Diferença entre raquete de tênis cara e barata

Diferença entre raquete de tênis cara e barata


O que separa uma raquete de R$ 300 de uma de  2.000? Essa é a pergunta de um milhão de dólares — ou pelo menos, a pergunta que vai definir se você vai gastar seu dinheiro em fisioterapia ou em aulas para melhorar seu jogo. Como fisioterapeuta, vejo essa dúvida estampado no rosto de muitos pacientes que chegam aqui com dores no cotovelo ou no ombro. Eles me perguntam se o equipamento realmente faz diferença ou se é tudo marketing. A resposta curta é: sim, faz diferença, mas talvez não pelos motivos que você imagina. Não é apenas sobre bater mais forte na bola; é sobre como essa energia viaja através do equipamento e termina nas suas articulações.

Quando você segura uma raquete barata, geralmente está segurando uma estrutura feita com materiais de entrada, projetados para custar pouco, e não para proteger seu corpo. Já a raquete cara, a tal “top de linha”, carrega anos de engenharia focada em performance e, crucialmente, em absorção de impacto. Para o seu bolso, a diferença é numérica. Para o seu tendão, a diferença é entre jogar feliz no domingo ou acordar com o braço travado na segunda-feira. Vamos mergulhar fundo nisso, porque entender a anatomia da sua raquete é o primeiro passo para preservar a anatomia do seu corpo.

Neste artigo, vamos dissecar o que realmente muda lá dentro, na estrutura molecular do equipamento. Quero que você entenda a física por trás do preço e a fisiologia por trás do golpe. Esqueça as cores bonitas e o marketing agressivo dos jogadores profissionais por um momento. Vamos olhar para isso com olhos clínicos, focados em durabilidade, jogabilidade e, acima de tudo, na saúde do seu movimento. Prepare-se, porque vamos analisar cada detalhe técnico como se estivéssemos avaliando uma ressonância magnética.

Materiais: A Alma da Raquete

Fibra de Vidro vs. Fibra de Carbono

A maior diferença visível e tátil entre os modelos de entrada e os profissionais está na “pele” da raquete. As raquetes mais baratas geralmente são construídas com fibra de vidro. Esse material é flexível, elástico e barato de produzir. Para quem está começando, a fibra de vidro até ajuda a “catapultar” a bola com pouco esforço, pois ela age como um trampolim macio. No entanto, essa maciez tem um preço biomecânico: a falta de estabilidade. Quando você rebate uma bola forte vinda do adversário, a fibra de vidro tende a deformar mais, o que exige que sua musculatura trabalhe o dobro para estabilizar o movimento.

Do outro lado do espectro, temos o carbono, a estrela das raquetes caras (seja no Padel, Beach Tennis ou Tênis de alto nível). O carbono é rígido, leve e extremamente resistente.[1] Você vai ouvir termos como 3K, 12K ou 24K, que indicam a quantidade de filamentos de carbono por fio. Quanto mais carbono, maior a rigidez estrutural. Para o seu jogo, isso significa precisão cirúrgica. A raquete não “samba” na sua mão quando a bola bate. Ela transfere a energia de forma limpa. Para o seu corpo, isso é ótimo se você tiver técnica, pois a raquete faz o trabalho duro de manter a estrutura, poupando seus ligamentos de microtraumas por instabilidade.

Contudo, existe um mito de que “mais caro é sempre melhor”. O carbono, por ser mais rígido, transmite a vibração de forma mais “seca”. Se a raquete for puramente de carbono duro sem um sistema de amortecimento interno competente, você vai sentir a batida diretamente no seu esqueleto. É aqui que o preço se justifica: raquetes caras de verdade combinam o carbono de alta qualidade com resinas e tramas que filtram essa “dureza”, oferecendo o melhor dos dois mundos: a estabilidade do aço com o toque de veludo. Raquetes baratas raramente conseguem esse equilíbrio fino.

A Espuma (EVA) e o Núcleo

Se a fibra é a pele, a espuma interna (no caso de raquetes sólidas como Padel e Beach) é o músculo. Em raquetes de baixo custo, o núcleo geralmente é feito de um polietileno ou um EVA (Etileno Acetato de Vinila) de baixa densidade e recuperação lenta. Imagine um travesseiro velho: você aperta e ele demora a voltar. Isso significa que, após bater na bola, a raquete demora uma fração de segundo a mais para recuperar sua forma original. Durante um jogo rápido, essa “preguiça” do material faz com que você perca potência e tenha que forçar mais o braço para fazer a bola andar.

Nas raquetes premium, encontramos EVAs de alta memória, como o Black EVA ou borrachas de densidade progressiva. Esses materiais são fascinantes do ponto de vista físico. Eles têm uma capacidade elástica imediata; assim que a bola toca a face, o núcleo comprime e explode de volta quase instantaneamente. Isso gera o que chamamos de “saída de bola”. Você não precisa fazer um swing enorme para a bola andar, porque o material interno trabalha por você. Menos esforço muscular para o mesmo resultado de potência é uma equação que nós, fisioterapeutas, amamos.

Além disso, a consistência da espuma em raquetes caras é homogênea. Em modelos muito baratos, é comum encontrar bolhas de ar ou densidades desiguais dentro da mesma raquete devido ao processo de fabricação em massa com controle de qualidade inferior. Isso cria “pontos mortos” na face da raquete. Você bate na bola achando que ela vai para o fundo da quadra, mas ela morre na rede porque acertou uma área da espuma que não respondeu. Isso gera frustração mental e, pior, uma compensação física no próximo golpe, onde você tensiona o ombro desnecessariamente prevendo uma falha do equipamento.

Tecnologias de Absorção de Vibração

Aqui entramos no território onde o seu dinheiro realmente protege sua saúde. A vibração é o inimigo número um do tenista e do jogador de raquete. Quando a bola impacta a raquete, ondas de choque viajam pelo aro, descem pelo cabo e entram na sua mão, subindo até o cotovelo. Raquetes baratas costumam ser um bloco sólido sem interrupções para essas ondas. A estrutura tubular simples de uma raquete de entrada age como um condutor perfeito para essa energia nociva, entregando tudo diretamente para os seus extensores de punho.

As marcas de topo investem pesado em sistemas de “damper” ou amortecimento. Se você olhar o coração de uma raquete cara (a região logo acima do cabo), verá desenhos geométricos complexos, inserções de borracha ou até câmaras de ar. Isso não é estética; é engenharia de dissipação. Essas estruturas servem para “quebrar” a onda de vibração antes que ela chegue à sua mão. É como a suspensão de um carro de luxo passando por um buraco: você sabe que o buraco estava lá, mas não sentiu o tranco na coluna.

Além do coração da raquete, a própria construção do cabo em modelos superiores muitas vezes inclui tecnologias de silicone ou cortiça injetada sob o grip. Isso cria uma barreira física final entre o material rígido da raquete e a palma da sua mão. Em modelos baratos, o cabo é muitas vezes oco ou preenchido com o mesmo material rígido do resto da estrutura, reverberando cada impacto. Para um jogador ocasional, isso passa despercebido no início, mas o acúmulo dessas microvibrações, jogo após jogo, é o que leva à inflamação crônica dos tendões.

Performance e Sensação de Jogo[1]

O “Ponto Doce” e a Tolerância

Você já ouviu falar em “Sweet Spot” ou Ponto Doce? É aquela área na face da raquete onde, se você acertar a bola, o tiro sai perfeito, limpo e sem vibração. Em raquetes de entrada, os fabricantes tentam ampliar esse ponto doce ao máximo. Eles sabem que o iniciante vai errar o centro muitas vezes, então constroem a raquete para ser “permissiva”. O problema é que, para fazer isso em uma raquete barata, eles sacrificam o controle. A face inteira parece mole, e você perde a noção exata de onde a bola bateu.

Raquetes mais caras e técnicas costumam ter um ponto doce mais definido e, às vezes, menor (especialmente as de ataque). No entanto, a qualidade desse ponto doce é superior. Quando você acerta o centro de uma raquete premium, a sensação é única — o que chamamos de “feedback”. Você sente a bola. Mas e quando você erra? As raquetes caras modernas possuem tecnologias de furação e distribuição de peso que estabilizam a raquete mesmo em batidas descentralizadas. Ela não “gira” na sua mão tão facilmente quanto uma raquete barata faria.

Essa tolerância ao erro em raquetes caras é conseguida através de engenharia complexa de distribuição de massa, não apenas deixando a borracha mole. Isso permite que você continue evoluindo seu jogo.[2] Com uma raquete barata demais, você chega num teto de performance rápido: você bate forte, mas a bola flutua sem direção. Com o equipamento certo, você começa a perceber que seus erros diminuem não porque você virou o Nadal da noite para o dia, mas porque o equipamento corrigiu aquela pequena torção no momento do impacto.

Potência e Saída de Bola[3]

Existe uma confusão comum entre “potência” e “saída de bola”. Raquetes baratas (geralmente de fibra de vidro e espuma mole) têm muita saída de bola. Você encosta na bola e ela pula longe. Parece ótimo, certo? O problema é que, quando você quer acelerar o jogo de verdade, dando um smash ou um golpe de definição, a raquete “absorve” sua força. Ela é tão mole que, em vez de transferir sua energia para a bola, ela se deforma. É como tentar correr na areia fofa: você faz muita força, mas não sai do lugar com velocidade.

As raquetes mais caras, especialmente as de carbono com densidade média ou dura, oferecem potência real. Quando você aplica força, a raquete responde proporcionalmente. Ela não “mata” a sua energia. Isso é crucial para a saúde do seu ombro. Vejo muitos pacientes com lesões no manguito rotador porque tentam “esmagar” a bola com uma raquete mole que não responde. Eles aumentam a força biomecânica para compensar a ineficiência do material. Com uma raquete de alta performance, você aprende a confiar no equipamento: um movimento fluido e técnico gera uma bola explosiva.

O controle dessa potência também é refinado no equipamento superior. Imagine dirigir um carro esportivo versus um carro popular antigo a 100km/h. Ambos chegam a essa velocidade, mas a sensação de segurança e a capacidade de fazer uma curva (colocar efeito na bola, no nosso caso) são incomparáveis. As faces texturizadas das raquetes caras (com relevo 3D ou areia de sílica impregnada no carbono) agarram a bola por milissegundos a mais, permitindo que você aplique spin (efeito) que faz a bola cair dentro da quadra adversária, enquanto na raquete lisa e barata, ela deslizaria direto para o vidro ou alambrado.

Controle e Manuseio[1][4][5][6]

O manuseio, ou a “manobrabilidade”, é ditado pelo balanço da raquete. Raquetes baratas muitas vezes têm um balanço despadronizado. Você pega duas raquetes “iguais” na prateleira do supermercado e uma parece pesar uma tonelada na ponta (cabeça), enquanto a outra parece leve. Esse peso na cabeça sem o devido contrapeso estrutural sobrecarrega o punho, exigindo uma força constante dos flexores e extensores do antebraço apenas para manter a raquete em posição de espera. É uma fábrica de tendinites.

Raquetes de maior valor agregado têm um estudo de aerodinâmica e distribuição de peso muito sério. Mesmo uma raquete considerada “pesada” ou de ataque no mundo profissional pode parecer mais leve na mão do que uma raquete barata, simplesmente porque é bem equilibrada. O design do coração da raquete (a ponte aberta ou fechada) é desenhado para cortar o ar. Isso reduz a resistência do ar durante o swing, permitindo que você mova a raquete mais rápido para voleios e defesas de reação sem sentir que está arrastando uma pá de pedreiro.

Ter controle sobre o equipamento significa que, quando você pensa em colocar a bola na paralela, a raquete obedece. Em raquetes de baixa qualidade, existe uma desconexão. A falta de rigidez torsional faz com que a raquete torça levemente se a bola pegar um centímetro fora do centro, mudando a trajetória do tiro. Você acaba achando que não sabe mirar, quando na verdade, seu equipamento está sabotando sua precisão. Investir em controle é investir em confiança cognitiva e motora.

Durabilidade e Consistência de Fabricação

Resistência a Impactos e Fissuras

Vamos ser realistas: o nosso esporte envolve bater o equipamento. Seja batendo na bola, raspando no chão (comuns no Padel e Beach Tennis) ou até aquele choque acidental com a raquete do parceiro. A durabilidade é um fator chave no custo. A fibra de vidro das raquetes baratas, embora flexível, tende a delaminar ou rachar com mais facilidade em impactos secos nas bordas. O acabamento superficial geralmente é uma tinta simples que descasca no primeiro jogo, expondo o material interno à umidade e areia.

As raquetes caras utilizam carbono e resinas epóxi de alta resistência que suportam melhor o estresse mecânico repetitivo. Muitas vêm com protetores de borda integrados ou reforços estruturais nas áreas de maior tensão. Claro, carbono também quebra se você bater com toda força no poste da rede, mas a resistência à fadiga normal do jogo é superior. Uma raquete premium aguenta milhares de impactos de bola em alta velocidade sem perder suas propriedades estruturais, enquanto uma barata começa a ficar “frouxa” estruturalmente muito mais cedo.

Outro ponto é a “memória” do material.[3] Com o tempo e o calor (especialmente jogando no verão brasileiro), os materiais tendem a amolecer. Raquetes baratas sofrem muito com isso. Após alguns meses de uso intenso, elas viram “chicletes”, perdendo toda a potência. Raquetes de alta gama mantêm suas características de rigidez e resposta por muito mais tempo, garantindo que a raquete que você usa no campeonato daqui a seis meses seja a mesma que você treinou hoje.

Vida Útil dos Materiais Internos

O que acontece dentro da raquete é invisível, mas perceptível. A espuma interna sofre micro-colapsos cada vez que você bate na bola. Em raquetes econômicas, o EVA ou espuma de polietileno perde a capacidade de retornar ao tamanho original rapidamente. Isso é o que chamamos de raquete “morta”. Ela não tem mais vida, não despacha a bola. Você começa a forçar mais o braço para compensar essa morte do material, e é aí que a lesão aparece sorrateira.

Em equipamentos de ponta, a qualidade química da borracha é superior. Ela é vulcanizada e tratada para resistir a ciclos de compressão infinitamente maiores. Mesmo que a raquete tenha um ano de uso, o núcleo ainda preserva boa parte da sua elasticidade original. Isso significa que o investimento inicial mais alto se dilui no tempo. Você pode trocar uma raquete de R

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 1.500 por um ano e meio com performance constante. A matemática muitas vezes favorece a qualidade.

Ainda sobre a vida útil, a colagem entre as faces e o núcleo é crítica. Raquetes baratas podem apresentar descolamento interno, criando aquele som de “oco” ou vibração estranha (como um chocalho) depois de pouco tempo. Isso acontece porque a cola ou o processo de termo-moldagem foi feito às pressas. Nas linhas premium, o processo de “cura” dos materiais é lento e controlado, garantindo que a raquete seja um bloco monolítico indestrutível (dentro do uso normal) por muito mais tempo.

Variação de Peso entre Unidades Iguais

Isso é algo que enlouquece qualquer jogador que começa a levar o esporte a sério. Você compra uma raquete barata modelo “X” e adora. Ela quebra ou fica velha, e você compra exatamente o mesmo modelo “X”. Mas, ao jogar, parece outra raquete completamente diferente. Isso acontece devido ao controle de qualidade frouxo na produção em massa. A variação de peso pode chegar a 15 ou 20 gramas entre duas raquetes supostamente idênticas de baixo custo. Na biomecânica do ombro, 20 gramas na ponta de uma alavanca é uma diferença brutal.

Nas marcas premium e modelos “Pro”, a tolerância é mínima. Se a raquete diz pesar 365g, ela vai pesar algo muito próximo disso, com variação de gramas irrelevantes. Mais importante ainda é que o balanço é consistente. O fabricante garante que o ponto de equilíbrio esteja no mesmo milímetro em todo o lote. Isso é vital para a sua memória muscular. Seu cérebro calibra a força baseado no peso que ele espera; se a raquete nova é diferente, seu cérebro erra o cálculo e seu músculo sofre o tranco.

Essa consistência permite que você tenha tranquilidade mental. Você sabe que o equipamento não vai ser uma surpresa desagradável. Para nós da fisioterapia, consistência é sinônimo de prevenção. Mudar constantemente a especificação do peso que seu braço levanta, sem preparo prévio, é pedir para desenvolver uma tendinopatia. Pagar mais caro, muitas vezes, é pagar pela certeza de que você está levando exatamente o que está escrito na etiqueta.

A Biomecânica do Movimento e o Equipamento

Distribuição de Peso e Balanço

Vamos falar de física aplicada ao corpo humano. O conceito de “momento de inércia” é crucial aqui. Uma raquete pode ser leve na balança (peso estático), mas parecer pesada no swing (peso dinâmico) se todo o peso estiver concentrado na cabeça. Raquetes baratas muitas vezes têm uma distribuição de peso acidental. O fabricante não projetou aquilo ergonomicamente; simplesmente é como o material se acomodou. Se a raquete pende muito para a cabeça, o torque no seu punho aumenta exponencialmente.

Raquetes caras são projetadas com o centro de gravidade estudado. Existem raquetes de potência (peso na cabeça) caras, sim, mas elas possuem sistemas de contrapeso no cabo para não deixar a raquete “cair” da sua mão. Isso facilita a alavanca. Quando você faz o movimento de saque ou smash, a raquete ajuda a acelerar o movimento sem que você precise “segurar” o peso dela com os pequenos músculos do antebraço.

Essa engenharia protege o que chamamos de cadeia cinética. O movimento deve começar nas pernas, passar pelo tronco e chegar ao braço. Se a raquete é desbalanceada (comum nas baratas), você tende a “quebrar” essa cadeia, usando apenas o ombro ou o punho para manobrar o equipamento. Resultado? Sobrecarga localizada. Uma raquete bem balanceada flui com o seu corpo, funcionando como uma extensão natural do seu braço, e não como um peso morto que você precisa arrastar.

Vibração e Transferência de Energia para o Braço

Eu sempre digo aos meus pacientes: a energia não desaparece, ela se transforma. Quando a bola bate na raquete, gera-se uma energia de choque. Se a raquete não dissipar isso (através de materiais nobres e tecnologias de damper), adivinhe para onde vai essa energia? Para os seus tecidos moles. A vibração de alta frequência é terrível para os tendões. Ela causa micro-oscilações nas fibras de colágeno que, com o tempo, geram inflamação e dor.

Raquetes de alta tecnologia funcionam como um filtro. O carbono de alta qualidade, combinado com borrachas específicas, consegue separar a “vibração boa” (aquela que te dá sensibilidade da batida) da “vibração ruim” (aquela que machuca). Raquetes baratas de metal ou fibra de vidro simples vibram como um sino. Após um jogo de duas horas, seu braço continua “zumbindo” por dentro, num estado de excitação neural e muscular que impede a recuperação adequada.

Essa transferência de energia limpa das raquetes caras também significa eficiência. Você gasta menos calorias e menos ATP (energia celular) para gerar a mesma velocidade de bola. No final de um terceiro set, isso é a diferença entre chegar inteiro na bola ou chegar atrasado e se lesionar por fadiga. O equipamento caro poupa sua “gasolina” fisiológica ao absorver o impacto nocivo e devolver a energia cinética para a bola, não para o seu cotovelo.

Esforço Muscular e Fadiga

A fadiga é a precursora da lesão. Quando o músculo cansa, ele para de absorver impacto e transfere a responsabilidade para os tendões e ligamentos. Raquetes baratas e ineficientes aceleram esse processo de fadiga. Como a “saída de bola” é descontrolada ou a raquete vibra muito, você passa o jogo todo tensionando a musculatura do antebraço mais do que o necessário para “segurar” a raquete firme. É uma contração isométrica constante e exaustiva.

Com um equipamento superior, você consegue jogar com a empunhadura mais relaxada. A estabilidade da raquete permite que você aperte o cabo apenas no momento do impacto. Esse ciclo de “contração-relaxamento” é vital para bombear sangue e oxigênio para os músculos. Se você joga tenso o tempo todo por insegurança com o material, o fluxo sanguíneo diminui, o ácido lático acumula e a dor aparece.

Além disso, a compensação muscular é comum. Se a raquete não gera potência (comum em raquetes baratas com espuma morta), você começa a usar o ombro em rotação excessiva para compensar. Isso pode levar a bursites e tendinites no supraespinhal. O equipamento adequado permite que você mantenha a técnica correta por mais tempo, garantindo que o esforço muscular seja distribuído pelas grandes cadeias musculares (costas e pernas), e não focado em pequenas estruturas frágeis.

Prevenção de Lesões e Saúde Articular

Epicondilite Lateral e o Cotovelo de Tenista

A famosa “Tennis Elbow” não é exclusividade dos tenistas; jogadores de Beach Tennis e Padel são vítimas frequentes. Ela é uma inflamação nos tendões que se prendem na parte externa do cotovelo. A principal causa biomecânica é a vibração excessiva e a extensão repetitiva do punho sob carga. Raquetes baratas são notórias causadoras disso.[4] A falta de absorção de impacto faz com que o choque da bola chicoteie esses tendões milhares de vezes por partida.

Investir em uma raquete com sistema antivibração real não é luxo, é tratamento preventivo. Modelos mais caros possuem corações desenhados para interromper essa onda de choque antes que ela suba pelo braço. Além disso, materiais como o carbono 12K ou 18K, quando combinados com o núcleo certo, oferecem uma rigidez que evita que a raquete torça na mão em batidas descentralizadas, o que poupa os extensores do punho de um esforço violento de estabilização.

Se você já sente pontadas no cotovelo, trocar sua raquete de entrada por uma profissional focada em conforto (geralmente com núcleo mais macio e estrutura firme) pode ser mais eficaz do que tomar anti-inflamatórios. O remédio trata o sintoma; o equipamento correto remove a causa mecânica da irritação diária.

Sobrecarga no Ombro e Punho

O ombro é uma articulação complexa e instável por natureza. No saque ou no smash, ele sofre uma carga imensa.[3] Raquetes baratas com peso mal distribuído (muito peso na ponta sem tecnologia aerodinâmica) aumentam o braço de alavanca, multiplicando o peso que o ombro precisa desacelerar após o golpe. Isso agride o manguito rotador, o grupo de músculos que segura o braço no lugar.

Já o punho sofre com a instabilidade. Raquetes com face muito mole (comuns nas baratas de fibra de vidro simples) exigem que o punho faça microajustes constantes para controlar a direção da bola. Esses ajustes repetitivos levam a tenossinovites (inflamação da bainha do tendão) e dores no túnel do carpo. Uma raquete de qualidade, mais estável e previsível, permite que o punho trabalhe em sua amplitude neutra e segura, sem “dançar” para corrigir a trajetória da bola a todo instante.

Equipamentos superiores costumam ter empunhaduras (grips) mais anatômicas e longas, permitindo melhor acomodação das duas mãos (no backhand) e reduzindo a necessidade de apertar demais o cabo. Menos força de preensão significa punhos e ombros mais soltos e saudáveis.

A Importância do Grip Correto

Um detalhe que muitas vezes separa a raquete cara da barata é o grip original que vem nela. Em modelos de entrada, o grip é fino, sintético e de baixa aderência. Isso obriga você a apertar a raquete com força excessiva para ela não voar da mão, gerando tensão crônica no antebraço. Em raquetes premium, o grip base (cushion grip) já vem com tecnologia de absorção de suor e relevo para encaixe dos dedos.

Além disso, a personalização é mais fácil em raquetes boas. Elas são projetadas aceitando que você vai colocar um ou dois “overgrips” (aquelas fitas que enrolamos por cima) sem perder o balanceamento da raquete. Em raquetes baratas, adicionar peso no cabo pode desbalancear completamente a estrutura que já era precária. O tamanho correto do cabo é vital: se for muito fino ou muito grosso para sua mão, você muda a biomecânica da pegada e convida a lesão a entrar.

Você deve ajustar a espessura do grip para que, ao segurar a raquete, sobre um espaço de um dedo entre a ponta dos seus dedos e a palma da mão. Essa pequena ergonomia, facilitada por raquetes de melhor construção, é fundamental para relaxar a musculatura flexora e evitar a temida epicondilite medial (cotovelo de golfista), que é a dor na parte interna do cotovelo.

Terapias e Cuidados para Atletas de Raquete[1][3]

Como fisioterapeuta, meu objetivo não é só te ajudar a escolher a raquete, mas manter você em quadra. Mesmo com a melhor raquete do mundo (a tal “raquete cara”), o volume de jogo e a técnica incorreta podem gerar dores. Se você sente desconforto após os jogos, algumas abordagens terapêuticas são essenciais para recuperar seu corpo e prevenir que o incômodo vire patologia crônica.

Liberação Miofascial é uma das nossas melhores aliadas. Usamos técnicas manuais ou instrumentais para soltar a fáscia (o tecido que envolve os músculos) do antebraço, bíceps e ombro. Isso melhora a circulação e “destrava” as fibras musculares que ficaram contraídas segurando a raquete. Associado a isso, o Dry Needling (Agulhamento a Seco) é fantástico para desativar pontos-gatilho — aqueles nódulos doloridos no músculo que irradiam dor para o braço todo.

Para a saúde das articulações e tendões, trabalhamos muito com Exercícios de Fortalecimento Excêntrico. Não é apenas “puxar ferro”; é ensinar o tendão a suportar carga enquanto o músculo se alonga, simulando a desaceleração do braço após uma batida forte. Isso blinda o tendão contra a epicondilite. E, claro, em casos de inflamação aguda, recursos como Laserterapia de Baixa Potência ou Terapia de Ondas de Choque podem acelerar drasticamente a regeneração tecidual, estimulando o corpo a curar aquela área que a vibração da raquete (especialmente a barata) machucou. Cuide do seu equipamento, mas cuide ainda mais da sua máquina biológica.

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