente mais macia ou com um uretano de fórmula mais nobre faz toda a diferença. Rodas na casa dos 92a a 95a ou as novas fórmulas “soft sliders” absorvem essa trepidação inicial sem perder a velocidade ou o barulho do slide.

Para o skatista mais velho ou que está voltando de lesão considerar uma roda maior também ajuda. Rodas maiores rolam por cima das imperfeições com mais facilidade. Diminuir a vibração significa poupar seus discos intervertebrais de microtraumas repetitivos. Você termina o rolê sentindo as pernas menos pesadas e as costas menos travadas.

O papel dos amortecedores dos trucks na estabilidade

Os amortecedores são aquelas borrachinhas coloridas que ficam dentro do truck. Eles são a suspensão do seu skate. Muitos skatistas ignoram a manutenção dessa peça e andam com amortecedores estourados ou ressecados. Isso faz com que o truck fique instável e “dance” sob os pés.

Quando o skate não tem estabilidade direcional você precisa usar a força dos tornozelos e das pernas para corrigir a trajetória o tempo todo. Isso gera uma tensão muscular isométrica exaustiva na parte lateral da perna os fibulares. Trocar os amortecedores por novos e com a dureza adequada ao seu peso devolve a responsividade suave ao skate.

Se você é pesado e usa amortecedores muito moles o truck vai morder a roda no shape travando o movimento e te jogando longe. Se for leve e usar duros demais terá que fazer força excessiva para virar. O conforto aqui é ter um skate que responde ao seu pensamento sem que você precise brigar com ele para fazer uma curva simples.

Shapes largos e a distribuição de carga na aterrissagem

Antigamente usava-se shapes muito finos que pareciam palitos de picolé. Hoje a tendência de shapes mais largos acima de 8.25 ou 8.5 polegadas é uma vitória para a biomecânica. Uma superfície maior oferece uma base de aterrissagem mais segura e confortável. Você tem mais madeira para encontrar com os pés quando volta de uma manobra.

Isso reduz a ansiedade de “caçar” o skate no ar e permite que você aterrisse com os pés mais afastados. Uma base mais larga aumenta a estabilidade e distribui melhor o peso corporal. Seus pés sofrem menos pressão pontual e o risco de torcer o tornozelo na borda do shape diminui consideravelmente.

O shape mais largo também costuma ter um “concave” curvatura lateral que acomoda melhor a planta do pé. Isso melhora a propriocepção permitindo que você saiba onde seus pés estão sem precisar olhar para baixo. Menos tensão no pescoço para olhar os pés significa mais conforto cervical e melhor postura global.

Biomecânica da remada e postura sobre o carrinho

A sobrecarga assimétrica na perna de base

O skate é um esporte intrinsecamente assimétrico. Você tem uma perna que fica no shape (base) e outra que rema e chuta (ação). A perna de base trabalha em isometria segurando o peso do corpo dobrada levemente o tempo todo. O quadríceps e o glúteo dessa perna sofrem uma fadiga muito maior do que o lado oposto.

Isso cria desequilíbrios musculares que podem levar a dores no quadril e desalinhamento da pelve. O conforto a longo prazo depende de você reconhecer essa assimetria. É comum ver skatistas com um “glúteo de aço” de um lado e o outro mais fraco. Essa diferença altera a forma como você caminha fora do skate.

Para mitigar isso tente remar de switch (com a base trocada) nem que seja apenas para se deslocar. Isso dá um descanso para a perna de base habitual e estimula a outra. Além disso soltar a musculatura da perna de base com massagem ou rolo de liberação após o treino é essencial para evitar encurtamentos crônicos.

Posicionamento do centro de gravidade e a lombar

A postura clássica do skatista envolve os ombros caídos para a frente e o tronco levemente flexionado. Se você mantém essa posição por horas a pressão nos discos da coluna lombar aumenta drasticamente. O núcleo pulposo do disco é empurrado para trás em direção aos nervos. É a receita perfeita para uma hérnia de disco.

O segredo do conforto é usar a flexão dos joelhos e não apenas a flexão do tronco. Ao baixar o centro de gravidade dobrando mais os joelhos e quadris você consegue manter o peito mais aberto e a coluna mais neutra. Isso distribui a carga para os músculos fortes das pernas tirando o peso das costas.

Atletas que não possuem boa mobilidade de quadril acabam compensando na coluna. Se o seu quadril não dobra sua coluna tem que dobrar. Melhorar a flexibilidade dos flexores do quadril permite que você fique na posição de ataque do skate sem sacrificar sua saúde lombar.

O impacto repetitivo das manobras de solo

Mesmo que você não pule escadarias as manobras de solo geram impacto. O “pop” bater o tail no chão envia uma onda de choque que sobe pela perna de trás. A aterrissagem mesmo que plana comprime as articulações centenas de vezes por sessão. É um trauma cumulativo que chamamos de microtrauma de repetição.

O corpo humano é adaptável mas precisa de tempo. O desconforto surge quando a taxa de destruição tecidual é maior que a taxa de reparo. Se você sente dor nas canelas a famosa canelite é sinal de que o osso está sofrendo com a vibração e o impacto excessivos. Ignorar isso pode levar a fraturas por estresse.

A técnica de aterrissagem é crucial aqui. Você deve aterrissar como um gato usando a musculatura para desacelerar o movimento. Aterrissar com os joelhos duros transfere toda a força para o osso e a cartilagem. O som da sua aterrissagem deve ser o mais silencioso possível. Barulho é energia dissipada de forma errada.

Preparação do corpo para o impacto

Mobilidade de tornozelo para prevenir entorses

O tornozelo é a articulação mais exigida no skate. Ele precisa ser estável para não virar mas móvel o suficiente para fazer o movimento do chute (flick). Se o seu tornozelo é rígido e tem pouca dorsiflexão (movimento de puxar a ponta do pé para cima) quem paga o preço é o joelho. O corpo precisa buscar esse movimento em algum lugar.

Antes de subir no skate gire os tornozelos. Faça alongamentos dinâmicos na panturrilha. Um tornozelo solto absorve melhor as irregularidades do solo. Se você sente que seu calcanhar sai do chão quando você agacha seus tornozelos estão travados e isso compromete todo o seu equilíbrio.

A falta de mobilidade também aumenta a chance da temida entorse em inversão quando o pé vira para fora. Um tornozelo flexível tem mais chance de “ceder” de forma controlada e voltar ao lugar sem romper ligamentos do que um tornozelo rígido que quebra como um galho seco sob tensão.

Ativação de glúteos para proteger os joelhos

O glúteo é o principal estabilizador do quadril e do joelho. No skate muitas vezes o quadríceps (coxa) domina o movimento e o glúteo fica “dormindo”. Isso faz com que o joelho caia para dentro durante a aterrissagem valgo dinâmico uma posição perigosa para o ligamento cruzado anterior e para o menisco.

Antes da sessão faça alguns agachamentos ou pontes no chão para “acordar” essa musculatura. Sentir o glúteo contrair dá uma base sólida para suas manobras. Quando o glúteo está ativo ele segura o fêmur no lugar e impede que o joelho sofra torções desnecessárias.

Isso também melhora a altura do seu pop. A extensão do quadril é força pura de glúteo. Mais força muscular significa menos esforço articular. Você vai sentir que cansa menos e que seus joelhos não reclamam tanto no dia seguinte.

Aquecimento dinâmico antes do primeiro ollie

Chegar no pico tirar o skate do carro e mandar uma manobra complexa a frio é um erro clássico. Seus tecidos estão frios viscosos e menos elásticos. A chance de distensão muscular é enorme. O aquecimento não precisa ser chato nem demorado. Cinco minutos já mudam a química do seu corpo.

Faça movimentos que imitam o skate. Agachamentos rotações de tronco balanços de perna. Eleve um pouco a frequência cardíaca para bombear sangue para os músculos. O líquido sinovial que lubrifica as articulações precisa de movimento para ser produzido e distribuído.

Um corpo aquecido tem reflexos mais rápidos. No skate onde frações de segundo decidem entre uma manobra acertada e uma queda feia estar com o sistema nervoso alerta é fundamental para o conforto e a segurança. Pense no aquecimento como a checagem dos freios antes de acelerar um carro de corrida.

Gerenciamento de fadiga e recuperação

Identificando a diferença entre dor boa e lesão

Existe a dor muscular tardia aquela que aparece um ou dois dias depois do treino e mostra que você usou o músculo. Ela é difusa e geralmente passa com movimento leve. E existe a dor de lesão que é aguda pontual e muitas vezes vem acompanhada de inchaço ou calor local. Saber diferenciar as duas é vital.

Se você sente uma fisgada aguda uma dor que piora com o movimento ou que não deixa você dormir pare imediatamente. Insistir em andar com dor “ruim” altera sua biomecânica. Você começa a mancar ou compensar e cria uma lesão secundária em outro lugar.

Respeite os sinais do seu corpo. O skate exige muito e o descanso é parte do treino. Se suas pernas estão pesadas e sem resposta sua propriocepção está falha. É nesses dias de fadiga extrema que as piores lesões acontecem por falta de controle motor fino.

O retorno venoso e o inchaço pós-sessão

Depois de horas em pé e batendo o pé no chão o sangue e a linfa tendem a se acumular nas pernas e pés. É normal sentir os pés inchados e latejando após a sessão. Isso acontece pela gravidade e pela inflamação natural do exercício. Se você não cuidar isso vira uma sensação de peso crônico.

Ao chegar em casa a melhor coisa que você pode fazer é colocar as pernas para cima. Deite no chão e apoie as pernas na parede por 15 minutos. Isso facilita o retorno venoso pela gravidade drenando o excesso de líquido dos tornozelos e joelhos.

Essa prática simples acelera a recuperação e diminui a pressão interna nos tecidos. Seus pés vão agradecer e estarão prontos mais rápido para a próxima sessão. É uma estratégia de recuperação passiva que qualquer um pode fazer e que traz alívio imediato.

Estratégias de descompressão da coluna vertebral

A coluna sofre compressão vertical durante todo o rolê. Os discos intervertebrais perdem água e altura. Para aliviar essa pressão e evitar dores lombares precisamos descomprimir. Ficar pendurado em uma barra fixa por alguns segundos é excelente. Deixe o peso das pernas tracionar a coluna suavemente.

Outra opção é a posição da criança da yoga ou simplesmente abraçar os joelhos contra o peito deitado de costas. O objetivo é abrir espaço entre as vértebras permitindo que os discos se reidratem e que a musculatura tensa das costas relaxe.

Evite ficar sentado no sofá torto logo após andar de skate. Sua coluna está vulnerável. Mantenha-se hidratado pois os discos precisam de água para manter sua função de amortecimento. Um skatista com a coluna saudável tem uma vida útil no esporte muito maior.

Terapias aplicadas e indicadas para skatistas

Se mesmo com todos os ajustes de equipamento e postura as dores persistirem a fisioterapia tem ferramentas poderosas para te ajudar a continuar no carrinho. Não espere travar para procurar ajuda. O tratamento preventivo é sempre mais rápido e eficaz.

Osteopatia é muito indicada para skatistas. Ela trabalha o alinhamento da estrutura óssea e a mobilidade das vísceras e tecidos. Muitas vezes uma dor no joelho vem de um bloqueio no quadril ou na pelve causado por tantas quedas. O osteopata manipula essas articulações para devolver o movimento livre e o equilíbrio do corpo.

Liberação Miofascial é quase obrigatória. Soltar a fáscia lata a banda iliotibial e a panturrilha alivia a tensão que puxa as articulações. Usamos mãos ventosas ou instrumentos para “desgrudar” o músculo e melhorar a circulação. Isso tira aquela sensação de perna presa e pesada.

Para recuperação e fortalecimento o Treinamento Funcional e Pilates são excelentes. Eles focam no “core” o centro de força do corpo. Um skatista com abdômen e lombar fortes tem muito mais estabilidade e protege a coluna dos impactos. Trabalhamos também a propriocepção em bases instáveis simulando a exigência de equilíbrio do skate mas em ambiente controlado. Cuide do seu corpo ele é o único “shape” que você não pode trocar na loja quando quebra.

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