Skate e Joelho de Saltador: Tratando a tendinite patelar em quem anda de vertical

Skate e Joelho de Saltador: Tratando a tendinite patelar em quem anda de vertical

Você chega na pista, coloca as joelheiras e sente aquela adrenalina boa antes de dropar no bowl ou no half. A primeira parede é tranquila, mas na terceira ou quarta bombeada, você sente aquela fisgada chata logo abaixo da rótula. Parece uma agulhada quente que avisa que algo não está certo. Eu sei bem como é isso e vejo muitos skatistas de vertical ignorarem esse sinal até não conseguirem mais subir escadas no dia seguinte. O nome técnico disso é tendinopatia patelar, mas no nosso mundo, chamamos de “Joelho de Saltador”. E não, não é só porque você dá aéreos, é porque você exige que seu joelho funcione como um amortecedor hidráulico de alta pressão.

O grande erro da maioria dos skatistas é achar que essa dor é apenas “parte do jogo” ou sinal de velhice. Na verdade, é um erro de cálculo do seu corpo entre a carga que você impõe e a capacidade do seu tendão de suportar essa carga. O tendão patelar é a corda grossa que conecta a força do seu quadríceps à sua canela. No vertical, ele não sofre apenas com o impacto da volta das manobras. Ele sofre com a compressão constante da força G nas transições. Se você não tratar isso com estratégia, o tendão deixa de ser uma corda elástica e vira uma corda desfiada e rígida.

Vamos conversar sério sobre como consertar essa máquina para você continuar andando. Esqueça a ideia de ficar três meses parado no sofá com gelo no joelho, porque isso raramente resolve o problema crônico do tendão. A reabilitação moderna é ativa, inteligente e envolve entender a biomecânica do seu rolê. Vou te explicar exatamente o que está acontecendo dentro do seu joelho e como vamos blindar essa estrutura para aguentar as sessões mais pesadas sem pedir arrego no dia seguinte.

Entendendo o “Joelho de Saltador” no Mundo do Skate

O tendão patelar funciona como uma mola biológica extremamente potente. Toda vez que você flexiona o joelho para absorver um impacto ou para bombear na transição, esse tendão armazena energia elástica. Quando você estica a perna para sair da borda ou ganhar velocidade, ele libera essa energia. É um sistema perfeito, até que a demanda supera a recuperação. No skate vertical, a repetição é insana. Você não dá um salto e descansa três minutos como no levantamento de peso olímpico. Você faz dezenas de contrações explosivas em uma única linha de 45 segundos.

Precisamos diferenciar se você está com uma tendinite ou uma tendinose, pois isso muda tudo. A tendinite é uma inflamação aguda, aquela dor que aparece logo depois de uma pancada ou de uma sessão onde você exagerou muito. É quente, vermelho e lateja. Já a tendinose, que é o caso de 90% dos skatistas que entram no meu consultório, é uma degeneração. Não há mais inflamação ativa, mas sim uma desorganização das fibras de colágeno. O tendão está tentando se curar, mas faz isso de forma bagunçada, criando um tecido mais grosso e menos elástico.

O skate vertical é particularmente cruel com o tendão patelar, mais do que o street em alguns aspectos. No street, o impacto é curto e seco. No vertical, existe uma tensão constante. Mesmo quando você não está voando para fora da rampa, você está lutando contra a gravidade para manter a velocidade nas paredes. O seu tendão nunca relaxa completamente durante a linha. Ele está sempre sob tensão, segurando o peso do seu corpo multiplicado pela aceleração da curva. Isso cria um ciclo de isquemia, onde o sangue não chega direito ao tendão durante o exercício, acelerando o processo degenerativo.

A Biomecânica do “Pump” e a Compressão no Joelho

Você já parou para pensar na física do “pump”? Quando você entra na transição e comprime o corpo para ganhar velocidade, você está gerando uma força G que empurra você contra o skate. Nesse momento, seus joelhos estão flexionados e o quadríceps está fazendo uma força absurda para não deixar você “desmontar” no chão. Essa força é transmitida integralmente pelo tendão patelar. Quanto mais rápida a transição e mais alto você anda, maior é a pressão. É como fazer um agachamento com o dobro do seu peso corporal, várias vezes seguidas, em velocidade rápida.

O ângulo de flexão do joelho é determinante aqui. Quando você está na parte mais curva da transição, seu joelho geralmente passa dos 60 ou 90 graus de flexão. Nessa angulação, a patela é pressionada com força contra o fêmur, e o tendão patelar está esticado ao máximo, sob tensão extrema. Seus músculos precisam estar muito bem condicionados para suportar isso. Se o quadríceps falha ou atrasa a contração por milissegundos, o tendão recebe um “tranco” mecânico. É esse tranco repetitivo que causa as microlesões nas fibras.

A fadiga muscular é o grande vilão silencioso. No começo da sessão, seus músculos estão frescos e absorvem bem a carga. Mas depois de uma hora andando, seu quadríceps começa a cansar. Ele perde a capacidade de absorver a energia cinética. A energia não desaparece; ela precisa ir para algum lugar. Quando o músculo cansa, ele transfere a responsabilidade para a estrutura passiva, ou seja, para o tendão e para a articulação. É geralmente no final da sessão, naquela “saideira” que nunca acaba, que a lesão se agrava de verdade.

A Arte de Cair: Aterrissagem e Dissipação de Energia

Muitos skatistas confiam cegamente nas joelheiras de plástico duro para salvar seus joelhos. Elas são ótimas para evitar o impacto direto e ralar a pele no cimento, permitindo o “knee slide”. Porém, a joelheira não protege seu tendão patelar da força de tração interna. Quando você aterrissa uma manobra no flat (na parte plana do bowl) ou quando erra a entrada na transição e aterrissa “seco”, seu corpo precisa desacelerar de uma velocidade alta para zero em uma fração de segundo. Essa desaceleração brusca é um veneno para um tendão já sensibilizado.

O segredo está no controle excêntrico. Contração excêntrica é quando o músculo faz força enquanto está alongando, agindo como um freio. Quando você aterrissa, seu quadríceps precisa alongar para permitir que o joelho dobre e amorteça a queda. Se esse “freio” muscular estiver fraco ou desregulado, a aterrissagem é dura. O impacto sobe pela tíbia e chicoteia o tendão patelar. Treinar esse controle de frenagem é mais importante do que treinar o salto em si. Você precisa ensinar seu músculo a ser um amortecedor macio, e não um bloco de concreto.

Outro ponto crítico é o alinhamento do joelho na aterrissagem. Observe vídeos seus andando. Quando você aterrissa ou faz força na parede, seus joelhos caem para dentro, encostando um no outro? Chamamos isso de valgo dinâmico. Isso torce o tendão patelar, que foi feito para trabalhar em linha reta. Se o joelho entra, a tração acontece de forma desigual, sobrecarregando as fibras laterais ou mediais do tendão. Corrigir esse alinhamento é vital para tirar a tensão excessiva da base da patela.

O Papel do Quadril e Tornozelo na Absorção de Impacto

Eu sempre digo aos meus pacientes que o joelho é uma vítima, nunca o culpado. Ele está preso entre duas articulações móveis: o tornozelo e o quadril. Se uma dessas duas trava, o joelho paga a conta. No caso dos skatistas, a rigidez de tornozelo é clássica. Tantas torções antigas e o uso de tênis de cano alto muitas vezes limitam a dorsiflexão (o movimento de trazer a ponta do pé para cima). Se seu tornozelo não dobra o suficiente na aterrissagem ou no pump, seu corpo compensa dobrando excessivamente o joelho ou jogando carga extra no tendão patelar.

O quadril é outra peça chave desse quebra-cabeça. O glúteo máximo é o músculo mais forte do corpo e deveria ser o principal motor do skatista. No entanto, muitos desenvolvem o que chamamos de “amnésia glútea”. Eles usam excessivamente a coxa (quadríceps) para tudo e esquecem de usar a bunda. Se o glúteo não ativa para estender o quadril e absorver o impacto, o quadríceps trabalha dobrado. E adivinha quem sofre quando o quadríceps trabalha demais? Exatamente, o tendão patelar.

A cadeia cinética fechada do skate vertical significa que seus pés estão fixos na lixa e o corpo se move sobre eles. Qualquer bloqueio nessa cadeia altera a distribuição de forças. Se você tem o tornozelo travado e o glúteo fraco, seu joelho fica isolado tentando lidar com toda a energia cinética da rampa sozinho. Liberar a mobilidade do tornozelo e acordar os glúteos tira uma carga imensa das costas do seu tendão patelar, permitindo que ele se recupere mesmo enquanto você continua ativo.

Estratégias de Reabilitação Ativa: Saindo da Dor

Se você está com dor agora, a melhor ferramenta imediata não é o gelo, é a isometria. Exercícios isométricos (fazer força sem movimento) têm um efeito analgésico poderoso no tendão. Um exercício clássico é o “Spanish Squat” ou agachamento espanhol. Você prende um elástico forte ou uma fita rígida atrás dos joelhos em um pilar firme e agacha, mantendo a canela vertical. Segure por 45 segundos, descanse e repita 5 vezes. Isso ativa o quadríceps e acalma a dor no tendão quase instantaneamente, sem causar dano mecânico. Faça isso antes de andar de skate como aquecimento.

O tratamento a longo prazo envolve remodelar o tendão. Precisamos dizer para as células do tendão: “ei, organizem essas fibras e fiquem mais fortes”. Fazemos isso com carga progressiva. Começamos com isometria, passamos para movimentos lentos e pesados (como leg press ou agachamento lento) e só depois entramos com exercícios de pliometria (saltos). O erro é pular etapas. Se você só anda de skate e não faz fortalecimento específico, você está apenas gastando o tendão sem dar o estímulo para ele se reconstruir.

Gerenciar o volume é a parte mais difícil para o skatista viciado. Você não precisa parar de andar, mas precisa controlar a dose. Se você anda 2 horas e a dor vem forte no dia seguinte, reduza para 45 minutos. Encontre o ponto onde você consegue andar sem que a dor piore nas 24 horas seguintes. Esse é o seu “teto de tolerância”. Mantenha-se nesse teto e vá aumentando o tempo gradualmente, conforme seu fortalecimento na fisioterapia avança. Respeitar esse limite biológico é o que garante que você não vai precisar de cirurgia no futuro.

Terapias Aplicadas e Indicadas

Além dos exercícios, que são a base da cura, temos recursos terapêuticos que aceleram o processo e controlam a dor. A Terapia por Ondas de Choque é excelente para tendinopatias crônicas (aquelas dores antigas). Ela estimula a circulação sanguínea em uma área que normalmente é pouco vascularizada e força o corpo a reiniciar o processo de cicatrização.

Liberação Miofascial manual ou instrumental (com raspadores) é fundamental para soltar a tensão no quadríceps e na panturrilha. Se o músculo está tenso e encurtado, ele puxa o tendão 24 horas por dia. Soltar essa musculatura alivia a tração mecânica sobre a patela. O Dry Needling (agulhamento a seco) também é muito eficaz para desativar pontos-gatilho no músculo reto femoral que frequentemente referem dor para o joelho.

Por fim, a Fotobiomodulação (Laser de Alta Potência) pode ajudar a controlar a inflamação nas fases mais agudas e melhorar a energia celular para reparo. Mas lembre-se: essas terapias são auxiliares. O que vai curar seu joelho de verdade é corrigir a biomecânica, fortalecer a cadeia posterior e ter paciência para respeitar o tempo de adaptação do seu tecido. Cuide do seu corpo como você cuida do seu setup, e ele vai te levar longe.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *