O tênis e a fascite plantar: A importância crucial do calçado na sua recuperação e performance
Você provavelmente conhece a sensação desagradável de colocar os pés no chão logo ao acordar e sentir uma pontada aguda no calcanhar. Parece que pisou em um prego ou que há vidro dentro do pé. Essa dor matinal é a marca registrada da fascite plantar e infelizmente tornou-se uma companheira comum para muitos tenistas. Quando você joga tênis o estresse que seus pés suportam é imenso e muito diferente de uma corrida linear. Nós precisamos conversar seriamente sobre como o seu equipamento principal influencia isso. Não estou falando da sua raquete mas sim do que você calça.
O tênis é um esporte de frenagens bruscas e mudanças de direção explosivas que exigem demais da estrutura do pé. Se o seu calçado não estiver preparado para absorver e redistribuir essas forças a sua fáscia plantar será a primeira a sofrer. Como fisioterapeuta vejo muitos atletas amadores e profissionais focarem horas na técnica do saque ou na potência do forehand mas negligenciarem completamente a base que sustenta tudo isso. O resultado é essa inflamação chata e persistente que pode te tirar das quadras por meses se não for tratada corretamente.
Vamos mergulhar fundo na biomecânica do seu pé e entender exatamente onde o tênis de quadra entra nessa equação. Quero que você entenda não apenas o “o que” mas o “porquê” de certas escolhas de calçado serem fundamentais para manter você jogando sem dor. A escolha do tênis errado pode ser o gatilho para a lesão ou o motivo pelo qual o seu tratamento atual não está evoluindo como deveria. A sua recuperação começa no momento em que você entende como proteger a sua base.
A anatomia da fáscia plantar e o estresse do jogo
A fáscia plantar é uma banda espessa de tecido conjuntivo que corre ao longo da sola do pé conectando o osso do calcanhar aos dedos. Imagine ela como a corda de um arco onde os ossos do pé formam o arco em si. Quando essa corda está tensionada corretamente ela mantém o arco do pé e absorve o impacto de cada passo que você dá. No entanto quando você joga tênis você não está apenas caminhando. Você está saltando correndo lateralmente e parando de forma abrupta. Isso coloca uma carga de tração violenta nessa estrutura repetidas vezes durante uma partida.
Durante um jogo de tênis a fáscia atua como uma mola natural devolvendo energia para ajudar na sua movimentação. O problema surge quando a carga de trabalho excede a capacidade de regeneração do tecido. Pequenas microlesões começam a ocorrer na origem da fáscia junto ao calcanhar. Se você não tem suporte adequado essas microlesões não cicatrizam e o tecido entra em um ciclo inflamatório crônico e degenerativo. O tecido fica espessado e menos elástico o que gera mais dor e menos eficiência mecânica.
Como fisioterapeuta observo que muitos tenistas têm a cadeia posterior encurtada. Isso significa que os músculos da panturrilha estão tensos e puxam o calcanhar para cima. Esse movimento coloca ainda mais tensão na fáscia plantar. Se somarmos a isso um calçado que não oferece o suporte correto para o arco plantar ou que já perdeu sua capacidade de amortecimento temos a receita perfeita para a lesão. O pé desaba a cada aterrissagem esticando a fáscia além do seu limite fisiológico saudável.
Características fundamentais do calçado para tenistas com fascite
Amortecimento e absorção de impacto na entressola
A entressola é o coração do tênis quando falamos de proteção contra a fascite plantar. É a camada de material geralmente espuma EVA ou tecnologias proprietárias de marcas que fica entre a sola externa e a palmilha. Para um tenista com dor no calcanhar a densidade dessa espuma é crítica. Ela não pode ser mole demais a ponto de o pé afundar e ficar instável nem dura demais a ponto de não dissipar a energia do impacto da quadra dura. O equilíbrio é a chave aqui.
Você precisa buscar tênis que tenham um foco reforçado no amortecimento da região do retropé ou seja o calcanhar. Quando você aterra de um saque ou faz uma passada larga para alcançar uma bola curta o calcanhar recebe uma força que pode chegar a várias vezes o seu peso corporal. Um bom sistema de amortecimento dissipa essa força impedindo que ela seja transferida integralmente para a inserção da fáscia e para o periósteo do calcâneo. Isso reduz o trauma direto na região que já está sensível e inflamada.
Outro ponto importante é a vida útil desse amortecimento. Vejo muitos pacientes usando o mesmo tênis por dois ou três anos. A espuma da entressola tem uma memória elástica limitada. Depois de certo tempo ela comprime e não volta mais ao estado original. Visualmente o tênis parece novo por fora mas por dentro ele já é um “tijolo” que não protege nada. Para quem tem fascite plantar a troca do calçado deve ser mais frequente para garantir que a absorção de impacto esteja sempre funcionando em nível máximo.
Estabilidade e controle de torção
A estabilidade é o que diferencia um tênis de corrida de um tênis de quadra e é vital para proteger a fáscia. No tênis os movimentos laterais são constantes. Se o calçado permite que o pé “dance” lá dentro ou se a estrutura do tênis torce com facilidade a fáscia sofre um estresse de torção adicional. Um bom tênis de quadra possui uma peça rígida no meio da sola chamada “shank” que impede que o calçado dobre ao meio ou torça como um pano molhado.
Essa rigidez estrutural protege o arco plantar. Quando você faz uma frenagem brusca para mudar de direção o pé tende a fazer um movimento de pronação excessiva ou seja desabar para dentro. Se o tênis não segura esse movimento a fáscia é esticada violentamente. Um calçado com boa estabilidade lateral e um contraforte firme aquela parte dura que envolve o calcanhar mantém o osso calcâneo alinhado. Isso garante que a fáscia trabalhe no eixo correto sem sobrecargas desnecessárias.
O contraforte firme é um dos melhores amigos de quem tem fascite. Ele atua como um tutor externo para o calcanhar. Se o contraforte for mole demais o calcanhar oscila a cada passo gerando atrito e tensão na inserção da fáscia. Ao comprar um tênis aperte a parte de trás do calcanhar com os dedos. Se ela dobrar facilmente provavelmente não oferecerá o suporte que você precisa para jogar sem dor e prevenir o agravamento da lesão.
O drop e a elevação do calcanhar
O “drop” é a diferença de altura entre o calcanhar e a ponta do pé. Para tenistas sofrendo com fascite plantar um drop ligeiramente mais alto pode ser terapêutico. Tênis muito planos obrigam a panturrilha a esticar mais o que por sua vez puxa o tendão de Aquiles e tenciona a fáscia plantar. Uma leve elevação no calcanhar tira essa tensão excessiva da cadeia posterior proporcionando um alívio mecânico imediato para a estrutura inflamada.
Não estamos falando de usar um salto alto mas sim de evitar calçados minimalistas ou excessivamente planos nas quadras. Uma elevação de 8mm a 12mm costuma ser ideal para a maioria dos jogadores com essa patologia. Isso coloca o pé em uma posição de leve flexão plantar relaxando as estruturas que puxam a fáscia. É uma mudança pequena na geometria do calçado mas que faz uma diferença enorme no conforto final de uma partida de duas horas.
Além do drop a flexibilidade da parte frontal do tênis também importa. O calçado deve dobrar apenas onde os dedos dobram e não no meio do arco. Se o tênis for rígido demais na ponta dos dedos ele exige que a fáscia faça muita força para impulsionar o corpo à frente na hora do saque ou da corrida. Teste a flexibilidade do antepé antes de comprar garantindo que a alavanca para a propulsão seja facilitada pelo calçado e não dificultada por ele.
A biomecânica dos golpes e a sobrecarga na fáscia
O impacto da aterrissagem no saque
O saque é o golpe mais complexo e violento do tênis e também um dos mais perigosos para quem tem fascite plantar. Durante a fase de impulsão você carrega toda a energia nos pés para saltar. Mas é na aterrissagem que o perigo mora. Você cai de uma altura considerável geralmente sobre um único pé e com o corpo inclinado para frente. A força de reação do solo nesse momento é brutal e é a fáscia plantar quem precisa gerenciar essa desaceleração repentina.
Se o seu tênis não tiver um sistema de amortecimento superior na região do antepé e do calcanhar essa aterrissagem envia uma onda de choque direta para a fáscia. Muitos tenistas amadores aterram chapando o pé no chão o que aumenta a tração na aponeurose plantar. A técnica correta envolve uma dissipação muscular mas quando a fadiga bate é a estrutura passiva ou seja a fáscia e os ossos que sofre. O calçado atua aqui como a primeira linha de defesa absorvendo o pico dessa força.
Além do impacto vertical existe o controle do equilíbrio após a aterrissagem. O pé precisa estabilizar o corpo inteiro que está em movimento. Se o calçado não oferece uma base larga e estável os músculos intrínsecos do pé entram em espasmo para tentar segurar o equilíbrio. Essa tensão muscular constante gera pontos de gatilho e retrai a fáscia piorando a dor crônica. Um tênis com base de suporte ampliada ajuda a aterrissar com mais segurança e menos esforço da musculatura plantar.
O Split Step e a reatividade
O “split step” é aquele pequeno salto que você dá logo antes do adversário bater na bola. É fundamental para a agilidade mas é extremamente taxativo para a fáscia plantar. Você está essencialmente fazendo centenas de pequenos saltos pliométricos durante uma partida. Em cada split step o arco do pé é carregado como uma mola e depois libera energia para você explodir em direção à bola. Essa carga cíclica repetitiva é muitas vezes o que causa a micro ruptura das fibras de colágeno da fáscia.
A responsividade do tênis é crucial aqui. Se a espuma da entressola for muito “morta” ou mole o pé afunda e demora a sair do chão. Isso obriga a fáscia a trabalhar mais tempo sob tensão para gerar a propulsão necessária. Um calçado com boa responsividade ajuda a devolver a energia facilitando o trabalho do pé. Pense no tênis como um parceiro que divide o peso da tarefa com a sua anatomia. Se ele não faz a parte dele a sua fáscia faz hora extra.
Outro ponto é a aderência da sola durante o split step. Se o tênis escorrega um pouco ao aterrissar o pé faz uma contração reflexa de “agarrar” o chão com os dedos para não cair. Esse movimento de garra ativa excessivamente a musculatura flexora e encurta a fáscia. Solados gastos ou inadequados para o tipo de quadra aumentam essa tensão desnecessária transformando um movimento técnico simples em um fator de agressão para o tecido plantar.
A movimentação lateral e o freio
O tênis é predominantemente um esporte de movimentação lateral. Correr para bater uma direita e frear bruscamente para voltar ao centro da quadra é o padrão. Nessa frenagem o pé de fora recebe uma carga enorme na borda lateral e tende a pronar ou supinar dependendo da biomecânica do atleta. Para quem tem fascite essa força lateral pode “descolar” a fáscia de sua posição neutra causando micro estiramentos dolorosos.
A estrutura do cabedal a parte de cima do tênis precisa ser reforçada lateralmente para conter o pé sobre a plataforma da sola. Se o pé desliza dentro do tênis durante a frenagem o atrito gera calor e bolhas mas pior que isso altera a mecânica da pisada. A fáscia acaba sendo torcida em direções para as quais não foi projetada para suportar. O ajuste do tênis deve ser justo como uma luva bloqueando esse deslizamento interno.
O suporte do arco plantar também é testado nessas movimentações laterais. Um tênis com suporte de arco adequado evita que o pé desabe medialmente durante a troca de direção. Para quem tem o pé chato ou pronado isso é inegociável. A falta de suporte no arco durante uma passada lateral agressiva é um dos mecanismos mais comuns de dor aguda na fáscia durante o jogo. O calçado deve atuar como um chassi rígido que mantém a estrutura do pé íntegra mesmo sob forças extremas.
A influência do tipo de quadra na escolha do calçado
Quadras rápidas e o impacto seco
As quadras rápidas ou “hard courts” são essencialmente concreto pintado com camadas de acrílico. Para quem sofre de fascite plantar é a superfície mais hostil possível. O impacto é seco e a devolução de energia do solo é total direto para as suas articulações e fáscia. Jogar nessas quadras exige um calçado com amortecimento máximo. Não há margem para tênis minimalistas ou desgastados aqui.
Nessa superfície a durabilidade do solado também é um fator. A abrasão do concreto desgasta a sola rapidamente alterando o padrão de pisada do tenista. Se a parte externa do calcanhar do tênis estiver gasta o pé começa a aterrissar em uma angulação errada aumentando a pronação e a tensão na fáscia. Verifique a sola dos seus tênis com frequência se você joga em quadra rápida. O desgaste irregular é um sinal de alerta e um convite para a lesão.
Além do amortecimento a tração na quadra dura é absoluta. O pé trava no chão imediatamente. Isso é bom para a performance mas duro para o corpo. O tênis precisa ter zonas de pivô na sola geralmente círculos na região do antepé para permitir que você gire o pé sem travar excessivamente o que torceria a fáscia. A escolha de um solado específico para “hard court” não é marketing é uma necessidade biomecânica para reduzir o torque nos tecidos moles do pé.
Quadras de saibro e o deslizamento
O saibro é muito mais gentil com as articulações e com a fáscia plantar devido à sua capacidade de absorver impacto e permitir o deslizamento. No entanto o jogo no saibro traz desafios diferentes. O deslizamento exige muito mais estabilidade do calçado. Se o tênis não tiver um cabedal reforçado e um sistema de amarração eficiente o pé pode “sambar” dentro do calçado enquanto você desliza criando instabilidade no arco plantar.
A sola específica para saibro geralmente com padrão espinha de peixe é fundamental para evitar escorregões não controlados. Um escorregão inesperado pode causar um estiramento agudo da fáscia ao tentar recuperar o equilíbrio. A tração previsível que o solado correto oferece permite que a musculatura do pé trabalhe de forma mais relaxada sem a tensão constante do medo de cair.
Outro aspecto é o acúmulo de terra dentro do calçado se ele não for bem vedado ou se a malha for muito aberta. O saibro compactado dentro do tênis altera a palmilha e pode criar pontos de pressão sob o calcanhar ou o arco irritando a fáscia. Escolher um modelo com lingueta integrada ou proteção extra contra a entrada de detritos ajuda a manter a interface entre o pé e o calçado limpa e confortável durante todo o jogo.
Quadras de grama e a instabilidade
Embora menos comuns no Brasil as quadras de grama sintética ou natural apresentam um desafio de instabilidade. A superfície pode ser escorregadia e irregular. Para a fascite plantar a instabilidade é inimiga. O pé precisa trabalhar o dobro para se adaptar às micro irregularidades do terreno. Isso fadiga a musculatura intrínseca que dá suporte à fáscia levando à dor.
Nessas superfícies o calçado com “nubs” ou pequenos cravos é essencial para garantir a aderência. Tentar jogar em grama com um tênis de solado liso de quadra rápida vai forçar você a tensionar os dedos dos pés a cada passo para buscar aderência. Essa garra dos dedos aumenta a tensão na aponeurose plantar e piora o quadro de dor matinal no dia seguinte.
A grama também tende a ser mais macia o que é bom para o impacto mas essa maciez pode significar menos retorno de energia. Se o tênis for mole demais em uma superfície já macia o pé afunda excessivamente esticando o arco. Em superfícies macias um tênis com uma placa de estabilidade mais rígida na entressola ajuda a fornecer a plataforma sólida que o chão não oferece protegendo a integridade biomecânica da pisada.
Terapias aplicadas e o caminho para a cura
Agora que ajustamos a sua base com o calçado correto precisamos tratar o tecido lesionado. Como fisioterapeuta a primeira linha de combate que utilizo é a Terapia Manual e Liberação Miofascial. Não adianta apenas tratar o local da dor. Precisamos soltar toda a cadeia posterior: panturrilhas, isquiotibiais e a própria sola do pé. Utilizo técnicas manuais profundas ou instrumentos de raspagem para quebrar aderências no tecido e melhorar a vascularização local. Você sentirá um alívio imediato da tensão embora o tratamento possa ser um pouco desconfortável na hora.
Para casos crônicos que não respondem bem apenas a alongamentos e gelo a Terapia por Ondas de Choque é um divisor de águas. Não é choque elétrico mas sim ondas acústicas de alta energia que bombardeiam a região lesionada. Isso estimula uma nova resposta inflamatória controlada que “acorda” o corpo para cicatrizar aquela área que estava degenerada além de ter um efeito analgésico potente. É uma das ferramentas mais eficazes que temos hoje na fisioterapia esportiva para fascite plantar.
Por fim não podemos esquecer do Fortalecimento e Controle Motor. A fascite muitas vezes ocorre porque os músculos intrínsecos do pé estão fracos. Introduzimos exercícios de “short foot” agarrar toalhas com os dedos e fortalecimento excêntrico da panturrilha. Também avaliamos a necessidade de palmilhas ortopédicas personalizadas que podem ser usadas dentro do seu tênis de quadra novo para corrigir desalinhamentos biomecânicos específicos do seu pé. O tratamento é uma jornada mas com o calçado certo e as terapias adequadas você voltará a voar em quadra sem medo daquela dor matinal.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”