Skate e Tendinite de Aquiles: Por que o esforço repetitivo no impulso causa dor

Skate e Tendinite de Aquiles: Por que o esforço repetitivo no impulso causa dor

Você conhece a sensação. A sessão estava perfeita e as manobras estavam saindo. Você acorda no dia seguinte e coloca o pé no chão. Uma pontada aguda na parte de trás do calcanhar faz você mancar nos primeiros passos até o banheiro. Depois de andar um pouco a dor “esquenta” e melhora. Você acha que está tudo bem e vai andar de skate de novo. Esse ciclo se repete até que um dia a dor não passa mais nem com aquecimento. Como fisioterapeuta que atende skatistas eu vejo essa história se repetir toda semana.

A tendinite de Aquiles é o pesadelo de quem ama o carrinho. O skate é uma atividade que exige uma mecânica muito específica e agressiva para esse tendão. Diferente de correr onde o passo é ritmado e constante o skate envolve explosão frenagem brusca e impacto desordenado. O seu tendão de Aquiles não é apenas uma corda que segura o músculo no osso. Ele é a mola mais potente do seu corpo e você está exigindo que ela trabalhe no limite elástico a cada remada.

Vamos entender o que está acontecendo lá dentro do seu tornozelo. Não vou usar termos médicos difíceis sem explicar. Quero que você entenda a engenharia do seu próprio corpo para que possa consertá-lo e voltar a andar. Ignorar essa dor é o caminho mais rápido para uma ruptura ou uma cirurgia. Vamos dissecar o problema para que você possa continuar evoluindo no skate sem viver à base de anti-inflamatórios.

A Anatomia do Tendão de Aquiles no Contexto do Skate

O tendão como uma mola de armazenamento de energia

O tendão de Aquiles é a estrutura tendínea mais grossa e forte do corpo humano. Ele conecta os músculos da panturrilha ao osso do calcanhar. Sua função principal não é apenas mover o pé para baixo. Ele age como um elástico grosso que armazena energia cinética quando você pisa e devolve essa energia para te impulsionar. No skate isso acontece toda vez que você bate o pé no chão para ganhar velocidade.

Essa capacidade de mola depende da saúde das fibras de colágeno. Em um tendão saudável as fibras são alinhadas como fios de cabelo penteados. Quando você sobrecarrega o tendão sem descanso essas fibras começam a se desorganizar. Elas ficam embaraçadas e perdem a capacidade elástica. Em vez de alongar e devolver energia elas sofrem micro-rupturas que geram dor.

Você precisa visualizar o tendão como um cabo de aço que está começando a desfiar. Se você continua puxando ele vai inflamar para tentar se proteger. Essa inflamação aumenta a espessura do tendão e cria aquele caroço sensível ao toque que muitos skatistas têm logo acima do calcanhar.

A zona crítica de baixa vascularização

Existe uma área no tendão de Aquiles localizada cerca de dois a seis centímetros acima do osso do calcanhar. Chamamos essa região de “zona avascular” ou zona crítica. É ali que a maioria das tendinites de skatistas acontece. O problema dessa área é que ela recebe muito pouco sangue comparada ao resto do tendão.

Sangue traz oxigênio e nutrientes que são os tijolos para reparar o tecido. Sem um bom suprimento de sangue a reparação é lenta. Quando você anda de skate todos os dias você causa danos nessa área mais rápido do que o corpo consegue consertar. O tecido entra em um déficit de reparo e começa a degenerar.

Isso explica por que a dor demora tanto para passar. Você descansa dois dias e acha que está bom. Mas o tecido lá dentro ainda está “cru” e fraco. Na primeira remada forte você sente a fisgada novamente porque a estrutura ainda não teve tempo biológico para se refazer naquela zona pobre em circulação.

A diferença vital entre inflamação aguda e degeneração crônica

No início chamamos de tendinite que é uma inflamação ativa. Dói, fica vermelho e quente. Se você tratar aqui com gelo e repouso relativo a chance de cura total é rápida. Mas o skatista teimoso continua andando. Com o tempo a inflamação some e o processo vira uma tendinose.

A tendinose não é inflamação é degeneração. O tendão fica grosso, duro e com tecido cicatricial de má qualidade. Anti-inflamatórios não funcionam nessa fase porque não há mais inflamação para combater. O tecido está morfologicamente alterado e mais fraco.

Saber em qual fase você está muda tudo. Na fase aguda protegemos. Na fase crônica precisamos estimular a remodelação do tecido com carga controlada. Tratar uma tendinose crônica com apenas gelo e repouso é perda de tempo. Você precisa de estratégia ativa para reorganizar as fibras.

A Biomecânica da Remada: O Ciclo de Agressão

A flexão plantar explosiva durante o impulso

O ato de remar (pushing) é uma flexão plantar violenta. Você coloca o pé no chão e o complexo da panturrilha contrai com força máxima para empurrar o chão para trás e o corpo para frente. Essa contração explosiva traciona o tendão de Aquiles com uma força que pode chegar a 8 vezes o seu peso corporal.

A repetição é o problema. Em uma sessão de duas horas você pode realizar centenas de remadas. Se você rema sempre com o mesmo pé (o que é normal a menos que você ande muito de switch) você está criando uma assimetria brutal. O tendão da perna de remada sofre uma carga de tração cíclica que fadiga o colágeno.

Quando o músculo cansa ele deixa de absorver o impacto. Quem passa a absorver a carga é o tendão. É geralmente no final da sessão quando você está exausto mas quer tentar “só mais uma vez” que a lesão se instala. O tendão fadigado não aguenta a demanda explosiva da remada para aquele obstáculo alto.

A carga excêntrica na frenagem com o pé

Muitos skatistas freiam arrastando a sola do tênis no chão ou pisando forte para desacelerar. Isso gera uma carga excêntrica. O músculo está tentando contrair enquanto o movimento do skate e o atrito com o chão estão puxando o pé para trás alongando o tendão sob tensão máxima.

A carga excêntrica é a que gera mais microlesões no tecido. Embora seja ótima para fortalecer se feita de forma controlada na fisioterapia, quando feita de forma descontrolada na rua ela rasga as fibras. A frenagem de emergência para não ser atropelado ou para não cair em um buraco é um momento de altíssimo estresse para o Aquiles.

Se você tem o hábito de frear sempre com o pé (“foot braking”) em ladeiras ou alta velocidade saiba que seu tendão está trabalhando no limite. Aprender a frear com powerslides poupa seu tendão de Aquiles, embora gaste suas rodas. É uma troca que vale a pena pela saúde do seu tornozelo.

A assimetria funcional: Perna de base vs. Perna de remada

O skate cria corpos assimétricos. A perna de base trabalha muito em isometria e estabilização segurando o peso do corpo. A perna de remada trabalha em amplitude total de movimento e explosão. O tendão de Aquiles da perna de base raramente inflama por remada, mas pode sofrer por impacto.

Já a perna de remada desenvolve uma panturrilha forte porém encurtada. Esse encurtamento puxa o calcanhar para cima o tempo todo, mesmo quando você está parado. Isso mantém o tendão sob tensão constante 24 horas por dia.

Na avaliação fisioterapêutica é comum ver que o pé de remada tem menos mobilidade de dorsiflexão (capacidade de trazer a ponta do pé para a canela) do que o pé de base. Restaurar essa simetria é fundamental para que o tendão pare de sofrer tração excessiva a cada passo que você dá fora do skate.

O Complexo Muscular da Panturrilha e a Tensão Fascial

O papel negligenciado do músculo Sóleo no joelho flexionado

A panturrilha tem dois músculos principais: o gastrocnêmio (a batata da perna visível) e o sóleo (que fica por baixo). O gastrocnêmio cruza o joelho. O sóleo não. Isso significa que quando você está com o joelho dobrado, como na posição de base do skate, o gastrocnêmio está relaxado e quem segura a onda é o sóleo.

O sóleo é um músculo de resistência muito forte. No skate ele trabalha incessantemente para estabilizar a tíbia sobre o pé. Se o sóleo estiver fraco ou fadigado a tensão é transferida diretamente para o tendão de Aquiles.

Muitos skatistas alongam a panturrilha apenas com o joelho esticado. Isso alonga o gastrocnêmio mas não o sóleo. Você precisa alongar e fortalecer a panturrilha com o joelho dobrado para atingir esse músculo profundo que é vital para a estabilidade no skate.

Gastrocnêmio encurtado e a tração constante no calcâneo

O gastrocnêmio é o músculo da explosão. Na remada ele é o motor principal. Devido ao uso excessivo ele tende a ficar cronicamente encurtado e com “nós” de tensão (trigger points). Esse músculo se funde ao tendão de Aquiles.

Imagine que o músculo é a mão e o tendão é a corda. Se a mão (músculo) está puxando a corda (tendão) sem parar a corda vai arrebentar no ponto de fixação (osso). Soltar o músculo gastrocnêmio é a maneira mais rápida de dar uma folga para o tendão.

Muitas vezes a dor no tendão some apenas liberando os pontos de tensão na parte alta da panturrilha. O problema não é o tendão em si mas a tensão que está chegando nele vinda de cima. Tratar apenas o local da dor é enxugar gelo se o músculo acima continuar puxando.

A conexão direta com a Fáscia Plantar (Mecanismo de Windlass)

O tendão de Aquiles não termina no calcanhar. Suas fibras se contorcem sobre o osso e se conectam anatomicamente com a fáscia plantar na sola do pé. É tudo uma coisa só: uma cadeia posterior contínua. Se você tem a sola do pé tensa isso puxa o Aquiles para baixo.

O mecanismo de Windlass descreve como o dedão do pé tensiona a fáscia plantar para criar um arco rígido para impulsão. No skate você usa isso a cada remada. Se sua fáscia plantar está rígida ela rouba a mobilidade do tornozelo e sobrecarrega o tendão.

Tratar a tendinite de Aquiles exige tratar a sola do pé. Rolar uma bolinha de tênis ou de lacrosse na sola do pé para soltar a fáscia plantar alivia a tensão no tendão de Aquiles quase instantaneamente. É uma conexão mecânica direta que não pode ser ignorada.

Fatores Externos: Equipamento e Terreno

A maldição do “Zero Drop”: Tênis retos e tensão tendínea

Os tênis de skate clássicos (Vans, Converse, Nike SB) são retos. O calcanhar está na mesma altura da ponta do pé. Isso é chamado de “zero drop”. Para performance e sensibilidade do shape (boardfeel) isso é ótimo. Para o tendão de Aquiles encurtado isso é terrível.

A maioria dos tênis de corrida tem um salto elevado que alivia a tensão no Aquiles. Ao usar tênis retos de skate você coloca o tendão em estiramento máximo o tempo todo. Se você já tem encurtamento de panturrilha o tênis reto força o tendão além do limite fisiológico de conforto.

Isso não significa que você deve andar de skate com tênis de corrida. Mas você pode usar uma calcanheira de silicone ou gel dentro do tênis de skate para elevar levemente o calcanhar (5 a 8mm). Isso tira a tensão de tração do tendão e pode ser a diferença entre conseguir andar ou ter que parar por dor.

Vibração de alta frequência: Rodas duras e asfalto ruim

O skate de rua envolve muita vibração. Rodas duras (101a, 99a) transmitem toda a textura do asfalto para os seus pés. Essa vibração de alta frequência sobe pela estrutura óssea e irrita os tecidos moles incluindo o tendão e a bainha que o envolve (paratendão).

Essa microvibração constante causa uma resposta inflamatória local. É como segurar uma britadeira; os braços doem depois. No skate as pernas sofrem esse efeito. Se você anda em picos com chão muito rugoso considere usar rodas um pouco mais macias ou maiores para filtrar essa vibração.

A vibração também fatiga o músculo mais rápido fazendo com que ele pare de proteger o tendão mais cedo na sessão. Equipamento que absorve impacto não é “coisa de iniciante”, é estratégia de longevidade para suas articulações.

O impacto dos “Bails” (quedas) e a compressão súbita

Quando você erra uma manobra e tem que pular do skate (bail) você geralmente aterrissa na ponta dos pés para amortecer. Essa aterrissagem gera uma carga de compressão súbita e violenta no tendão de Aquiles. O músculo tem que frear o peso do seu corpo caindo de uma altura considerável.

Se o tendão já estiver inflamado pela remada esse impacto agudo pode causar micro-rupturas maiores. É aquele momento que você sente uma “pedrada” atrás do tornozelo.

Aprender a rolar no chão (ukemi) em vez de tentar travar a queda com as pernas é vital. Dissipar a energia rolando poupa o tendão de ter que absorver toda a energia cinética da queda sozinho.

Estratégias de Tratamento e Terapias Aplicadas

Se a dor pegou você precisamos agir. A terapia mais eficaz e com maior nível de evidência científica é o Protocolo de Exercícios Excêntricos de Alfredson. Consiste em ficar na ponta do pé em um degrau e descer o calcanhar lentamente abaixo do nível do degrau. A subida é feita com a perna boa a descida com a perna ruim. Isso realinha as fibras de colágeno.

Liberação Miofascial Instrumental (com raspadores de metal) é excelente para quebrar as aderências e fibroses no tendão espessado estimulando a circulação. O Dry Needling (agulhamento a seco) nos músculos da panturrilha (sóleo e gastrocnêmio) desativa os pontos de tensão que mantêm o tendão esticado aliviando a tração mecânica.

Em casos crônicos a Terapia por Ondas de Choque é um divisor de águas. Ela causa uma microlesão controlada que “reinicia” o processo de cicatrização em tendões degenerados forçando o corpo a produzir tecido novo. E claro o retorno ao skate deve ser gradual. Não tente voltar mandando gaps. Comece com sessões curtas de solo e borda baixa monitorando a dor na manhã seguinte. Se a dor matinal aumentou você exagerou. Escute seu corpo para não ter que pendurar o tênis de vez.

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