Dores Crônicas: Como a neurociência da dor ajuda o atleta idoso a treinar

Dores Crônicas: Como a neurociência da dor ajuda o atleta idoso a treinar

Você já acordou, sentiu aquela fisgada familiar na lombar ou no joelho e pensou: “Hoje não dá, estou piorando, meu corpo está se desgastando”? Se você é um atleta que já passou dos 60, essa conversa interna é frequente. A sociedade e até muitos profissionais de saúde te disseram a vida toda que dor é sinal de lesão. Disseram que seu corpo é como um carro velho cujas peças estão gastas e que, se doeu, é porque você “forçou a máquina”. Eu preciso te dizer, com a franqueza de quem estuda o cérebro e o movimento: isso é uma mentira biológica que está te impedindo de viver plenamente.

A dor crônica não funciona como a dor de um corte no dedo. Ela é complexa, teimosa e, muitas vezes, mentirosa. A neurociência moderna nos mostra que a dor persistente tem muito mais a ver com um sistema nervoso superprotetor do que com um osso fora do lugar ou um tendão inflamado. Para o atleta master, entender isso é a chave para a liberdade. Não se trata de ignorar o corpo, mas de aprender a interpretar os sinais corretamente. Se você quer continuar correndo, nadando ou levantando peso, precisa atualizar o software do seu cérebro sobre o que é dor.

Hoje, vamos ter uma conversa profunda sobre como o seu sistema de alarme funciona. Quero tirar o medo que você tem de se mexer. Vamos explorar por que dói mesmo quando os exames não mostram nada grave e como usar o exercício físico não apenas para fortalecer o músculo, mas para reconfigurar o cérebro. Prepare-se para mudar a forma como você encara cada repetição do seu treino.

A Dor não é o que você pensa: O alarme quebrado

Dor Aguda vs. Crônica: O tecido já cicatrizou

Imagine que você torceu o tornozelo. Dói, incha, fica roxo. Isso é dor aguda. Ela é útil. Ela te avisa para proteger a área enquanto o corpo conserta o tecido. Esse processo de reparo leva, no máximo, três a seis meses para a maioria das lesões musculoesqueléticas. O corpo é uma máquina de autocura fantástica. Mas e quando a dor continua por anos? Aqui está o segredo: na dor crônica, o problema não está mais no tornozelo. O tecido já cicatrizou. O problema está no processamento da informação.

Na dor crônica, o sistema de alerta continua disparando mesmo sem perigo real. É como um alarme de incêndio que continua tocando meses depois que o fogo foi apagado. O seu tecido não está “machucado” toda vez que dói. Ele está apenas sensível. Entender essa diferença é o primeiro passo para perder o medo. Você não está se quebrando ao sentir dor crônica; você está apenas experimentando um eco de uma lesão antiga que seu cérebro se recusa a esquecer.

Para o atleta idoso, isso é libertador. Aquela dor no ombro que você tem há 10 anos não significa que o tendão está rasgando agora. Significa que seu sistema nervoso ficou eficiente em produzir dor naquela região. A estrutura física muitas vezes está robusta, pronta para carga, mas o “software” insiste em dizer que há uma ameaça. Nossa missão na fisioterapia é convencer seu cérebro de que o tecido é forte novamente.

Sensibilização Central: Quando o volume do rádio trava no máximo

O nosso sistema nervoso funciona como um amplificador de guitarra. Ele recebe sinais do corpo e pode aumentar ou diminuir o volume antes de enviar para o cérebro. Em pessoas com dor crônica, ocorre um fenômeno chamado Sensibilização Central. O amplificador trava no volume máximo. Estímulos que deveriam ser inofensivos, como um toque leve, uma mudança de temperatura ou um movimento simples, são interpretados como dor intensa.

Isso acontece porque os nervos da medula espinhal ficam hiperexcitáveis. Eles criam mais receptores para sinais de perigo. É uma adaptação plástica do sistema nervoso, mas uma adaptação ruim. O atleta master muitas vezes acha que está “piorando da artrite”, quando na verdade ele está apenas mais “sensibilizado”. O hardware (articulação) está igual, mas o sistema operacional está em pânico.

Essa sensibilização explica por que, em dias estressantes ou após noites mal dormidas, sua dor aumenta. O sistema de alarme está vigilante demais. O tratamento não é operar o joelho pela terceira vez ou tomar mais anti-inflamatórios (que atuam no tecido), mas sim acalmar esse sistema nervoso central hiperativo através de estratégias de desativação de ameaça.

O cérebro como construtor da dor: A ameaça percebida

A dor é uma opinião do cérebro. Parece estranho, mas é verdade. O cérebro recebe informações dos olhos, dos ouvidos, da memória e do corpo, e decide: “Isso é perigoso? Se sim, vou gerar dor para proteger”. A dor não vem do joelho para o cérebro; ela é uma resposta do cérebro sobre o joelho. Se o seu cérebro acredita que o exercício é perigoso para a sua idade, ele vai gerar dor para te fazer parar.

Crenças limitantes como “na minha idade não posso agachar” ou “minha coluna é frágil” funcionam como combustível para a dor. O cérebro usa essas informações para calcular o risco. Se você acredita que está frágil, seu cérebro vai tentar te proteger com dor. É um mecanismo de defesa que saiu do controle.

O nosso trabalho é mudar essa percepção de ameaça. Precisamos provar para o seu cérebro, através de experiências positivas de movimento, que ele está errado. Quando você faz um movimento que “deveria” doer, mas fazemos de um jeito que não dói, o cérebro se surpreende. Ele recalcula o risco e, aos poucos, para de enviar o sinal doloroso. É reeducação neural pura.

O Medo do Movimento: Cinesiofobia no Atleta Master

O ciclo vicioso: Dor -> Medo -> Imobilidade -> Fraqueza

Existe um inimigo maior que a própria dor: o medo dela. Chamamos isso de Cinesiofobia (fobia de movimento). Quando você sente dor ao correr, sua reação natural é parar. Você começa a evitar movimentos. “Não vou agachar para não doer”. “Não vou correr hoje”. Esse comportamento de evitação gera um ciclo destrutivo.

Ao evitar o movimento, seus músculos enfraquecem, suas articulações ficam mais rígidas e sua tolerância ao esforço diminui. Quando você tenta se mexer de novo depois de um tempo parado, dói mais ainda porque você está mais fraco. O cérebro diz: “Viu? Eu disse que ia doer”. E você se retrai mais. Esse ciclo transforma um atleta ativo em uma pessoa sedentária e com dor crônica.

Quebrar esse ciclo exige coragem e orientação. Você precisa entender que o repouso absoluto é o vilão na dor crônica. O movimento é o herói. Precisamos reintroduzir a atividade não porque a dor sumiu, mas para fazer a dor sumir. O enfrentamento gradual é a única saída desse labirinto de medo e fraqueza.

Memória da dor: Por que aquele movimento específico sempre dói

Nosso cérebro adora padrões. Se toda vez que você sacou no tênis nos últimos cinco anos você sentiu dor, seu cérebro criou uma “Neurotag” ou assinatura neural para esse movimento. Ele associou a ação de levantar o braço com a experiência de dor. Agora, só de pensar em sacar, ou ao fazer o movimento mesmo sem bola, você pode sentir dor.

É como o cachorro de Pavlov que salivava ao ouvir o sino. Seu cérebro ativa a rede de dor por antecipação. Não é uma lesão nova acontecendo a cada saque; é uma memória sendo ativada. O caminho neural da dor está tão bem pavimentado que o sinal trafega por ele automaticamente, sem esforço.

Para desmontar essa memória, precisamos criar novas experiências. Talvez mudar a técnica do saque, ou fazer o movimento em uma velocidade diferente, ou em um contexto diferente (na piscina, por exemplo). Precisamos “bugar” o sistema, mostrando que é possível mover aquele braço sem ativar a memória dolorosa antiga. É como apagar uma trilha na floresta e abrir uma nova.

Quebrando o ciclo: A exposição gradual é a chave

A melhor estratégia para vencer o medo não é se jogar de cabeça, mas sim a Exposição Gradual. Imagine que você tem medo de aranha. Não jogamos uma tarântula no seu colo. Primeiro mostramos uma foto, depois uma de brinquedo, depois uma de longe. Com o exercício é igual.

Se correr 5km dói, não paramos de correr. Corremos 1km. Ou caminhamos rápido. Encontramos a “linha de base” onde você se sente seguro e sem dor excessiva. A partir dali, aumentamos a dose aos poucos. Hoje 1km, semana que vem 1,2km.

Essa abordagem ensina ao seu sistema de alarme que aquele nível de atividade é seguro. O cérebro vai baixando a guarda progressivamente. Você recupera a confiança no seu corpo. A sensação de “eu consigo fazer isso” é o analgésico mais poderoso que existe para quem vive com medo de se quebrar.

A Farmácia Interna: Como o Exercício Modula a Dor

Analgesia induzida pelo exercício: O remédio natural

Você sabia que seu corpo produz substâncias muito parecidas com a morfina e a maconha? São os opioides e canabinoides endógenos. E a melhor maneira de liberar essas substâncias na corrente sanguínea é através da contração muscular vigorosa e do aumento da frequência cardíaca. Chamamos isso de Analgesia Induzida pelo Exercício.

Após cerca de 20 a 30 minutos de atividade física moderada a intensa, o corpo inunda o sistema com esses químicos. Para o atleta master com dor crônica, isso é vital. O treino não serve apenas para ficar forte; ele serve para regular a química do cérebro. Muitos pacientes relatam que a primeira coisa que sentem ao parar de treinar é o aumento das dores generalizadas.

Isso acontece porque o “estoque” de analgésicos naturais baixou. Manter a regularidade no treino mantém o nível dessas substâncias estável no sangue. Você está literalmente produzindo seu próprio remédio para dor, sem efeitos colaterais no estômago ou fígado. É a farmácia mais eficiente e barata do mundo.

O sistema inibitório descendente: Fechando a porta da dor

Lembra do amplificador na medula espinhal? O cérebro tem a capacidade de enviar sinais para baixo, para a medula, ordenando que ela feche o portão e não deixe o sinal de dor subir. Chamamos isso de Vias Inibitórias Descendentes. Em quem tem dor crônica, esse sistema costuma estar preguiçoso ou falhando.

O exercício físico, especialmente o treinamento de força e aeróbico, reativa essas vias. Ele treina o cérebro a inibir o sinal de dor (nocicepção) que vem da periferia. É como fortalecer o músculo do “não” para a dor. Com o tempo de treino, seu corpo fica mais eficiente em bloquear estímulos dolorosos irrelevantes.

Isso explica por que atletas treinados têm tolerância à dor maior que sedentários. Não é que eles sentem menos; é que o sistema de filtro deles funciona melhor. Ao treinar, você está consertando esse filtro, garantindo que apenas sinais de perigo real passem pelo portão.

“Motion is Lotion”: Lubrificação e nutrição articular real

Além da neurociência, temos a biologia mecânica. Articulações não têm vasos sanguíneos diretos na cartilagem. Elas dependem do líquido sinovial para nutrição e limpeza. E a única forma de fazer esse líquido circular e nutrir a cartilagem é através da compressão e descompressão, ou seja, movimento e carga.

O ditado “Motion is Lotion” (Movimento é Loção) é cientificamente preciso. O exercício lubrifica as articulações rígidas. O repouso resseca. Para o atleta idoso com artrose, ficar parado é a pior sentença. A rigidez aumenta, a nutrição da cartilagem piora e a degeneração acelera.

Quando você se movimenta, você “bombeia” vida para dentro das articulações. A rigidez matinal diminui, a amplitude de movimento melhora. A dor mecânica do “enferrujamento” desaparece. O exercício é o óleo que mantém as engrenagens da sua máquina biológica rodando suavemente, independente da idade do chassi.

Ressignificando o Treino: O Conceito de “Hurt vs. Harm”

Sentir dor não significa se machucar: A regra do sinal de trânsito

Esse é o mantra mais importante da reabilitação moderna: “Hurt does not equal Harm” (Doer não significa machucar/lesionar). Na dor crônica, você pode sentir dor sem estar causando dano algum ao tecido. Precisamos aprender a navegar com a dor, em vez de fugir dela a qualquer custo.

Usamos a regra do Semáforo. Dor de 0 a 3 (numa escala de 10) é Verde: seguro, pode continuar. Dor de 4 a 5 é Amarelo: atenção, monitorar, mas aceitável se não piorar depois. Dor acima de 6 ou 7 é Vermelho: pare ou modifique.

O objetivo não é treinar sem dor nenhuma (isso é irreal na dor crônica), mas treinar com uma dor tolerável que não “cobra a conta” no dia seguinte. Se a dor volta ao nível basal (o normal do seu dia a dia) em até 24 horas após o treino, você não se machucou. Você apenas estimulou o sistema. Isso é seguro e necessário para a adaptação.

Dor muscular tardia vs. Dor neural: Aprendendo a distinguir

Muitos idosos confundem a dor muscular boa do treino com a dor ruim da lesão. Precisamos educar a sensação. A dor muscular é difusa, “cansada”, aparece 24h depois e melhora com movimento leve. Isso é sinal de que você treinou bem. É troféu, não problema.

Já a dor neural ou articular aguda é pontual, parece choque, queimação ou agulhada, e pode travar o movimento na hora. Essa dor exige atenção e ajuste de carga. Saber diferenciar “estou dolorido porque usei o corpo” de “estou com dor porque lesionei” diminui a ansiedade.

A maioria das dores pós-treino no atleta master é apenas resposta inflamatória normal de adaptação muscular. Não corra para o anti-inflamatório. Deixe o corpo lidar com isso. Essa inflamação controlada é o que gera força e resistência.

O contexto importa: Como o estresse e o sono afetam seu treino

Sua dor não vive no vácuo. Ela vive na sua vida. Se você dormiu mal, brigou com a família ou está preocupado com finanças, seu sistema de alarme estará mais sensível. A mesma carga de treino que foi fácil semana passada pode doer hoje porque seu “copo” de estresse está cheio.

Não culpe o exercício ou o joelho. Olhe para o contexto. Nesses dias de estresse alto, a sabedoria do atleta experiente entra em cena: reduza a intensidade, foque na mobilidade, faça algo prazeroso. Não tente bater recordes quando seu sistema nervoso está em alerta.

Respeitar a variabilidade do dia a dia é fundamental. A dor flutua. Dias ruins não significam que sua condição está piorando, apenas que seu sistema está mais reativo hoje. Amanhã será outro dia. A consistência a longo prazo vence a intensidade de curto prazo.

O Cérebro Plástico: Reaprendendo a se Mover aos 60+

Neuroplasticidade não tem idade: Mudando os mapas do córtex motor

Antigamente, achava-se que o cérebro parava de mudar na idade adulta. Mentira. A neuroplasticidade (capacidade do cérebro de mudar) persiste até o último dia de vida. No córtex motor, temos um mapa do nosso corpo. Na dor crônica, esse mapa fica borrado. O cérebro perde a nitidez de onde está o corpo no espaço.

O exercício físico refinado, com atenção e qualidade, “limpa” esse mapa. Aprender um movimento novo, como um levantamento olímpico adaptado, um passo de dança ou um exercício de coordenação, força o cérebro a criar novas conexões.

Isso melhora o controle motor e diminui a dor. Um mapa cortical nítido é um mapa sem dor. Desafie seu cérebro com movimentos complexos. Não fique só na caminhada e na máquina de musculação sentada. Use pesos livres, elásticos, bolas. A novidade é nutriente para o cérebro do atleta master.

Foco externo: Tirando a atenção do joelho

Quando você tem dor no joelho, tende a fazer o agachamento pensando: “joelho, joelho, joelho”. Isso aumenta a atividade cerebral na área da dor e, ironicamente, pode aumentar a dor e a tensão muscular errada.

A estratégia é usar o Foco Externo. Em vez de pensar “dobre o joelho”, pense “toque o bumbum no banco atrás de você”. Em vez de “contrai as costas”, pense “empurre o chão com os pés”. Mudar o foco para o objetivo da tarefa tira a atenção da parte do corpo dolorida.

Isso permite que o movimento flua de forma mais natural e automática, usando reflexos subconscientes que são mais eficientes e menos dolorosos do que o controle consciente excessivo. Engane seu cérebro focando no alvo, não na dor.

Visualização e imagética motora: Treinando sem mexer

E nos dias de crise forte? Use a mente. Estudos mostram que imaginar vividamente um movimento ativa as mesmas áreas cerebrais que executá-lo, mas sem causar dor mecânica. Atletas olímpicos usam isso para performance; você vai usar para dor.

Sente-se, feche os olhos e visualize-se correndo ou agachando com perfeição, sem dor, sentindo a brisa, a força, a fluidez. Isso mantém os mapas neurais ativos sem ativar os nociceptores (sensores de dor).

A imagética motora é uma ferramenta poderosa para reduzir o medo do movimento. Você treina o cérebro a dissociar a imagem do movimento da sensação de dor. É o primeiro passo para voltar a fazer aquilo fisicamente.

Terapias Aplicadas e Abordagem Integrada

Para fechar, o que a fisioterapia moderna oferece além da conversa? Usamos a Educação em Neurociência da Dor (PNE) como base. Explicar isso tudo que falei para o paciente já é tratamento. Saber o que acontece diminui a ameaça.

Usamos a Exposição Gradual para reintroduzir movimentos temidos. Criamos uma escada de desafios, degrau por degrau, celebrando cada conquista sem dor excessiva.

Terapia Manual entra não para “consertar” ou “colocar no lugar”, mas para modular o sistema nervoso. O toque humano, a massagem, a mobilização, geram um input sensorial seguro que ajuda a acalmar o alarme temporariamente, abrindo uma janela de oportunidade para o exercício.

E, claro, o Treinamento de Força e Condicionamento. Carga real, suor, desafio. O atleta idoso não precisa de fisioterapia de “choquinho e calorzinho”. Ele precisa de treino de atleta adaptado para sua fisiologia atual.

Você não é suas radiografias. Você não é sua dor. Você é um atleta adaptável, com um sistema nervoso que pode aprender novos truques. Assuma o controle do seu alarme e volte para o jogo.

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