Raquetes de Beach Tennis para Intermediários: O Guia Definitivo da Fisioterapia Esportiva

Raquetes de Beach Tennis para Intermediários: O Guia Definitivo da Fisioterapia Esportiva

Como fisioterapeuta, vejo muitos pacientes chegarem ao consultório com dores no cotovelo ou no ombro logo após trocarem de equipamento. Você evoluiu no jogo, seus golpes estão mais rápidos e a raquete de iniciante já parece “boba” na sua mão. É natural buscar mais potência. No entanto, a escolha da raquete na fase intermediária é o momento mais crítico para a saúde das suas articulações. Vamos conversar sobre como escolher seu novo equipamento olhando não apenas para a performance, mas para a biomecânica do seu corpo.

O Salto do Iniciante para o Intermediário: O Que Muda na Prática?

A transição da fibra de vidro para materiais compostos

Quando você começou, provavelmente usou uma raquete de fibra de vidro. Esse material é excelente para quem está aprendendo porque é extremamente flexível. Ele age como um trampolim: a bola bate e a raquete “devolve” a energia sem que você precise fazer muita força. Porém, à medida que sua técnica melhora, você começa a sentir falta de precisão. A fibra de vidro é macia demais para bloquear um saque rápido ou para colocar aquela bola curta com efeito.

Ao entrar no nível intermediário, você busca materiais mais rígidos, como o carbono ou misturas de carbono com kevlar.[1] Essa mudança altera drasticamente a resposta tátil que seu cérebro recebe a cada golpe. O carbono não perdoa tanto os erros de centralização (o famoso sweet spot) quanto a fibra de vidro. Se você bater fora do centro, a raquete vibra, e essa vibração tem um destino certo: seus tendões. Por isso, a transição deve ser gradual, evitando pular direto para raquetes profissionais extremamente rígidas que seu braço ainda não está preparado para suportar.

A estabilidade estrutural das raquetes intermediárias permite que você comece a desenvolver um jogo mais ofensivo. Enquanto a raquete de entrada priorizava apenas passar a bola para o outro lado, a intermediária exige que você tenha um gesto esportivo mais limpo. Se o seu movimento de swing ainda depende muito do punho e pouco do tronco, materiais mais nobres vão expor essa falha técnica, muitas vezes na forma de dor.

A busca pelo equilíbrio entre controle e potência

O maior dilema do jogador intermediário é a eterna briga entre potência e controle. Você vê os profissionais soltando o braço e quer fazer igual. Mas, na fisioterapia, sabemos que potência sem controle é lesão na certa. Raquetes voltadas para esse nível costumam ter um equilíbrio (balance) centralizado. Isso significa que o peso não está nem totalmente na cabeça (que daria muita potência, mas cansaria o ombro), nem totalmente no cabo (que daria muito controle, mas exigiria muita força para acelerar a bola).

Para você, que está consolidando golpes como o gancho e o smash, uma raquete com balanço médio é a escolha biomecânica mais segura. Ela funciona como uma extensão natural do antebraço, sem criar uma alavanca excessiva que sobrecarregue a musculatura extensora. Lembre-se que, nessa fase, você está aumentando a velocidade dos ralis. Uma raquete equilibrada permite correções rápidas de direção sem que você precise “brigar” contra a inércia do equipamento.

O controle também vem da rigidez da face. Raquetes intermediárias tendem a ter uma rigidez média. Isso permite que você sinta a bola “entrar” na raquete por uma fração de segundo, dando tempo para direcionar o golpe. Se a raquete for dura demais (como as de carbono 18k usadas por alguns pros), a bola sai tão rápido que você perde a sensibilidade fina necessária para desenvolver o toque e a largadinha, fundamentais para subir de nível.

O peso ideal para sua estrutura muscular

Um erro clássico que vejo na clínica é o jogador comprar a raquete pelo design e esquecer de olhar o peso. Para o nível intermediário, o peso ideal geralmente oscila entre 320g e 340g. Pode parecer uma diferença pequena, mas 10 gramas a mais, repetidos por 500 golpes em uma partida de fim de semana, geram uma carga acumulativa enorme sobre o manguito rotador.

Se você tem uma estrutura física mais leve ou histórico de dores no ombro, mantenha-se na faixa inferior (320g-330g). Uma raquete mais leve permite maior agilidade na rede, essencial para aqueles voleios rápidos de trocação. No entanto, cuidado com raquetes excessivamente leves (abaixo de 310g para adultos), pois elas têm menos massa para absorver o impacto da bola, transferindo essa energia cinética diretamente para o seu cotovelo.

A distribuição desse peso também importa. Dois modelos podem pesar 330g, mas se uma tiver o peso deslocado para a ponta (cabeça), ela parecerá muito mais pesada durante o movimento (swingweight). Para intermediários, recomendo evitar raquetes com peso excessivo na cabeça até que sua musculatura de deltoide e trapézio esteja especificamente fortalecida para essa demanda. O cansaço muscular leva à perda da técnica, e é na perda da técnica que a lesão acontece.

Materiais e Tecnologias: A Física a Favor do Corpo

O debate do Carbono: 3K versus 12K

Você vai ouvir muito sobre “K” nas quadras.[2] O “K” refere-se à quantidade de filamentos de carbono em cada fio da trama.[2][3][4] O Carbono 3K tem 3.000 filamentos, enquanto o 12K tem 12.000.[4] Ao contrário do que muitos pensam, nem sempre “mais é melhor” ou “mais duro”. Na tecelagem do beach tennis, o carbono 3K costuma oferecer uma sensação um pouco mais firme que a fibra de vidro, mas ainda com boa flexibilidade. É, na minha opinião técnica, o material “padrão-ouro” para o intermediário.

Já o carbono 12K (e o 18K) cria uma face mais densa e, frequentemente, mais rígida (dependendo da resina usada). Uma face mais rígida devolve a energia de forma explosiva. É ótimo para quem tem técnica perfeita e acerta sempre o centro. Mas para você, que ainda “morde” algumas bolas na borda da raquete, a rigidez do 12K pode ser agressiva. O choque mecânico de uma batida descentralizada em uma raquete muito rígida viaja pelo braço como uma onda de choque.

Portanto, se você está saindo do iniciante agora, dê preferência ao Carbono 3K ou a compostos híbridos (Carbono + Fibra de Vidro). Eles oferecem a rigidez necessária para a potência que você quer, mas mantêm uma absorção de vibração que protege suas articulações. Deixe o 12K ou 18K para quando sua musculatura estiver blindada e sua técnica, impecável.

O Coração da Raquete: EVA Soft versus Hard

Se o carbono é a pele da raquete, o EVA (Etileno Vinil Acetato) é a carne. É a espuma que fica dentro. Para o nível intermediário, a densidade dessa espuma é crucial. Existem basicamente o EVA Soft (macio) e o EVA Hard (duro), com variações como “Black EVA” ou “Pro”. Do ponto de vista fisioterapêutico, o EVA Soft é seu melhor amigo.

O EVA Soft age como um amortecedor de carro. Quando a bola impacta a raquete em alta velocidade, a espuma se deforma, absorvendo parte da violência do impacto, e depois ejeta a bola. Isso reduz drasticamente a carga que chega ao seu punho e cotovelo. Além disso, o EVA Soft ajuda a impulsionar a bola (efeito estilingue) em golpes onde você não consegue fazer o movimento completo, ajudando na defesa.

Já o EVA Hard é seco. Ele não absorve quase nada; ele é feito para precisão absoluta e potência bruta, mas exige que toda a força venha do braço do jogador. Usar uma raquete com EVA duro na fase intermediária é um convite para a epicondilite, pois seu braço terá que absorver tudo o que a raquete rejeitou. Verifique sempre a especificação da espuma antes de comprar: busque termos como “Soft”, “Super Soft” ou “Extra Soft”.

Furação e Aerodinâmica: Menos resistência, menos dor

Os furos na raquete não são apenas estéticos. Eles têm duas funções: reduzir o peso e quebrar a resistência do ar. Uma raquete com uma distribuição inteligente de furos (geralmente nas laterais e no centro inferior) corta o ar com mais facilidade. Para o jogador intermediário, isso é vital na rede. Quando você precisa mover a raquete rápido para bloquear um smash, a resistência do ar é um fator de fadiga.

No entanto, cuidado com raquetes que têm furos excessivos ou mal posicionados na região central de impacto (o sweet spot). Menos material no centro significa menos estabilidade na batida. Se a raquete for muito “furada” no meio, a superfície se torna instável e pode torcer na sua mão ao impactar uma bola pesada. Essa microtorção exige que seus músculos do antebraço trabalhem dobrado para estabilizar o punho.

Busque um padrão de furos homogêneo. Tecnologias que prometem “furos convexos” ou designs exóticos podem ser interessantes, mas o clássico padrão de furos distribuídos ao redor do centro costuma oferecer o melhor compromisso entre aerodinâmica e solidez estrutural. Lembre-se: quanto menos força você fizer para movimentar a raquete no ar, mais energia sobra para o golpe e menos estresse recai sobre seu ombro.

Biomecânica e Ergonomia: O Ajuste Fino

O Grip e a saúde do seu antebraço

Poucos jogadores dão atenção ao cabo da raquete, mas é ali que a lesão começa. A grossura do grip (a empunhadura) determina como seus músculos flexores e extensores do punho vão trabalhar. Se o cabo for muito fino, você instintivamente aperta com muita força para a raquete não escapar. Essa tensão isométrica constante “estrangula” a circulação e fadiga os músculos que se inserem no cotovelo.

Por outro lado, um cabo grosso demais impede que você feche a mão adequadamente, bloqueando a mobilidade do punho necessária para dar o spin (efeito) na bola. O ideal é ajustar a grossura usando overgrips. Como regra prática, ao segurar a raquete, deve sobrar o espaço de um dedo mindinho entre a ponta dos seus dedos e a palma da mão.

Para o nível intermediário, recomendo o uso de undergrips ou cushion grips de gel ou silicone por baixo do overgrip. Esses acessórios criam uma barreira extra contra a vibração. É um investimento barato que muda completamente a sensação de conforto e previne a sobrecarga mecânica nos tendões.

Vibração e o trajeto da força

Toda vez que a bola toca a raquete, ondas de choque são geradas. A física nos diz que a energia não desaparece, ela se transforma. Se a raquete for muito rígida, essas ondas viajam pelo frame, passam pelo cabo e entram no seu corpo através da mão. A primeira parada é o punho, depois o cotovelo e, finalmente, o ombro e a cervical.

Na fase intermediária, você começa a enfrentar sacadores mais potentes. Receber um saque de 100km/h com uma raquete inadequada é traumático para as microestruturas musculares. É fundamental escolher raquetes que tenham sistemas antivibração integrados no coração (a ponte entre o cabo e a cabeça).

Algumas marcas utilizam inserções de borracha, silicone ou estruturas em treliça nessa região para “quebrar” a onda de vibração antes que ela chegue à sua mão. Como fisioterapeuta, considero essas tecnologias indispensáveis para qualquer jogador amador que jogue mais de duas vezes na semana. Não é marketing; é proteção articular pura.

A alavanca e o momento de inércia

O comprimento da raquete de beach tennis é padronizado em 50cm, mas a sensação de tamanho muda conforme o balanço. Uma raquete com peso na cabeça cria uma alavanca longa. Biomecanicamente, isso aumenta o torque no seu punho. Para realizar um movimento de “tchauzinho” (desvio ulnar e radial) com uma raquete pesada na ponta, seu antebraço precisa fazer uma força desproporcional.

Jogadores intermediários muitas vezes atrasam o golpe porque não conseguem lidar com essa inércia. O resultado é bater na bola quando ela já passou da linha do corpo, o que coloca o ombro em uma posição de extrema vulnerabilidade (rotação externa forçada e abdução horizontal).

Mantenha o balanço da sua raquete próximo de 25-26cm (medido a partir do cabo). Isso garante que a raquete funcione como uma extensão fluida, e não como um martelo que você precisa arrastar. A agilidade na preparação do golpe é o segredo para evitar compensações corporais que levam à dor nas costas e no ombro.

Prevenção de Lesões na Fase Intermediária[5][6]

Epicondilite Lateral: O pesadelo do tenista

A famosa “cotovelo de tenista” é a queixa número um. Ela ocorre pela inflamação dos tendões que estendem o punho e os dedos. No beach tennis, isso acontece muito no backhand atrasado ou quando você tenta dar muita potência apenas com o “chicote” do punho, sem usar o corpo.

Na fase intermediária, a vontade de bater forte muitas vezes supera a técnica. Se você usa uma raquete muito rígida (Carbono 12K/18K com EVA Hard), cada impacto vibra exatamento na inserção desses tendões. A prevenção começa escolhendo o material certo (EVA Soft, Carbono 3K) e ajustando a grossura do grip.

Além do equipamento, é vital entender que a força vem da rotação do tronco e das pernas. O braço apenas guia a raquete. Se você sentir fisgadas na parte externa do cotovelo, é um sinal vermelho. Pare, avalie seu equipamento e sua técnica. Insistir com a raquete errada transformará uma inflamação aguda em uma tendinose crônica de difícil tratamento.

Sobrecarga no Ombro e Manguito Rotador

O saque e o smash são movimentos que exigem que o braço fique acima da cabeça (overhead). Nessa posição, os tendões do manguito rotador podem ser pinçados contra os ossos do ombro. Raquetes pesadas ou com balanço muito alto na cabeça puxam o braço para baixo e para trás durante a fase de armação, estirando excessivamente esses tendões.

Jogadores intermediários costumam sacar usando apenas a força do ombro, esquecendo de flexionar os joelhos e usar a cadeia cinética. Somando isso a uma raquete pesada, temos a receita para bursites e tendinites no supraespinhal.

A dica de ouro aqui é o fortalecimento. Sua raquete nova, mais potente, exige um ombro mais estável. Exercícios de rotação externa e estabilização de escápula são “obrigatórios” para quem quer subir de nível sem se machucar. Não adianta ter uma raquete profissional se seu manguito não aguenta desacelerar o movimento após a batida.

Instabilidade do Punho e Lesões na Fibrocartilagem

O beach tennis exige muita movimentação de punho, especialmente para criar o topspin (golpe que faz a bola cair rápido). O jogador intermediário começa a experimentar esses efeitos. Porém, fazer esses movimentos repetitivos com uma raquete instável ou com o cabo da espessura errada pode lesionar a fibrocartilagem triangular (no lado do dedo mindinho).

Uma raquete com “ponto doce” (sweet spot) pequeno agrava isso. Se você bate fora do centro, a raquete tenta girar na sua mão. Quem segura esse giro é o punho. Por isso, insisto em raquetes com uma área de batida generosa e materiais que perdoem erros. A estabilidade da raquete poupa seus ligamentos.

Use munhequeiras. Elas não servem só para secar o suor. Uma munhequeira firme ajuda a manter o calor local e oferece uma leve compressão proprioceptiva, lembrando seu cérebro de manter a articulação estável durante os impactos voláteis da rede.

Terapias Aplicadas e Cuidados Fisioterapêuticos

Liberação Miofascial Preventiva

Você não precisa esperar a dor chegar para se tratar. A musculatura do antebraço de um jogador de beach tennis fica extremamente tensa e encurtada. A fáscia (tecido que envolve o músculo) perde a elasticidade, o que gera tração constante nos tendões.

Recomendo a automassagem ou liberação miofascial antes e depois dos jogos. Use um rolinho de liberação ou até mesmo uma bola de tênis/lacrosse. Passe a bola sobre a musculatura do antebraço, buscando pontos doloridos, e segure a pressão por 30 a 60 segundos. Isso “solta” a musculatura, melhora a irrigação sanguínea e prepara o tecido para absorver o impacto da próxima partida. Faça isso nos flexores (parte interna) e extensores (parte externa) do braço.

Cinesioterapia e Fortalecimento Exêntrico

O tratamento padrão-ouro para tendinopatias e para preveni-las é o exercício excêntrico. Isso significa fortalecer o músculo enquanto ele está se alongando (o movimento de “freio”). Para o beach tennis, exercícios simples com elásticos ou pesinhos leves fazem milagres.

Um exercício essencial: apoie o antebraço em uma mesa, segure um peso leve com a mão para fora da borda. Levante a mão (fase concêntrica) e desça a mão bem devagar (fase excêntrica). É na descida lenta que o tendão ganha resistência e estrutura para suportar a vibração da raquete. Incorporar isso na sua rotina de academia, focado em ombro e antebraço, vai permitir que você use raquetes mais avançadas no futuro sem dor.

Uso Inteligente de Gelo e Calor

Muitos pacientes confundem quando usar cada um. Se você acabou de jogar e sente uma dor aguda, pontada ou o local está quente e vermelho, use gelo. A crioterapia ajuda a controlar a inflamação aguda pós-jogo. Aplique por 15 a 20 minutos no cotovelo ou ombro.

Já se a dor é crônica, aquela rigidez matinal ou um desconforto que aparece antes de começar a jogar, o calor é mais indicado. O calor relaxa a musculatura e aumenta a elasticidade dos tecidos. Uma compressa morna antes de ir para a quadra pode ajudar a soltar a musculatura tensa, diminuindo o risco de estiramentos. Escute seu corpo: a dor é um aviso de que a carga (jogo + equipamento) foi maior do que sua capacidade de regeneração. Ajuste o volume de jogo e verifique se sua nova raquete intermediária não está rígida demais para seu momento atual.

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