Quando você entra no meu consultório reclamando de dor no cotovelo ou no ombro após os jogos, a primeira coisa que pergunto não é sobre o placar da partida. Eu pergunto sobre o que você está segurando na mão. A escolha do material da sua raquete não define apenas a qualidade do seu jogo ou a velocidade da bola. Ela define diretamente a saúde das suas articulações e a longevidade da sua prática esportiva. Vejo muitos pacientes investindo alto em equipamentos que seus corpos simplesmente não estão preparados para manusear.
Vamos conversar francamente sobre a composição dessas raquetes. Você precisa entender que a raquete funciona como uma extensão do seu braço. Se essa extensão for muito rígida, toda a energia do impacto da bola que não for dissipada pelo material viajará diretamente para o seu punho, subirá pelo antebraço e explodirá no seu cotovelo. Por outro lado, se o material for muito mole, você pode acabar forçando demais a musculatura para gerar potência, o que também leva à exaustão. O segredo está em encontrar o equilíbrio biomecânico ideal para o seu momento atual.
Esqueça por um momento o marketing das marcas que prometem golpes nucleares. Como fisioterapeuta, meu objetivo é que você jogue amanhã, semana que vem e daqui a dez anos sem precisar de cirurgia. Para isso, precisamos dissecar o que realmente compõe esse equipamento: a face (que pode ser de vidro ou carbono) e o núcleo (o famoso EVA). Cada um desses elementos interage com seus tendões e ligamentos de uma forma muito específica.
A Alma da Raquete: Entendendo a Fibra de Vidro
A fibra de vidro é frequentemente subestimada por jogadores que buscam status, mas ela é, sem dúvida, o material mais amigo da sua fisiologia se você está começando ou se tem histórico de lesões. Trata-se de um material com um módulo de elasticidade baixo. Isso significa que, ao contato com a bola, as tramas da fibra de vidro se deformam significativamente. Essa deformação é excelente para absorver o impacto mecânico, impedindo que a onda de choque suba agressivamente pelo seu braço.
Outro ponto crucial da fibra de vidro é o que chamamos de efeito trampolim ou saída de bola. Como o material é flexível, ele age como um estilingue. Você não precisa fazer um movimento amplo e perfeito ou ter uma técnica de elite para que a bola ande. A própria raquete ajuda a impulsionar a bola para o outro lado da quadra. Do ponto de vista fisioterapêutico, isso é fantástico porque exige menos recrutamento das fibras musculares do seu ombro e peitoral. Você faz menos força, e a bola sai com velocidade decente, poupando sua energia e suas estruturas articulares.
No entanto, precisamos falar sobre a durabilidade e o comportamento mecânico ao longo do tempo. A fibra de vidro tende a sofrer fadiga mais rápido que o carbono. Com o uso constante, as microfibras vão perdendo essa capacidade elástica de retorno, e a raquete pode ficar “morta” ou apresentar microfissuras. Quando isso acontece, a absorção de impacto diminui drasticamente. Por isso, recomendo sempre aos meus pacientes que usam fibra de vidro que fiquem atentos à integridade da face da raquete. Se ela mudar o som ou a resposta, pode ser hora de trocar para proteger seu braço.
O Mundo do Carbono: Rigidez, Potência e Classificações
O carbono é o material da performance, da precisão e da rigidez. Quando falamos de carbono, entramos em um terreno onde a técnica do jogador precisa estar em dia. A fibra de carbono é extremamente resistente e leve, mas sua principal característica é a baixa flexibilidade comparada ao vidro. Quando a bola bate em uma face de carbono, ela “acha” uma parede dura. A bola não afunda tanto na raquete. Isso proporciona uma reatividade instantânea, ideal para quem busca definir pontos rapidamente e ter controle absoluto da direção.
Você vai ouvir falar muito sobre as siglas 3K, 12K, 18K e até 24K. Isso se refere à quantidade de filamentos de carbono por fio. Embora a lógica pareça confusa, geralmente quanto mais filamentos (como no 18K ou 24K), mais plana e densa é a trama, o que pode gerar uma sensação de toque mais rígido ou compacto, dependendo também da resina usada. Uma raquete 3K tende a ter uma trama mais aberta. Para o seu corpo, a regra geral é simples: quanto mais carbono e mais densa a trama, mais “seca” é a batida. E batida seca significa vibração alta.
Aqui entra o custo fisiológico da rigidez. Se você não acerta o centro da raquete (o ponto doce) consistentemente, o carbono não perdoa. A vibração gerada por um golpe descentralizado em uma raquete de carbono dura é punitiva. Ela viaja pelos ossos do antebraço e estressa os epicôndilos (as laterais do cotovelo). Vejo frequentemente casos de epicondilite lateral em jogadores intermediários que migraram para o carbono 12K ou 18K cedo demais, buscando a potência dos profissionais sem ter a preparação muscular necessária para absorver esse impacto. O carbono exige que seu braço seja o amortecedor.
O Coração da Raquete: A Borracha EVA e suas Densidades
Se a face da raquete é a pele, o EVA (Etileno Vinil Acetato) é o músculo e o coração do equipamento. É essa espuma interna que determina grande parte do “tato” da raquete. Existem basicamente três categorias principais que você precisa conhecer: o EVA Soft, o EVA de densidade média e o EVA Hard ou Black (embora a cor nem sempre dite a dureza, é um padrão comum). O EVA Soft é cheio de ar, é macio e esponjoso. Para quem tem dores articulares, o EVA Soft é quase uma prescrição médica obrigatória, pois ele dissipa a energia do impacto de forma superior.
Já o EVA de alta densidade, muitas vezes encontrado em raquetes de alta performance, funciona de forma oposta. Ele não se deforma facilmente. Isso significa que, em batidas de alta velocidade (como um smash), a borracha não “colapsa”, permitindo que toda a força do seu braço seja transferida para a bola. É ótimo para potência máxima, mas terrível para absorção de vibração em golpes lentos ou defensivos. Se você usa uma borracha dura, seu braço precisa trabalhar dobrado para defender uma bola rápida, pois a raquete não vai ajudar a amortecer a pancada.
Precisamos considerar também a memória elástica da borracha. O EVA tem a capacidade de voltar ao seu formato original após o impacto. Com o tempo e as variações de temperatura, essa borracha resseca e perde a memória. Uma raquete velha com EVA vencido é tão dura quanto uma tábua de madeira. Isso é um perigo silencioso. Às vezes o exterior da raquete está lindo, mas por dentro, o EVA já virou uma pedra. Isso aumenta exponencialmente a carga de choque nos seus ligamentos a cada golpe. A troca periódica do equipamento é uma questão de saúde preventiva.
Biomecânica do Golpe e a Resposta do Material
Quando você golpeia a bola, ocorre um evento físico violento de transferência de energia. A bola vem com uma massa e velocidade, e sua raquete a encontra com outra massa e velocidade. O choque resultante gera ondas vibratórias. A física nos diz que essa energia não desaparece; ela precisa ir para algum lugar. Se o material da raquete (carbono duro e EVA denso) não dissipar essa energia através da deformação, ela será transferida para a sua mão. Da mão, ela passa pelo punho e segue a cadeia cinética até encontrar o ponto mais fraco, que geralmente é a inserção dos tendões no cotovelo.
Além da vibração, temos a questão do peso e do balanço, que são intrínsecos aos materiais usados. Raquetes com muito reforço de carbono na cabeça tendem a ter o balanço alto. Biomecanicamente, isso aumenta o “braço de alavanca”. Para o seu ombro, levantar e acelerar uma raquete com peso na ponta exige um esforço rotacional muito maior do manguito rotador. Jogadores que insistem em raquetes pesadas e de cabeça dura sem ter um manguito fortalecido são candidatos fortes a tendinites no supraespinhal ou bursites.
Outro aspecto que muitas vezes ignoramos é a relação entre a espessura do cabo (grip) e a rigidez do material. Se a raquete é muito rígida e vibra muito, sua reação instintiva e inconsciente é apertar o cabo com mais força para manter a estabilidade. Esse “apertar excessivo” mantém os músculos do antebraço em contração isométrica constante. Isso fadiga a musculatura extensor muito antes do fim do jogo. Materiais mais amigáveis permitem que você segure a raquete com mais leveza, facilitando a fluidez do movimento e reduzindo a tensão basal no antebraço.
Adaptação do Material ao Seu Perfil Fisiológico
Se você é um iniciante no esporte, seu corpo ainda não possui as adaptações neurais e musculares específicas para os movimentos de raquete. Seus tendões ainda não estão “calejados” para a tração repetitiva. Por isso, a escolha lógica é a fibra de vidro com um núcleo de EVA Soft. Você precisa de tolerância ao erro. Quando você atrasa o golpe e pega a bola fora do centro, a fibra de vidro perdoa e não transmite um choque doloroso para o seu braço. É a fase de aprender o gesto motor sem punir o corpo.
Para o jogador agressivo, que busca a definição e tem uma boa técnica, a transição para o carbono é natural, mas deve ser gradual. O erro comum é pular de uma raquete de fibra de vidro direto para uma Carbono 18K com EVA Hard. É um choque térmico para a musculatura. O ideal é transitar para um Carbono 3K ou misto, mantendo um EVA de densidade média. Você ganha a explosão muscular que deseja no ataque, mas mantém um mínimo de proteção articular. A rigidez deve aumentar conforme sua capacidade física de gerar e absorver força aumenta.
Já para o jogador de controle, aquele que joga na defesa e gosta de trabalhar o ponto, a resistência muscular é a chave. Materiais muito duros vão cansar seu braço antes do terceiro set. Raquetes híbridas ou de carbono com núcleo soft são ideais aqui. Elas oferecem a precisão do carbono para colocar a bola onde você quer, mas o núcleo macio garante que, após devolver 50 smashes do adversário, seu ombro não esteja pegando fogo. A escolha do material deve sempre respeitar a sua realidade física, não a do jogador profissional que você assiste no YouTube.
Terapias Aplicadas e Cuidados
Quando a escolha do material é feita de forma errada, ou quando o volume de jogo excede a capacidade do corpo, as lesões aparecem. No consultório, a queixa mais comum relacionada a materiais muito rígidos é a epicondilite lateral (cotovelo de tenista) e medial. O tratamento inicial que aplico foca em reduzir a inflamação e a tensão. Utilizamos a liberação miofascial manual ou instrumental para soltar a musculatura do antebraço que ficou contraída excessivamente para estabilizar a raquete dura. Essa “soltura” é fundamental para restaurar o fluxo sanguíneo e a mobilidade do tecido.
Outra ferramenta poderosa que utilizamos é o Dry Needling (agulhamento a seco). Ao inserir agulhas finas diretamente nos pontos-gatilho (nódulos de tensão) formados pelo esforço repetitivo e pela absorção de vibração, conseguimos um “reset” muscular rápido. Isso alivia a dor referida e melhora a função mecânica. Associamos isso à fotobiomodulação (laser terapêutico) para acelerar a regeneração celular nos tendões que sofreram com os microtraumas dos impactos constantes da raquete de carbono.
Mas o tratamento não termina na maca. A reabilitação ativa é mandatória. Prescrevo exercícios excêntricos para os extensores e flexores do punho. O exercício excêntrico fortalece o tendão e o prepara para suportar cargas de tração, simulando o estresse que ele sofre no jogo. Também trabalhamos o fortalecimento da cadeia posterior do ombro e a estabilização da escápula. Se o seu ombro for forte e estável, ele consegue absorver melhor a energia que a raquete transfere, poupando o cotovelo. A terapia final, muitas vezes, é a prescrição da troca de equipamento: voltar para uma raquete mais macia até que a lesão esteja 100% curada.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”