Você entra no mar e rema para o outside sentindo o cheiro de sal e a promessa de boas ondas. A série entra e você dropa atrasado fazendo um bottom turn cavado para buscar a parede. Nesse momento exato o seu joelho de trás grita. Se você já sentiu aquela fisgada na parte interna do joelho ou uma sensação de instabilidade depois de uma sessão intensa precisamos conversar sério. Como fisioterapeuta eu vejo muitos surfistas tratarem o corpo como se fosse descartável enquanto cuidam das pranchas com todo carinho.
O surf é um esporte de rotação e compressão em um ambiente instável. Isso é a tempestade perfeita para as suas articulações se você não estiver preparado. Acreditar que apenas surfar vai te deixar condicionado para o surf é um erro clássico que lota a minha agenda de atendimentos. O seu joelho é uma articulação de dobradiça feita principalmente para dobrar e esticar mas o surf exige que ele gire e suporte cargas laterais violentas.
Vamos mergulhar na mecânica do seu corpo para garantir que você continue pegando ondas até os oitenta anos. Prevenir lesões ligamentares não é sobre sorte ou evitar manobras radicais. É sobre preparar a estrutura biológica para suportar a física do movimento. Quero te ensinar a blindar seus joelhos contra as forças invisíveis que atuam neles a cada curva na onda.
Entendendo a Biomecânica do Joelho no Surf
O Ligamento Colateral Medial (LCM) e o estresse em valgo
O Ligamento Colateral Medial ou LCM é a fita adesiva biológica que segura a parte interna do seu joelho. Ele impede que seu joelho dobre para dentro em uma posição que chamamos de valgo. No surf a perna de trás vive constantemente nessa posição de risco. Quando você pressiona a borda da prancha para cavar um bottom turn você está empurrando o joelho para dentro enquanto o peso do corpo e a força da água empurram para fora.
Essa batalha de forças cria uma tensão enorme no LCM. Se a musculatura ao redor não estiver ativa para absorver essa energia o ligamento é quem paga a conta. O estiramento do LCM é a lesão mais comum no surf justamente por causa dessa mecânica. Você não precisa cair para se machucar. A repetição desse estresse em valgo ao longo de anos pode deixar o ligamento frouxo e instável.
É fundamental entender que a dor na parte interna do joelho não é normal. Ela é um aviso de que seu sistema de estabilização falhou e a carga passou para o tecido passivo. Ignorar esse aviso e continuar surfando com o joelho “bambo” é o caminho mais rápido para uma ruptura total. Precisamos treinar seu corpo para resistir a essa força lateral antes que ela chegue ao ligamento.
A rotação tibial durante o bottom turn e cutbacks
O joelho não gosta de rodar quando está carregando peso. Pense nele como uma dobradiça de porta. Ela funciona perfeitamente para abrir e fechar mas se você tentar torcer a porta a dobradiça quebra. Durante um cutback ou uma rasgada forte você planta o pé na rabeta da prancha e gira o tronco violentamente para mudar de direção.
Essa força de rotação desce do tronco passa pelo quadril e chega ao fêmur. Se o seu pé está travado no deck antiderrapante a tíbia fica presa. O resultado é o fêmur rodando sobre a tíbia fixa. Isso gera um torque ou força de torção que ataca o Ligamento Cruzado Anterior (LCA) e os meniscos. É uma física cruel que acontece em milissegundos.
A chave para proteger o joelho aqui não é parar de fazer manobras. O segredo é garantir que a rotação aconteça onde ela deve acontecer que é no quadril e na coluna torácica. O joelho deve ser apenas um transmissor de força e não o gerador do movimento rotacional. Se seu quadril estiver bloqueado seu joelho será forçado a rodar além do limite fisiológico.
Meniscos e a compressão nas aterrissagens de aéreos e floaters
Os meniscos são os amortecedores de cartilagem que ficam entre os ossos da perna. Eles adoram movimento suave mas detestam impacto compressivo com torção. Quando você manda um floater e aterrissa na base da onda ou volta de um aéreo existe uma força de compressão gigantesca. A prancha bate na água dura e essa força sobe direto pelas pernas.
Se você aterrissa com o joelho totalmente esticado ou em posição de valgo extremo você esmaga o menisco. É como pegar uma uva e pisar nela girando o pé. As lesões meniscais no surf muitas vezes são degenerativas vindo de anos de aterrissagens mal amortecidas. O barulho de “clique” ou a sensação de travamento são sinais clássicos de que seus amortecedores estão gastos.
A técnica de aterrissagem exige uma flexão profunda e controlada dos joelhos e quadris. A musculatura deve agir como uma mola absorvendo a energia cinética. Se você confia apenas na estrutura óssea para parar o movimento seus meniscos vão pedir demissão cedo. Fortalecer a capacidade de absorção de impacto é vital para a longevidade articular.
O Papel da Mobilidade de Quadril e Tornozelo
Como o quadril rígido transfere torque para o joelho
Eu sempre digo aos meus pacientes que o joelho é escravo do quadril. O joelho é uma articulação que fica no meio do caminho entre o chão e o tronco. Se o quadril não tem liberdade para girar ele obriga o joelho a fazer um trabalho que não é dele. A maioria dos surfistas tem o quadril rígido devido a horas sentados no escritório ou dirigindo até a praia.
No surf você precisa de muita rotação interna e externa de quadril para manobrar a prancha. Se o seu fêmur não roda livremente dentro da bacia a cada vez que você tenta virar a prancha o seu corpo torce o joelho para compensar. Essa compensação é invisível no momento da adrenalina mas é devastadora a longo prazo. Soltar o quadril é libertar o joelho.
Exercícios de mobilidade de quadril devem ser sua religião diária. Não estou falando de alongamento passivo chato. Falo de mobilidade ativa onde você controla o movimento em amplitudes grandes. Se você conseguir melhorar a rotação do seu quadril em dez graus você tira quilos de pressão rotacional dos seus ligamentos do joelho a cada onda surfada.
Dorsiflexão limitada e a compensação na articulação patofemoral
O tornozelo é a base de tudo quando você está em pé na prancha. A dorsiflexão é o movimento de trazer a ponta do pé em direção à canela. Você precisa disso para ficar agachado e manter o centro de gravidade baixo. Se seu tornozelo é rígido e não dobra você não consegue agachar corretamente sem tirar o calcanhar do chão ou jogar o joelho excessivamente para frente.
Essa restrição obriga o surfista a surfar mais “em pé” ou a compensar projetando os joelhos para dentro buscando equilíbrio. Isso aumenta a pressão na articulação patofemoral onde a rótula se conecta ao fêmur. É a causa daquela dor na frente do joelho que muitos sentem depois de surfar.
Trabalhar a mobilidade do tornozelo permite que você fique mais perto da prancha com estabilidade. Um centro de gravidade baixo é a melhor defesa contra quedas e torções. Soltar a panturrilha e mobilizar a articulação do tornozelo pode melhorar sua performance no tubo e salvar seus joelhos simultaneamente.
A conexão da Cadeia Cinética durante a postura de base
O corpo funciona como uma corrente de elos interligados. No surf essa cadeia é fechada pois seus pés estão fixos na prancha. Qualquer alteração em um elo afeta todos os outros. Se você tem um bloqueio no tornozelo ou no quadril a força que vem da onda não flui suavemente pelo corpo. Ela se acumula no ponto mais fraco que geralmente é o joelho.
A postura de base do surfista deve ser dinâmica e fluida. Se você surfa tenso e travado você quebra essa fluidez. A tensão muscular excessiva impede a reação rápida às mudanças da onda. Seus músculos precisam estar prontos para disparar mas não rígidos como pedra o tempo todo.
Entender essa conexão ajuda a identificar a causa real da dor. Muitas vezes tratamos o joelho mas a cura está em destravar o quadril ou fortalecer o pé. Olhar para o corpo como um sistema integrado é o que diferencia um tratamento paliativo de uma solução definitiva para suas dores no surf.
Fortalecimento Específico para Rotação e Anti-Rotação
Isometria em ângulos de surf (agachamento assimétrico)
A musculação tradicional é ótima mas ela raramente imita a posição do surf. Na prancha você nunca está com os dois pés paralelos e a carga distribuída igualmente. Você está em uma base assimétrica com uma perna na frente e outra atrás carregando pesos diferentes em momentos diferentes. O fortalecimento precisa refletir essa realidade.
Eu uso muito a isometria que é segurar uma posição de força sem movimento. Imagine ficar na posição de agachamento do surf segurando um peso e resistindo a alguém empurrando você. Isso ensina seus ligamentos e músculos a estabilizar a articulação em ângulos vulneráveis. O surf é feito de momentos isométricos intercalados com explosão.
Treinar agachamentos com bases alternadas e sustentar a posição baixa constrói uma resistência específica. Seu joelho aprende a se sentir seguro mesmo quando está muito dobrado e sob tensão. Isso aumenta a confiança neurológica para atacar a onda sem medo de que a perna falhe no momento crítico.
O Core rotacional e a conexão entre ombros e prancha
O core não serve apenas para ter gomos no abdômen. No surf ele é a transmissão do motor. A força da manobra começa nos braços e ombros passa pelo core e chega aos pés para mover a prancha. Se o seu core é fraco essa energia se dissipa e você força as pernas para compensar a falta de torque.
Fortalecer o core em rotação é essencial. Exercícios como o “Woodchop” ou rotações de tronco com elástico simulam a puxada da manobra. Mas tão importante quanto gerar rotação é a capacidade de frear a rotação (anti-rotação). É isso que protege sua coluna e seus joelhos quando a onda te joga de um lado para o outro.
Um core forte blinda o joelho porque permite que você controle a prancha com o tronco. Você para de “joelhar” a prancha para virar e começa a usar a massa corporal de forma eficiente. Menos esforço nas pernas significa menos fadiga e menor risco de lesão no final da bateria quando você já está cansado.
Treino de força excêntrica para desaceleração de manobras
A maioria das lesões acontece na fase de desaceleração quando você precisa frear o movimento. No final de uma batida forte quando você volta para a base da onda sua musculatura precisa alongar sob tensão para absorver o impacto. Isso é contração excêntrica. Se você só treina a fase de subida do peso na academia você está ignorando metade da equação.
O treino excêntrico foca em controlar a descida do peso lentamente. Para o surf isso é vital para os isquiotibiais e quadríceps. Eles são os freios do seu corpo. Se os freios são ruins você não consegue controlar a velocidade da aterrissagem e a articulação sofre o impacto total.
Incluir exercícios onde você desce devagar e sobe rápido prepara seus tendões para a carga de tração. Isso torna o tecido mais robusto e difícil de romper. Um tendão acostumado com carga excêntrica é um tendão que aguenta o tranco de uma vaca violenta sem estourar.
Treinamento Proprioceptivo em Superfícies Instáveis
A diferença entre equilíbrio estático e dinâmico na água
Ficar parado em um pé só no chão firme é fácil. Fazer isso em uma prancha que se move em três dimensões enquanto uma parede de água avança sobre você é outra história. A propriocepção é a capacidade do cérebro saber onde seu corpo está no espaço sem olhar. No mar essa informação muda a cada milésimo de segundo.
O treinamento deve evoluir do chão firme para superfícies instáveis como o Bosu ou pranchas de equilíbrio. Mas cuidado para não virar um artista de circo. O objetivo não é apenas se equilibrar mas realizar tarefas motoras enquanto se equilibra. O equilíbrio funcional é a capacidade de recuperar a estabilidade após perdê-la.
Seu joelho precisa de reflexos rápidos. Os microajustes que os pequenos músculos ao redor da articulação fazem são automáticos. Treinar em superfícies instáveis afia esses reflexos diminuindo o tempo de resposta entre o desequilíbrio e a correção muscular. Essa fração de segundo é o que salva seu ligamento.
Perturbações inesperadas e o preparo do sistema nervoso
No surf você não controla o ambiente. Um buraco na onda ou uma espuma inesperada podem desestabilizar sua base. Treinamos isso criando “perturbações” controladas. Enquanto você faz um agachamento eu posso empurrar levemente seu ombro ou puxar um elástico preso à sua cintura.
Isso obriga seu sistema nervoso a reagir ao caos. O cérebro aprende a ativar a musculatura estabilizadora antes mesmo de você perceber conscientemente o desequilíbrio. Chamamos isso de mecanismo de “feedforward”. É o corpo prevendo e se preparando para o impacto.
Preparar o sistema nervoso para o inesperado é a melhor prevenção para o trauma agudo. Se o seu corpo sabe como reagir quando a prancha foge do pé você tem muito mais chance de cair de forma segura ou até de recuperar a manobra sem se machucar.
Reintegrando o gesto esportivo no solo antes de ir para o mar
Muitos surfistas tentam corrigir a técnica apenas na água onde tudo acontece muito rápido. O trabalho de solo permite dissecar o movimento. Praticar o “pop-up” (ficar em pé) e a posição dos pés no chão permite verificar se o joelho está entrando em valgo sem a pressão da onda.
Simular o bottom turn na frente do espelho ajuda a visualizar o alinhamento do joelho com o pé. Você cria uma memória motora correta em um ambiente controlado. Quando você for para a água o movimento sai mais limpo e automático.
Essa prática consciente “em seco” economiza anos de tentativa e erro no mar. Você programa o hardware (músculos e ossos) e o software (cérebro) para operarem em sintonia. Isso reduz o ruído mecânico que causa desgaste e lesão.
Estratégias de Sobrevivência: Técnica e Equipamento
Posicionamento do pé traseiro e a alavanca perigosa
O local onde você pisa na prancha define a física da manobra. Se o pé de trás estiver muito adiantado fora do deck antiderrapante você perde alavanca. Para virar a prancha você terá que fazer muito mais força torcendo o joelho. O pé deve estar bem atrás sobre as quilhas para que a prancha responda com o mínimo esforço.
Pisar errado cria um braço de alavanca longo contra o seu joelho. É biomecânica básica. Ajustar o posicionamento do pé é uma medida de proteção articular. Use o arco plantar e os dedos para agarrar a prancha mas mantenha o pé na “zona de poder” da rabeta.
Treinar o “pop-up” para cair sempre com o pé no lugar certo é crucial. Se você cai com os pés muito juntos ou muito abertos você coloca as articulações em desvantagem mecânica. A precisão do posicionamento dos pés é a primeira linha de defesa contra a torção.
A mecânica do Wipeout e como cair sem torcer
Saber cair é uma arte. A maioria das lesões graves de joelho acontece quando o surfista tenta “salvar” uma manobra perdida e luta contra a onda. Se você perdeu o equilíbrio e vai cair não tente resistir de forma rígida. Relaxe o corpo e deixe a onda te levar.
Nunca pule da prancha com as pernas esticadas em águas rasas. O impacto com o fundo de areia pode causar fraturas e rupturas ligamentares instantâneas. A regra de ouro é: se vai cair caia como uma “bomba” protegendo a cabeça ou deslize na superfície da água. Evite usar a perna como âncora.
Se sentir que a prancha está rodando e puxando sua perna tente não brigar contra a força do leash. Deixe o corpo seguir a rotação se possível. Lutar contra uma prancha puxada por uma onda de um metro é uma batalha que seu ligamento vai perder. Aceite a queda reagrupe e reme de volta.
A influência das quilhas e do volume da prancha na resposta articular
O equipamento também joga. Pranchas com muito volume e bordas grossas exigem mais força para afundar na água durante a curva. Se você é leve e usa uma prancha muito grande vai sobrecarregar os joelhos para fazê-la virar. O equipamento deve estar dimensionado para o seu peso e força.
As quilhas também importam. Quilhas muito grandes prendem a prancha na água. Isso dá estabilidade mas se você precisar derrapar a rabeta para aliviar a tensão a quilha pode travar e o joelho girar. Experimentar quilhas com um pouco mais de “release” ou soltura pode ser benéfico para quem já tem dores nos joelhos.
Não siga apenas a moda ou o que os profissionais usam. O equipamento deve facilitar o seu surf e não ser um obstáculo que seu corpo precisa vencer. Converse com seu shaper sobre suas dores e limitações. Uma prancha bem ajustada flui com você poupando suas articulações de estresse desnecessário.
Terapias Aplicadas e Indicadas
Quando a prevenção falha ou quando precisamos acelerar a recuperação existem terapias excelentes no arsenal da fisioterapia desportiva. A Osteopatia é fundamental para alinhar a pelve e desbloquear as restrições articulares no quadril e tornozelo que discutimos. Muitas vezes manipulamos a coluna lombar para melhorar a inervação e a função dos membros inferiores.
O Treinamento Funcional focado no gesto esportivo é obrigatório. Não é apenas musculação é reabilitação através do movimento. Usamos também a Bandagem Funcional (Taping) para dar suporte mecânico e feedback sensorial ao joelho durante o surf. A fita “avisa” a pele quando o joelho está entrando em posição de risco.
Para dor e inflamação pós-surf o Laser de Alta Potência e a Crioterapia são grandes aliados. E não podemos esquecer da Liberação Miofascial para soltar a musculatura tensa do trato iliotibial e adutores que puxam o joelho para fora do eixo. Cuidar do joelho é um processo contínuo de manutenção. Trate seu corpo como o seu equipamento mais valioso e ele te dará ondas inesquecíveis por toda a vida.

“Olá! Sou a Dra. Fernanda. Sempre acreditei que a fisioterapia é a arte de devolver sorrisos através do movimento. Minha trajetória na área da saúde começou com um propósito claro: oferecer um atendimento onde o paciente é ouvido e compreendido em sua totalidade, não apenas em sua dor física.
Graduada pela Unicamp e com especialização em Fisioterapia, dedico meus dias a estudar e aplicar técnicas que unam conforto e resultado. Entendo que cada corpo tem seu tempo e cada reabilitação é uma jornada única.
No meu consultório, você encontrará uma profissional apaixonada pelo que faz, pronta para segurar na sua mão e guiar seu caminho rumo a uma vida com mais qualidade e liberdade.”