O uso do Kinetec: Movimentação passiva contínua no pós-operatório imediato

O uso do Kinetec: Movimentação passiva contínua no pós-operatório imediato

Você acabou de acordar da anestesia. O quarto do hospital ainda está meio girando, você olha para baixo e vê sua perna presa a uma máquina estranha, que a move para cima e para baixo lentamente, como se fosse um robô cuidando do seu joelho. Esse aparelho é o Kinetec, ou CPM (Continuous Passive Motion – Movimentação Passiva Contínua). Para muitos pacientes, ele é o primeiro contato com a reabilitação, muitas vezes iniciando poucas horas após a cirurgia. A cena pode parecer futurista ou até intimidante, mas a função dessa máquina é uma das mais primordiais da biologia: manter você em movimento.

No mundo da fisioterapia ortopédica, o Kinetec é um clássico. Ele já foi considerado obrigatório, depois foi questionado, e hoje encontra seu lugar como uma ferramenta poderosa em casos específicos. Se você vai operar o joelho (seja uma prótese total, uma reconstrução de ligamento complexa ou uma fixação de fratura), é bem provável que esse “robô” seja seu companheiro de quarto nos primeiros dias.

Mas, afinal, para que serve ficar dobrando a perna sem fazer força? Será que isso não machuca os pontos? E o mais importante: isso vai fazer você andar mais rápido? Como fisioterapeuta que já instalou centenas desses aparelhos em beiras de leito, vou te explicar exatamente o que está acontecendo ali. Vamos desmistificar a máquina e entender como ela pode ser o pontapé inicial (sem trocadilhos) para a sua recuperação.

O que é o Kinetec (CPM) e por que ele parece um robô na sua cama?

A engenharia por trás do movimento: Flexão e extensão controladas

O Kinetec é, basicamente, uma tala motorizada. Você apoia a perna nele, ajustamos o tamanho exato para que a dobradiça da máquina fique alinhada com o seu joelho, e programamos o movimento. Ele faz a perna esticar (extensão) e dobrar (flexão) em um ritmo constante e lento. A chave aqui é a palavra “passiva”.

Isso significa que você não faz força. Seus músculos devem estar relaxados, como se você estivesse em uma rede. A máquina faz 100% do trabalho mecânico de levar sua articulação de um ponto A ao ponto B. O objetivo biomecânico é impedir que a articulação fique parada na mesma posição por horas, o que é comum quando estamos com dor e medo de mexer.

A precisão é o grande trunfo. Nós, fisioterapeutas, podemos definir exatamente quantos graus o seu joelho vai dobrar. Começamos com pouco, talvez 30 ou 40 graus, e vamos aumentando conforme o tecido cede. É um controle matemático da sua amplitude de movimento, garantindo que não vamos forçar além do que a cirurgia permite naquele momento.

A teoria de Salter: Como o movimento nutre a cartilagem

A base científica dessa máquina vem dos estudos de um médico canadense chamado Robert Salter, lá nos anos 70. Ele descobriu algo fascinante: a cartilagem articular não tem vasos sanguíneos. Ela não recebe comida pelo sangue como os músculos. Ela se alimenta por “embebição”, como uma esponja.

Quando a articulação se move, o líquido sinovial (o óleo do joelho) entra e sai da cartilagem, levando nutrientes e oxigênio. Se a articulação fica imobilizada, a cartilagem “passa fome” e começa a degenerar. Salter provou que o movimento contínuo, mesmo que passivo, acelera a cura de defeitos na cartilagem e nos tecidos ao redor.

Então, enquanto você está deitado assistindo TV e a máquina está lá trabalhando, pense nela como um sistema de “alimentação forçada” para a sua articulação. Ela está bombeando vida para dentro do local operado, garantindo que as células tenham energia para cicatrizar, mesmo que você esteja em repouso absoluto do ponto de vista muscular.

Mitos e Verdades: Ele substitui o fisioterapeuta?

Muitos pacientes (e até alguns gestores hospitalares) acham que, se o paciente está no Kinetec, ele não precisa de fisioterapia. Isso é um mito perigoso. O Kinetec é um assistente, não um substituto. Ele cuida da amplitude de movimento passiva, mas ele não ensina você a contrair o músculo, não treina seu equilíbrio e não te ensina a andar.

A máquina é ótima para manter a articulação solta nas horas vagas, mas a reabilitação real acontece quando o fisioterapeuta entra no quarto, desliga a máquina e pede para você tentar mexer a perna sozinho. O Kinetec faz o trabalho “braçal” e repetitivo, permitindo que o profissional foque na qualidade da contração e na funcionalidade. Ele é uma ferramenta de suporte, não o tratamento completo.

Benefícios Imediatos: Por que usar logo após acordar da anestesia?

O combate à rigidez (artrofibrose): O inimigo número 1 do joelho

O maior medo de qualquer cirurgião de joelho não é que o osso não cole, mas sim que o joelho trave. Após um trauma cirúrgico, o corpo tenta “colar” tudo o que foi cortado. Se deixarmos o joelho parado, forma-se um tecido cicatricial interno chamado fibrose (ou artrofibrose). Isso funciona como uma supercola que endurece a articulação.

Se a fibrose se instala, ganhar movimento depois é doloroso e difícil, às vezes exigindo nova cirurgia para “quebrar” essa aderência. O Kinetec entra como um preventivo. Ao manter o joelho em movimento constante nas primeiras 24 a 48 horas, impedimos que essas pontes de fibrose se formem.

É muito mais fácil manter a porta aberta do que tentar arrombar uma porta que foi soldada. O aparelho mantém a porta (a articulação) abrindo e fechando suavemente, garantindo que o tecido cicatricial se forme de maneira organizada e elástica, e não como um bloco rígido.

Drenagem de edema: O “efeito bomba” passivo e a prevenção de TVP

Um joelho operado incha. É inevitável. O sangue e o líquido inflamatório se acumulam, deixando a perna parecendo um “pão de forma”. Esse inchaço causa dor e inibe o músculo. O movimento rítmico do Kinetec funciona como uma bomba hidráulica suave.

Ao elevar e abaixar a perna, a gravidade e a mudança de pressão intra-articular ajudam a empurrar esse líquido de volta para a circulação. Menos inchaço significa menos dor e mais facilidade para o músculo voltar a funcionar depois.

Além disso, esse movimento contínuo ajuda na prevenção da Trombose Venosa Profunda (TVP). O sangue estagnado nas veias da panturrilha é um risco. Embora o Kinetec não substitua as meias elásticas ou os anticoagulantes, ele é um coadjuvante mecânico que mantém o fluxo sanguíneo um pouco mais ativo do que se a perna estivesse estática na cama.

Analgesia pelo movimento: Enganando a dor (Teoria das Comportas)

Parece contra-intuitivo: mexer um joelho recém-operado não deveria doer mais? Curiosamente, o movimento suave e controlado muitas vezes alivia a dor. Isso acontece pela “Teoria das Comportas”.

Os nervos que transmitem a sensação de movimento (propriocepção) são mais rápidos que os nervos que transmitem a dor. Ao estimular constantemente os sensores de movimento da articulação com o balanço do Kinetec, você “inunda” a medula espinhal com informações não-dolorosas, o que acaba bloqueando parte do sinal de dor.

Muitos pacientes relatam que se sentem mais confortáveis com a máquina ligada do que parados. A rigidez dói. O movimento lubrifica e “amacia” a articulação, reduzindo aquela sensação de pressão interna aguda.

Protocolos e Segurança: Não é só ligar e dormir

Ajustando a angulação: A regra dos graus progressivos (0-90º)

Não existe receita de bolo, mas existe bom senso e protocolo cirúrgico. Geralmente, começamos com uma amplitude muito segura, algo entre 0 graus (esticado) e 30 ou 40 graus de flexão. O objetivo inicial não é dobrar tudo, é apenas mover.

A progressão deve ser diária. Em uma prótese total de joelho, por exemplo, a meta é ganhar cerca de 10 graus por dia, até chegar aos 90 graus (o ângulo necessário para sentar numa cadeira confortavelmente) antes da alta hospitalar.

Porém, atenção: quem define o limite é o cirurgião e a dor do paciente. Se a cirurgia envolveu sutura de menisco ou reparo de cartilagem delicado, pode haver restrições mecânicas. Nunca aumente o grau da máquina por conta própria achando que “quanto mais, melhor”. Você pode estressar uma sutura que ainda não está pronta.

Velocidade e Tempo de uso: O equilíbrio entre estímulo e irritação

O Kinetec não deve ser uma máquina de tortura rápida. A velocidade ideal é lenta e hipnótica. Um ciclo completo (ir e voltar) deve levar cerca de 1 a 2 minutos no início. Movimentos rápidos podem ativar o reflexo de proteção do músculo, fazendo você contrair a perna contra a máquina, o que causa dor e pode machucar.

Sobre o tempo: antigamente, usava-se por 6 a 8 horas por dia. Hoje, os protocolos são mais dinâmicos. Sessões de 1 a 2 horas, duas ou três vezes ao dia, costumam ser suficientes. O descanso é tão importante quanto o movimento. Ficar 24 horas na máquina pode causar feridas na pele (escaras) pelo apoio constante e fadiga mental.

Sinais de alerta: Quando o aparelho está machucando ou mal posicionado

O maior problema do Kinetec é o mau posicionamento. O eixo da máquina (onde ela dobra) precisa estar perfeitamente alinhado com o eixo do seu joelho. Se você escorregar na cama para cima ou para baixo, esse eixo desalinha.

O resultado? A máquina começa a empurrar sua tíbia contra o fêmur ou a forçar o tornozelo. Se você sentir dor na panturrilha, pressão excessiva no calcanhar ou dor nas costas, pare. Chame a enfermagem ou o fisioterapeuta. O aparelho deve ser confortável. Dor aguda durante o uso é sinal de que algo está mecanicamente errado no ajuste, não que o “tratamento está funcionando”.

CPM vs. Fisioterapia Ativa: O grande debate moderno

A crítica do “Fast Track”: Por que alguns hospitais estão abandonando o Kinetec?

A medicina moderna busca a “reabilitação acelerada” (Fast Track). A ideia é tirar o paciente da cama e colocá-lo para andar o mais rápido possível, às vezes horas após a cirurgia. Nesse contexto, o Kinetec começou a ser questionado.

Estudos mostram que, a longo prazo (após 3 ou 6 meses), pacientes que usaram Kinetec e pacientes que fizeram apenas fisioterapia ativa têm a mesma amplitude de movimento. Ou seja, a máquina não garante que você ficará melhor lá na frente.

Por causa disso, alguns serviços pararam de usar o aparelho rotineiramente, focando em exercícios ativos desde o primeiro minuto. A crítica é que o Kinetec pode deixar o paciente “passivo demais”, com medo de se mexer sozinho, criando uma dependência psicológica da máquina.

Ativação muscular: O que o Kinetec não faz

O Kinetec tem um defeito grave: ele não liga o músculo. Para andar, você precisa que o seu quadríceps (músculo da coxa) contraia e sustente seu peso. O aparelho não treina isso. Você pode ficar 10 horas no Kinetec e sair dele com a perna “morta”, sem força para levantar.

O maior desafio pós-operatório é a “inibição artrogênica” — o cérebro desliga o músculo por causa da dor. O Kinetec não resolve isso. Apenas exercícios ativos, onde você manda o comando para a perna, ou o uso de eletroestimulação (aquele choquinho), conseguem acordar o músculo.

Por isso, o aparelho nunca pode ser o único tratamento. Ele é o coadjuvante que cuida da dobra do joelho enquanto você descansa, mas o trabalho duro de “acordar a coxa” tem que ser feito fora dele.

O cenário ideal: A combinação híbrida para acelerar a alta

Na minha prática clínica, vejo o melhor dos dois mundos na abordagem híbrida. Usamos o Kinetec nas fases de descanso e à noite para evitar a rigidez matinal e reduzir o inchaço. Mas, durante o dia, o foco é tirar o paciente da cama, sentar na poltrona, treinar a marcha com andador e fazer exercícios ativos.

O Kinetec serve para “ganhar terreno” na flexão sem sofrimento. Se conseguimos ganhar 90 graus na máquina sem dor, o paciente fica mais confiante para tentar fazer isso ativamente depois. Ele funciona como um “quebra-gelo” psicológico e físico. O paciente vê a perna dobrando e pensa: “Ok, meu joelho não vai explodir se dobrar”. Isso reduz a cinesiofobia (medo de movimento).

Terapias Aplicadas e Considerações Finais

Se você vai usar o Kinetec, combine-o com outras terapias para potencializar o resultado:

  • Crioterapia (Gelo): Pode ser aplicada simultaneamente. Colocar uma bolsa de gelo no joelho enquanto ele movimenta no Kinetec é excelente para analgesia e controle inflamatório.
  • Eletroestimulação (FES/Russa): Alguns protocolos modernos usam o “Kinetec Ativo”, onde ligamos eletrodos na coxa do paciente. Quando a máquina estica a perna, o aparelho dá um choque para o músculo contrair. Isso transforma o tempo passivo em treino ativo.
  • Drenagem Linfática: Deve ser feita nos intervalos, quando você sai da máquina, para limpar o líquido que o movimento ajudou a mobilizar.

Em resumo, o Kinetec não é mágico, mas é um aliado valioso no caos dos primeiros dias pós-cirúrgicos. Ele oferece conforto, segurança e mantém a articulação viva enquanto você ainda não tem forças para assumir o controle total. Use-o como uma ferramenta de transição, mas lembre-se: o objetivo final é você mover sua perna, não a máquina mover você. Assim que possível, assuma o comando e coloque esse joelho para trabalhar. Sua recuperação agradece.

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