Trilhas e Trekking: 5 exercícios para fortalecer os joelhos para descidas íngremes

Trilhas e Trekking: 5 exercícios para fortalecer os joelhos para descidas íngremes

Você conhece a sensação. A subida foi exaustiva mas a vista lá de cima compensou cada gota de suor. Você faz seu lanche tira fotos e se prepara para voltar. É aí que o verdadeiro desafio começa. Para muitos montanhistas a descida é onde o sofrimento mora. O joelho começa a reclamar a cada degrau de pedra a perna treme e aquela pontada embaixo da rótula parece uma agulha. Como fisioterapeuta eu ouço isso toda semana no consultório: “Doutor meu fôlego estava ótimo mas meus joelhos me traíram na volta”.

A verdade é que subir exige motor (coração e pulmão) e força de empurrar mas descer exige freio e estabilidade. Biomecanicamente descer uma montanha é muito mais agressivo para as articulações do que subir. Seus músculos precisam alongar enquanto fazem força para segurar o peso do seu corpo somado à gravidade e à mochila cargueira. Se você não treinar especificamente para essa demanda não há joelheira de neoprene que salve o seu fim de semana.

Preparar o corpo para o trekking não é apenas fazer leg press na academia. Você precisa de exercícios que simulem a instabilidade do terreno e a força de desaceleração. Vamos transformar seus joelhos em amortecedores de alta performance para que você possa curtir a paisagem da volta sem precisar andar de lado ou de costas para aliviar a dor.

A Biomecânica da Descida: O Desafio da Frenagem

Contração Excêntrica: O “freio” muscular

Quando você sobe a montanha seu músculo quadríceps encurta para esticar a perna e te levantar. Isso é contração concêntrica. Mas quando você desce acontece o oposto. Seu pé toca o chão e seu joelho dobra lentamente para absorver o impacto. Nesse momento o quadríceps está fazendo força enquanto se alonga. Chamamos isso de contração excêntrica. É exatamente como o freio de um carro descendo a serra.

O problema é que a contração excêntrica gera muito mais microlesões nas fibras musculares do que a concêntrica. É por isso que a dor muscular tardia é muito pior depois de uma descida longa. Se o seu “freio” (músculo) não estiver forte e resistente quem vai ter que parar o movimento é o “para-choque” (osso e cartilagem). E é aí que começa o desgaste articular e a inflamação.

Treinar apenas subindo escadas ou fazendo bicicleta não prepara você para isso. Você precisa ensinar seu cérebro e seus músculos a controlarem a gravidade. Se o músculo falha na função de frear o impacto passa direto para a articulação resultando em sinovite inchaço e dor aguda durante a trilha.

A compressão na articulação patelofemoral

A articulação patelofemoral é o contato entre a sua rótula (patela) e o fêmur. Durante uma caminhada no plano a pressão nessa região é baixa. Porém em uma descida íngreme onde você precisa dobrar mais o joelho com carga a pressão atrás da patela aumenta drasticamente. Imagine esfregar dois ossos com força enquanto coloca 80 quilos em cima.

Se o seu quadríceps estiver fadigado ou fraco ele para de “flutuar” a patela corretamente. A patela então é puxada contra o fêmur raspando na cartilagem. Isso é o gatilho clássico para a condromalácia ou dor anterior no joelho. O fortalecimento não serve apenas para força bruta mas para manter esse espaço articular preservado durante o movimento.

Além disso a fadiga faz com que você “tranque” o joelho esticado a cada passo para descansar o músculo. Esse impacto seco sem amortecimento muscular é devastador para os meniscos. Precisamos construir resistência para que você consiga manter os joelhos levemente flexionados e ativos durante horas de descida.

A diferença entre cardio e resistência muscular local

Muitos trekkers têm um condicionamento cardiovascular invejável. Correm maratonas fazem spinning e têm coração de atleta. Mas chegam na montanha e sofrem com dores articulares. Isso acontece porque ter fôlego não significa ter estabilidade articular. O coração aguenta mas a perna não.

A resistência muscular local é a capacidade de um grupo muscular específico continuar trabalhando sem falhar. Na trilha seu quadríceps e glúteos precisam disparar milhares de vezes sem perder a qualidade do movimento. Quando a resistência local acaba o controle motor desaparece.

Você começa a pisar torto a torcer o pé e a sobrecarregar os ligamentos. O treino para trilha deve focar em repetições mais altas e tempo sob tensão para aumentar a tolerância do músculo à acidez e à fadiga. Não adianta ter um motor de Ferrari num chassi que está com os amortecedores estourados.

Os 5 Exercícios: Construindo um Joelho à Prova de Bala

1 e 2. Quadríceps e Controle: Step Down e Agachamento Búlgaro

O primeiro exercício obrigatório é o Step Down (Descida de Degrau). Diferente de subir no caixote aqui você vai focar em descer. Fique em cima de um degrau ou caixa baixa apoie-se em uma perna e toque o calcanhar da outra perna no chão suavemente e volte a subir. O segredo é não despencar. A descida deve levar 3 segundos. Isso ensina seu quadríceps a controlar o peso do corpo excentricamente simulando exatamente o passo de descida na montanha.

O segundo é o Agachamento Búlgaro. Apoie o peito do pé de trás em um banco e agache com a perna da frente. Esse exercício é fantástico porque além de força ele exige equilíbrio e alonga o flexor de quadril da perna de trás que costuma ser encurtado em quem caminha muito. Mantenha o tronco levemente inclinado para frente para ativar mais o glúteo e tirar a pressão da lombar.

Esses dois exercícios unilaterais são fundamentais porque na trilha você nunca está com os dois pés no chão ao mesmo tempo fazendo força igual. A trilha é uma sucessão de apoios unipodais. Se uma perna é mais fraca que a outra o Búlgaro vai expor isso e te ajudar a corrigir antes de você estar no meio do mato.

3. Cadeia Posterior: Stiff Unilateral

Você pode achar que descida é só quadríceps mas os músculos posteriores da coxa (isquiotibiais) são essenciais para estabilizar o joelho e controlar a pelve. O Stiff Unilateral (ou levantamento terra de uma perna só) é o exercício chave aqui. Segure um peso na mão oposta à perna de apoio e incline o tronco à frente enquanto a perna livre vai para trás como uma gangorra.

Esse movimento fortalece a musculatura posterior sem o impacto de saltos. Ele ensina seu corpo a manter a coluna neutra enquanto o quadril se move. Na descida íngreme muitas vezes você precisa inclinar o tronco para visualizar onde vai pisar ou para passar por baixo de um galho. Ter força nessa posição evita que seu joelho receba cargas rotacionais perigosas.

Além disso o Stiff Unilateral treina a propriocepção do pé. Seu pé vai “dançar” no chão tentando te equilibrar. Deixe isso acontecer. É esse microajuste que vai salvar seu tornozelo de uma entorse quando você pisar numa raiz molhada ou numa pedra solta.

4 e 5. Estabilidade Lateral: Monster Walk e Ponte Unilateral

Para blindar o joelho precisamos olhar para o lado do quadril. O Monster Walk (caminhada lateral com mini-band) é clássico e insubstituível. Coloque um elástico acima dos joelhos ou nos tornozelos agache levemente e caminhe de lado sem deixar os joelhos “beijarem” um ao outro. Mantenha a tensão no elástico o tempo todo. Isso acorda o glúteo médio o principal estabilizador da pelve.

O quinto exercício é a Ponte Unilateral. Deitado de costas pés no chão levante o quadril usando apenas uma perna. Segure lá em cima por 2 segundos e desça devagar. Isso garante que seu glúteo máximo seja o motor principal da extensão do quadril e não sua lombar ou seus isquiotibiais.

Um glúteo forte impede que o fêmur rode para dentro. Na descida quando você está cansado a tendência é o joelho cair para dentro (valgo). Esses dois exercícios garantem que o “software” do seu glúteo esteja atualizado para manter o joelho alinhado com o pé o tempo todo.

A Importância do Glúteo Médio na Estabilidade Pélvica

O Valgo Dinâmico: O inimigo número 1 do joelho

Se eu tivesse que escolher uma única falha mecânica para corrigir em trilheiros seria o valgo dinâmico. É aquele movimento onde ao dobrar a perna o joelho colapsa para dentro em direção à outra perna. Isso acontece não porque o joelho é ruim mas porque o quadril (glúteo médio) parou de trabalhar. O glúteo médio é a âncora lateral do seu quadril.

Quando o joelho cai para dentro a patela é forçada para fora criando um desalinhamento doloroso. Além disso isso coloca tensão no Ligamento Colateral Medial e no menisco lateral. Em uma descida de três horas você faz esse movimento milhares de vezes. É uma receita para inflamação e dor crônica.

Você precisa visualizar seu joelho sempre apontando para o segundo ou terceiro dedo do pé. Essa é a linha de segurança. Fortalecer o glúteo médio é dar ao seu joelho a capacidade de se manter nessa linha mesmo quando o terreno é inclinado ou escorregadio.

A Síndrome da Banda Iliotibial e a fraqueza lateral

Você já sentiu uma dor na lateral externa do joelho que parece uma facada? Essa é a famosa síndrome do corredor ou do trato iliotibial muito comum em trekkers. A banda iliotibial é um tecido fibroso grosso que desce pela lateral da coxa. Quando o glúteo está fraco essa banda fica sobrecarregada tentando estabilizar o joelho sozinha.

O resultado é um atrito excessivo na lateral do joelho a cada passo. O tratamento não é apenas alongar ou passar rolinho na lateral da perna o que dói bastante e resolve pouco. A solução real é fortalecer a musculatura do quadril para que ela assuma a carga e deixe a banda iliotibial fazer apenas o papel dela de suporte passivo.

Exercícios de abdução de quadril e pranchas laterais são remédios santos para prevenir isso. Se você vai fazer uma travessia de vários dias com mochila pesada ter essa musculatura lateral forte é obrigatório para não travar no segundo dia.

Transferência de carga da lombar para o joelho

O corpo é uma cadeia cinética. Se o quadril não estabiliza a lombar sofre. Se a lombar cansa você muda a postura projetando o tronco para trás na descida para compensar o peso da mochila. Essa postura “sentada” joga o centro de gravidade para trás e aumenta a alavanca de força no joelho.

Manter o “Core” e os glúteos ativos permite que você desça com o tronco levemente inclinado à frente numa posição de ataque e controle. Isso distribui o impacto entre os músculos das costas glúteos e coxas em vez de concentrar tudo na rótula.

Treinar o complexo lombo-pélvico ajuda você a manter a postura técnica correta até o final da trilha. Um trekker com boa postura cansa menos respira melhor e protege os joelhos apenas por estar bem posicionado biomecanicamente.

O Papel do Tornozelo e Pé em Terrenos Irregulares

Dorsiflexão limitada e a compensação no joelho

Muitas vezes a culpa da dor no joelho é do tornozelo rígido. Para descer um degrau alto sem compensar seu tornozelo precisa dobrar bastante (dorsiflexão). Se você usa botas muito rígidas ou tem o tornozelo travado o movimento para antes do ideal. O corpo então obriga o joelho a rodar ou o pé a pronar excessivamente para achar equilíbrio.

Essa falta de mobilidade no tornozelo transfere forças de torção direto para o joelho. Teste sua mobilidade: você consegue agachar sem tirar os calcanhares do chão? Se não consegue você tem um déficit de dorsiflexão que vai cobrar um preço alto na montanha.

Trabalhar a soltura da panturrilha e a mobilidade do tornozelo deve ser diário. Antes da trilha faça movimentos circulares e alongamentos dinâmicos. Um tornozelo móvel é o primeiro amortecedor do corpo. Se ele funciona bem o joelho recebe muito menos impacto.

Fortalecimento dos músculos intrínsecos do pé

Dentro da sua bota existe um universo de pequenos músculos que sustentam o arco do pé. Eles são os “core” do pé. Se eles cansam o arco desaba (pé chato funcional) e isso roda a tíbia internamente torcendo o joelho. Botas dão suporte externo mas deixam esses músculos preguiçosos.

Faça exercícios de “pé curto” ou tente pegar objetos com os dedos dos pés em casa. Andar descalço em areia ou grama também ajuda a acordar essa musculatura. Um pé forte e ativo oferece uma base sólida para o resto da perna.

Lembre-se que o pé é a única parte do corpo em contato com a montanha. Se a base é instável a torre (joelho e quadril) vai balançar. Fortalecer o pé melhora a estabilidade ascendente e dá mais segurança em passagens técnicas de rocha.

Propriocepção: Treinando o reflexo de equilíbrio

Na academia o chão é plano e emborrachado. Na trilha o chão é vivo muda de ângulo tem raízes lama e pedras soltas. Treinar em piso estável não prepara seu sistema nervoso para o caos da natureza. Você precisa treinar propriocepção que é a capacidade do cérebro saber onde seu pé está sem olhar para ele.

Tente fazer os exercícios que citei (como o Step Down) descalço ou em cima de um travesseiro/colchonete dobrado para gerar instabilidade. Isso obriga os reflexos a serem rápidos. Na trilha essa velocidade de reação é o que impede uma torção quando você pisa numa pedra que rola.

A propriocepção cansa o cérebro. Por isso é comum se machucar no final da trilha quando a mente está exausta. Treinar o equilíbrio fadigado simula essa condição real. Quanto mais automatizado for seu equilíbrio menos energia mental você gasta para ficar em pé.

Estratégias de Campo e Terapias

Técnica e Equipamento

Não posso deixar de falar dos bastões de caminhada. Eles não são “coisa de idoso”. Biomecanicamente eles transferem cerca de 20% a 30% da carga das pernas para os braços. Numa descida íngreme isso significa toneladas a menos de impacto acumulado nos joelhos ao longo do dia. Aprenda a usá-los corretamente: na descida eles devem estar mais longos para que você possa se apoiar neles antes de dar o passo.

A amarração da bota também é crucial. Na descida use a técnica de travamento do calcanhar (usando aquele último furo extra da bota). Isso impede que seu pé deslize para frente esmagando os dedos e evita que você mude a pisada para proteger as unhas alterando a mecânica do joelho.

E sobre a técnica de passada: encurte o passo. Passadas longas e saltadas aumentam o impacto exponencialmente. Dê passinhos curtos e rápidos mantendo o centro de gravidade baixo. É menos elegante mas muito mais eficiente e seguro para suas articulações.

Terapias Aplicadas e Indicadas

Se você já voltou da trilha com dor ou quer se preparar melhor a fisioterapia preventiva ou “Recovery” é essencial. A Liberação Miofascial profunda solta a tensão na banda iliotibial e no quadríceps devolvendo a flexibilidade necessária para o músculo trabalhar. O uso de Botas de Compressão Pneumática após trilhas longas ajuda a drenar o edema e acelerar a recuperação muscular.

Osteopatia é excelente para alinhar a bacia e o tornozelo garantindo que não existam bloqueios articulares que forcem o joelho a compensar. E em casos de dor aguda a Bandagem Funcional (Kinesio Taping) pode ser aplicada para dar suporte sensorial à patela e reduzir a dor durante a atividade permitindo que você termine a trilha com mais conforto. Cuide dos seus joelhos eles são o seu passaporte para os lugares mais incríveis do mundo.

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