Você pega o skate e sai para a rua sentindo o vento no rosto e aquela liberdade que só quem anda sabe como é. Mas depois de algumas horas de sessão ou talvez no dia seguinte você sente aquela fisgada chata na virilha ou um peso estranho na lombar. Como fisioterapeuta acostumado a tratar skatistas eu vejo isso o tempo todo e preciso ser franco com você. O skate é um dos esportes mais assimétricos que existem. Você passa a vida inteira chutando o chão com a mesma perna e se equilibrando na outra. O seu corpo é uma máquina de adaptação e ele vai se adaptar a esse padrão torto se você não intervir.
O quadril é o centro de gravidade do skatista. É dali que sai o “pop” é dali que vem a estabilidade para aterrissar aquele gap e é dali que vem a força para a remada. Quando você rema milhares de vezes por semana usando sempre a mesma mecânica você cria um desequilíbrio de forças brutal. Uma perna vira um pilar de concreto e a outra vira um pistão hidráulico. Essa diferença muda a forma como seus ossos se encaixam e como sua coluna se comporta.
Vamos ter uma conversa técnica mas descontraída sobre o que está acontecendo dentro da sua articulação coxofemoral. Não quero que você pare de andar quero que você ande até os sessenta anos. Para isso precisamos entender a biomecânica do “push” e como evitar que essa assimetria funcional vire uma patologia cirúrgica lá na frente. O segredo está em entender que o skate molda o corpo e nós precisamos moldar o corpo de volta para o centro.
A Cinesiologia da Remada: O Conto de Duas Pernas Diferentes
A perna de base e a resistência isométrica constante
Muitos skatistas acham que a perna que cansa é a que rema mas fisiologicamente a perna de base sofre uma carga muito mais complexa. Ela trabalha o tempo todo em isometria ou seja o músculo contrai sem mudar de comprimento para manter você em pé sobre uma lixa em movimento. O quadríceps e os estabilizadores do quadril dessa perna nunca descansam enquanto você está em cima do carrinho. Eles estão sempre microajustando para absorver a vibração do asfalto.
Essa demanda constante cria uma densidade muscular e fascial enorme na perna de apoio. Ela se torna a sua perna “forte” para estabilidade mas muitas vezes se torna a perna com menos mobilidade. A cápsula articular do quadril da perna de base tende a ficar comprimida porque ela suporta todo o peso do corpo sozinha durante a fase de balanço da remada. É uma carga de compressão cíclica que desidrata a cartilagem se não houver compensação.
Você deve notar que seu equilíbrio é muito melhor nessa perna. Isso é ótimo para o skate mas perigoso para a simetria corporal. O glúteo médio dessa perna trabalha horas extras para impedir que sua bacia caia para o lado. Com o tempo esse músculo entra em fadiga crônica e começa a ficar tenso e fibroso perdendo a capacidade de relaxar e alongar completamente.
A perna de remada e a explosão concêntrica repetitiva
Do outro lado temos a perna do “push”. Essa perna funciona como um motor de explosão. O movimento de remada envolve uma flexão rápida do quadril para trazer o joelho para frente seguida de uma extensão violenta para chutar o chão e empurrar o corpo. Esse ciclo se repete centenas de vezes em uma sessão. Isso desenvolve muito a potência dos glúteos e isquiotibiais nessa perna mas de uma forma unidirecional.
O problema biomecânico aqui é a força de cisalhamento. Cada vez que seu pé bate no chão para impulsionar existe uma força de reação que sobe pela perna e atinge o quadril. Diferente da corrida onde essa força é alternada no skate ela é unilateral. Você está martelando sempre o mesmo lado da bacia. Isso pode causar microtraumas na borda do acetábulo a taça onde a cabeça do fêmur se encaixa.
Além disso a perna de remada costuma ter muito mais amplitude de movimento que a de base. Ela vai longe atrás e volta muito à frente. Isso cria um corpo que é meio rígido e meio móvel. Essa discrepância confunde o sistema nervoso central que acaba alterando o padrão de marcha mesmo quando você está andando a pé sem o skate.
O desalinhamento pélvico funcional (Tilt Pélvico)
A soma dessas duas funções distintas resulta quase sempre em uma torção ou inclinação da pelve. É muito comum eu avaliar um skatista e ver que um lado da bacia está mais alto que o outro ou rodado para frente. A perna de remada geralmente puxa o osso ilíaco para uma rotação anterior devido à tensão dos flexores de quadril que vamos discutir logo mais.
Esse desalinhamento muda a base da sua coluna vertebral. Se a bacia está torta a coluna lombar precisa fazer uma curva compensatória para manter sua cabeça reta. Isso é o início das famosas dores lombares em skatistas. Não é apenas o impacto dos pulos é a base que está desnivelada obrigando as vértebras a trabalharem em ângulos para os quais não foram projetadas.
Corrigir esse tilt pélvico é essencial para a longevidade. Se você continua andando com a bacia torta você distribui a carga da aterrissagem de forma desigual. Um disco intervertebral vai receber muito mais pressão que o outro aumentando drasticamente o risco de hérnias de disco lombares unilaterais.
O “Psoas da Remada”: Por que seu quadril estala e dói
O encurtamento crônico por flexão repetitiva
O músculo iliopsoas é o principal flexor do quadril responsável por levantar sua coxa. No skate cada vez que você prepara a perna para dar uma remada você está contraindo o psoas. Multiplique isso pelos anos de skate e você tem um músculo que se tornou cronicamente curto e hipertônico. Ele nunca relaxa completamente porque está sempre pronto para a próxima remada.
Um psoas encurtado é um problema sério porque ele se conecta diretamente às vértebras lombares. Quando ele está tenso ele puxa a coluna lombar para frente aumentando a lordose e comprimindo as facetas articulares das costas. É por isso que muitos skatistas sentem dor nas costas logo depois de uma sessão de muita remada ou de subir ladeiras.
Além da dor nas costas o psoas curto impede que o quadril estenda completamente. Isso significa que quando você está em pé sua perna nunca vai totalmente para trás de forma limpa. Para compensar você acaba arqueando as costas. Esse ciclo de tensão rouba a eficiência da sua remada e gasta energia desnecessária para lutar contra a própria tensão muscular.
A conexão mecânica com a dor lombar baixa
Existe uma relação direta de “Cabo de Guerra” entre o seu abdômen e o seu psoas. No skate precisamos de um core forte para estabilizar. Mas se o psoas é muito mais forte e tenso que o abdômen ele vence a batalha e puxa a pelve para uma anteversão (bumbum empinado). Essa posição desliga os abdominais profundos deixando a coluna vulnerável.
Durante a aterrissagem de uma manobra de impacto essa posição de anteversão é perigosa. A coluna não consegue absorver o choque corretamente e as forças são transferidas diretamente para os elementos posteriores da vértebra. Isso pode gerar fraturas por estresse ou espondilólise em skatistas jovens que treinam pesado.
Soltar o psoas não é apenas questão de conforto é questão de mecânica de aterrissagem. Você precisa desse músculo flexível para permitir que a pelve se mova livremente e para que o abdômen possa fazer o trabalho dele de proteger a coluna durante os impactos verticais.
Síndrome do Ressalto do Quadril (Coxa Saltans)
Você já sentiu ou ouviu um estalo na frente do quadril quando levanta ou abaixa a perna? Isso é muito comum em skatistas e chamamos de “Snapping Hip” ou quadril em ressalto. Geralmente é o tendão do psoas ou a banda iliotibial passando por cima de uma proeminência óssea como uma corda de violão muito esticada sendo tocada.
Embora o estalo em si não doa no começo com o tempo essa fricção repetitiva causa inflamação (bursite ou tendinite). No movimento da remada esse tendão raspa sobre o osso milhares de vezes. Se estiver muito tenso a inflamação é inevitável. A dor começa como um incômodo e evolui para uma pontada que impede você de remar com força.
O tratamento para isso não é cirurgia na maioria dos casos mas sim devolver o comprimento normal ao músculo. Precisamos alongar essa “corda de violão” para que ela pare de raspar no osso com tanta pressão. Ignorar o estalo é esperar pela bursite que vai te tirar do skate por semanas.
Amnésia Glútea e o Colapso da Estabilidade
A inibição recíproca causada pelos flexores tensos
O corpo funciona com base em pares opostos. Se o músculo da frente (flexor/psoas) está muito tenso e ativado o cérebro envia um sinal para desligar o músculo de trás (extensor/glúteo) para permitir o movimento. Chamamos isso de inibição recíproca. No skatista com flexores de quadril travados os glúteos acabam ficando “inibidos” ou desligados neurologicamente.
Chamamos isso de “Amnésia Glútea”. Seu glúteo máximo que deveria ser o maior motor de propulsão e proteção do skate esquece como contrair forte. Você continua andando de skate mas começa a usar os músculos da lombar e os isquiotibiais para fazer o trabalho que deveria ser do glúteo. Isso é um padrão de compensação pobre e insustentável.
Sem o glúteo máximo ativo você perde a proteção da cápsula posterior do quadril. A cabeça do fêmur começa a se mover de forma descontrolada dentro da articulação causando desgaste prematuro. Reativar o glúteo é a prioridade número um na reabilitação de qualquer skatista.
A compensação perigosa do Tensor da Fáscia Lata (TFL)
Quando o glúteo médio (o estabilizador lateral) está fraco ou inibido outro músculo tenta ajudar: o Tensor da Fáscia Lata ou TFL. É um músculo pequeno na lateral do quadril. O problema é que o TFL não foi feito para aguentar a carga de estabilização do corpo inteiro. Quando ele assume o comando ele fica extremamente tenso e dolorido.
Essa tensão no TFL puxa a Banda Iliotibial que desce pela lateral da coxa até o joelho. É por isso que muitos skatistas têm dor na lateral do joelho mesmo sem ter batido. A causa está lá em cima no quadril. O TFL está tentando desesperadamente segurar a pelve porque os glúteos estão dormindo.
Você vai sentir isso como uma queimação na lateral do quadril depois da sessão. Tentar alongar o TFL ajuda mas não resolve. A solução definitiva é fortalecer o glúteo médio para que ele volte a ser o chefe da estabilidade tirando a sobrecarga do pequeno TFL.
O valgo dinâmico na aterrissagem das manobras
A consequência mais visível da amnésia glútea é o valgo dinâmico. É quando você aterrissa uma manobra e seu joelho cai para dentro em direção ao outro joelho. Isso acontece porque os glúteos são os principais rotadores externos do quadril. Se eles não seguram o fêmur a perna roda para dentro sob o peso do impacto.
Esse colapso em valgo é o mecanismo número um para lesões de ligamento cruzado anterior (LCA) e meniscos. No skate onde a aterrissagem é muitas vezes imperfeita e em superfície dura ter o controle rotacional do quadril é vital. Se o seu joelho sempre beija o outro na aterrissagem seu quadril não está fazendo o trabalho dele.
Treinar a aterrissagem com foco em manter os joelhos alinhados com a ponta dos pés é essencial. Mas você só consegue fazer isso se tiver glúteos acordados e fortes. É uma questão de hardware (músculo) e software (controle motor).
Impacto Femoroacetabular (FAI) no Skatista
O conflito mecânico entre o colo do fêmur e a bacia
Este é um tópico que você precisa prestar muita atenção. O Impacto Femoroacetabular (FAI) ocorre quando há um contato anormal entre os ossos do quadril. No skate passamos muito tempo agachados e flexionando o quadril. Se houver alguma alteração óssea o colo do fêmur bate na borda do acetábulo (a bacia) a cada agachamento profundo.
Com o tempo esse impacto repetitivo estimula o osso a crescer mais para se proteger criando esporões ósseos. Isso limita ainda mais o movimento e começa a mastigar a cartilagem e o labrum que é a vedação de borracha da articulação. É uma lesão silenciosa que evolui ao longo dos anos.
Existem dois tipos: o CAM (excesso de osso no fêmur) e o Pincer (excesso de osso na bacia). Skatistas frequentemente desenvolvem o tipo CAM devido às cargas de impacto durante a fase de crescimento ósseo na adolescência. Se você sente que seu quadril “trava” e não vai mais fundo no agachamento isso pode ser osso batendo em osso.
Como a posição agachada comprime o labrum acetabular
Pense na posição de preparar uma manobra ou de entubar. Você está com o quadril flexionado e muitas vezes rodado internamente. Essa é a posição de maior estresse para o labrum anterior. Você está basicamente esmagando essa estrutura sensível entre dois ossos duros.
O labrum é rico em terminações nervosas. Quando ele rasga ou inflama a dor é aguda e incapacitante. Diferente do músculo o labrum tem pouca circulação sanguínea e não cicatriza bem sozinho. Preservar o labrum significa evitar forçar o quadril em amplitudes dolorosas repetidamente.
Se você tem dor ao agachar não force através da dor. Modificar a base do pé abrindo um pouco mais a ponta dos pés para fora pode aliviar esse impacto permitindo que o fêmur encaixe melhor na bacia sem colidir com o labrum. Pequenos ajustes na base podem salvar sua articulação.
Identificando o “Sinal do C” e a dor profunda na virilha
Como saber se você tem isso? O sinal clássico é o “C-Sign”. O paciente coloca a mão na lateral do quadril fazendo um C com o polegar e o indicador dizendo que a dor é “profunda lá dentro”. Não é uma dor que você consegue massagear por fora. É uma dor articular mecânica.
Geralmente piora depois de ficar muito tempo sentado ou depois de uma sessão longa de skate. Pode haver sensação de travamento ou clique doloroso. Se você se identifica com isso procure um especialista em quadril. Ignorar o FAI pode levar a artrose precoce e necessidade de prótese de quadril em idades jovens.
O diagnóstico precoce permite ajustar o treino e a fisioterapia para ganhar espaço na articulação evitando a cirurgia. A mobilidade de quadril deve ser feita com cuidado nesses casos focando em tração e descompressão e não apenas em forçar o alongamento.
A Arte do “Switch”: Equilíbrio Neurológico e Estrutural
Reprogramando o cérebro e a propriocepção
Muitos skatistas veem o Switch apenas como uma forma de aumentar o repertório de manobras ou a dificuldade. Eu vejo o Switch como uma necessidade médica. Aprender a andar com a base trocada é a ferramenta mais poderosa para reequilibrar o seu corpo. Isso obriga o seu cérebro a mapear a perna “burra” e a desenvolver coordenação fina nela.
Quando você começa a remar de Switch você está criando novas vias neurais. A propriocepção (noção de posição) da sua perna fraca melhora drasticamente. Isso se traduz em melhor prevenção de lesões porque você passa a ter duas pernas inteligentes e não apenas uma.
No começo parece que você nunca andou de skate na vida. Essa estranheza é o seu cérebro saindo da zona de conforto. Insista. O ganho neurológico de coordenar o lado oposto traz benefícios globais para o seu equilíbrio e tempo de reação.
Equalizando o volume muscular e a carga articular
Ao andar de Switch você inverte os papéis. A perna que era apenas estabilizadora agora tem que fazer força explosiva de remada. A perna que só remava agora tem que aguentar a isometria da base. Isso começa a equalizar o volume muscular das pernas e a soltar as tensões crônicas.
Você dá uma folga para as estruturas que estão sempre sobrecarregadas. Se você rema 10% do seu tempo de Switch você está reduzindo em 10% a carga cumulativa de impacto no seu quadril dominante. Ao longo de anos isso representa milhões de quilos a menos de carga destrutiva.
Não precisa mandar manobras complexas de Switch. Apenas remar de um pico para o outro ou fazer o aquecimento na base trocada já é suficiente para gerar estímulo terapêutico. Encare isso como parte do seu treino físico.
Estratégias para introduzir o Switch sem perder o estilo
Comece devagar. Dedique os primeiros 15 minutos da sessão apenas para remar e fazer curvas de Switch. Sinta como o peso se distribui de forma diferente. Tente fazer ollies baixos e subir calçadas. O objetivo é fluidez e não altura.
Observe como sua postura muda. Geralmente no Switch somos forçados a prestar mais atenção na técnica porque não é automático. Use essa consciência para corrigir vícios posturais da sua base normal.
Com o tempo você vai notar que a dor nas costas diminui e o quadril fica mais solto. O corpo humano adora simetria e movimento variado. O Switch é a fisioterapia mais divertida e barata que você pode fazer.
Terapias Aplicadas e Indicadas
Se o desequilíbrio já virou dor precisamos entrar com intervenção profissional. A Quiropraxia ou Osteopatia é fundamental para alinhar a pelve e a coluna lombar devolvendo a mobilidade às articulações travadas. O Deep Tissue Massage ou liberação miofascial profunda no Psoas Glúteo Médio e TFL é quase obrigatória para “resetar” o tônus muscular.
Para casos de dor articular e FAI o trabalho de Mobilização Articular com Cinto (Mulligan) ajuda a decoaptar (separar) levemente a articulação aliviando o impacto e a dor imediatamente. O Pilates é excelente para skatistas pois trabalha o core de forma integrada e o controle excêntrico que precisamos para aterrissagens.
E claro o Recovery Esportivo com botas de compressão e banheiras de gelo ajuda a gerenciar a inflamação aguda pós-sessão. Mas lembre-se: a melhor terapia é a prevenção através do fortalecimento inteligente e da introdução do Switch na sua vida. Skate é para a vida toda se você cuidar da sua máquina.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”