Você já parou para pensar que a ferramenta mais importante do seu esporte não é a raquete, a bola ou o relógio com GPS, mas sim o que está protegendo seus pés? Muitas vezes, recebo aqui no consultório atletas incríveis, dedicados, com planilhas de treino impecáveis, mas que travam uma batalha silenciosa contra o próprio corpo. E o vilão, acredite, muitas vezes está amarrado nos cadarços.
Quando falamos de biomecânica, estamos falando da engenharia do seu movimento. É como o seu corpo distribui forças, absorve impactos e gera energia. Agora, imagine colocar uma peça defeituosa na base de uma construção complexa. É exatamente isso que um calçado inadequado faz. Ele não gera apenas uma “dorzinha” no pé; ele altera toda a forma como você interage com o solo.
Quero que você entenda hoje, de forma prática e direta, o que acontece “por baixo do capô” do seu corpo quando o calçado não joga no seu time. Vamos mergulhar na anatomia, na física e, claro, na solução para que você continue treinando sem dores e com alto desempenho.
A Base de Tudo: Como o Tênis Altera a Função Natural do Pé[2]
O seu pé é uma obra-prima da engenharia natural, projetado para ser ao mesmo tempo uma estrutura rígida de alavanca e uma estrutura flexível de absorção. Quando você calça um tênis que não respeita a anatomia do seu pé, a primeira coisa que sofremos é a alteração nos padrões de pronação e supinação.[1] Um tênis muito rígido em um pé que precisa de mobilidade, ou um tênis instável em um pé que “desaba” para dentro (pronação excessiva), cria um cabo de guerra. Se o calçado força seu pé a ficar em uma posição antinatural, os músculos da perna precisam trabalhar o dobro para tentar corrigir esse erro a cada passo dado.
Além da pisada, temos a questão da propriocepção. Pense na sola dos seus pés como um mapa cheio de sensores que informam ao cérebro onde o chão está e como ele é. Um calçado com amortecimento excessivo ou uma sola muito grossa age como uma barreira que “ensurdece” esses sensores. O resultado é que seu cérebro recebe informações atrasadas ou imprecisas sobre o terreno. Isso faz com que a ativação muscular para proteger seu tornozelo de uma torção seja mais lenta. Você perde a conexão fina com o solo, e em esportes que exigem mudança de direção rápida, isso é a diferença entre uma jogada perfeita e uma entorse de tornozelo.
Por fim, precisamos falar sobre o mecanismo de mola. Seus pés possuem um arco plantar e uma fáscia que funcionam como um elástico: eles se esticam ao tocar o chão e devolvem energia para te impulsionar. Um calçado inadequado — seja por estar velho e deformado, ou por ter uma estrutura de arco incompatível com o seu — pode bloquear esse efeito elástico. Se o tênis é muito mole, ele dissipa a energia que deveria ser devolvida. Se é muito duro, ele impede o arco de flexionar. Nas duas situações, você está desperdiçando energia metabólica e forçando a musculatura da panturrilha a fazer um trabalho que deveria ser, em parte, “gratuito” pela elasticidade dos tecidos.
O Efeito Dominó: A Cadeia Cinética e as Articulações Superiores
Aqui é onde a mágica (ou o problema) acontece. Muitos pacientes chegam até mim reclamando de dores no joelho e ficam surpresos quando peço para ver o tênis de corrida deles. Isso ocorre devido à cadeia cinética fechada. Quando seu pé toca o chão, ele trava uma relação com o solo, e qualquer desalinhamento lá embaixo vai subir em espiral pela perna. Se o tênis inadequado permite que seu pé prone excessivamente (gire para dentro), sua tíbia (o osso da canela) também roda internamente.
Essa rotação interna da tíbia força o fêmur a acompanhar o movimento, criando o que chamamos de “valgo dinâmico” nos joelhos. Imagine seus joelhos caindo para dentro a cada agachamento ou a cada passada da corrida. Isso gera uma compressão absurda na parte lateral da articulação e um estiramento na parte interna, sendo um gatilho clássico para a condromalácia patelar e dores no menisco. O calçado, que deveria estabilizar essa entrada do pé, acaba sendo o cúmplice dessa desorganização mecânica que destrói cartilagens a longo prazo.
Subindo mais um andar, chegamos ao quadril. O quadril é o motor primário de força, mas ele vira um “compensador” quando a base está instável. Se o calçado não absorve o impacto corretamente ou altera o comprimento da passada, o quadril pode começar a fazer movimentos de “queda” lateral (Trendelenburg) ou rotação excessiva para tentar equilibrar o centro de gravidade. Isso sobrecarrega os músculos glúteos e piriformes, podendo gerar desde bursites trocantéricas até aquela dor ciática chata que parece não ter explicação, mas que começou com a escolha errada do tênis na loja.
E não pense que a coluna está salva. A coluna lombar é o destino final de muitas forças de impacto não dissipadas. Um tênis com a entressola “vencida” (aquele EVA que já virou pedra) perde a capacidade de filtrar as forças de reação do solo. Esse choque mecânico viaja pelo esqueleto e atinge as vértebras lombares. Além disso, a alteração na postura do quadril, causada pelo calçado ruim, muda a curvatura da sua lordose lombar durante o movimento. Você corre ou salta com a coluna em uma posição de estresse mecânico, facilitando o surgimento de protusões discais e dores crônicas nas costas.
Performance Invisível: Correndo com o Freio de Mão Puxado
Agora vamos falar sobre o que todo atleta quer: desempenho. Você treina duro, come bem, dorme cedo, mas se o calçado for inadequado, você está jogando fora uma porcentagem valiosa da sua energia. O conceito chave aqui é “economia de corrida” ou eficiência de movimento. Um tênis muito pesado, por exemplo, exige que seus flexores de quadril façam mais força para puxar a perna a cada passada. Parece pouco em 100 metros, mas multiplique isso por 10 mil passadas em uma maratona. É um peso extra que drena seus estoques de glicogênio prematuramente.
A fadiga muscular antecipada também ocorre pela necessidade de estabilização forçada. Se o tênis é instável para o seu tipo de pé, seus músculos estabilizadores (como o tibial posterior e os fibulares) não têm descanso. Eles precisam ficar contraídos o tempo todo para impedir que o pé vire. Isso gasta uma energia que deveria estar sendo usada para te impulsionar para frente. É como dirigir um carro com a direção desalinhada: você gasta mais gasolina e braço só para manter o carro em linha reta. O atleta sente as pernas “pesadas” muito antes do que o condicionamento cardiovascular dele indicaria.
Outro ponto crucial é a alteração da cadência e do tempo de contato com o solo. Estudos de biomecânica mostram que calçados com drop (diferença de altura entre calcanhar e ponta do pé) muito alto podem induzir o atleta a aterrissar com o calcanhar muito à frente do corpo (overstriding). Isso atua como um freio a cada passo. Você pisa, freia o movimento, e depois acelera de novo. Esse ciclo de freia-acelera é péssimo para a performance. O tênis ideal deve facilitar uma aterrissagem próxima ao centro de gravidade, permitindo um tempo de contato com o solo menor e uma transição mais fluida e rápida para a próxima passada.
As Lesões Mais Comuns e Seus Mecanismos Biomecânicos
Infelizmente, a teoria muitas vezes se transforma em dor real. A fascite plantar é, sem dúvida, a campeã de audiência no meu consultório quando o assunto é calçado errado. A fáscia plantar é um tecido conectivo na sola do pé que não tem elasticidade infinita. Quando você usa um tênis muito flexível sem ter força no pé, ou um tênis velho que perdeu o suporte do arco, a fáscia é estirada além do limite milhares de vezes. Isso cria microlesões na inserção do calcanhar. Aquela dor aguda na primeira pisada da manhã é o sinal clássico de que seu calçado não está dando o suporte que sua biomecânica exige.
Outra lesão séria e muitas vezes ignorada até ser tarde demais é a fratura por estresse. O osso é um tecido vivo que se renova com o impacto (Lei de Wolff), mas existe um limite de adaptação. Quando o calçado perde sua capacidade de amortecimento — e isso acontece muito antes dele rasgar por fora —, o impacto seco é transferido para os ossos do metatarso e para a tíbia. Se a carga de treino continua alta e o amortecimento é zero, a taxa de destruição óssea supera a de reconstrução. O osso desenvolve microfissuras que, se não tratadas e se o calçado não for trocado, evoluem para uma fratura completa, tirando você do esporte por meses.
Também vemos com frequência a Canelite, ou Síndrome do Estresse Tibial Medial. Embora tenha várias causas, o calçado inadequado é um gatilho primário.[3][8] Tênis que não controlam a vibração do impacto permitem que a onda de choque suba pela tíbia, irritando o periósteo (a membrana que envolve o osso). Além disso, se o tênis força uma pisada errada, o músculo sóleo e o tibial posterior tracionam excessivamente o osso da canela a cada passo. É uma dor chata, que queima, e que muitas vezes o atleta tenta ignorar até não conseguir mais andar. E pensar que, muitas vezes, a troca por um calçado com maior estabilidade e absorção de vibração poderia ter evitado semanas de gelo e repouso.
O Caminho para o Equilíbrio: Tratamentos e Soluções Terapêuticas
Você deve estar se perguntando: “Ok, entendi o problema, mas como eu resolvo isso?”. A primeira etapa terapêutica não é remédio, é informação. A Avaliação Biomecânica da Corrida e a Baropodometria são ferramentas essenciais. No consultório, colocamos você para caminhar e correr em uma esteira, filmamos em câmera lenta e usamos softwares para medir os ângulos das suas articulações. A baropodometria nos mostra exatamente onde você descarrega mais peso no pé. Com esses dados, paramos de “chutar” qual é o melhor tênis e passamos a ter critérios técnicos: você precisa de mais controle de pronação? Precisa de mais amortecimento no antepé? Precisa de um drop menor?
Mas só trocar o tênis não é a cura mágica se o seu pé estiver “fraco”. Uma das terapias mais indicadas atualmente é o fortalecimento da musculatura intrínseca do pé (o chamado “Core do Pé”). Assim como fortalecemos o abdômen para proteger a coluna, precisamos fortalecer os pequenos músculos entre os metatarsos para que eles ajudem a sustentar o arco plantar. Exercícios simples, como pegar toalhas com os dedos ou exercícios de equilíbrio unipodal, devolvem a função natural do pé, tornando você menos dependente da tecnologia do tênis e mais resiliente.
Por fim, quando a lesão já está instalada ou a biomecânica está muito alterada, entramos com a Terapia Manual e a Osteopatia. Usamos técnicas para soltar a fáscia plantar tensa, mobilizar as articulações do tornozelo que podem estar rígidas e reequilibrar a pelve. A Liberação Miofascial é fantástica para soltar a musculatura da panturrilha e canela que ficou sobrecarregada pelo tênis ruim. Em alguns casos, a confecção de Palmilhas Posturais Sob Medida é a “cereja do bolo”. A palmilha corrige a interface entre o seu pé único e o tênis padronizado de fábrica, garantindo que o alinhamento biomecânico seja perfeito.
Lembre-se: seu corpo é uma máquina adaptável, mas não abuse da sorte. Um bom par de tênis é um investimento em saúde, não um gasto. Escute seus pés, faça uma avaliação preventiva e garanta que cada passo dado esteja te levando para mais longe, e não para mais perto de uma lesão.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”